O Desporto é desporto ou é uma “Guerra Limpa”
O futebol é o mais belo dos
desportos (em simplicidade nas regras e objectivos do jogo, concepção das
jogadas e funcionalidade das competições, a eliminar ou a pontuar) e também o
que mais perto está da evolução ancestral do ser humano (pequenas tribos
coloridas que enfrentam outras com cores diferenciadas num espaço amplo ao ar
livre), daí a sua popularidade. Até aqui nada de novo. O futebol só difere, em
grandeza, de outros desportos colectivos (na maior parte dos países) porque é
antigo e popular. Ou seja tudo o que se relaciona com o futebol é mais
mediático, porque tem maior visibilidade.
Exacerbar nacionalismos políticos
O que se vai observando –
muito instigado pelos media (televisões, jornais e rádios) devido às “lutas” de
audiências e tiragens – é transformar as competições desportivas em lutas
políticas e combates nacionalistas. Isto à medida que os exércitos nos países
democráticos ocidentais foram deixando os campos de batalha e fazendo vida nos
quartéis. Nas competições mais mediáticas – Campeonatos do Mundo e da Europa de
Futebol e Jogos Olímpicos – os media querem fazer acreditar – até porque
“beneficiam” da exibição, ao vento, nesses eventos dos símbolos nacionais,
hinos e bandeiras - que o que está em confronto não é o desporto, a capacidade
física e táctica individual, quando muito a capacidade dos vários países em
proporcionarem condições para a pratica desportiva e consequente sucesso, por
boas e consistentes práticas, mas o que fica exposto é um confronto político
entre dois ou mais países. Daí os termos utilizados: A Espanha ganhou à Itália;
a Espanha é melhor que a Itália; a Espanha é superior à Itália; a Espanha
humilhou a Itália; etc e tal. Mentira. Porque a Espanha não é a melhor da
Europa. Nem a Espanha, nem qualquer outro país, no passado ou no futuro, que
conquiste o Campeonato da Europa. É a melhor no futebol. Os jogadores de
futebol espanhóis são os melhores da Europa. Isto que, afinal, é tão óbvio
parece ser esquecido com tanta facilidade.
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| Os dois capitães das selecções de futebolistas de Espanha (Mariano Arrate) e Portugal (Cândido de Oliveira) na estreia da selecção portuguesa, em Madrid, a 18 de Dezembro de 1921 |
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| O treinador Cândido de Oliveira na selecção nacional n.º 45, no 16.º Espanha-Portugal, em 16 de Março de 1941, em Bilbau. Quatro futebolistas do Benfica: Francisco Ferreira (2.º a contar da esquerda, em cima), guarda-redes Martins (4.º a contar da esquerda, em cima) e a seu lado, Gaspar Pinto e Cândido de Oliveira. Guilherme Espírito Santo (em baixo, 1.º a contar da direita), então com 21 anos, actualmente a caminho dos 93 anos, continua, felizmente, entre nós | | | |
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Mestre Cândido de Oliveira: inteligente, esclarecido e
cosmopolita
Não se pense que este
“fenómeno” de querer fazer corresponder o desporto de cada país ao País na sua
globalidade, ou seja à sua sociedade, é de agora. Não é! Se bem que, quanto a
mim, tem vindo a crescer e a recrudescer, muito porque as guerras na Europa,
entre as principais potências, há muito que acabaram, fazendo parte nem da
memória, mas apenas de livros de História e cenas de filmes. Mas fomenta-se uma
espécie de “guerra limpa” (matar é marcar golo; ganhar a batalha é vencer o
jogo; ganhar a guerra é conquistar o troféu). Que provoca em cada pessoa uma
espécie de orgulho nacionalista, de ser superior a outro. Uma vontade muda.
Quem melhor separou
política de futebol foi Cândido de Oliveira. Que nos anos 50 se insurgiu contra
um título de jornal, antes de um jogo entre a selecção de Espanha e de
Portugal, que dizia mais ou menos (cito de memória) o seguinte: QUAL É O MELHOR
PAÍS: PORTUGAL OU ESPANHA?”
Pois Mestre Cândido de
Oliveira, com a sabedoria, inteligência e prestígio que granjeara, criticou
essa frase afirmando (volto a citar de memória): Portugal não vai enfrentar
Espanha. O que vai haver é um jogo de futebol, em que uma equipa de
futebolistas portugueses escolhidos por Tavares da Silva vai medir forças com
uma equipa de futebolistas espanhóis escolhidos por Pedro Escartín”! Nem mais,
mestre Cândido. É assim o desporto. O que está em causa é mostrar que em
determinada modalidade, o desporto desse país é superior ao que se pratica noutro
país. Mas… acaba aí!
Felizmente o clubismo está acima do nacionalismo
Mas o que é que, até aqui,
esta lenga-lenga, meio sermão, meio doutrinal se relaciona com o “Em Defesa do
Benfica”. É que com os clubes (na sua generalidade, porque também podem ser
feitos aproveitamentos espúrios) o aspecto nacionalista não existe. O futebol
enquanto actividade desportiva organizada, com forte ligação às origens dos
primeiros grupos de civilização humana encaixa muito mais (quase que me
atreveria a dizer em exclusivo) no confronto entre equipas dos clubes que entre
Nações. O futebol dos clubes é uma forma de colocar em confronto, em termos
colectivos, a vontade individual que se associa num grupo, em torno dos
símbolos – nome abreviado e popular, sigla, emblema e cores - de cada clube. As
rivalidades são geridas dentro de cada cidade, região, país ou continente. O
futebol dos clubes não é, por base, nacionalista. É universalista. O Benfica
tem adeptos em todos (ao quase todos…) os países do Mundo. É um factor de união
entre etnias, povos, línguas e culturas díspares. Não provoca xenofobia. Os
futebolistas são de qualquer nacionalidade. O importante é honrarem o “Manto
Sagrado”! Gosto mais “deste” futebol. Desta forma de sentir e ver o futebol. Se
o futebol das selecções (em particular se os media não experienciassem) fosse
menos chauvinista, há aqui um adepto para isso! Um adepto que gostava de ver os
jogos entre selecções nacionais como Mestre Cândido!
As Nações “defrontam-se” nas condições que criam para
melhorar a vida dos Povos
O que devia ser importante
no confronto entre países era na capacidade que estes têm em gerar condições
económicas para que estas proporcionem qualidade de vida aos seus habitantes. É
aqui que os povos (e em particular a comunicação social) deviam “investir”! Os
países são melhores que outros se os seus habitantes tiverem condições de vida
superior aos outros. Os países deviam ter brio em gerar – através do sistema de
educação e valores - cidadãos com qualidade e disponibilidade para se
organizarem em partidos políticos (7 500 assinaturas de eleitores) ou
reorganizarem os partidos existentes e proporem-se a ser eleitos pelos outros.
Depois de eleitos terem capacidade para melhorar as condições sociais e
económicas de todos. Ganhar uma competição desportiva é importante, mas não é
fundamental, nem resolve – no concreto – a vida das pessoas. Pode anestesiar,
mas não “cura”!
Alguns valores onde se vê a "qualidade" dos países, ou seja, a valorização do dia-a-dia (melhor saúde,educação, desafogo financeiro, ...) dos seus habitantes.
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| O flagelo do desemprego, para quem precisa de trabalhar e não consegue emprego |
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| A Dívida Pública que torna os países dependentes dos credores |
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| O rendimento anual por pessoa que permite ter ou não ter qualidade de vida. |
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A desigual distribuição do rendimento. Portugal tem um rendimento baixo (quadro acima) e ainda o distribui muito mal. Os 20 por cento mais ricos têm sete vezes maior rendimento anual que os 20 por cento mais pobres...
Para a POLÍTICA o que é da
POLÍTICA. Para o DESPORTO o que é do DESPORTO.
Alberto Miguéns
NOTA1: É já uma certeza. O FC Barcelona e a selecção espanhola criaram uma
nova táctica, uma outra forma de jogar futebol – e este inventado há quase 150
anos, em 26 de Outubro de 1863, já teve muitas tácticas. Como se “combateram”
tácticas, que o tempo foi mostrando serem “quase invencíveis”? O que ocorreu
foi os adversários adoptarem a mesma táctica e conseguirem treinadores e
futebolistas que a interpretassem melhor!
NOTA2: A selecção portuguesa esteve muito bem na fase final. Entrou apurada
“à justa” pelo bota-fora depois de um 2.º lugar no grupo de apuramento e chegou
às meias-finais da fase final do Europeu eliminada, após zero a zero em 120
minutos, no desempate por pontapés da marca de grande penalidade pela futura
campeã europeia. Mas… fiquei com a sensação que Portugal beneficiou de ter um
onze titular cujos jogadores não foram muito desgastados, física e
psicologicamente na época de 2011/12 pelos seus clubes. E no jogo com Espanha
beneficiou pelo facto de ter mais 48 horas de descanso, sabendo-se que a
táctica de Espanha exige muito do físico dos seus futebolistas. Não me vou dar
ao trabalho (não é assunto Benfica!) de fazer tantas contas, desde Julho de
2011, aos onzes base das oito selecções presentes nos quartos-de-final. Alguém
fará por mim. Já me chega ter de fazer as do Benfica (com gosto!) e dos nossos
adversários (por obrigação!) por não confiar nos media portugueses! Vou ficar à
espera do Anuário do Futebol Europeu (The European Football Yearbook que está
assinado, no Reino Unido, desde 1988/89) devendo chegar, via correio, lá para
finais de Setembro de 2012.
Assunto selecção encerrado até… 2014 (se ainda por cá andarmos)! O EDB e a
selecção apurada!
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| Em dia de início da época 2012/13, a 109.º temporada do futebol "Glorioso". Que, deseja-se, termine em Glória. À Benfica! Terminar como comecei. Em homenagem. Cândido de Oliveira, em 1915, a tentar surpreender o guarda-redes Morice do Sporting CP. A fazer o que tão bem soube fazer, entre 1914 e 1920. Honrar o Manto Sagrado |