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sexta-feira, 19 de março de 2021

Notícia Triste

sexta-feira, 19 de março de 2021 7 Comentários

SOUBE ONTEM DE MANHÃ.


Um dos últimos prazeres que tive com ele. Dar-lhe um galhardete autografado pelos campeões nacionais (2015/16) em Maio de 2016

Deparei-me com uma notícia que "só podia" estar errada. Sabia que ele tinha nascido em Março, mas nunca consegui decorar o dia. Procurava saber para lhe endereçar os parabéns quando "tropecei" na tal notícia. Mas sabia que tinha de estar errada pois no Verão de 2020 tinha-me informado junto do filho Carlos como estava o "nosso Hugo" com 93 anos. O filho disse-me que estava como "alguém que vai vivendo como nonagenário".

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quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Raul Júlio Empis: Fundador

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015 12 Comentários
ELE É UM DOS 24 CO-PAIS DO GRUPO SPORT LISBOA. E TAMBÉM UM DOS MAIS NOVOS EM 1904. FEZ 17 ANOS NESSE DIA!


Nasceu em 28 de  Fevereiro de 1887, ou seja, 17 anos antes do 28 de Fevereiro de 1904. Pois é! Fez 17 anos nesse dia! E circunstâncias várias – como ocorrem com cada um de nós seres humanos – a vida colocou-o próximo de Belém onde se iria fundar um Clube que ainda hoje é afamado em todo o Mundo. Raul José Empis um dos 24 que nos legaram uma Maravilha!


O "nosso" Empis em 1912. Da página 34 de "Doze com Quatro"
Pai
No final do século XIX e início do século passado, Raul Empis não vivia em Belém, mas morava perto. E em adolescente andava por perto. O pai do “nosso” Empis, Ernest Laurent Empis nasceu em Antuérpia, na Bélgica, em 13 de Julho de 1842, no seio de uma família em fuga de França (Lille). Apesar de nobre, a Revolução Francesa fez com que isso tivesse pouco significado. Certo dia a empresa onde trabalhava encarregou-o de uma deslocação a Portugal para tratar de negócios com um reputado banqueiro português, embora de origem belga…Henry de Burnay. O que começou como um encontro de trabalho terminou em profunda amizade. Mas quando o emprego é trabalho este é que comanda o rumo da vida. Ernest regressou à Bélgica. Não muito tempo depois, padecendo de doença pulmonar, o médico aconselha-o a procurar viver num país com clima menos agreste, mais seco e quente! Certamente lembrou-se do Sol e da luz de Lisboa, bem como do amigo Burnay e eis que viaja, em 1867, para Portugal. Para sempre!  


O "nosso" Empis em 1914. Da página 67 de "Doze com Quatro"
Mãe
Pelos seus 25 anos, a viver no Palácio da Junqueira, junto de Henry e da família deste, casa com uma das irmãs, Julie Burnay. Mas…nesses tempos os nascimentos eram problemáticos. Após cinco anos de casamento a esposa morre durante o parto do quarto filho. Ernest com 30 anos está viúvo a cuidar de quatro bebés. Sem condições acorda com os seus dois irmãos integrar os seus quatro filhos nas famílias destes deixando-os em Antuérpia. Continua a viver no Palácio Burnay e em breve está noivo de uma viúva plebeia, Ludgera da Conceição Martins, abandonada na roda de num convento, entretanto casada com um rústico e abastado agricultor de Torres Vedras, o senhor Martins, que morre cedo e a deixa ainda jovem enviuvada. Será do casamento de dois jovens viúvos, em 1885, de classes sociais completamente opostas que nascerá o “nosso” Empis. Até nesta união interclassista já há Benfica! Começam a nascer os filhos ao ritmo de um por ano, em breve, 1887 nasce o segundo, o “nosso” Empis. Em 28 de Fevereiro. Que só ficaria “duplo” aniversário 17 anos depois!


Os seis filhos (com respectivos cônjuges e primeiros filhos) netos de Ernest Laurent Empis, pai do "nosso" Raul José Empis, o segundo filho a nascer. Se a ordem for a cronológica, dos mais novos para os mais velhos temos, da esquerda para a direita: Maria Empis, Alberto Frederico Empis, Ernesto Augusto Empis, Carlos Empis, Raul José Empis (1887-1960) e Júlia das Graças Empis. O "nosso" Empis com a sua lindíssima esposa D. Luísa Burnay de Sousa Coutinho (1891-1974) com o decano dos seus doze filhos, José Luís Ernesto (1915-1989) ao colo. Colo de mãe, mãos de Deus

Infância
A viver no Palácio Burnay, presume-se com várias famílias (mas se é palácio é grande…) Raul Empis passa a infância e início da adolescência por aquelas redondezas. Isto enquanto o seu pai e mãe vão fazendo crescer a família até…seis filhos (quatro rapazes e duas raparigas) e fazendo também crescer a necessidade de ter uma casa própria que será construída num dos lotes de numa gigantesca propriedade agrícola, para lá de Arroios (actual praça do Chile) até Palhavã (actual praça de Espanha), a Quinta de Santa Maria, comprada pela Casa Burnay (que detinha o Banco Burnay) ao Marquês de Borba para urbanizar e “fazer” dinheiro. Não é para isso que existem banqueiros?  

Do Palácio Burnay na Junqueira a Belém era um «pulinho». Muitos «pulinhos» deve ter dado Raul José Empis enquanto habitou na Junqueira e se habituou a "jogar à bola" em Belém! Encontros na Farmácia Franco. Treinos (até 21 de Abril de 1904) a sul da casa do Duque de Loulé (actual Centro Cultural de Belém) e jogos nas Terras do Desembargador. Depois de 21 de Abril de 1904 também passaram para aí os treinos por ultimato da CP que não queria jogos de bola junto aos carris da linha Cais do Sodré-Cascais! (clicar em cima da imagem para ampliar)

Belém
Enquanto não é construído o Palacete na nova avenida Duque de Loulé (rasgada nos terrenos dessa quinta como todas as outras avenidas e ruas adjacentes) o “nosso” Empis vai vagueando pela Junqueira e arredores. Ora, arredores do Palácio Burnay significa, entre outros bairros e terrenos, Belém, as Terras do Desembargador, Farmácia Franco, Pátio interior no prédio da farmácia, Café do Gonçalves, António das Caldeiradas, terrenos a sul da casa do Duque de Loulé, ou seja, por onde andavam aqueles 24 magníficos que um dia se lembraram de fundar o Clube que, mais ano menos ano, haveria de ser Gloriosíssimo. E é o nosso! E o deles!

Os locais predilectos dos pioneiros que transformaram um Clube em Glorioso. Farmácia Franco (local de encontro, de fundação e primeira Sede); António das Caldeiradas ("restaurante" onde geralmente almoçavam os pioneiros depois dos treinos matinais ao domingo); Café do Gonçalves (actual Pastelaria "Nau de Belém") local "alternativo" ao António das Caldeiradas. Mas foi no Café do Gonçalves que num domingo de Dezembro de 1903 alguém, ao almoço, na euforia de uma vitória acabada de acontecer frente a um grupo misto de jogadores portugueses e ingleses, alvitrou: «Com estes futebolistas, só portugueses, fazia-se um grande "team"». E não é que foi assim! Em 28 de Fevereiro de 1904 e dias seguintes........................24 de Dezembro de 2015..............................∞

“Glorioso”
Raul José Empis não esteve presente no primeiro treino (manhã de 28 de Fevereiro de 1904) mas esteve na Farmácia Franco pois o nome consta da lista feita por Cosme Damião. Esteve no segundo treino, precisamente no local onde foi o primeiro. E esteve em mais 16 até final da temporada de 1903/04. Em 17 dos 24 que se realizaram. E esteve (como avançado-centro) no primeiro encontro disputado pelo Clube (a caminho de ser gloriosíssimo) em 1 de Janeiro de 1905. Seria o único jogo. Depois o inquestionável Cândido Rosa Rodrigues ocuparia o lugar que já era dele no tempo do “Grupo dos Catataus” que esteve na origem (com os casapianos da Associação do Bem) do “Glorioso”. Raul Empis foi jogar na 2.ª categoria. Caramba! Éramos 24 e uma equipa de futebol são onze. Com 24 formam-se duas equipas. Até dava para fazer treinos-jogados! O “nosso” Empis foi para a 2.ª categoria. E que equipa! A equipa dos “espertos”: Félix Bermudes (escritor), Cosme Damião (tudo), Manuel Gourlade (contabilista na Farmácia Franco, tesoureiro do Clube e “treinador” até da 1.ª categoria), José Neto (escultor), Francisco Santos (escultor), Daniel Brito (balconista na Farmácia Franco e Secretário do Clube). Depois ainda recebeu “reforços” por veterania ("descoberta” de 1904/05 para 1905/06): José Rosa Rodrigues (presidente do Clube). E é bem provável que por lá tenham passado: Azevedo Meireles (médico), Januário Barreto (médico e muito mais…), Pedro Guedes (pintor), entre outros! Era ou não a equipa dos “espertos” em oposição à equipa “dos bons” (1.ª categoria)? 

Excerto de uma entrevista de Daniel Santos Brito (Secretário do Sport Lisboa) em 1950. NOTA: Pelo rol de nomes Raul Empis foi dos primeiros a "futebolar" ainda quando jogavam no pátio interior do prédio da Farmácia Franco daí essa referência aos vidros partidos das janelas da farmácia que davam para o pátio


Documento primacial formal em forma de acta de fundação com os nomes listados por ordem alfabética por Cosme Damião
Documento com o registo das presenças no segundo treino (13 de Março de 1904), depois da fundação, com anotações de Manuel Gourlade. Com a indicação que foi no mesmo local do primeiro, ou seja, entre a linha férrea Cais do Sodré-Cascais e as traseiras da casa do Senhor Duque de Loulé
Os futebolistas que estrearam o "Manto Sagrado" em 1 de Janeiro de 1905 inscritos, em 2015, tendo por base uma ilustração da época com as respectivas designações conforme as posições em campo

Entretanto…"coincidências"
Vamos primeiro aos “entretantos”. Em 1905 o arquitecto António Couto (esse mesmo o capitão no jogo de estreia do “Glorioso”) planeia o Palacete Empis para acolher a numerosa família Empis (casal, seis filhos e criadagem) para um dos lotes dos terrenos das novas  avenidas para lá da fantástica avenida da Liberdade planeada para fazer crescer a cidade para norte.
Agora as “coincidências”.
1.     Onde fez o “nosso” Empis o primeiro treino em 1904? Nos terrenos a sul da casa do senhor Duque de Loulé. Para onde foi viver em 1906 ou 1907? Para a avenida Duque de Loulé!
2.   Quem jogou, em 1 de Janeiro de 1905, na mesma equipa, a médio-esquerdo e a avançado-centro? Respectivamente, António Couto e Raul Empis!;
3.    Quem foi o arquitecto do Palacete Empis, prémio de arquitectura Valmor? António Couto. O capitão do primeiro jogo e médio-esquerdo e depois médio-centro da 1.ª categoria até partir uma perna em 3 de Março de 1907!

Como evoluiu uma cidade, Lisboa, esbracejando-se a partir do rio Tejo colinas e planaltos acima. Em cima (à esquerda): A área a Este da actual praça Marquês de Pombal em 1857 (ainda estava Ernest Empis, com 15 anos, em Antuérpia) com o local do Palacete Empis inscrito a vermelho. Em cima (à direita): A mesma área em 1911 já com as anteriores quintas agrícolas urbanizadas - ruas rasgadas a régua e esquadro excepto as já existentes que davam acesso às quintas agrícolas e a outras localidades nos arredores de Lisboa - e primeiras casas construídas, incluindo o Palacete Empis (em baixo) com a sua localização tendo como referência a praça Marquês de Pombal

Da Junqueira para a Rotunda: as camisolas suadas
A família de Ernest Empis passou para a avenida Duque de Loulé, com Raul Empis a acompanhá-los. Deixava a Junqueira e Belém. Assim, os treinos e jogos foram ficando para trás, cada vez mais distantes. Mas com perspicácia para ter na memória como era complicado a 1.ª e a 2.ª categoria jogarem no mesmo dia quando apenas existiam 12 camisolas compradas por 24 (meia camisola para cada um).

Duas equipas. Duas categorias. 11 jogadores em cada uma. 22 futebolistas. 24 fundadores e mais uns quantos aderentes de "primeira hora". Doze camisolas de flanela. Uma para dois!
Passar camisolas
Em 1904/05 ou 1905/06, nos poucos dias em que houve dois jogos, a 2.ª categoria jogava primeiro. O “Cartaz do Dia” era a dos “bons” (1.ª categoria) não a dos “espertos” (2.ª categoria). Nas Terras do Desembargador, às Salésias, terminava o jogo das “segundas” iniciava-se o das “primeiras”. Havia necessidade de passar as camisolas vermelhas de flanela dos futebolistas da 2.ª para a 1.ª! Consta que uma vez (talvez até mais por depois passar a ser graçola) um dos “bons” queixou-se que vinha tão suada do jogo anterior da 2.ª categoria que iria pesar mais durante o próximo jogo na 1.ª categoria! Ao que um dos “espertos” respondeu: Pesar mais? Então não jogas no primeiro "team"? Se jogas é porque és melhor que eu! A camisola suada vai pesar menos em ti do que pesou “limpa” em mim!


Casamento
Em Outubro de 1914, o “nosso” Empis decide fazer o que os seus antepassados (e os nossos) fizeram…casar e ter filhos. Para isso encontrou a belíssima (clicar que vale apena ver) D. Luísa Burnay de Sousa Coutinho. De novo uma Burnay no caminho dos Empis embora já de linhagem distante, mais Sousa Coutinho que Burnay. Agora ao contrário do pai (nobre) e mãe (plebeia), juntava-se um burguês (ainda que rico) com uma senhora nobre. Embora em 1914, já contasse pouco, mas em Portugal “conta sempre alguma coisa”! Não por causa da Revolução Francesa (14 de Julho de 1789) mas devido ao 5 de Outubro de 1910 (Queda da Monarquia).



… E depois
O casal foi viver para a rua da Procissão (actual rua Cecílio de Sousa, junto do Príncipe Real) numa casa-mansão actualmente ocupada pelo British Council e Instituto Britânico, para no início da década de 30 do século passado fazerem a mudança definitiva para a esplendorosa Quinta do Bonjardim, para lá de Belas.

O "nosso" Empis e a esposa (D. Luísa) com os seus doze filhos. Doze com Quatro! Da página 41 de "Doze com Quatro"

Vida preenchida
E os filhos foram nascendo, 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11 e 12, entre 1915 e 1936, ou seja, entre o “nosso” Empis ter 28 e 48 anos, quase a fazer 49! Associado do Sporting CP, clube que o encantou, tal como a muitos dos “Gloriosos” de 1904 a 1907, em 1910 tinha o número 46. Quando faleceu, em 1960, era dos sócios mais antigos do clube pensado em 1906 por José de Alvalade. Pela lista que se publica, dos associados do SCP em 1910, encontram-se ainda alguns dos mais de vinte (oito eram futebolistas) que abandonaram o Sport Lisboa no Verão de 1907. Ele seguiu com António Couto, Francisco Santos, Cruz Viegas, entre outros, o caminho do Lumiar. Os que ficaram resistiram e deram seguimento ao sonho de jovem, com 17 anos, do “nosso” Empis. Em doze filhos, todos com apenas quatro letras no nome próprio (clicar para o penúltimo texto publicado sendo este o último) seis rapazes e seis raparigas houve um, UM, que foi Benfiquista toda a sua longa e proveitosa vida. Um em Doze! Ou seis, talvez as raparigas nesses anos do século XX não optassem por um clube com o fervor dos rapazes! Mas UM que foi precioso para saber “novidades” arrancadas a 1904, 1905, 1906 e metade de 1907. Até um pouco mais! E que merecerá neste blogue destaque especial quando for oportuno.

Com círculo vermelho: fundadores do "Glorioso"
Final feliz
Depois de uma vida cheia, com um passado importante no futebol (Benfica e Sporting CP), nos negócios (Banco e Tabacos) e, principalmente, familiar deixando frutificar gerações de Empis que se podem orgulhar de ter por gerador um Empis, tão robusto e de excelência, como Raul Júlio Empis, faleceu em 1 de Março de 1960, aos 73 anos, já com netos. É a vida. Como se dizia na minha aldeia quando nascia uma criança. Que chegues a velho, porque daí não passarás! O "nosso" Empis não passou, como ninguém ainda passou! Mas a sua importância foi tão grande, que mais de 55 anos depois de falecer e quase a 129 anos de ter nascido estamos a "falar: escrever e ler" acerca dele!  


Obrigado, Raul Empis. Por em 2015 (quase 2016) ter orgulho em saber que ajudaste a fundar (em 1904) e agigantar (até 1907) o nosso “Glorioso”!

Alberto Miguéns

NOTAS FINAIS:


1. Agradecimento especial a oito pessoas. A Mário de Oliveira e Rebelo da Silva. Sem eles não saberia quantos treinos fez Raul Empis, nem as localizações e locais frequentados pelos pioneiros do “Glorioso”. A Daniel Santos Brito por confirmar a presença dele no grupo inicial. A Cosme Damião por ter feito a listagem dos 24 fundadores. A Manuel Gourlade por ser metódico e registar em postais da Farmácia Franco as presenças nos treinos. A Silvestre Silva por contar com pormenor como decorreu o primeiro jogo. A Sofia e Carlos Empis, primos, pelo livro “Doze com Quatro” e contactos amáveis que têm tido comigo.

2. Não resisto a publicar o texto que acompanha a base do campo que utilizei para colocar em campo os onze primeiros a entrar no terreno de jogo com o “Manto Sagrado”. Escrita deliciosa de quem escrevia acerca de Foot-Ball pelo que ouvia dizer. Quem ler descobrirá porquê! Entre vários, escrever goold (em vez de goal) e Bach em ver de Back (defesa) são pérolas do futebol de antanho!




3. Os últimos são os primeiros. A página 133 do livro de Cosme Damião “Apontamentos e Recortes Sobre Football Association”, publicado em 1925:




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quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Um Conto, Vários, Quase de Natal

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015 5 Comentários
EM TEMPO DE NATAL. RELACIONADO – PARA QUEM QUISER – COM O NATAL.



Há muitos, muitos anos, ainda no século passado lembrei-me que talvez fosse possível encontrar ainda filhos de alguns dos 24 fundadores, pelo menos dos mais novatos em 28 de Fevereiro de 1904 e conseguir falar com eles. Seria uma tarefa hercúlea mas o engrandecimento do Benfica, feito pelos seus pais, transformando-o em “Glorioso” não só o merecia como exigia.  

Era uma vez um País
Que em tempos, há muitos, alguns anos, todas as pessoas que tinham telefone também tinham esse número de telefone e a morada onde estava instalado o telefone numa espécie de livro denominado Lista Telefónica que era actualizado anualmente. E a listagem de nomes estava organizada pelo apelido. Não era uma lista única. As listas eram por regiões. Chegaram a ser 15! Havia até para Lisboa e Porto duas listas: assinantes (páginas brancas) e páginas amarelas (classificados/publicidade). Nas outras 13 regiões telefónicas as listas eram duplas: brancas e amarelas. Os assinantes apenas tinham direito de receber a lista da sua região. Mas nas “Páginas Amarelas” (praça de Alvalade, n.º 9, em Lisboa) podiam comprar-se as restantes listas de Portugal, incluindo Madeira e Açores. Estamos a falar do tempo em que não existiam telemóveis nem internet.



Primeiro e segundo passo
Para descobrir descendentes dos fundadores - tentar descobrir - havia que comprar as 14 listas telefónicas em falta (apenas tinha a de Lisboa). Na praça de Alvalade n.º 9 trouxeram-me essas 14 listas e fizeram as contas (já não sei o valor, apenas que era em escudos, talvez contos, que era mais a "moeda utilizada" nesses tempos que o desvalorizado escudo). Como o volume era grande pedi se podiam fazer dois “montes” com igual peso e atá-los com um cordel, pois teria de as levar de autocarro em autocarro até minha casa! O empregado espantado quase gaguejou. “Não tem carro”! «Aqui não! Têm de ir de Metro e depois na Carris», devo ter respondido assim! Saiu e chegou com uma notícia. Como “isto” vai pesar vamos aliviar-lhe a carteira. Não terá de pagar! Para mim foi como uma prenda de Natal. E talvez estivéssemos em Agosto! Chegado a casa, estafado mas contente e ansioso, decidi qual seria o próximo passo. Com a lista dos 24 fundadores elaborada por Cosme Damião há mais de oito décadas, estabelecer prioridades. Primeiro os apelidos que considerava menos vulgares e para último os Silvas, Santos, Ferreiras, Pereiras, Oliveiras, Costas, Martins, Rodrigues e Sousas, se os houvesse!

Talvez fosse esta a ordem
Tinha de começar a telefonar por algum nome. Escolher o primeiro e seguintes. Não me recordo com exactidão do modo como ordenei a lista de 24, mas não dever ter sido muito diferente desta:
Damião, Cosme;
Gourlade, Manuel;
Afra, Jorge da Costa;
Linhares, José;
Empis, Raul;
Corga, Eduardo;
Goulão, João;
Calisto, Francisco;
Meireles, Abílio;
Severino, António;
França, Carlos e Manuel;
Teixeira, Henrique;
Gonçalves, Francisco Reis;
Rocha, Amadeu;
Gomes, João Inácio;
Cunha, Virgílio;
Brito, Daniel Santos;
Ribeiro, Joaquim;
Almeida, Joaquim
Sousa, Jorge Augusto;
Rodrigues, António, Cândido e José Rosa;

Lá fui telefonando para todo o País.
Também estabeleci prioridades ordenando as 15 listas telefónicas (desta ainda me lembro bem):
Lisboa; Linha Sintra; Linha Cascais; Norte Lisboa; Margem Sul; Porto; Ribatejo e Estremadura; Coimbra/Leiria/Castelo Branco; Algarve; Aveiro/Viseu/Guarda; Alentejo; Minho e Douro Litoral; Trás-os-Montes; Madeira; e Açores.

Vou abreviar…
Antes um pedido de desculpa. Se algum dos contactados estiver a ler este texto peço-lhes desde já desculpa por os ter incomodado, quase sempre à procura de…nada! Não vou contar o que aconteceu com os Damiões, Gourlades, Afras e Linhares. Bem como pelos 16 que se seguem aos Empis. Fico-me pelos Empis!

Nem queria acreditar…
Na primeira lista (a de Lisboa) fiquei atónito. Havia dezenas de Empis. Nunca imaginaria que existissem tantos Empis. Horas desperdiçadas (geralmente à noite e ao fim-de-semana) pois eram quase todos do Sporting CP e afirmavam nada ter a ver com o Benfica nem com qualquer um dos seus fundadores. Passei para a segunda (Linha de Sintra) mais Empis até perder de vista. Nada. Passei para a terceira (Linha de Cascais) e finalmente – talvez depois de mais de 40 Empis – eis que encontrava uma ligação ao Benfica. Outra prenda de Natal, muito provavelmente distante de 25 de Dezembro! E que ligação. Mas isso ficará para um dia destes contar. Porque valerá bem! Só por isto, talvez mais de cem telefonemas depois (que não eram de graça) e carregar as listas (que foram de graça) valeu a pena um dia, há muitos, muitos anos, ter tido a ideia que tive. 

Só agora, em 2015, percebi porque encontrei tantos Empis, dezenas (e parei a “meio”)
Este ano, em Junho, foi publicado um livro acerca de quem? De Raul José Empis, um dos 24 fundadores do “Glorioso”. Aliás é mais um livro acerca dos descendentes de Raul Empis. E histórias que envolvem a família, a maior parte delas recentes (depois do seu falecimento em 1960), mas também muitas, variadas e curiosas acerca dele. E dos seus…doze filhos! Ora aí está quebrado o mistério de tantos Empis! Só à conta do “nosso” Empis houve 12 Empis (filhos), que deram depois origem a mais uma vintena de Empis (netos) e a mais uns quantos, sempre em progressão Empis (bisnetos), embora “há muitos, muitos anos” os telefones fossem de filhos/filhas e netos/netas! Além de outros Empis que não descendiam do “nosso” Empis mas dos seus cinco irmãos (três rapazes e duas raparigas).


Os seis filhos (com respectivos cônjuges e primeiros filhos) netos de Ernest Laurent Empis, pai do "nosso" Raul José Empis, o segundo filho a nascer. Se a ordem for a cronológica, dos mais novos para os mais velhos temos, da esquerda para a direita: Maria Empis, Alberto Frederico Empis, Ernesto Augusto Empis, Carlos Empis, Raul José Empis (1887-1960) e Júlia das Graças Empis. O "nosso" Empis com a sua lindíssima esposa D. Luísa Burnay de Sousa Coutinho (1891-1974) com o decano dos seus doze filhos, José Luís Ernesto (1915-1989) ao colo. Colo de mãe, mãos de Deus

O livro “Doze Com Quatro”
Em tempo de Natal considero que comprar para oferecer, mas principalmente para ler, este livro é uma óptima prenda de Natal. Não só por falar do “nosso” Raul José Empis e dos seus doze filhos (seis raparigas e seis rapazes). É pelo modo como fala e a maneira como escreve a trata as histórias da (e de) família.


Os doze filhos do "nosso" Raul José Empis. Todos com nomes próprios de quatro letras. Se a lógica (das alturas) estiver correcta. Da esquerda para a direita: João (n. 1930), Egas (n. 1928), Elsa (n. 1925), Raul (n. 1917), Rita (n. 1916), José (n. 1915), Dora (n. 1918),  Vera (n. 1920), Nuno (n. 1926), Olga (n. 1921) e o Hugo (n. 1927). Na frente, Rosa (n. 1936) NOTA: Fotografia não legendada retirada da página 445 do citado livro


O livro são 39 histórias em que várias têm outras histórias dentro de cada história. Feito como se fosse tecendo uma peça. Por isso levou uma dúzia de anos a ser tecida. Se foi publicada em 2015 talvez a primeira letra e a primeira palavra tivessem surgido no papel em branco num pós-Verão de 2003 ou 2004. Sem ficar presa na roda cronológica do tempo as histórias balançam entre o recente, o muito antigo e o agora. É uma biografia em mosaico de uma família e daqueles que lhe estiveram próximos. Faltam muitos mosaicos, como é óbvio, pois não se trata de uma científica e metodológica “História da Família de Raul José Empis”. São pedaços das vivências resultantes da união entre D. Raul e D. Luísa. E do modo como conduziram as suas vidas e influenciaram os seus descendentes. Histórias retiradas do dia-a-dia quando algum desses dias deixa algo para contar por ser um dia que foi diferença na monotonia. Histórias variadas, algumas bem pessoais e íntimas que causam espanto, dando a entender que a autora tem “crédito” junto de tios, tias, primos e primas. Não há muito de confessional, ou seja da autora. Esta passa as histórias dela, sub-repticiamente, mas com ilusão, de quando tinha cerca de 12 anos para aparecer como mãe. Deixa a adolescência e ser jovem adulta, simplesmente, esquecida, ainda que com salpicos na história comovida acerca da fase terminal da vida do seu estimado pai Egas. Há um pouco de tudo no livro, nessas 39 histórias, desde a tragédia ao cómico. Do que parece ser ao ser. Apesar de o ter começado a ler com o interesse de um investigador, para tentar saber se havia referências à fundação do Sport Lisboa (não há) pode-se dizer que depois, como leitor posso responder à “frase-pergunta”, a última do preâmbulo (na página 24):

«Bons momentos, é tudo o que eu posso esperar proporcionar ao leitor. Um desejo, mais do que uma esperança.»

Sim! Passei bons momentos. Ri-me com a mitra, comovi-me com a Catarina, chorei com o Diogo, assustei-me com o fogo, impressionei-me com o Zé Luís, arrepiei-me com o pátio, emocionei-me com a Fernanda, espantei-me com os 25 tostões, deliciei-me com a Vera e a Elsa, além de ficar a saber mais do que sabia. Por isso valeu a pena. Que bons momentos, Sofia!
Um livro que é sempre um óptima prenda de Natal. Principalmente este! E neste!

Pode ser (deve ser) ouvida esta entrevista à autora (neta do “nosso” Empis”) Sofia Empis
Clicar para ouvir o programa de rádio (a partir dos 08:44)

Entre essas histórias deliciosas, embora algumas de horror por serem daquelas que não nos importaríamos de não as poder ler
Duas que recordo e jamais imaginei serem de descendentes do “nosso” Empis.
    1. Depois do 25 de Abril de 1974 dizia-se que o último militar a morrer nas colónias (então Províncias Ultramarinas) fora um elemento do exército, o alferes Bragança, em 1975. Ou seja, um ano depois da Revolução que permitira a Descolonização, ainda tombou um soldado português em África. Pelo livro a data desse momento trágico é 30 de Agosto de 1975, quando foi abatido o alferes José Luís Empis Bragança. Uma história contada no citado livro, entre as páginas 297 e 313, que a autora denominou “Um Rapaz Como os Outros”. Nesses tempos (1975) ainda não conhecia a história do Benfica. Mas depois quando a comecei a conhecer jamais imaginei que o “último soldado português morto em África” fosse um neto de Raul Empis, 3.º filho – em quatro - da 6.ª filha (Olga Luísa que faleceu em 1967, aos 46 anos) de um dos 24 Gloriosos;


Fotografia de um dos painéis do "Monumento ao Combatente"; em Belém; Lisboa. NOTA: Este memorial está num dos vários terreiros públicos utilizados outrora - 1903 a 1904 - por muitos dos 24 fundadores e primeiros aderentes ao Glorioso para "treinarem". Talvez Raul José Empis andasse a "treinar" por ali nesses tempos remotos. Ou o Mundo é pequeno. Ou o Benfica é grande! 
  2. Há cerca de um ano, no Verão de 2014, o País ficou horrorizado com as notícias do esfaqueamento durante a noite de um jovem arquitecto, depois de uma acesa discussão, como pode ser visto aqui (clicar). Diogo Empis de Andrade e Sousa atingido na noite de 19 de Agosto faleceu em 27 de Agosto de 2014. Jamais imaginei que o jovem de 30 anos, completados em 6 de Agosto, poucos dias antes de ser esfaqueado mortalmente, fosse bisneto do “nosso” Empis. Neto do seu terceiro filho Raul Ernesto, nascido em 8 de Novembro de 1917, felizmente ainda entre nós, com 98 anos, e filho de Gizé (uma dos seus cinco filhos) que dando dois bisnetos a Raul José Empis viu a violência de gente estúpida tirar-lhe, ainda tão jovem, o mais velho dos dois filhos (Diogo e Duarte). Se os filhos não são para ir embora antes dos pais muito menos dos avós! Uma história muito triste e desgraçada (bem) contada entre as páginas 105 e 122 com o nome de “A Lua, A Estrela”.


Em cima: Palacete Empis na avenida Duque de Loulé de gaveto com a rua Luciano Cordeiro. Em baixo: Carta Topográfica de Lisboa; folha 10 I; 1910 (nomes colocados para este blogue)

Outra “descoberta”
Para além de, finalmente em 2015, perceber o porquê de tantos Empis nas listas telefónicas também percebi, finalmente, o porquê de Raul José Empis enquanto adolescente, na primeira década do século XX, andar por Belém. É que para mim sempre pensei que ele andaria por Belas ou próximo das avenidas novas, onde o seu pai (Ernest Laurent Empis) tinha uma quinta e depois foi construído um palacete, entre a avenida Duque de Loulé - no espaço do actual n.º 77 - e a rua Luciano Cordeiro. Que eu sabia ser dos Empis (talvez de família próxima de Raul) por ser Prémio de arquitectura Valmor em 1907. Até porque é (era, pois foi demolido em 1954) da autoria do primeiro capitão do "Glorioso": António Couto! Por tudo isto sempre imaginei o “nosso” Raul Empis em Belas ou pelo Marquês de Pombal/Saldanha, nunca por Belém. Mas lendo o livro torna-se evidente que ele andaria por Belém com os catraios da idade dele. E logo foram fundar um clube. E que Clube!

Amanhã. Vou ter tanto prazer em escrever acerca de RAUL JOSÉ EMPIS!

Alberto Miguéns
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