UM PEQUENO GESTO – ENVIAR UMA CARTA – QUE PROVOCOU MUDANÇAS PROFUNDAS NO RUMO DO CLUBE.
AVISO
INICIAL: O texto de hoje é acerca da Gloriosa História. E é um texto “puro e
duro” acerca da mesma. Só para quem gostar. Espero não defraudar as expectativas.
Para quem não gosta é melhor não gastar tempo e esperar por amanhã! O que não
quer dizer que o de amanhã tenha interesse. É sempre relativo.
Faz hoje precisamente cem anos – 24 de Junho de 1916 - que a
Direcção do Sport Lisboa e Benfica comunicou, por carta, ao presidente da Direcção do
“Desportos de Benfica” o seguinte:
«Pensando
esta Direcção que da reunião das nossas associações alguma coisa de bom e
grandioso adviria para o desporto português e que desta forma se poderia
constituir uma associação que pudesse desenvolver com vantagem os diferentes
ramos desportivos, muito gratos ficávamos se V. Ex. fizesse nomear três
delegados que o nosso vai nomear, para estudarem a forma de pôr em prática o
nosso pensamento, reatando, embora de forma diferente, as nossas “démarches”»
A
Direcção do SLB
Dr. José Antunes dos Santos Júnior
Eduardo Conceição Silva
Eduardo Martins Pereira
Henrique Jaime Ferreira de Sousa
Francisco Alberto da Silveira
Alberto dos Santos
Cosme Damião*
*
Cosme Damião não integrava a Direcção, nem qualquer outro dos dois Órgãos
Sociais mas também assinou a carta. Tinha deixado de jogar em 26 de Fevereiro
de 1916 mas mantinha-se como capitão-geral (responsável pela orientação
desportiva do Clube)
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Com entrada pelo n.º 20 do Largo do Carmo, no 1.º andar (na actualidade) onde funcionou a Sede do SLB desde 1 de Janeiro de 1915. Foi neste espaço acanhado (mesmo assim a melhor Sede desde 28 de Fevereiro de 1904) que há precisamente cem anos se escreveu a carta que iria mudar a Vida associativa e desportiva (ecléctica) do clube, mas não o Ideal. Este continuou se bem que num nível social mais abrangente. Agora uma nota menos agradável. O Clube tinha apenas um funcionário nesta Sede. Pois foi este funcionário, aquando da passagem do Benfica por este local (1 de Janeiro de 1915 a 30 de Novembro de 1916) que pegou nos dois bronzes de 21 de Abril de 1907 - os primeiros troféus conquistados pelo "Glorioso" - e empenhou-os em proveito próprio! Um dia negro que fez perder para sempre os dois primeiros troféus a entrarem no património do Clube! Actualmente resta uma imagem de 1910. Cinco ou seis anos antes do funcionário ter uma lembrança má
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Iniciativa de longo alcance
Com o sucesso da carta escrita há precisamente cem anos, o Benfica iria passar de um clube meramente futebolístico (embora consagrado,
reconhecido e imensamente popular) para uma instituição afirmada com um valor
desportivo e social de excelência entre os clubes referência de então, com
destaque para o Ginásio Clube Português. Em 1916 nascia o clube desportivo.
Ficava para trás o clube de futebol.
Desportos de Benfica: Origem e desenvolvimento
Em 1912, quando o “Glorioso” deixou Benfica para ter Sede na
Baixa e campo em Sete Rios também deixou uma sucursal pois tinha muitos
associados e futebolistas a viver nessa zona da cidade. Tão depressa instalou a
sucursal como esta se foi tornando cada vez mais autónoma. Em 16 de Fevereiro
de 1913 foi fundado o “Desportos de Benfica” (DB). Os dirigentes do DB, com
forte bairrismo à mistura e ideia de grandeza depressa pensaram em deixar a
acanhada sede no n.º 322 da Estrada de Benfica para adjudicarem à “Empresa de
Melhoramentos de Benfica” a construção de instalações de relevo e imponência
(para a época e para a sua dimensão) entre a avenida Gomes Pereira e a Quinta
de Marrocos, para uma Sede dotada de instalações desportivas do melhor que
havia em Portugal, como a Imprensa da época reconhecia. Pelo menos do que se
conhecia.
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| Amplo espaço para construir em 1911 (data do mapa da esquerda) um edifício com outras instalações que se mantêm na actualidade, mais de um século depois de inaugurado (24 de Maio de 1914) propriedade da Junta de Freguesia de Benfica, com rinque (centenário) e piscina (onde se localizaram os campos de Ténis) |
Plano com grande ambição para o Desportos de Benfica
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| Reprodução de parte da página 250 da História do SL Benfica (1904-1954); volume I; Mário de Oliveira e Rebelo da Silva; edição dos autores; Lisboa; 1954 - 1956 O estado das infraestruturas aquando da inauguração em 24 de Maio de 1914 |
A História da Sede que um dia seria Gloriosa
A primeira pedra foi colocada em 7 de Setembro de 1913 e a
inauguração em 24 de Maio de 1914 pagando uma exorbitância mensal pelo
arrendamento: 120 escudos. Os custos de arrendamento e manutenção - tinham vários funcionários - eram elevados
para a expressão associativa do “Desportos de Benfica”. As dificuldades iam
sendo camufladas com empréstimos de dirigentes abonados – com destaque para
Nuno Themudo - que recebiam como garantia bens do clube. Até que em 1916 a
situação começou a revelar-se insustentável. Havia um clube pequeno (DB) com
instalações gigantes de excelência e um clube gigante (SLB) com instalações
exíguas a necessitarem de serem expandidas. Estava-se mesmo a ver no que estava
para acontecer! Em breve seria a Sede do SLB até…31 de Julho de 1981!
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| Imagem digitalizada da página 339 da História do SL Benfica (1904-1954); volume I; Mário de Oliveira e Rebelo da Silva; edição dos autores; Lisboa; 1954 - 1956 |
Relações entre os dois clubes
Os dois clubes foram afastando-se à medida que os
Benfiquistas foram deixando de ter destaque nas Direcções do “Desportos de
Benfica”, em particular, outro gigante do Benfiquismo, infelizmente esquecido: Alfredo Alexandre Luís da Silva,
que foi para Faro, fundando nesta cidade a filial: Sport Lisboa e Faro (actual
Sport Faro e Benfica). Numa reunião de Direcção do “Glorioso”, em 14 de Agosto
de 1915, foi abordado o assunto “Desportos de Benfica”. Henrique Jaime Ferreira
de Sousa (vogal) era favorável a uma aproximação, mas Cosme Damião (capitão-geral)
foi contrário. Duas perspectivas. Perceber a importância “estratégica” do
edifício Sede do “Desportos de Benfica” bem como da sua implantação no tecido
social e económico de Benfica permitindo à grandeza do Benfica expandi-lo para
lá do bairro (para Henrique Sousa) mas cautelas acrescidas com a situação
catastrófica das finanças do clube do bairro de Benfica, sabendo-se que «tinha dado um
passo maior que a perna» (para Cosme Damião).
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| Reprodução de parte da página 248 da História do SL Benfica (1904-1954); volume I; Mário de Oliveira e Rebelo da Silva; edição dos autores; Lisboa; 1954 - 1956 |
Desenvolvimentos seguintes
Não foram fáceis, com avanços e recuos. Por vezes parecia
impossível conciliar uma fusão desejada entre dois clubes mas onde os
interesses que cada um queria salvaguardar pareciam inconciliáveis. Entre 16
de Setembro de 1916 (assembleias gerais em cada um dos clubes) e 1 de Dezembro
de 1916 (inauguração oficial da Sede como propriedade, alugada, do Benfica)
muita “pedra foi partida”. Algumas tão mal partidas que deixaram “lascas” que
provocaram muitos dissabores num futuro muito próximo. Mas isso será assunto
para 2017! Se ainda existir este blogue! E tudo indica que sim!
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| Estatutos do Sport Lisboa e Benfica; 1918. Aquela adenda ao artigo n.º 1 (mesmo a redacção deste) ilustra bem como foi complexa a fusão entre os dois clubes, embora o SLB mantivesse o nome! Como todos sabemos a "obrigatoriedade" esfumou-se com o tempo |
Desenlace
A
ida do Clube para Benfica, especificamente para aquele espaço magnífico, teve
consequências desmesuradas para a época (estávamos em plena Grande Guerra). O
Benfica alterou-se profundamente. Podemos dizer que “cosmopolitou-se”.
1. Antes
era já um clube famoso e popular mas as Sedes não passavam de pequenos espaços
– um quarto, depois dois, finalmente um andar – próximos do centro da cidade. Em
1916 passou a ter uma Sede que dava ao Clube uma aura de instituição. E era.
Passou a ser;
2. Antes
era ecléctico, praticando inúmeros desportos tendo como seus praticantes,
geralmente, futebolistas com aptidão para outras modalidades. Em 1916 as
Secções ganharam mais autonomia e há uma expansão do número de desportos
praticados e qualidade traduzida em títulos. Tudo com o aproveitamento das
condições que todo o espaço envolvente ao edifício da Sede proporcionava;
3. Antes
o clube tinha movimento nos dias de jogo das equipas de futebol, nos espaços
onde jogava, mesmo “fora”. A Sede tinha apenas um funcionário e servia para
resolver assuntos burocráticos – inscrições e pagamento de quotas para os
associados ou assuntos a tratar com atletas e troca de correspondência com
outras entidades, de clubes a federações. Em 1916 o edifício – mesmo
“deslocalizado” da Baixa da Capital, vivia um corrupio de pessoas, para
praticar alguma modalidade, frequentar as actividades e iniciativas de carácter social. Um “brinquinho”!
Como um pequeno gesto mudou tanto. E tanto
fez crescer o Benfica
Alberto Miguéns
NOTA1: Agradecimento público ao presidente Jorge Brito (1927 – 2006) que permitiu (autorizando) em 1993
e 1994, que eu lesse todas as actas da Direcção bem como das assembleias gerais
e delas pudesse extrair apontamentos e excertos, numa manifestação de confiança, em quem não conhecia, de grande Benfiquismo. Penso que tenho provado que fui merecedor
da sua confiança e que tenho honrado tal gesto com elevada consideração.
NOTA2: Agradecimento público ao Benfiquista António da
Câmara Adão (1901 – 27 de Janeiro de 1980) que se dispôs, aos 78 anos, a um encontro, em 1979, na Secretaria – rua
Jardim do Regedor – e poucos dias depois a guiar um jovem que mal conhecia, com
18 anos, pela Sede (embora já muito degradada) mas que ele conhecia tão bem, em
espaço e no tempo, como a palma das suas mãos. Lá no Quarto Anel espero que ele
não tenha de me ouvir dizer/escrever muitas asneiras (disparates) acerca de
assuntos que só ele podia contar com total veracidade e ínfimo pormenor.
Obrigado pelo que aprendi com um Benfiquista de valor incontável. Naqueles dias
subi mais dois - dos milhares de degraus - que o Benfiquismo, felizmente, tem!
NOTA3: Em 15 de Julho de 2016 o «Em Defesa do Benfica» regressará a este assunto, embora numa outra perspectiva abordando a
primeira eleição de Félix Bermudes para presidente da Direcção do SLB. Isto
porque além desse significado intrínseco – ter um dos pioneiros do Sport Lisboa
a presidir ao SLB – estes Órgãos Sociais tiveram o propósito de “preparar o
caminho” para a fusão dos dois clubes: Sport Lisboa e Benfica com o Desportos de Benfica.