Nicolau Imparável 200 km no Alentejo e Isolado 80 km entre Beja e Évora
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22/08/2019

Nicolau Imparável 200 km no Alentejo e Isolado 80 km entre Beja e Évora

22/08/2019 + 6 Comentários
HÁ 85 ANOS TALVEZ A MAIOR PROEZA DE JOSÉ MARIA NICOLAU, NA 3.ª ETAPA DA 5.ª VOLTA A PORTUGAL, ENTRE FARO E ÉVORA (246 QUILÓMETROS). 


Qualquer pretexto é excelente para escrever acerca de uma das maiores glórias do Benfica equiparado aos melhores futebolistas que jogaram no Clube. José Maria Nicolau fez Benfiquistas milhares de portugueses nos Anos 30 com destaque para o interior de Portugal onde o futebol não chegava, ao vivo e a cores nem a preto-e-branco pois a circulação de jornais era escassa e elitista. Eu soube que o Benfica equipava de vermelho por ter visto a «Gloriosa Equipa» numa competição na Figueira da Foz. E já corria o ano de 1965!


Cores? Vermelho! O ciclista de quem se dizia vestir mais de amarelo que vermelho!

José Maria Nicolau venceu 22 etapas em três voltas a Portugal
Distinguindo-se em muitas outras competições pois venceu todas as que se realizavam no seu tempo, pelo menos, uma vez. Mas a «Volta a Portugal em Bicicleta» é soberana. José Maria Nicolau venceu 22 etapas: sete em 19 (1931); doze em 19 (1932); e três em doze (1934). Conquistou as Voltas em 1931 (II) e 1934 (V) e só não conquistou a de 1932 (III) devido a inúmeros problemas com as bicicletas na primeira parte da competição. Mas esta ficou bem entregue a Alfredo Trindade, ciclista da União Clube Rio de Janeiro (Bairro Alto/Lisboa) e não do Sporting CP como é demasiadas vezes referido. Na «Volta de 1933» (IV) desistiu por doença, na 5.ª etapa (em 18) com um problema nos rins que lhe dificultou muitas conquistas durante esta temporada e que na "Volta" foi fatal.




Uma equipa de «super-craques» reunida para a vitória colectiva na "Volta a Portugal em 1934»: Santos Duarte (Desistiu na segunda etapa quando vestia a camisola amarela), César Luís (4.º classificado), Aguiar da Cunha (3.º classificado) e José Maria Nicolau (vencedor individual).


Nicolau era especialista em fazer fugas longas em etapas onde ninguém esperava que se pudessem fazer
Mas José Maria Nicolau era único. Ia para lá dos limites. Nas 22 etapas que venceu (correu 33 de "amarelo") conseguiu uma vitória por oito minutos e 15 segundos e três etapas com mais de nove minutos de vantagem: 9:33 numa chegada a Vidago; 9:30 numa vitória na Figueira da Foz; e, 9:13 em Évora. Há precisamente 85 anos, a cumprir pelas 18 horas e 16 minutos de hoje. Uma vitória mítica que faria dele ainda mais herói do que já era. Estava-se no final da 3.ª etapa e esta vitória seria comentada em todas as localidades por onde esta Volta, com 12 etapas, iria passar. E durante anos a fio continuou a ser escrita como "daquela vez que Nicolau os foi descolando um a um nos primeiros 50 quilómetros para depois ir sozinho pelo Alentejo até ganhar ao segundo classificado quase dez minutos".



Duas etapas a controlar
Entre a Cova da Piedade e Sines e depois entre Sines e Faro. Chegas em pelotão discutidas ao sprint com a camisola amarela no corpo de dois ciclistas do «Glorioso»:  Francisco Santos Duarte (em Sines, com José Maria Nicolau em 2.º com o mesmo tempo, tal como João Gomes, um excepcional Benfiquista, em 3.º lugar) e César Luís (em Faro, com Nicolau (3.º) e Aguiar da Cunha (2.º) todos do Benfica com o mesmo tempo). 


À esquerda, liderando como habitualmente, o pelotão - era daí que ia esmagando e deixando para trás os adversários - com pedaladas vigorosas e cadenciadas e descidas temerárias. De amarelo, a sua cor por obrigação, vermelho por baixo!

Terceira etapa, em 1934, inolvidável
Desfazendo o pelotão, um-a-um, obrigando Trindade a correr riscos que não lhe era habitual por ser um ciclista mais leve por isso tinha necessidade de "andar na roda" de Nicolau. O acidente do pequeno gigante Alfredo Trindade possibilitou uma "Volta" mais tranquila mas dificilmente algum ciclista, em Portugal, conseguiria para o Jose Maria Nicolau nesta Volta a Portugal querendo igualar os dois triunfos do seu amigo Trindade, em 1932 (pelo UC Rio de Janeiro) e em 1933 (pelo Sporting CP) com a necessidade deste clube ter na equipa um rival para Nicolau ou sujeitar-se a não ser um emblema com popularidade a nível nacional. O FC Porto pagou, bem caro, o facto de só nos Anos 50 ter percebido a importância do Ciclismo para dar popularidade em todo o País aos clubes!


Há falta de melhor que venha o «Diário de Lisboa»
José Maria Nicolau toma a dianteira do pelotão no Ameixial, a cerca de 56 quilómetros de Faro para ir deixando nos 200 quilómetros que se seguiram, todos os ciclistas para trás, até já estar isolado em Beja (depois de mais de 180 quilómetros percorridos) para conquistar, para o segundo classificado, nos 80 quilómetros finais até Évora quase dez minutos de vantagem. Impressionante!




Os tempos não estavam correctos como o jornal noticiou no dia seguinte


José Maria Nicolau controlou a resto da «Volta» averbando mais duas vitórias em etapas: Portalegre (4.ª) e Braga (8.ª) 
Foi uma «Volta» de grande classe com finais de etapas em Portalegre (voltou a vencer isolado com 33 segundos de vantagem para o segundo), Covilhã (5.º com o mesmo tempo - m.t. - do vencedor), Viseu (3.º a oito minutos e 12 segundos de Ezequiel Lino, do Sporting CP que mesmo assim ainda estava a treze minutos e 29 segundos do camisola amarela, José Maria Nicolau), Chaves (4.º com o m.t. de Ezequiel Lino), Braga (venceu ganhando mais quatro minutos e 21 segundos a Ezequiel Lino), Porto (5.º com o m.t.), Coimbra (9.º com o m.t.), Caldas da Rainha (6.º a sete segundos do vencedor) e Lisboa (2.º com o m.t.) mas entrando na pista do estádio do Lumiar na dianteira. 


Conquistou a "Volta a Portugal" com 66 horas, 31 minutos e 18 segundos com o segundo classificado, Ezequiel Lino, do Sporting CP a fazer 66 horas, 49 minutos e 34 segundos, ou seja, mais 18 minutos e dezasseis segundos. Arrasador!

29 de Agosto de 1934: A terceira vitória em tiradas da «Volta 1934» na 8.ª etapa (em 12) numa fuga que "rendeu" 3:10 para o segundo classificado na etapa e 4:21 para o segundo classificado da classificação geral

Grande José Maria Nicolau! Imortal como o seu Benfica!

Alberto Miguéns

6 comentários blogger
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  1. José Maria Nicolau é uma extraordinária figura Benfiquista. Maravilhoso texto. Obrigado.

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  2. Artigo delicioso sobre um dos maiores ciclistas Portugueses de sempre.
    Imagine-se o que não faria nos dias de hoje, com a evolução tecnológica que as bicicletas sofreram.
    Grande desportista, grande Benfiquista, grande divulgador do nome do clube por esse país fora.
    Uma palavra também para outro grande dos pedais: Alfredo Trindade.

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  3. José Maria Nicolau levou o nome do Benfica a todo o Portugal.

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  4. José Maria Nicolau é uma lenda do Benfica!!!

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  5. Sou benfiquista por causa do meu pai. O meu pai, chegado a Lisboa para trabalhar em 1933 com 14 anos, tornou-se Benfiquista por causa do José Maria Nicolau.

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  6. Maravilhosa leitura - incluindo como sempre as imagens.

    Também desconhecia o clube do Trindade (grande história, altamente pedagógica, tiveram os dois, nas corridas e fora delas) em 1932, quando ganhou a Volta.

    E mais desconhecia que esse clube é o meu vizinho da rua de cima - assumindo que o Lisboa Clube do Rio de Janeiro de hoje, na Rua da Atalaia, é o mesmo União Clube do Rio de Janeiro (Bairro Alto/Lisboa) de então.

    Obrigado pelo trabalho e pela generosidade.

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