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quinta-feira, 13 de junho de 2013

«Nunca encontrei qualquer indício de Cosme Damião ter sido fundador do Sport Lisboa»

quinta-feira, 13 de junho de 2013 13 Comentários
...mas também nunca encontrou qualquer indício de Cosme Damião não ter sido fundador do Sport Lisboa (acrescento eu!)

OPINIÃO

Circula pela internet uma entrevista ao jornal da Sonae do incomodado portista Belmiro de Azevedo, o Público - em que um tal Ricardo Serrado faz afirmações que podem ser TODAS rebatidas com argumentos iguais aos que usa. Vou deixar para depois da inauguração do Museu do Benfica este assunto. Rebatendo cada resposta com questões iguais que desmontam a "pseudoteoria" reclamada. Antes, como "aperitivo" deixo uma demonstração da ligeireza com que ele trata os assuntos. Na "entrevistazinha" há uma questão que ele responde do seguinte modo:

«Em relação ao Benfica, também contesta alguns dados?
Antes de mais devo repetir que a ciência se caracteriza pelo rigor, isenção e honestidade intelectual. Como tal, devo dizer que o meu livro sobre Cosme Damião contém alguma informação que carece de revisão. Isto é, necessita de ser actualizada, nomeadamente um maior questionamento sobre a fundação do Benfica. Fiei-me em demasia nas obras já escritas. Deve-se também a informação errada que consta histórias dos clubes, que são, muitas vezes, mitificadas por má interpretação de uma fonte, desconhecimento da realidade da época ou anacronismo. Sempre tive algumas dúvidas sobre a acta da fundação do Sport Lisboa de 1904. Dúvidas que mantenho e que com o tempo tive tempo de reflectir e de maturar.»

O problema dele não foi esse
Segundo diz «Fiei-me em demasia nas obras já escritas. Deve-se também a informação errada que consta histórias dos clubes, que são, muitas vezes, mitificadas por má interpretação de uma fonte, desconhecimento da realidade da época ou anacronismo.» Mas nada disso. Este não foi o problema para fazer um livro cheio (que nem um ovo) de erros!

O problema dele foi outro!
Foi não ler os livros e os jornais coevos com atenção, dedicação, gosto e reflexão. E repetidamente até aprender o que foi dito e escrito durante os 109 anos do "Glorioso". Foi ser displicente, trapalhão, pretensioso e vaidoso. Para ser "perito" ou querer ter credibilidade não chega apresentar-se, à portuguesa, com um "canudo" (sabe-se lá como!). É preciso ser humilde, gostar de conhecer a verdade e ser criterioso. Com este Ricardo é (quase...) tudo às avessas.

Queixa-se de quê?
Na entrevista lamenta-se que confiou em demasia nas obras já escritas. Mas o problema foi outro. Ele é que não respeitou as "obras já escritas". Há cerca de duas dezenas de exemplos, pois vê-se que as informações por si reproduzidas no tal livrinho acerca de Cosme Damião, foram quase todas - cerca de 90 por cento - retiradas da obra de Mário de Oliveira e Rebelo da Silva, História do SLB, 1904-1954, mas lidas à pressa e por isso transformadas em informações truncadas. Se tivesse lido a obra, com mais atenção, duas ou três vezes, durante muitos anos não cometia, por exemplo, este erro:
Página 64 do Livro Cosme Damião de Ricardo Serrado. Mentira! Esta equipa não é de 1907. Também por isso nada tem a ver com os "oito dissidentes". Vergonhosa legenda e aldrabona


Página 47 da História do SLB 1904-1954 de Mário Oliveira/ Rebelo Silva com a indicação correcta da equipa do "Glorioso" que venceu, por 2-1, o Carcavelos Club em 1907. Informação retirada do jornal "Os Sports" de 15 de Fevereiro de 1907

Como se vê e lê a tal obra que "não é de fiar" é que está correcta! O que é que se passou?! Ou leu mal, truncou a ideia ou quis dar protagonismo a Cosme Damião - estar logo na primeira grande vitória do Clube - colocando-o numa equipa onde Cosme Damião não jogou.

Então de onde vem a fotografia publicada no livrinho? Ei-la!
Página 200 da História do SLB 1904-1954 de Mário Oliveira/ Rebelo Silva com a indicação correcta da constituição da equipa do SLB num jogo no campo da rua da Rainha, em 28 de Abril de 1912, no Porto (atrás as instalações da Câmara Municipal do Porto com viveiros para abastecer os jardins da cidade, actividade do pai de José Monteiro da Costa, fundador do FCP em 2 de Agosto de 1906! Vitória, por 8-2, do SLB no primeiro encontro frente ao FCP

Onde foi ele buscar a fotografia?
Ao tal livro que não é de fiar. Copiou-a da página 200 não há que enganar. É uma fotografia obtida na cidade do Porto, no campo da rua da Rainha, em 28 de Abril de 1912. Quando ele, na página 64 a transforma (qual ilusionista) numa fotografia que não existe (ou pelo menos dela não há conhecimento) a da equipa que, em Carcavelos, a 10 de Fevereiro de 1907, venceu pela primeira vez os mestres do Cabo Submarino. Seis anos de diferença. Como é evidente pelas camisolas, pois já há nove futebolistas com os novos equipamentos (com atilhos) de algodão. E só não são dez porque ele e/ou os editores do livrinho fizeram questão de "tirar" do onze o nosso dedicado Henrique Costa! Apenas Francisco Pereira (irmão do famoso Artur José Pereira) está equipado com a "velha" camisola de flanela vermelha.

Isto é "apenas" um exemplo entre cerca de duas dezenas! Repito!

Vamos deixar-nos de eufemismos e do politicamente correcto (que odeio porque apenas serve para esconder a hipocrisia e permitir ser cobarde). Há pessoas que:

Têm muita queda, mas não têm é onde cair

Alberto Miguéns
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domingo, 2 de dezembro de 2012

Em Luto

domingo, 2 de dezembro de 2012 0 Comentários
HOMENAGEM



Continuamos a evocar, o Benfiquista e Glória do Clube, Guilherme Espírito Santo falecido no domingo, 25 de Novembro. Que notícia triste.


Três temporadas de excelência
Nas primeiras três épocas - 1936/37, 1937/38 e 1938/39 – de Guilherme Espírito Santo no “Glorioso” a equipa de futebol do Benfica realizou 116 encontros, com Espírito Santo a jogar 97 marcando 100 golos, uma média superior a um golo por jogo. “Falhou” apenas 19 jogos em 116: 12 em 1936/37, 2 em 1937/38 e 5 em 1938/39. Pela selecção nacional jogou o encontro de 1937 (um) e os dois iniciais de 1938. Depois foi preterido por Peyroteo nos jogos  39.º, 40.º e 41.º da selecção nacional, todos realizados em 1938, com o avançado-centro Peyroteo a não conseguir – como era habitual, pois marcava muito pouco por Portugal – brilhar na selecção portuguesa de futebol. Guilherme Espírito Santo regressou à selecção nacional em 12 de Fevereiro de 1939, ao 42.º encontro de Portugal.



Tricampeão nacional
Em 1937/38 o “Glorioso” sagrou-se campeão nacional, ou melhor, Tricampeão, com 23 pontos, tantos quantos os do 2.º classificado FC Porto e mais um que o 3.º classificado (Sporting CP). A primeira alínea de desempate era o do confronto entre os clubes empatados em pontos. Ambos com 23, o Benfica conquistou o título por ter vencido (3-1, em casa, no Estádio das Amoreiras, com um golo de Espírito Santo, a fazer 2-1, aos 70’) na 1.ª volta e empatado (2-2, fora, no Estádio do Lima). O FC Porto protestou o título atribuído ao Benfica por não concordar com o desempate através do confronto directo. Preferia a diferença de golos… Manias! Depois de terminado o campeonato nacional, seguia-se o Campeonato de Portugal (actual Taça de Portugal).

Dias de glória frente ao FC Porto: no Campeonato de Portugal
Em 1937/38 os 15 clubes que jogavam o Campeonato de Portugal repartiam-se por: 8 da I Liga, 6 da II Liga e o representante insular (CS Marítimo da Madeira). Nos oitavos-de-final (7 jogos, pois o CS Marítimo estava isento) o Benfica afastou (V 3-0 e E 1-1) o União Futebol Lisboa (2.º classificado na II Liga). O FC Porto afastou (V 6-1 e V 8-1) o Leixões SC (campeão na II Liga).  Nos quartos-de-final o sorteio determinou um FC Porto vs SL Benfica. A 1.ª mão realizou-se no Estádio do Lima (D 2-4, com Espírito Santo a marcar um golo, o 2-2, aos 30’). Na 2.ª mão, em 5 de Junho de 1938, a tarde foi gloriosa com o Benfica a arrumar o FC Porto, com 7-0, com Espírito Santo a marcar três golos: 4-0, aos 25’; 6-0, aos 50’; e 7-0, aos 55 minutos.

 
  
Faleceu o último sobrevivente do Dia da Mentira (23 de Abril de 1939)  
Em 1938/39, o Congresso da Federação Portuguesa de Futebol decidiu alterar a designação das competições, se bem que mantivesse os regulamentos dos apuramentos: os campeonatos regionais apuravam para o Nacional (antes I e II Liga) e estas para a Taça de Portugal (antes Campeonato de Portugal). No  campeonato nacional o Benfica chegou à 14.ª (e última) jornada a dois pontos do FC Porto. Só a vitória na derradeira jornada interessava. E nesta, em 23 de Abril de 1939, o Benfica deslocava-se à cidade do Porto para defrontar o FC Porto. Com vitória, por 4-1, na 1.ª volta o “Glorioso” tinha de vencer. Após um jogo muito disputado (0-1, aos 2’// 1-1, aos 7’, por Rogério Sousa// 1-1, aos 44’// 2-2, aos 48’, por Alexandre Brito// 2-3, aos 61’// 3-3, aos 61’, por Alexandre Brito) o Benfica consegue um pontapé de canto no último minuto. O nosso extremo-esquerdo Valadas marca o pontapé de canto que depois será concretizado em golo “ao segundo poste” pelo nosso extremo-direito Feliciano Barbosa. O árbitro Henrique Rosa, de Setúbal, perante a exaltação dos portistas que acabavam de perder o campeonato, que seria o 4.º consecutivo para o Benfica, invalida o golo. Espírito Santo nunca mais se esqueceu deste triste episódio, afirmando que nunca vira, nem antes, nem depois nada igual”. E que em campo tinha conquistado para o Benfica, mais um título de campeão nacional. E foi verdade. Só Henrique Rosa nos tirou o que onze gloriosos futebolistas tanto labutaram.



Como se fabricou uma mentira e tirou o quarto título de campeão ao Benfica e o terceiro a Guilherme Espírito Santo Com empate a três golos, aos 90 minutos do lado esquerdo do ataque do "Glorioso" o extremo-esquerdo Valadas (não se vê na foto) marca o pontapé de canto. O árbitro de Setúbal Henrique Rosa está bem colocado. Vê Alexandre Brito (interior-esquerdo) isolado e o guada-redes do FCP Soares dos Reis a saltar sem ninguém a perturbar a sua acção. Vai falhar a intercepção da bola, que ao passar-lhe por cima vai na direcção do avançado-centro Espírito Santo (a saltar à frente de um portista). Guilherme Espírito Santo salta, cabeceia a bola que passa por cima dos portistas (sete aglomerados em cima da baliza), o interior-direito Rogério Sousa também não vai chegar aparecendo - desmarcado, pelo facto dos portistas estarem a marcar a... baliza - o extremo-direito Feliciano Barbosa (não se vê na foto) ao "segundo poste" a fazer o 4 a zero!  Pois... o árbitro setubalense vai anular o golo da vitória no jogo e no campeonato, para marcar falta (sem que ninguém perceba porquê, qual o motivo). Será no local onde está Alexandre Brito que será marcada a falta. Mais tarde Henrique Rosa alegará que foi ele, o nosso Brito, o "homem que agarrou um jogador portista". Só se agarrou a sua sombra. Ou o medo! Ou a mentira!

Dias de glória frente ao FC Porto: na Taça de Portugal
No final da temporada de 1938/39, ainda estava bem presente os “acontecimentos da Constituição em 23 de Abril, quando o sorteio da Taça de Portugal reservou, em 11 de Junho, nas meias-finais um FC Porto vs SL Benfica. Na 1.ª mão, perdemos por 1-6 no Estádio do Lima. Uma semana depois, no Estádio das Amoreiras, em 18 de Junho de 1939 a tarde foi de glória, com Espírito Santo a brilhar com dois dos seis golos com que afastámos o FC Porto da Taça de Portugal. Guilherme Espírito Santo marcou aos 27 minutos (1-0) e aos 67 minutos (4-0). Depois do 6-0, aos 71 minutos por Valadas, o FC Porto - por indicação do seu presidente Ângelo César - abandonou, cobardemente, o campo aos 73 minutos!

E mais um dia de glória frente ao Sporting CP
Entre 1934/35 e 1946/47 o apuramento para os campeonatos nacionais (I Liga ou I Divisão) faziam-se através dos campeonatos regionais que se realizavem, previamente, decorrendo até 31 de Dezembro de cada ano, pois o campeonato nacional iniciava-se no início de cada Janeiro. Em 1939/40 com a mudança de treinador (Janos Biri no lugar de Lipo Hertzka) houve alterações na linha avançada do Benfica. Biri queria um avançado-centro possante com os dirigentes do Clube a contratarem Francisco Rodrigues, ao Vitória FC, de Setúbal. Guilherme Espírito Santo passou a jogar (e muito) na ponta direita. A jogar e a marcar! Em 1939/40 o campeonato regional de Lisboa decorreu com brilhantismo registando-se na 9.ª jornada, em 10 jornadas que completavam o 34.º Regional de Lisboa um dos melhores encontros da nossa história. Atrás do Sporting CP – que vencera os últimos seis Regionais, ou seja desde que o “Glorioso” vencera o último em 1932/33, só a vitória permitia recuperar um título que fugia há seis épocas. Em 3 de Dezembro de 1939 o Benfica, com 5-0, dizimou o Sporting CP.  O “Glorioso” ao intervalo já vencia por 2-0, com golos de Francisco Rodrigues, aos 10’, e Valadas, aos 19 minutos. Depois do intervalo surgiu Espírito Santo a fazer um “hat-trick” perfeito com três golos consecutivos: 3-0, aos 51’, 4-0, aos 72’ e 5-0, aos 87’. Três golos, ao Sporting CP, em 36 minutos. 

Espírito Santo: Orgulho do Benfica e de Portugal
Guilherme Espírito Santo completara 20 anos, em 30 de Outubro de 1939. Pelo Benfica, até 31 de Dezembro de 1939, conseguira dois títulos de campeão nacional (1936/37 e 1937/38) e um título de campeão regional (1939/40). Era internacional português, com 4 jogos e um golo à selecção da Hungria. Detinha três recordes nacionais no atletismo: salto em altura (1,825 metros, desde 3 de Julho de 1938), salto em comprimento (6,89 metros, desde 10 de Julho de 1938) e triplo salto (14,015 metros, desde 17 de Julho de 1938).



Lá no 4.º anel continuará orgulhoso pelo “seu/ nosso” Benfica

Alberto Miguéns

NOTA: Estes apontamentos são possíveis por que resultam de muitas horas de conversa franca e amiga, durante mais de década e meia, entre um adepto do Benfica e esta Glória do Clube. Um enorme futebolista e personalidade fantástica, que era o paradigma do Jogador e do Benfiquista: simples, virtuoso, trabalhador, dedicado e generoso. Só posso estar agradecido, por ter aprendido tanto com Espírito Santo.


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