HÁ PRECISAMENTE 52 ANOS (A COMPLETAR POR VOLTA
DAS 15:30 HORAS DA TARDE DE HOJE) DESCOBRI QUE O BENFICA ERA VERMELHO.
E foi na Figueira da Foz. E foi através dos ciclistas. No fundo os
ciclistas do "Glorioso" nos Anos 60 foram para mim o que José Maria Nicolau foi para muitos
portugueses nos Anos 30.
NOTA INICIAL: Mais do que assinalar a data, uma homenagem ao meu pai que partiu deste Mundo muito cedo. Provavelmente para o "Quarto Anel". Não ligando a clubes e ao Futebol, antes pelo contrário, acabou por ser ele a dar-me a "notícia" que o Benfica equipava de vermelho.
Parece mentira mas é verdade!
Pode-se perguntar? Como é que se consegue conhecer o dia e ainda para
mais a hora (mais ou menos) em que se sabe que o Benfica equipa de vermelho?
Sabe-se por uma série de coincidências que tornaram possível localizar no tempo
esse momento. Antes de mais a grandeza do Benfica. Depois a impressão que o
Clube causava numa criança que vivia longe da Sede/cidade/estádio do
"Glorioso". Finalmente - e isso é que torna tudo isto possível - a existência
de um fogo nas proximidades do evento precisamente enquanto decorria a competição.
Sempre
soube que foi naquele momento
Embora durante anos - quarenta! - não soubesse a data (ano, mês e dia) muito menos a hora. A
história é fácil de contar. Para mim é deliciosa porque consigo localizar (no
tempo e espaço) a "descoberta" do traje deslumbrante da "Grande Namorada", ao
vivo e a cores (literalmente). Vivia na Figueira da Foz - entre Novembro de
1962 e Maio de 1967 - e naquele dia o meu pai lembrou-se de me levar com ele
para «ir ver os ciclistas no Circuito da Figueira». Descemos do "bairro da
Estação/Casal do Rato" onde vivíamos e ficou em frente à estação
ferroviária da cidade foz do rio Mondego. Colocou-me às "cavalitas" (sentado nos ombros dele) e
eis que diz, quando uma mancha colorida, predominando o vermelho, surgiu rápida
na rua do cais. «Tens muita sorte! O
Benfica vem à frente!». Eu incrédulo respondo «O Benfica é
vermelho?!». Ele olha, por cima do seu ombro, pelo lado direito e responde:
«Deves ser a única pessoa que não sabe
que o Benfica é vermelho»! Lembro-me como se ainda fosse hoje. Passados 52 anos! Nunca
mais me esqueci. Curiosamente quando falava com ele acerca deste episódio de
uma vida, o meu pai não se lembrava da conversa. Entretanto ouvem-se as sirenes
dos bombeiros e estes rápidos dirigem-se para lá da estação dos comboios onde
se via muito fumo. O meu pai (a idade jovem não perdoa) opta por ir ver o fogo
e abandonar os ciclistas. Eu lembro-me de ir contrariado, mas nada a fazer. "Manda
quem pode, obedece quem deve"! O meu pai não se lembrava da conversa, mas sabia de termos ido ver os ciclistas e do fogo. Pois!

A surpresa
sem a ser
O meu pai pode ter ficado surpreendido com a minha ignorância, mas
eu via o Benfica em televisões a preto-e-branco (sei que via - assim me dizem, pelo menos a final da Taça dos Clubes Campeões Europeus, em 27 de Maio de 1965, frente ao FC Inter Milão -
mas não tenho memória de ver qualquer jogo do Benfica nas televisões enquanto vivi
na Figueira da Foz) e se via fotografias era nos jornais, também, a
preto-e-branco. Os «cromos dos caramelos» (por que coloridos) seriam a possibilidade de saber que o Benfica era
vermelho, mas era "coisa de meninos ricos". Eu vivi na Figueira da
Foz, num bairro periférico de gente pobre e problemática, entre os dois e os
seis anos!
Saber de "como
e onde", mas ignorar "quando"
Apesar de nunca ter esquecido o episódio, era difícil (nem tinha
interesse) saber, até, o ano. Seria entre 1964 (eu com três/quatro anos) e 1966
(cinco anos). Se fosse em 1966 teria de ser antes de Maio, pois data desse mês
a ida para viver em Lisboa. O tempo passou e falava do momento, onde estava e
como soube através dos ciclistas, sem saber quando!
Em 2006
surgiu a oportunidade de localizar com precisão o momento
Aproveitei o facto do Ciclismo do Benfica completar o Centenário (3 de Junho de 1906) e ao fazer a Gloriosa História do Ciclismo tive atenção
redobrada com a participação do "Glorioso" no Circuito «José Bento
Pessoa», em 1964 e 1965. Descartei 1966 pois apercebi-me que sendo a competição
um "Clássico" do ciclismo português era realizada depois da «Volta a
Portugal», ou seja, no início de Setembro. O ano de 1966 estava de fora pois em
Setembro de 1966 já vivia em Lisboa. O ano de 1963 estava fora de questão -
teria dois anos em Setembro - sendo praticamente impossível uma criança com dois
anos e meio lembrar-se de uma conversa. Embora envolvendo "Benfica"
tudo seja possível. Isolando 1964 e 1965 a "chave do êxito" estava em
encontrar a data exacta do evento num jornal desportivo (seria fácil) e localizar o fogo num
jornal generalista (pensava ser difícil). E assim foi. Saber a data do Circuito. Foi fácil. Saber o ano do fogo. Afinal também foi fácil. Em 1964 nada se disse acerca de
um fogo, em 13 de Setembro. Já em 1965 foi possível localizar o fogo. O circuito
foi em 5 de Setembro e o fogo «para lá da Estação dos comboios» também foi a 5.
O "Diário de Notícias" não deixa dúvidas.

Tendo o
início pelas 15:30
Do dia 5 de Setembro de 1965, a "cabeça do pelotão"
demoraria um minuto ou dois a chegar ao princípio da rua do Cais (actual
avenida Saraiva de Carvalho). Não há a certeza (nunca há em Portugal) é que a
competição tenha tido início pelas três e meia da tarde "em ponto".
Exactamente às 15:30 horas.
Resumindo e
concluindo
Andei anos sem saber (a data e hora) e iludido, acabei desiludido.
Sempre pensei que o Benfica tivesse vencido a competição. A idade do meu pai
(27 anos, em Setembro de 1964) fez com que optasse pelo fogo. Eu sem ter visto
o fim, pensei sempre que este tivesse sido igual ao início. O Benfica na
frente. Mas não foi. Resta a consolação do Benfica (António Pisco) ter vencido o maior número de voltas, vinte, quer na meta (avenida da República) quer no "peão" (avenida do Cais, sem casas desse lado). Este, precisamente, a rua do Circuito onde descobri que o Benfica é vermelho.
Trocava a descoberta do "momento exacto" pela vitória no
Circuito!
Alberto Miguéns
NOTA FINAL: Como ele ia rir-se desta história num blogue. Quando nem internetes havia "no tempo dele". Vai voltar a rir-se a minha mãe (que também andava por perto nesse dia embora só se lembre da multidão para ver os ciclistas e do fogo. Sempre o fogo). Tal como quando viu, quarenta anos depois, o "comprovativo" em forma de fotocópias em papel dos jornais. E lembra-se de ter que responder à "minha exigência": «Quero uma camisola de lã vermelha». E teceu-a com as mãos e duas agulhas! Ou "fez malha" como se dizia na época! E há fotografias dela. Bem linda. Ou não fosse vermelha debruada a branco. Pena as fotografias serem a preto-e-branco. Tudo a branco, preto e cinzento. Como o País. Como é que eu havia de saber que o Benfica era vermelho!