HÁ UM CAPÍTULO DENTRO DA HISTÓRIA DO FUTEBOL PORTUGUÊS, EM LISBOA, NOS ANOS 50, QUE NUNCA É CONTADO.
Que o seja com o máximo de rigor possível. Depois a
apreciação do seu efeito, no futuro dos clubes, é puramente da minha
responsabilidade.
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| Dia da inauguração |
A Luz e o sucesso do SL Benfica (parte I: 1954)
O projecto do estádio não teve a aceitação absoluta e "fácil" entre os
associados do Clube. Só a personalidade e prestígio de Joaquim Ferreira Bogalho
permitiu fazer um estádio para 35 mil pessoas embora pudesse aguentar com 40
mil…dizia-se. A generalidade dos Benfiquistas queria um estádio maior e pistas:
ciclismo e atletismo. Só assim seria um estádio. De contrário não passaria de
um campo. Bogalho pouco se importava. Ele lançou um desafio aos Benfiquistas. O
estádio será o que os Benfiquistas conseguirem fazer. Nem será mais (para não
criar encargos financeiros incomportáveis que enfraqueçam o Futebol como tinha ocorrido com a construção do estádio nas Amoreiras, entre 1923 e 1925) nem menos, pois causaria problemas face
ao número de associados crescente. Pistas? Nem pensar. Encarecia a obra
(obrigando a ter um perímetro exterior maior para manter a lotação) e não fazia sentido pois
raramente seriam utilizadas ao contrário do futebol com jogos a cada quinze
dias, pelo menos! E o estádio só seria feito à medida que houvesse dinheiro para o ir
erguendo. Mais dinheiro e mais rápido a chegar ao Clube significaria que seria inaugurado mais cedo.
Isso permitiu (com a colaboração das páginas centrais do jornal “O Benfica”)
uma campanha de mobilização por todo o Mundo Benfiquista que é uma autêntica
Odisseia sem paralelo na Gloriosa História! Quando questionavam: É muito
pequeno! Não tem pistas! Não tem iluminação! Não tem cobertura na bancada dos
bilhetes mais caros (central) que atraia os mais ricos (os associados ficavam
do lado contrário)! Alguns mais estrangeirados até argumentavam: não tem
camarotes como já se faz em Espanha, Itália e Inglaterra! Bogalho justificava
sempre com o mesmo argumento. Há um plano de expansão que contempla isso tudo e
muito mais. Depende dos Benfiquistas a sua concretização!

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Consta que quando Bogalho
quis saber o custo de cada elemento - primeiro anel,
segundo anel, semi-bancada com camarotes cobertos e acessos directos ao segundo
anel - recusou (e a Direcção concordou) os dois últimos por serem «tão
dispendiosos quanto os dois primeiros: as bancadas do primeiro e segundo
anéis»! A construtora
insistiu: Mas é para os dirigentes ficarem bem instalados! Bogalho retorquiu: Logo arranjaremos um sítio! E assim foi, entre o primeiro e
o segundo anel do lado norte atrás da saída dos balneários (na foto de
baixo...em baixo)! À Bogalho! À Benfica!
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O Restelo e o declínio do CF “Os Belenenses” (1956)
Os associados (mas principalmente os dirigentes) do clube de
Belém não mediram as consequências dos gastos. Queriam um estádio maior que o
do Benfica (44 mil pessoas podendo ser ampliado no topo norte até 51 mil
lugares…dizia-se!), com duas coberturas (central e associados) depois de desistirem de uma contínua, iluminação artificial
e pista de atletismo! Um clube que apenas reservara 13 mil lugares (30 por cento da lotação) para os seus associados - a contar com o seu aumento devido ao novo estádio - dispunha de 31 091 lugares para o público! Uma "perfeita loucura"! Dinheiro? Não havia, mas para isso é que há instituições de
crédito! Endividaram-se tanto, que nem o acordo de pagar uma mensalidade à Câmara Municipal de Lisboa (CML) conseguiram - apenas os primeiros quatro meses foram pagos - sendo intimados a entregarem o estádio à CML, em 29 de Junho de 1961. Nem cinco anos durou na posse do clube. Pouco depois passaria a estádio Almirante Américo Tomás.
Antes do estádio do Restelo foram campeões (1945/46) conseguiram ser segundos classificados por duas vezes e terceiros em dez campeonatos nacionais. Depois da inauguração
(23 de Setembro de 1956) foram segundos uma vez (1972/73) e terceiros cinco
vezes (a última em 1987/88).

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| Dia da inauguração |
O José Alvalade e o declínio do Sporting CP (1956)
O Sporting CP ainda elevou mais a fasquia. Um estádio para 60
mil pessoas totalmente coberto! Com duas pistas - atletismo e ciclismo - e iluminação artificial. Depois
começou a faltar o dinheiro e eram só duas coberturas. No final nem conseguiram
fechar o estádio deixando-o incompleto na bancada oposta à da cobertura! Onde havia um peão que eu frequentava quando o Benfica por lá passava! De 60 mil acabaram em 42 610 como lotação oficial! Mesmo assim, mais 2 610 que "o do Benfica a deitar por fora"! A inauguração
foi em 10 de Junho de 1956 que o SCP decidiu adiantar para coincidir com as
comemorações oficiais do «Dia de Camões, de Portugal e da Raça», pois era para
ser inaugurado em 1 de Julho, no 50.º aniversário do clube. Antes do estádio, o
Sporting CP sagrou-se campeão nacional nove vezes em 22 edições (41 por cento).
Nas 60 seguintes outras nove conquistas (mas apenas 15 por cento dos títulos disputados). Esclarecedor. E não foi
pior porque encurtaram os encargos ao encurtarem as bancadas!


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| Dia da inauguração |
A Luz e o sucesso do SL Benfica (parte II: 1960 e seguintes)
O Benfica foi cumprindo o plano que estava previsto, muito
por culpa de dois presidentes mecenas que muito dinheiro deixaram ao Clube:
Maurício Vieira de Brito (torres de iluminação com a colaboração de vários Benfiquistas na campanha
dos azulejos) e Terceiro Anel (quase todo pago por ele); e o irmão Adolfo Vieira de Brito com o pavilhão para as modalidades no interior do Terceiro Anel, em 15 de Maio de 1965, bem como no melhoramento do acesso a este. Além de Jorge Brito (como associado) com a pista
sintética de atletismo no campo n.º 2 (onde está a actual "Catedral"). E depois muitos outros melhoramentos – campos de ténis,
pavilhão polivalente (Voleibol e Andebol), piscina e outros três campos (3, 4 e 5) – com “desvio” de dinheiro do Futebol
tudo a culminar com o “Fecho do Terceiro Anel” aproveitando transferências de
futebolistas para o estrangeiro (disse-se!). Antes da inauguração, em 1 de
Dezembro de 1954, da “Saudosa Catedral” o Benfica conquistou oito títulos.
Depois até ao seu desmantelamento (2002/03) o “Glorioso” conquistou 22! Além
das campanhas europeias, mas quanto a estas não há possibilidade de comparação
pois o SLB só teve estreia na UEFA já na Luz!
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| Só quase quatro anos depois da inauguração houve iluminação artificial. O SLB até teve de defrontar, em 5 de Setembro de 1957, o FC Barcelona (V 4-0) no estádio do Restelo por não ter luz artificial! |
Até na Guerra dos Estádios dos anos 50
quem soube merecer o Futuro fomos nós!
De um lado ou do outro a elegância da imponência!
O que não é fácil! Ser-se grande e belo ao mesmo tempo.
Um amor perdido! O meu primeiro amor!
Obrigado Bogalho! Mais uma vez!
Alberto Miguéns
NOTA1: As quatro fotografias são "bonecos" (como ele dizia) de Roland Oliveira. As três primeiras até voou de helicóptero, em 4 de Janeiro de 1987. Nunca ninguém conseguiu fotografar o nosso amor como ele! Quantas vezes ficámos os dois - ou três, quando o senhor Macarrão também se queria inspirar - na bancada a olhar, sem dizer nada, sem conseguir dizer nada, a contemplar o estádio vazio que parecia respirar? Quantas vezes não fomos ao murete do telhado daquele primeiro prédio em frente (actualmente do outro lado da av. Lusíada) furtivamente (o nosso amor enlouquecia-nos), para não darem por nós, tirar uma panorâmica como esta? Para registarmos as alterações na nossa Cidade Desportiva. Que saudades, Macarrão! Que saudades, Roland!
NOTA2: Enquanto o "Glorioso" optou por dois mealheiros gigantes (na Feira Popular e na Secretaria) além de leilões e dádivas, o SCP «mais fino» estabeleceu a "Subscrição Lagarto" que se revelou pouco convincente para utilizar um eufemismo!


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| Ainda por lá andei algumas vezes mas só via vermelho-e-branco. As riscas evitava pois sempre me causaram dioptrias! |
NOTA3: O Poder do Povo contra o desprezo do Poder Autocrático. O Terceiro Anel foi utilizado pela primeira vez em 29 de Maio de 1960 e inaugurado oficialmente em 5 de Outubro de 1960. O primeiro troço da Segunda Circular, entre o Calhariz de Benfica (agora conhecido por Fonte Nova) e o Campo Grande, em 20 de Agosto de 1962. Os seja, durante oito temporadas o estádio da Luz com 40 mil lugares (1954/55-1959/60) ou 75 mil (1960/61-1961/62) foi uma ilha servida por uma azinhaga (da Fonte), uma rua-quase-azinhaga (Soeiros) entre a estrada de Benfica e a estrada da Luz. A partir desta é que foram feitos acessos para transportes públicos directos. Mas isso merece um texto à parte. Seguem-se fotografias da AML aquando da construção da Segunda Circular em 1961. E uma fotografia aérea de 1958.
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| Não é ficção, foi realidade |