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19/07/2016

Acto 4 (Segunda Presidência de Félix Bermudes)

19/07/2016 + 6 Comentários API
ENTRADA DE ÁGUIA SAÍDA DE PARDAL. FOI ASSIM A SEGUNDA PRESIDÊNCIA DO NOSSO FÉLIX BERMUDES.


Afastado do dia-a-dia do Clube, entrou num momento de dificuldades mas também euforia. Só que não soube perceber a dinâmica de um Clube que tinha no processo democrático e na assertividade uma das suas características. Muito por "culpa" dele. Pois Félix Bermudes (a par de Cosme Damião) foi quem mais moldou o Clube dando-lhe o cunho de emblema imaculado, mas também de "antes quebrar que torcer". Acabou por ser vítima do que criara. 




Tudo começou como um conto de fadas
Depois da "Homenagem aos Pioneiros" em que cerca de meio milhar de pessoas entoaram um Hino que o Ministério do Interior desaconselhara a divulgar e interpretar, cheio de orgulho no Clube que acompanhava, praticamente, desde a Fundação e pelo qual estivera em momentos importantes: 1907 (resistência aos desertores para o Sporting CP), 1908 (junção ao Sport Benfica, sendo ele que sugeriu o nome: Sport Lisboa e Benfica) e 1916 (absorção do "Desportos de Benfica" com as suas magníficas instalações) Félix Bermudes com 70 anos de idade - e 29 anos depois da presidência em 1916 - parecia o Benfiquista indicado para apaziguar as tensões existentes entre o Estado Novo (através da DGD), a AFL, a FPF e as rivalidades doentias que uma década de campeonato nacional exponenciara, entre os clubes de Lisboa, depois da sua primeira edição em 1934/35 ainda com a designação de I Liga. E assim foi. Encetou missões de cortesia a vários clubes, com destaque para o Sporting CP, não se coibindo de deslocar-se a pequenas colectividades - GD Tabacos, Mirantense FC, etecetra - para fazer locuções acerca dos princípios do desporto como valorização individual e colectiva.



Depois de uma tomada de posse como nunca se vira num clube desportivo em Portugal, devido ao reconhecimento cultural que tinha no País pela sua acção essencialmente como comediógrafo, teve oportunidade de ser campeão nacional de 1944/45 (recuperando o título perdido para o SCP em 1943/44) o que permitiu a despedida do extraordinário Albino, um dos maiores futebolistas do Benfica de todos os tempos, tendo em conta o tempo em que jogou. Mas conquistou muito. Mesmo muito! Um futebolista À Benfica. «Até tombado no chão», como lhe diziam os adeptos do Benfica! Por tentar jogar a bola em vez de se enrolar com dores!


O começo dos problemas
Percebia-se o valor sentimental que tinha para Félix Bermudes a Sede que tinha conseguido "sacar" ao "Desportos de Benfica" em 1916 embora com arrendamento e necessidade de pagar as dívidas. Mas a compra estava longe de ser uma prioridade para os associados do Benfica. A grande preocupação eram as instalações provisórias, desde 1941, com as bancadas de madeira a necessitarem de manutenção cada vez mais dispendiosa. Era necessário uma solução definitiva douradora. Félix Bermudes apesar de associado não acompanhava o Clube de "perto". Entendia que o rumo era o que ele pensava ser melhor. E comprar a Sede era o melhor se bem que envolvesse questões financeiras intrincadas até porque parte dos terrenos haviam sido expropriados para fazer um arruamento que só foi feito nos anos 90. Já eu morava em Benfica e sabia desta história quando vi alcatroar a estrada! Dezenas de anos depois!






A continuação dos problemas
Félix Bermudes que conseguira estabelecer relações cordiais com os clubes adversários revelava pouco tacto para as questões internas. Começou a criar-se entre alguns associados do Clube com "peso" pela qualidade (e histórico de decisões) de inquestionável Benfiquismo que se estava a exigir um esforço financeiro a uma massa associativa essencialmente popular para depois esbanjar ou tornar inconsequente. 


A gota que fez transbordar o copo
Sem grande debate dentro do Clube - como era norma no Benfica - Félix Bermudes (a sua Direcção) decidem aceitar a proposta da CML (Câmara Municipal de Lisboa) para transferir definitivamente o Benfica do topo do Campo Grande para a actual avenida do Brasil, nos terrenos onde se construiu o LNEC - Laboratório Nacional de Engenharia Civil. Instalou-se o caos, pois conhecedores do local muitos associados até diziam que "O Benfica ia de cavalo para burro"! Mas a teimosia de Félix Bermudes tinha mais força que a razão. O "problema" é que os mandatos eram anuais e o Benfica é um clube democrático. Nunca se é dirigente. Está-se dirigente!


Os associados que não concordavam com a proposta camarária tinham razão. Aliás como depois lhes foi dada pelo próprio ministro das Obras Públicas, Augusto Cancela de Abreu. Os terrenos contíguos ao Hospital Júlio de Matos não eram solução.


Resultado previsível
Nas eleições seguintes (1946) Félix Bermudes candidatou-se a uma reeleição para assinar definitivamente a compra da Sede e instalar definitivamente o estádio do Clube onde a CML indicara e...perdeu. Não foi reeleito. Pela primeira vez na Gloriosa História um presidente não conseguia ser reeleito (ver NOTA). Uma lição dura. Mas foi Félix Bermudes a fazer do Benfica isso mesmo. Um clube de todos! A soberania estava no todo, nunca nas partes!

NOTA: Tinha existido uma situação com Bento Mântua, em 1926, mas não é comparável. Foram as "tais" eleições em que Cosme Damião estava em duas listas. Numa como vice-presidente de Bento Mântua e noutra como presidente tendo António Ribeiro dos Reis como vice-presidente. Ganhou para presidente com Ribeiro dos Reis como "vice" mas não aceitou, não tomando posse do cargo como presidente da Direcção do SLB!



A Direcção seguinte teve muito trabalho a fazer
Até limitar o número de associados, havendo pela primeira vez lista de espera para se ser associado. Isto porque até há pouco tempo ser associado implicava ter direito a um lugar sempre nas instalações dos estádios. Era impossível ser-se sócio - sendo o Clube dos associados - e não poder assistir a um jogo por se terem esgotado os bilhetes. Isso não era Benfica! Se os sócios são o dono do Clube, os sócios têm direito a usufruir das instalações. Era a lógica que vinha de 1904!


Casa de ferreiro espeto de pau 

Nunca ninguém percebeu como foi possível uma Direcção presidida por um escritor apresentar o pior Relatório de que havia memória no Clube. Dezasseis páginas (16) em 1945. Basta comparar com os anteriores: 67 páginas no de 1944 e 70 páginas no de 1946! Incompreensível.

(Clicar em cima da imagem para visualizar com melhor qualidade)



Até amanhã (o final)

Alberto Miguéns

NOTA: Ao contrário do que se possa pensar o Benfica é o Benfica. Quando a Direcção presidida por Joaquim Ferreira Bogalho decidiu erguer o Estádio onde havia condições para o fazer - a Saudosa Luz - quem convidou para a Comissão de Honra do Novo Parque de Jogos do SLB? O presidente derrotado, em 1946, por querer outra solução! Quem havia de ser! Só podia ser Félix Bermudes! É assim o Benfica!

(Clicar em cima da imagem para visualizar com melhor qualidade)



6 comentários
comentários
  1. Artigo impressionante. Hoje rebenta com todas as escalas com a qualidade e profusão de detalhes.
    Impressionante a história e a grandeza das figuras do SL Benfica. Tal como Cosme em 1926 mas do que as grandes figura, verdadeiros pais do Clube, era e sempre foi mais importante o Clube.
    À Benfica!

    Obrigado.

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  2. Caro Alberto Miguéns: uma pequena correcção...

    «para transferir definitivamente o Benfica do topo do Campo Grande para a actual avenida do Brsasil, nos terrenos onde se construiu o LNEC - Laboratório Nacional de Enghenaria Civil (na actualidade com outro nome).»

    www.lnec.pt - o LNEC tem ainda hoje o mesmo nome.

    As palavras "Brasil" e "Engenharia" também necessitam de revisão :)

    Grande Abraço.

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    1. Caro,

      Obrigado.

      Leitores atentos enriquecem os textos feitos sob pressão (erros na construção das palavras) e ideias feitas não confirmadas. Tinha ideia que actualmente seria LNETI ou qualquer um nome similar.

      Grande Abraço

      Queremos o TETRA

      Alberto Miguéns

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  3. Albertini19/7/16 11:18

    Caro Alberto,

    O LNETI ficava (fica, entre outros polos) situado no Lumiar, tendo mudado de nome mais tarde para INETI e, actualmente, para LNEG (Laboratório Nacional de Energia e Geologia).

    Abraço

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    1. Caro,

      Obrigado.

      Como vê estou sempre a aprender. Com os leitores deste blogue. Por isso gosto de ter (e ler) leitores com qualidade e sabedoria!

      Grande Abraço à TRIcampeão

      Alberto Miguéns

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    2. Exacto. LNETI->INETI->LNEG. E agora já está na Amadora (www.lneg.pt)
      Os Benfiquistas estão em todo o lado! :-)

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