A criação deste Blogue, ideia de António Melo, tem como objectivo divulgar, defender o Sport Lisboa e Benfica e a sua Gloriosa história. Qualquer opinião aqui expressa vinculará apenas o seu autor, Alberto Miguéns.

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18/07/2016

Acto 3 (Seja Bem Vindo Senhor Féliz)

18/07/2016 + 3 Comentários API
DEPOIS DO RESULTADO DA ELEIÇÃO DE 1930 FÉLIX BERMUDES PENSA VOLTAR À PRESIDÊNCIA DA DIRECÇÃO DO SLB EM 1945.


Ter poucos votos para presidente (275) quando comparado com o vice-presidente (409) foi um rude golpe no ego do nosso Félix Bermudes. O Benfiquismo latente levou-o 15 anos depois a regressar à presidência da Direcção do SLB. Tinham passado 29 anos depois da primeira presidência, em 1916, aquela que apenas durou 82 dias, mas sabia-se que tinha os dias contados por isso foi "normal" nem durar três meses (ver Eleição de Félix Bermudes)

Aos 61 anos (tinha nascido em 1874) decidiu que o “Glorioso” necessitava de mudar de vida
Com a vida familiar estabilizada, profissionalmente realizado embora a morte prematura do amigo Ernesto Rodrigues acabasse com “A Parceria” ainda fez algumas peças:
1934 – com Ascensão Barbosa e Abreu de Sousa: “O Tavares Rico”;
1935 – com Ascensão Barbosa e Abreu de Sousa: “A Bicha de Rabiar”;
1936 – com Ascensão Barbosa e Abreu de Sousa: “As Meninas Pires”.

Com “menos Teatro” dedicou-se à Literatura
Depois da estreia, em 1923, comCinzas e Nada” (versos e novelas) foi preparando novos projectos que iriam ocupar os últimos anos da sua existência. Tal como à “Sociedade Teosófica de Portugal” e à “Sociedade Portuguesa de Autores” que ajudara a fundar em 1925 sucedendo, em 1928, a Júlio Dantas como presidente.

Traduções
E a algo que jamais pode ser ignorado em Portugal, as traduções dos “Versos Doirados dos Pitagóricos” e essa tradução inolvidável de “If” (Se…) de Rudyard Kipling. Há quem diga (embora sendo uma impossibilidade) que é superior ao original. Para os especialistas deixo o original, a tradução brasileira muito inferior e aquela que Félix Bermudes conseguiu. Algo de verdadeiramente notável.


If you can keep your head when all about you
Are losing theirs and blaming it on you,
If you can trust yourself when all men doubt you,
But make allowance for their doubting too;
If you can wait and not be tired by waiting,
Or being lied about, don't deal in lies,
Or being hated, don't give way to hating,
And yet don't look too good, nor talk too wise:

If you can dream - and not make dreams your master;
If you can think - and not make thoughts your aim;
If you can meet with Triumph and Disaster
And treat those two impostors just the same;
If you can bear to hear the truth you've spoken
Twisted by knaves to make a trap for fools,
Or watch the things you gave your life to, broken,
And stoop and build 'em up with worn-out tools:

If you can make one heap of all your winnings
And risk it on one turn of pitch-and-toss,
And lose, and start again at your beginnings
And never breathe a word about your loss;
If you can force your heart and nerve and sinew
To serve your turn long after they are gone,
And so hold on when there is nothing in you
Except the Will which says to them: 'Hold on!'

If you can talk with crowds and keep your virtue,
Or walk with Kings - nor lose the common touch,
if neither foes nor loving friends can hurt you,
If all men count with you, but none too much;
If you can fill the unforgiving minute
With sixty seconds' worth of distance run,
Yours is the Earth and everything that's in it,
And - which is more - you'll be a Man, my son!

Versão brasileira de  Guilherme de Almeida



Se és capaz de manter a tua calma quando
Todo o mundo ao teu redor já a perdeu e te culpa;
De crer em ti quando estão todos duvidando,
E para esses no entanto achar uma desculpa;
Se és capaz de esperar sem te desesperares,
Ou, enganado, não mentir ao mentiroso,
Ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares,
E não parecer bom demais, nem pretensioso;

Se és capaz de pensar --sem que a isso só te atires,
De sonhar --sem fazer dos sonhos teus senhores.
Se encontrando a desgraça e o triunfo conseguires
Tratar da mesma forma a esses dois impostores;
Se és capaz de sofrer a dor de ver mudadas
Em armadilhas as verdades que disseste,
E as coisas, por que deste a vida, estraçalhadas,
E refazê-las com o bem pouco que te reste;

Se és capaz de arriscar numa única parada
Tudo quanto ganhaste em toda a tua vida,
E perder e, ao perder, sem nunca dizer nada,
Resignado, tornar ao ponto de partida;
De forçar coração, nervos, músculos, tudo
A dar seja o que for que neles ainda existe,
E a persistir assim quando, exaustos, contudo
Resta a vontade em ti que ainda ordena: "Persiste!";

Se és capaz de, entre a plebe, não te corromperes
E, entre Reis, não perder a naturalidade,
E de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes,
Se a todos podes ser de alguma utilidade,
E se és capaz de dar, segundo por segundo,
Ao minuto fatal todo o valor e brilho,
Tua é a terra com tudo o que existe no mundo
E o que mais --tu serás um homem, ó meu filho! 


E agora a inigualável de Félix Bermudes




O cinema português
Ao serem adaptadas ao cinema duas peças de teatro de "A Parceria" – O João Ratão (opereta em três actos; 1920) e “O Leão da Estrela” (comédia em três actos; 1925), no período de ouro do cinema português Félix Bermudes viu reconhecido, na tela, a sua qualidade na escrita: “João Ratão”, realizado por Jorge Brum do Canto, estreado em 1940 e “O Leão da Estrela”, realizado por Arthur Duarte, estreado em 1947, quando Félix Bermudes já deixara a presidência do Benfica há dois anos!


A criação do jornal "O Benfica" foi o rastilho...
O SLB há muito que necessitava de um jornal que mostrasse a sua grandeza. No início dos anos 40 do século XX, o Clube era muito mais do que aquilo que a Imprensa - mesmo a desportiva com destaque para o jornal "Os Sports" e revista "Stadium" - mostrava, em termos eclécticos e sociais. Fazia falta um Semanário que defendesse o Clube, divulgasse as suas proezas e anunciasse as suas actividades. Em 28 de Novembro de 1942 surgiu o primeiro número do Jornal, actual "O Benfica" (até 1950 denominado "Sport Lisboa e Benfica"). Mas o Semanário (sábados) superiormente dirigido por José de Magalhães Godinho (clicar para saber a opinião dele acerca de Góis Mota) foi muito mais longe do que se imaginava (ou disse) a propósito da sua criação. Uma série de iniciativas lograram trazer de volta ao Clube, Glórias que por este ou aquele motivo, por vezes fúteis, haviam-se afastado do convívio regular com o Glorioso". Uma dessas grandes organizações ocorreu em 3 de Julho de 1944. 


Tudo isto num momento difícil como se fosse de propósito...
A gerência de 1944 tem muito para contar. Um dia destes talvez aqui no EDB se escreva acerca disso. Até porque envolve uma demissão em bloco da Direcção com subida dos suplentes a efectivos para o SLB mostrar que não temia a prepotência do Estado Novo. Muito menos a ingerência nos assuntos internos do Clube pela DGD - Direcção Geral dos Desportos (conhecida entre os Benfiquistas por DGS, com S de Sporting) dominado por essa figura sinistra chamada Góis Mota. O pai de Manuel Vilarinho, Mário Rodrigues Vilarinho andou nestas escaramuças. O certo é que o Clube vivia momentos de instabilidade pois não era fácil responder em campo (Futebol) e politicamente. Félix Bermudes contagiado pela união entre os pioneiros, que presenciara, em 3 de Julho de 1944, avança para a presidência do SLB, com eleições marcadas para 18 de Janeiro de 1945.


Até amanhã (a segunda presidência)

Alberto Miguéns

NOTA: Haverá quem - mesmo de emblemas rivais, não inimigos - que não tenha gosto em conhecer a História do Benfica? E que não a reconheça Gloriosa?
3 comentários
comentários
  1. Extraordinária a tradução do Félix do poema do Kipling.
    Porque não é uma simples tradução. É a reconstrução do poema em português.
    Abraço
    JR

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  2. Eu gosto muito de saber a nossa Gloriosa Historia.Gostava tambem de saber mais sobre Vieira de Brito e Borges Coutinho porque sao 2 Presidentes que eu ja ouvi falar muito bem mas como nao sao fo meu tempo pouco sei sobre eles.Continue com o fantastico trabalho que eu sei que faz por prazer.

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  3. "Ou é de inveja ou é de mágoa". Só esses não reconhecerão.

    Texto soberbo. Refinado, com abundante informação que ajuda a explicar o regresso de Félix Bermudes à presidência do SL Benfica.

    A tradução de "If" feita por Félix Bermudes tem uma qualidade superior. Percebe-se que dominava o Inglês e que tinha sensibilidade poética. Félix Bermudes trabalhou as palavras não apenas pelo seu significado isolado resultante de uma tradução directa mas também porque harmozinou as ligações entre elas, dando um sentido contributivo para o poema e ritmos fonéticos adequados para a sua recitação. Uma tarefa difícil que só um erudito consegue. E mais, percebe-se que nessa tradução Félix colocou também alguma da sua experiência de vida, feita de perdas e de resistências vinda da sua força do carácter. Homem notável moldado pela vida, forjado nas dificuldades e nas tragédias pessoais. E por isso com mais força amava a vida e admitia que a vida lhe tinha sido benévola. Aquele entrevista a Igrejas Caeiro deu-nos outra dimensão da sua personalidade e postura de vida. Ele que teve um princípio de vida tão duro.

    Esse banquete de 1944 é um evento de enorme interesse. Que pena não termos fotografias com qualidade superior. Os rostos daquelas Saudades Benfiquistas, campeões na primeira década do século XX onde o futebol era tão diferente, tão ingrato e incompreendido. Eles talharam o Benfiquismo. Deram asas e corpo à mística. Fizeram de nós os seus filhos, seguidores, admiradores. A eles devemos a memória e o reconhecimento.

    Obrigado Alberto por mais uma peça que nos orgulha de pertencer ao mais querido e especial Clube do mundo.

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