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quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Sete e Meio I: O Benfica Antes de O Benfica

quarta-feira, 29 de novembro de 2017 1 Comentários
O JORNAL QUE ONTEM COMPLETOU 75 ANOS NÃO FOI O PRIMEIRO DO CLUBE!


Antes, bem antes, nos anos 10 o SLB já fizera publicar um jornal com o nome de "O Sport Lisboa". Mas vamos aos acontecimentos de 1942 para recuar a 1913 e regressar a 1942. O Benfica é assim. Para a frente, atrás e à frente. Muito à frente.

Que impacte causou o jornal em 1942?
Houve um misto de indiferença pública e preocupação privada. O SLB decidiu publicar um jornal semanal da sua responsabilidade por entender que a grandeza do clube - passado e actualidade - não estava devidamente divulgado no único jornal publicado em Lisboa, "Os Sports". Os responsáveis por este assim que souberam que o Benfica estava a organizar um Semanário interessaram-se mais pelo Clube. A aposta num jornal propriedade do SLB começava a resultar ainda antes de ser publicado. Além disso, havia um "vazio" desde que cessara, em 1 de Julho de 1942, ao número 531, a Revista "Stadium". Curiosamente a publicação de "O Benfica" apressou os responsáveis pela "Stadium" a voltar a interessar-se pela sua edição, embora com menos qualidade, saindo o primeiro número em 9 de Dezembro de 1942. Quando o Benfica se agita tudo treme!

O Benfica com o condão de ressuscitar a Stadium, onze dias depois de " Benfica" nascer. Mas há muito que se sabia que o SLB estava a preparar a edição de um jornal

Pôr em sentido "Os Sports" e dar-lhes sentido. Em baixo Ribeiro dos Reis a escrever acerca do "seu desporto favorito"...o «Chacha"


E vamos lá a 1913! Com paragem em 1915
O "Glorioso" foi desde o seu início um clube vencedor, daí que tivesse muitos adeptos interessados pelo Clube, quer na sua componente desportiva, quer associativa.
Na fase de implementação do futebol em Portugal, na primeira década do século XX, os jornais diários davam algum destaque ao Futebol. Aliás, antes da organização do primeiro campeonato regional de Lisboa, em 1906/07, os reptos - desafios ou desforras - eram feitos através de notícias publicadas nos jornais da época: Diário de Notícias, O Século ou Jornal da Noite, que foram progressivamente dedicando mais espaço (e interesse) ao fenómeno desportivo (e em particular ao Futebol). Só que no início dos anos 10, começou a existir alguma má vontade por parte das direcções desses jornais, para com o futebol, isto numa época em que se começam a extremar posições em relação aos clubes, aumentando as rivalidades que se farão sentir a todos os níveis, na década seguinte. assim começa a circular nos jornais a ideia, um pouco como é hábito nacional (e que ainda existe na actualidade!) de que «antigamente é que era bom». Nesses tempos os jogadores só queriam jogar «à bola» (expressão que mais tarde, nos anos 30 foi substituída por «amor à camisola»), «hoje só pensam é noutras benesses e em provocar desacatos» (actualmente expressões substituídas por «dinheiro» e «fazer-se à falta ou a mui-recente "cavar" a falta! O nosso clube sentindo que o Futebol (e o desporto em geral, e em particular o Benfica) não estavam a "ser bem tratados", decidiu criar um jornal semanal denominado "O Sport Lisboa", recuperando o primeiro nome do Clube e pelo qual começou a ser conhecido, após a fundação, sendo ainda utilizado em finais da primeira década do século XX e no nome inicial das Filiais: Sport Lisboa e .... (nome da localidade). O número 1 saiu em 24 de Agosto de 1913 e nele escreveram "impolutos Benfiquistas", de dirigentes a simples redactores (Alberto Lima, Victor Gonçalves, Ribeiro dos Reis, Cosme Damião, Mário de Oliveira, Félix Bermudes e Norberto de Araújo, por exemplo). O Benfica ainda não tinha dimensão associativa e desportiva que permitisse exclusividade de notícias e relatos de acontecimentos daí ser um jornal abrangente com notícias diversas em temática e colectividades, mesmo rivais do Benfica.


De "O Sport Lisboa" a "O Sport de Lisboa", em 1915! Com paragem em 1927
Após 81 números, em 6 de Março de 1915, decidiu uma fusão com outra publicação, o "Jornal de Sport", resultando "O Sport de Lisboa", com o n.º 82 a surgir em 13 de Março de 1915, que continuou ligado ao Benfica, ainda que de um modo menos dependente e mais pluralista.
«O Sport Lisboa/O Sport de Lisboa» foi extremamente importante na afirmação do Benfica como instituição porque permitiu "defender o futebol e o Clube"  e em simultâneo colocar "pressão", quer nos jornais diários (obrigando-os a darem mais atenção e espaço ao Desporto), quer nos jornais desportivos que entretanto surgiram, como por exemplo "Os Sports", em 6 de Abril de 1919. Se algum deles tivesse um comportamento pouco ético para com o Clube (e por vezes isso ocorria, pois eram jornais onde dominavam outras cores que não a vermelha) o nosso jornal defendia veementemente o Clube. Isto condicionava os outros jornais, quer em termos de vendas, quer em polémicas.


Ao iniciar o segundo ano de existência a redacção reune-se para um momento único. O fotógrafo do Benfica e de "O Sport Lisboa", Arnaldo Garcêz passa de fotógrafo a fotografado!

Entretanto, o panorama da Imprensa desportiva e generalista (que dava cada vez mais espaço ao desporto) foi-se alterando e "O Sport de Lisboa" deixou de ter a importância que lhe foi concedida aquando do seu surgimento, acabando por deixar de publicar-se em 27 de Maio de 1932, data em que saiu o último número, o 1137.
A necessidade de informar os associados e divulgar os "Relatórios e Contas das Gerências", fez com que o Clube publicasse o "Boletim Oficial do SLB", que saiu pela primeira vez, em Março de 1927. seguiram-se mais 14 números, até à temporada de 1936/37, quando o "Relatório e Contas" passou a ter publicação autónoma.


E agora para 1942! Com paragem em 1941
Mas...apesar da história nunca se repetir, o certo é que por vezes há semelhanças. Durante os anos 30 e início dos anos 40, o Benfica sem qualquer tipo de publicação começou a ser ostracizado e mal divulgado (na opinião dos dirigentes Benfiquistas), apesar dos inúmeros títulos que conquistava, sobrevalorizando-se na Imprensa os feitos de outros clubes. Os Benfiquistas sempre (nessas épocas...) ciosos do 2seu Benfica", decidiram criar um novo jornal semanal. Na inauguração do novo estádio, no Campo Grande, em 5 de Outubro de 1941, para divulgar e assinalar o acontecimento, saiu um jornal - assim como se fosse um número 0/zero - do "Sport Lisboa e Benfica", que pouco mais de um ano depois teve publicação regular - semanal ao sábado - com o primeiro número a chegar às bancas para a "Cidade e o Mundo", em 28 de Novembro de 1942, ao preço de cinco tostões ou cinquenta centavos ou quinhentos réis e com quatro páginas. E bem medido com 42 centímetros de altura por 32 de largura. Comparando, o actual tem 35 por 28. Menos sete e quatro centímetros, mas tal como as pessoas os jornais "não se medem aos palmos"! O jornal - o "nosso Semanário" como era conhecido entre os Benfiquistas - foi muito importante e decisivo na informação e afirmação do Clube durante os anos 40, mostrando que o Benfica era um clube ganhador, pois as competições eram acompanhadas semanalmente e as vitórias em jogos ou provas e conquistas de títulos ou recordes devidamente documentados em textos e fotografias ou ilustrações.


Primeiro director: José Magalhães Godinho
Os dirigentes do "Glorioso" colocaram a "fasquia" demasiado alta para os directores que se seguiriam ao primeiro. Foram logo escolher um dos mais brilhantes portugueses do seu tempo e de sempre. Um anti-fascista, democrata, republicano, cidadão livre e de causas. Por isso se dizia - espantados - que só o Benfica podia ter um anti-salazarista como director de um "órgão de imprensa" pois o Estado Novo controlava os jornais através da Censura mas também autorizando (ou não) determinadas pessoas a ter poder de dirigir um jornal ou uma rádio. E depois a televisão, embora esta fosse estatal. O Benfica só podia ter José Magalhães Godinho, no início dos anos 40, como director do seu jornal porque nada queria do Poder. É que só o nome JMG causava náuseas dentro do Antigo Regime. O Benfica como «apenas e só» dependia da sua grandeza associativa podia dar-se "ao luxo" de nomear quem entendia serem os melhores Benfiquistas para determinados cargos. É o valor de ser independente. Pode-se dizer e fazer, com responsabilidade, o que se quiser. E o SLB fez. Nomear director de um Semanário em plenos anos 40 da Ditadura um cidadão com ficha de subversivo na PIDE?! Só o Benfica! Só quem se estava "marimbando" para o Poder e os poderosos. Só quem deles nada queria, nem pedia! Mas como este texto já vai longo, até logo...Entretanto já por duas vezes, pelo menos, neste blogue se escreveu acerca de José de Magalhães Godinho (clicar: Cândido, Ribeiro dos Reis, Godinho e o Tarrafal) (clicar: Magalhães Goleia Góis Mota)


Continua pelas dez da manhã...

Alberto Miguéns
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terça-feira, 14 de junho de 2016

Magalhães Goleia Góis Mota

terça-feira, 14 de junho de 2016 8 Comentários
EXTRAORDINÁRIA DECLARAÇÃO NUM EXCELENTE PROGRAMA DA RTP.2 AOS DOMINGOS À NOITE: A PIDE ANTES DA PIDE.



Aquele que foi o primeiro director do jornal "O Benfica" (José Magalhães Godinho) entre 1942 e 1946, tem uma intervenção brilhante no programa, colocando os "pontos nos is" relativamente a uma figura execrável do Estado Novo que também foi um dos mais destacados dirigentes sportinguistas (Góis Mota), chegando mesmo a presidente do Sporting CP, durante quatro anos entre 1953 a 1957.

(Excerto episódio 3 "A PIDE antes da PIDE" RTP2 2016).

O SL Benfica e o jornal "O Benfica" têm uma honra sem paralelo em ter como um dos seus, essa nobre e corajosa figura da História de Portugal. O Benfiquista José de Magalhães Godinho.


Não será hoje que o Em Defesa do Benfica fará a merecida evocação deste gigante da Resistência à Ditadura que aliás já teve destaque aqui neste blogue a propósito de Cândido Oliveira pois foi o primeiro director do jornal "O Benfica" que escreveu o prefácio para a primeira edição do livro "Tarrafal - O Pântano da Morte" (clicar). O destaque ficará para o tempo oportuno, no futuro, de um Grande Português e Benfiquista, nascido em 12 de Fevereiro de 1909 e falecido, em 25 de Março de 1994, aos 85 anos.

Ficha na PIDE (Polícia Internacional de Defesa do Estado)

Acerca de quem foi Góis Mota no Sporting CP nada melhor que deixar os sportinguistas a falar dele e fazer o seu perfil (clicar)

Dois clubes tão diferentes, duas personalidades tão distintas
José Magalhães Godinho já tinha ampla actividade política antes de ser nomeado como primeiro director do jornal O Benfica" em 28 de Novembro de 1942. 

Antes
Terminado o curso dos liceus, José Magalhães Godinho ingressou na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, onde se licenciou, em 1932.  Antes, durante o ensino secundário, no Liceu Gil Vicente foi delegado de turma à Junta de delegados e membro activo da Associação Académica, na qual desempenhou vários cargos, incluindo o de presidente da direcção. Seguiu-se o ensino superior. No tempo de estudante universitário teve activa intervenção associativa e política. Desde muito jovem, manifestou um forte espírito associativo, que iria marcar a sua personalidade. Em Novembro de 1930, cerca de três dezenas de estudantes da Faculdade de Direito, depois de uma assembleia-geral, em protesto pela detenção de um colega (Francisco Mendes), invadem as instalações do Ministério da Instrução, com José de Magalhães Godinho, Teófilo Carvalho dos Santos e Artur Santos Silva, em destaque, entre outros. São presos e vão para a cadeia do Aljube, onde passam uma noite. Foi dirigente nas greves académicas de 1930 e 1931. Ainda neste ano, foi eleito (com Vitorino Nemésio e Francisco Mendes) para representar os alunos da Universidade Clássica de Lisboa num congresso Ibero-americano de estudantes, mas acabou impedido de participar pelo Ministro da Instrução. Intratável, corajoso e coerente, integrou a direcção da Liga da Mocidade Republicana da Faculdade.

Durante (a direcção de "O Benfica")
Em 1942, forma-se em Lisboa o «Núcleo de Acção e Doutrinação Socialista», constituído por um grupo de estudantes universitários – muitos dos quais, filhos de dirigentes republicanos (Primeira República) – que se propõe divulgar os ideais do socialismo. Entre os fundadores está José Magalhães Godinho, com o seu irmão Vitorino Magalhães Godinho, Afonso Costa Filho, Mário de Castro, Gustavo Soromenho, António Macedo, Mário Cal Brandão, Artur Santos Silva, Paulo Quintela, José Joaquim Teixeira Ribeiro e Fernandes Martins. Em Dezembro de 1943, José Magalhães Godinho é um dos fundadores do Movimento de Unidade Nacional Anti-Fascista (MUNAF), organização clandestina presidida por Norton de Matos, e que irá fazer parte da sua comissão executiva até 1947. O MUNAF reúne o PRP (Partido Republicano Português), a SPIO (tentativa de organizar o Partido Socialista como Secção Portuguesa da Internacional Operária), a recém-criada União Socialista, o grupo da Seara Nova, a Maçonaria, anarco-sindicalistas oriundos da CGT (Confederação Geral do Trabalho ex-UON - União Operária Nacional de que Manuel da Conceição Afonso - prresidente da Direcção do do SLB - foi delegado pelos linotipistas/tipógrafos), católicos progressistas, monárquicos anti-Ditadura e alguns militantes do PCP (Partido Comunista Português). Em Janeiro de 1944, o MUNAF divulga o primeiro comunicado, dando a conhecer a sua composição. Na comissão executiva aparecem José Magalhães Godinho, Fernando Piteira Santos, Jacinto Simões, Moreira de Campos, Alberto Rocha e Manuel Duarte. O MUNAF defende, desde logo, a criação de um Governo Provisório de Unidade Nacional, com eleições livres para uma Assembleia Nacional Constituinte, e propõe-se elaborar um programa de emergência. Toda esta actividade cívica e política em simultâneo com o cargo de director do semanário "O Benfica"!

Depois
Preocupado com as repercussões negativas que a sua actividade cívica e política podiam ter junto das entidades que regulavam o desporto prejudicando o Benfica decide afastar-se da direcção do jornal mantendo-se ligado ao clube como associado e noutros cargos com menos exposição e visibilidade. E sempre activo à procura de soluções que fizessem de Portugal um País Livre. Um País À Benfica!


DIRECTORES DO SEMANÁRIO “O BENFICA”
Ordem   Nome                                                                 Primeiro número        Último número    Total edições         
                                                                                                      N.º        Data                     N.º  Data                                                   
  1.º           Dr. José de Magalhães Godinho           1        28.11.1942           167       02.02.1946      167
  2.º           Dr. António José de Melo                              168       09.02.1946            288      29.05.1948           121
  3.º           Dr. Paulino Gomes Júnior                             289      05.06.1948           328      05.03.1949             40
  4.º           Rebelo da Silva                                                  329       02.03.1949            540      28.03.1953           212
  (3.º)       Dr. Paulino Gomes Júnior                             541       09.04.1953          1071       30.05.1963           531
  Interino Dr. António Fezas Vital                                1072      06.06.1963          1099      12.12.1963              28
  5.º           Afonso Botelho                                                1100      19.12.1963           1139       19.09.1964             40
  Interino Adolfo Vieira de Brito                                    1140       26.09.1964          1167       01.04.1965            28
  Interino Dr. Roman Navarro                                        1168       08.04.1965         1176       29.05.1965               9
  (3.º)       Dr. Paulino Gomes Júnior                           1177       05.06.1965          1234       07.07.1966              58
  6.º           J. Lourenço Gago                                            1235       14.07.1966          1288      20.07.1967              54
  7.º           Carlos Vieira de Carvalho                            1289      27.07.1967          1387      20.05.1969               99
  8.º          Baptista Rosa                                                   1388      27.05.1969          1513       19.10.1971              126
  (3.º)       Dr. Paulino Gomes Júnior                           1514       26.10.1971           1649       28.05.1974           264
  9.º           A. Barros Teixeira                                           1650      04.06.1974          1932       30.10.1979           283
10.º          Luís Marques Batoque                                   1933       06.11.1979           2016      10.06.1981              84
Interino  Mário Sérgio                                                     2017      18.06.1981          2024      06.08.1981                  8
11.º           Afonso Coelho Pinto                                      2025      12.08.1981          2070      22.06.1982               46
12.º           J.M. Boavida-Portugal                                2071      29.06.1982          2265      19.03.1986              195
(3.º)         Dr. Paulino Gomes Júnior                           2266      26.03.1986          2319       01.04.1987              54
13.º           João Loureiro                                                   2320      08.04.1987         2431       24.05.1989             112
14.º           José Respício                                                   2432      31.05.1989          2605      16.09.1992             174
Interino  António Ramos Gomes                                 2606      23.09.1992          2608      07.10.1992                3
15.º           João Sequeira Andrade                                 2609      14.10.1992           2728      25.01.1995            120
16.º           Carlos Morgado                                               2729      01.02.1995          2881      31.12.1997             153
Interino  Vieira de Carvalho                                          2882      07.01.1998                                                                1
17.º           José de Oliveira Santos                                2883      14.01.1998          2949      21.04.1999              67
18.º          Acácio Gomes                                                   2950      Maio.1999           2965      Agosto.2000          16
19.º           Adriano Cerqueira                                          2966      28.02.2001         3171       04.02.2005           204
Interino  Luís Lemos                                                       3172       11.02.2005          3174       26.02.2005                 3
20.º          Fernando Seara                                               3175       05.03.2005         3313       26.10.2007             139
Interino  Luís Lemos                                                       3314       02.11.2007          3346      13.06.2008               33
21.º           José Nuno Martins                                        3347      20.06.2008        3752       10.06.2016             416       

                                                                                                                          Dr. Paulino Gomes Júnior…. 767

É tão bom (e estar tão à vontade) ser do Benfica!

Alberto Miguéns


NOTA1: Um dos motivos que me levaram a deixar de escrever, semanalmente, em "O Benfica" foi ter sido vítima de censura, perceber a «piolhice» de quem andava mais preocupado em propaganda e menos em informação  e ter visto como se atentava contra o espírito de Liberdade e Responsabilidade que José Magalhães Godinho tinha dado como mote logo no início do Jornal, no início dos anos 40 do século XX. Estar a pactuar com uma figura sinistra e desengonçada como Pedro Guerra ou Fernando Santos ou lá como quer que o chamem era estar a enxovalhar a memória de um Grande Benfiquista! Eu até dizia nas instalações do Semanário que o Benfica andava ao contrário. Quando o País censurava, «O Benfica» era Liberdade. No país com liberdade, n'«O Benfica» censurava-se! Na realidade era ele que "punha e dispunha" no Jornal só não querendo o seu nome na ficha técnica por ser um tachista do grupo parlamentar do CDS/PP. E tal poder/designação/facto ter implicações legais e políticas. Mais tarde só pude ficar contente com a decisão que havia tomado, embora triste pelo que estava a passar-se, ao ver outros Benfiquistas, entre eles Manuel Arons de Carvalho, serem ostracizados. Felizmente a "promoção" do "verdadeiro director do jornal" (devido ao crónico absentismo do director nomeado e com nome em cabeçalho) para a BTV pode ter levado para lá a «piolhice» mas permite que o actual editor de O Benfica recupere a dignidade que o Semanário do Benfiquismo sempre teve dentro do Clube.

NOTA2 (às 01:15): Para que não se pense que este blogue é de esquerda ou anti-direita já se elogiaram figuras do Estado Novo pelo que fizeram como Benfiquistas. E sem vergonha, antes pelo contrário, com estima e consideração. 

Ver: http://em-defesa-do-benfica.blogspot.com/2014/08/augusto-cancella-de-abreu.html

E outras se seguirão. Se o "balanço" tende para a esquerda - talvez contabilizando seja assim - é porque é mais fácil encontrar grandes figuras Benfiquistas, assumidamente, em ideologia mais à esquerda. Embora a maioria nem estejam em destaque no blogue conotadas ideologicamente. Até porque o blogue sendo do Benfica tem propensão para dar mais valor ao colectivo que ao individual.

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sábado, 5 de julho de 2014

Cândido, Ribeiro dos Reis, Godinho e o Tarrafal

sábado, 5 de julho de 2014 2 Comentários
DOIS AMIGOS BENFIQUISTAS SEM BENFICA


Chegou-me, há uma semana, às mãos e olhos, um livro que há muito desejava ler e ter, da autoria de Cândido de Oliveira: "Tarrafal - O Pântano da Morte". Muito há (haverá) a dizer acerca do livro e do seu autor.


Semanário "O Benfica"; página 3; 2 de Julho de 1953
O treinador do Benfica, Ribeiro dos Reis (à direita) entre o presidente do Benfica Joaquim Bogalho e o do FC Porto (Urgel Horta) com o treinador do FC Porto, Cândido de Oliveira (à esquerda, de óculos), no Estádio Nacional, antes da final da Taça de Portugal, em 28 de Junho de 1953, conquistada pelo Benfica após derrotar, por 5-0, a equipa do FC Porto

Um momento épico
Na final da Taça de Portugal da temporada de 1952/53 encontraram-se dois Benfiquistas que nesse dia, como treinadores, foram adversários: Ribeiro dos Reis (pelo Benfica) e Cândido de Oliveira (pelo FC Porto). Grandes amigos, Ribeiro dos Reis nunca perdoou a Cândido de Oliveira um dia, no início do Verão de 1920, ter "virado costas" ao "Glorioso", quando o Clube tanto necessitava dele que era "apenas" capitão da equipa de futebol!

Cândido infiel, Cândido fora... para sempre
Como resultado da infidelidade do seu capitão - Ribeiro dos Reis era um dos futebolistas da equipa - o seu grande amigo e antigo capitão da equipa Cândido de Oliveira nunca mais regressou ao Clube, encontrando sempre em Ribeiro dos Reis, dirigente do "Glorioso" praticamente até morrer, um obstáculo ao seu regresso. Quando António Ribeiro dos Reis faleceu em 3 de Dezembro de 1961 já Cândido de Oliveira deixara o nosso mundo em 23 de Junho de 1958.


Fotografia de Cândido de Oliveira nos ficheiros da PIDE (Polícia Internacional de Defesa do Estado) Fotografia gentilmente enviada pelo dedicado leitor do blogue Victor João Carocha. Obrigado. Fotografia e legenda acrescentada às 03.05 da matina de sábado, 05 de Julho de 2014

E tantas vezes Cândido de Oliveira podia - e ao que constava queria - ter regressado ao Benfica
Cândido de Oliveira depois de futebolista tornou-se o melhor treinador português, talvez o melhor de sempre, treinando no Brasil o mítico CR Flamengo, em 1950, importante ano da fase final do Campeonato do Mundo realizado no Brasil. Durante os anos 30, 40 e 50 o Benfica necessitou inúmeras vezes de um treinador. De "um" treinador! Quanto mais do "melhor deles"! Para António Ribeiro dos Reis, um dos pilares do Benfiquismo que burilou o Benfiquismo do pioneiro Cosme Damião: Quem sai porque quer não regressa por querer...

Uma promessa para 24 de Setembro
Deixo já a digitalização de uma fotografia (a do início deste texto) retirada de uma edição do jornal "O Benfica". Enquanto  procuro uma fotografia com melhor qualidade em que estejam estes dois amigos prometo para dia 24 de Setembro de 2014 - dia em que passam 118 anos do nascimento de Cândido de Oliveira - escrever acerca desta relação benfiquista entre dois Benfiquistas... mas "fora" do SLB.



Copiar (parte) do livro
Entretanto aqui ficam - no final deste texto - deliciosas, mas tenebrosas, páginas de um capítulo do livro de Cândido de Oliveira para quem quiser ler ou copiar para levar de férias. O tempo de ócio vai ser bem ocupado. E não vai ser tempo perdido.

E mais três notas
1.       O prefácio do livro, apenas editado em Portugal depois do 25 de Abril de 1974, é de José Magalhães Godinho que foi o primeiro director do jornal "O Benfica". Por agora fica neste espaço um prefácio que valeria também um magnífico artigo. Mais tarde haverá um texto evocando esse Benfiquista de Sempre, José Magalhães Godinho, nascido em 12 de Fevereiro de 1909 e falecido em 25 de Março de 1994, aos 85 anos;


Só um clube desinteressado do Poder do Estado Novo e sem temer represálias por que também não queria benesses podia ter como primeiro director do Jornal "O Benfica" ainda com o nome inicial de "Sport Lisboa e Bemfica", entre 1942 e 1946, um oposicionista como José Magalhães Godinho que foi referenciado pela PIDE quatro vezes durante o tempo em que dirigiu o Semanário do Clube. E foi preso quatro vezes, duas em 1930 e duas nos anos 40 (1947 e 1948). A sua acção democrática anti-censura, responsável e tolerante deu ao cargo de director do Semanário um prestígio e responsabilidade que outros depois - ao ocupar o mesmo cargo - tiveram dificuldade ou incapacidade em honrá-lo! A essa função e ao pioneiro director...
2.      António Ribeiro dos Reis (10 de Julho de 1896 a 3 de Dezembro de 1961) terá também um destaque neste blogue, em princípio no último dia deste ano (31 de Dezembro) assinalando os 100 anos da sua estreia com o "Manto Sagrado" na 1.ª categoria;

3.      O Benfica nunca foi um clube que discriminasse. Era, sim, um clube agregador que acolhia no seu seio todos os que quisessem engrandecê-lo independentemente da sua ideologia, etnia, género ou classe social. Em contraponto a um democrata, anti-fascista e anti-salazarista como Cândido de Oliveira, o EDB no espírito do Benfiquismo e da Gloriosa Cultura do Clube fará também a evocação de uma outra grande figura Benfiquista, ministro de Salazar: Augusto Cancella de Abreu, presumo que também salazarista e de direita, ao contrário de Cândido de Oliveira. Mas que só exerceu cargos no "Glorioso" depois de deixar de ser ministro e estar ligado ao Poder. Em 14 de Agosto de 2014, dia em que se completam 119 anos do seu nascimento em Anadia, no ano de 1895, o EDB homenageará um antigo presidente da Mesa da Assembleia Geral do Benfica, falecido em 6 de Abril de 1965. E dedicará a Cancella de Abreu o mesmo fervor, dedicação e rigor que terá para com Cândido de Oliveira, praticamente um mês depois. Se bem que o tema não seja o mesmo. Para Cancella de Abreu interessa destacar a sua acção como 11.º presidente da Mesa da Assembleia Geral, entre 27 de Julho de 1956 e 26 de Março de 1964, já doente. Enquanto que para Cândido de Oliveira interessará evidenciar uma amizade "fora do Benfica" entre ele e Ribeiro dos Reis. Ribeiro dos Reis que foi o 10.º presidente da Mesa da Assembleia Geral do Benfica antes de... Cancella de Abreu!




Apesar de preferir destacar o Clube enquanto colectividade e não somatório de individualidades é sempre um prazer escrever acerca de Benfiquistas que sempre serviram o Clube e nunca se serviram dele!

Alberto Miguéns

Prefácio de José Magalhães Godinho ao livro de Cândido de Oliveira



Último capítulo do livro (páginas 129 a 153)










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