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25/06/2014

Quando as Derrotas do Glorioso São Motivo de Orgulho

25/06/2014 + 0 Comentários
QUEM DIRIA QUE O GLORIOSO TAMBÉM TEVE DERROTAS POR FALTA DE COMPARÊNCIA?

Livro da autoria de Cosme Damião, em 1925

Quando fizer uma Enciclopédia Histórica e Ilustrada do SL Benfica na sexta letra, a letra "efe" haverá que incluir a "Falta de Comparência". A História dos Clubes não é apenas feita de momentos de exaltação. Mas a curiosidade neste caso da letra "F" reside no facto destas duas derrotas  por  falta de comparência serem motivo de orgulho! Contradição? Talvez não! Foram faltas de comparência premeditadas.

As faltas de comparência
Cosme Damião abominava as faltas de comparência muito frequentes num tempo em que o futebol era amador e os vínculos dos futebolistas (e outros atletas de outras modalidades) não eram de trabalho mas apenas de empatia, embora sempre de responsabilidade. Para Cosme Damião a pontualidade era uma das características que melhor definiam a personalidade de um atleta por dois motivos: revelavam um carácter de cumpridor e de respeito pelos outros jogadores, pois não obrigava a equipa a jogar enfraquecida com menos um, dois ou três futebolistas ou mesmo anular o esforço de muitos em comparecerem ao jogo para depois a ausência de quatro ou cinco inviabilizarem esse jogo. Além disso Cosme Damião considerava que uma derrota por falta de comparência penalizava fisicamente a equipa (zero pontos num tempo em que existiam competições com um ponto por derrota) e moralmente provocava danos de monta: negligência e desorganização que não auguravam nada de bom para essa equipa e para o clube que permitia tal desleixo!

Foram precisos 695 jogos para a primeira falta de comparência do Glorioso
O "Glorioso" conseguiu atravessar quase três décadas (1905 - 1933) sem a sua equipa de 1.ª categoria no futebol averbar qualquer derrota por falta de comparência (em jogos para competições oficiais) ou ver jogos anulados (particulares e torneios não oficiais) por apresentar a equipa em inferioridade numérica face às Leis do Jogo. E vencem alguns, até ao Sporting CP, por falta de comparência dos adversários. Fazer quase 700 jogos no tempo em que o futebol era mais complicado por ser amador sem punição com falta de comparência é notável. Mas algum dia havia de chegar não uma mas duas faltas de comparência no campeonato regional de Lisboa em 1933/34. Com o Benfica como campeão regional conquistado na temporada anterior, em 1932/33.

As piores classificações de sempre
Essas duas faltas de comparência implicaram não só a impossibilidade de lutar pela revalidação do título de campeão regional como obter a pior classificação de sempre do Benfica em competições oficiais a pontuar, em valor relativo - ser 6.º classificado entre dez clubes - e em valor absoluto - 6.º lugar - apenas igualado em 2000/01 - 68 épocas depois - com o 6.º lugar no campeonato nacional da I Liga/ I Divisão entre 18 clubes.

CLASSIFICAÇÕES DO GLORIOSO
NO CAMPEONATO NACIONAL
1934/35 - 2013/14 (80)
Clas.
N.º
Edições
Última época
1.º
33
2013/14
2.º
27
2012/13
3.º
15
2008/09
4.º
  4
2007/08
6.º
  1
2000/01

Totalista (único clube) nas 41 edições do campeonato regional de Lisboa
O Benfica nos registos dos 41 campeonatos regionais de Lisboa, entre 1906/07 e 1946/47,  averbou 406 jogos, 248 vitórias, 60 empates, 98 derrotas e 1170 golos marcados para 546 golos sofridos. Mas na "verdade" são 408 jogos, 248 vitórias, 60 empates, 100 derrotas (duas por falta de comparência) mantendo-se o número de golos pois as faltas de comparência eram punidas apenas em pontos (zero pontos).

CLASSIFICAÇÕES DO GLORIOSO
NO CAMPEONATO REGIONAL
1906/07 - 1946/47 (41)
Clas.
N.º
Edições
Última época
1.º
10
1939/40
2.º
19
1946/47
3.º
 6
1938/39
4.º
 2
1945/46
5.º
 3
1930/31
6.º
 1
1933/34
NOTA: Em 1906/07 e 1907/08 com o nome de Sport Lisboa

A história que levou às duas faltas de comparência
Não é fácil simplificar uma das páginas menos edificantes do futebol português como resultado de resoluções de nível administrativo, desportivo e judicial, em que estes dois últimos aspectos tiveram influência directa na tomada de resolução premeditada do Benfica não comparecer a dois jogos, por questões de coerência e solidariedade com os órgãos regionais que superintendiam o futebol.

Nível administrativo
Desde o "princípio dos tempos" (Lei da Reforma administrativa, em 18 de Julho de 1835, de Mouzinho da Silveira) até 22 de Dezembro de 1926 não existia o Distrito de Setúbal. Este apenas foi criado pela Ditadura Militar , na data referida, com concelhos até aí pertencentes ao Distrito de Lisboa (a norte do rio Sado) e a Beja (a sul do rio Sado). Quando a Associação de Futebol de Lisboa (AFL) foi fundada, em 23 de Setembro de 1910, filiaram-se nela todos os clubes pertencentes a localidades que estavam em concelhos que pertenciam ao Distrito de Lisboa, incluindo os concelhos do Barreiro e Setúbal, por exemplo.

Nível desportivo
Depois da criação do Distrito de Setúbal (22 de Dezembro de 1926) foi fundada a Associação de Futebol de Setúbal (AFS) em 5 de Maio de 1927. Os clubes que estavam filiados nas duas associações (AFL e Associação de Futebol, de Beja) foram instados a desvincularem-se destas Associações e filiarem-se na AFS. Não foi um processo pacífico, pois alguns clubes, em particular os do Barreiro alegavam que era mais cómodo - fácil, acessível e económico - jogarem na cidade de Lisboa que deslocarem-se a Setúbal e outros concelhos para disputarem o campeonato regional. Entre várias peripécias durante largos anos e épocas, que não vão alongar o texto de hoje, em 9 de Setembro de 1933, o Congresso do Futebol da Federação Portuguesa de Futebol (FPF) obrigou os dois resistentes do Barreiro - FC Barreirense e Luso FC - a desfiliarem-se da AFL e filiarem-se na AFS, obrigando a Direcção da AFL a cumprir a resolução desfiliando unilateralmente esses dois clubes à revelia pois os seus dirigentes queriam continuar a disputar o campeonato regional de Lisboa.


Uma equipa do FC Barreirense com o seu equipamento dos primórdios: camisola bipartida a vermelho e branco, calção branco e meias pretas

Nível judicial
Depois de serem desfiliados à força os dois clubes do Barreiro - FC Barreirense e Luso FC - levaram o caso a tribunal alegando que estando filiados na AFL, aceites por esta e sempre com os pagamentos e procedimentos cumpridos com lealdade não podiam ser impedidos de exercer os seus direitos tendo cumprido os seus deveres.

Primeira parte da temporada em 1933/34
Intimada pela FPF, na sequência da resolução do seu Congresso de 1933 (9 de Setembro) a AFL desfiliou os dois clubes do Barreiro e organizou o sorteio e o campeonato regional sem a presença do FC Barreirense e Luso FC enquanto estes recorriam, por não concordar, para os Tribunais Civis. O calendário ocupava 14 domingos, entre 29 de Outubro de 1933 (1.ª jornada) e 15 de Abril de 1934 (14.ª jornada). O Benfica defendia o título de campeão regional conquistado em 1932/33, após um interregno inédito de 12 temporadas pois o último havia sido conquistado em 1919/20 uma época depois da fundação do CF "Os Belenenses" (23 de Setembro de 1919) e imediatamente antes da fundação do Casa Pia AC (14 de Junho de 1920) os dois principais locais de recrutamento de futebolistas para o "Glorioso" bem como o afastamento de inúmeros associados e futebolistas, em particular para o Casa Pia AC que depois foi logo campeão regional de Lisboa em 1920/21 com oito ex-futebolistas do SLB.


Equipa em 1933/34, no estádio das Amoreiras, "obrigada" a não renovar o título de campeã regional conquistado em 1932/33 por averbar duas derrotas por falta de comparência. De cima para baixo. Da esquerda para a direita: Júlio Silva, João Correia, Gustavo Teixeira, Augusto Amaro, João Oliveira e Pedro Silva; Domingos Lopes, Luís Xavier, Vítor Silva, Carlos Torres e Eugénio Salvador (legenda da minha responsabilidade, auxiliado por Victor Jorge Carocha, sujeita a confirmação)
Muita fé e expectativa entre os Benfiquistas de então
Entre os Benfiquistas, o sorteio foi considerado favorável ao Benfica, pois deixava para a segunda volta a resolução do título, visto o Benfica receber, no estádio das Amoreiras, os dois principais rivais: CF "Os Belenenses", na 11.ª jornada e o Sporting CP na 13.ª e decisiva jornada. A equipa fez uma primeira volta aceitável apenas cedendo duas derrotas nas deslocações ao terreno dos rivais: CF "Os Belenenses" e Sporting CP, respectivamente, 2.º e 3.º classificados no campeonato anterior. Em 2.º lugar com 17 pontos - a dois da liderança - divinhava-se uma segunda volta decisiva, mas na qual o Benfica dispunha da capacidade de sagrar-se Bicampeão, pois recebia o CF "Os Belenenses" (1.º lugar) e o Sporting CP (5.º lugar com 13 pontos), bem como o União Futebol de Lisboa (também com 17 pontos). Esta 8.ª jornada (recepção ao União FL) e a 9.ª jornada (deslocação ao estádio da Tapadinha, frente ao Carcavelinhos FC, também com 17 pontos) seriam decisivas para o desfecho final e perceber o grau de possibilidades nos confrontos decisivos das 11.ª e 13.ª jornadas, visto os adversários também terem de se defrontar como é óbvio!

CAMPEONATO DE LISBOA     1933/34
Adversário
1.ª volta
2.ª volta
S
Res
Jr
Jr
S
Res
União F. Lisboa
F
V 2-1
1.ª
8.ª
C

Carcavelinhos FC
C
V 2-1
2.ª
9.ª
F

S. Bom Sucesso
C
V 4-1
3.ª
10.ª
F

CF "Os Belenenses"
F
D 1-2
4.ª
11.ª
C

Casa Pia AC
C
V 5-0
5.ª
12.ª
F

Sporting CP
F
D 1-2
6.ª
13.ª
C

Chelas FC
C
V 3-0
7.ª
14.ª
F


Entretanto quando termina a primeira volta, em 17 de Dezembro de 1933, surge a notícia que os dois clubes do Barreiro ganharam a acção judicial e que a FPF é obrigada a cumprir o que os Poderes Públicos decidiram, naquela que foi a primeira vez que o futebol foi confrontado com uma decisão tomada "fora dele" sendo obrigado a executar essa ordem. A FPF obriga a AFL a refiliar o FC Barreirense e o Luso FC, respectivamente, 4.º e 8.º classificados no campeonato regional de 1932/33, entre dez emblemas. A Direcção da AFL não concorda em ser tratada como "marioneta" da FPF, pois esta devia perceber se tinha ou não condições para ter ordenado a desfiliação dos clubes do Barreiro. A AFL não era joguete de ninguém obedecendo a ordens contraditórias num pequeno espaço de tempo. O Benfica solidarizou-se com a "sua" AFL e entendia que os dirigentes também por si escolhidos tinham capacidade para decidir, não podendo ser "moços de recados" de ninguém. 

Jornal "Os Sports" 22 de Dezembro de 1933; 1.ª página

Os outros cederam... o Benfica NÃO!
A comissão que toma conta dos destinos da AFL, obrigada a cumprir a ordem da FPF refilia os dois clubes do Barreiro, procede a novo sorteio do campeonato regional, a uma volta, incluindo o FC Barreirense e o Luso FC, em nove jornadas e reclassifica a primeira volta entretanto efectuada como "Torneio de Outono" considerando-a oficial (como era óbvio pois foi assim que tinha sido disputada) tendo como vencedor o CF "Os Belenenses".

O "Glorioso" anunciou, desde logo, que mantinha a coerência e solidariedade. Se votara a favor da desfiliação dos clubes do Barreiro e apoiara a Direcção da AFL então não devia haver campeonato regional em 1933/34. A haver não compareceria aos dois jogos com os clubes do Barreiro!




Segunda parte da temporada em 1933/34

Com apenas oito jornadas, a uma volta, e sabendo que em duas teria falta de comparência, ou seja zero pontos, nem sequer o ponto da derrota seria somado, os dirigentes, futebolistas, associados e adeptos sabiam que o preço a pagar, pela coerência e solidariedade, seria muito elevado. E foi! Apesar de apenas duas derrotas em campo - nos terrenos do União FL e do Carcavelinhos FC (que um dia, em 18 de Setembro de 1942, haveriam de se unir para formar o Atlético CP) - o SL Benfica classificou-se num inédito 6.º lugar (entre dez clubes) piorando numa posição a classificação de 1930/31. O FC Barreirense continuaria na AFL até... 1936/37, ou seja mais três temporadas. O Luso FC decidiu após a 2.ª jornada filiar-se na AFS, fazendo apenas um jogo - vitória por 2-1 frente ao Casa Pia AC - mas com duas vitórias, incluindo a da 1.ª jornada por falta de comparência do SL Benfica. Para quem fizera tanto ruído...

Jornal "Os Sports" 30 de Abril de 1934; 6.ª/ última página


Na História do Glorioso Futebol ficaram dois jogos (talvez apenas um) por realizar

Além do "azar" do sorteio emparelhar na 1.ª jornada (21 de Janeiro de 1934) com o pouco coerente Luso FC, que em 14 de Fevereiro de 1934 viria a filiar-se na AFS há ainda a falta de comparência de 18 de Fevereiro de 1934, na 3.ª jornada do campeonato regional de Lisboa. Se em 21 de Janeiro o "Glorioso" não jogou ficando inactivo em 18 de Fevereiro substituiu o jogo com o FC Barreirense por uma ida a Coimbra, onde no campo do Arnado (do SC Conimbricense) defrontou a equipa da Associação Académica de Coimbra, empatando a dois golos, ambos da autoria do comediante Eugénio Salvador (com uma pequena homenagem no final do texto de hoje). Assim em vez dos 5 031 actuais, pelo menos, o Benfica somaria mais um. O do Luso FC! E não teria duas faltas de comparência! Em vez de 165 jogos com equipas da Associação Académica de Coimbra teria 164! Em vez dos 96 jogos com o FC Barreirense teria 97! E em vez dos 14 jogos com o Luso FC teria 15! Mas...

A coerência pode trazer incómodos no presente mas alcança vitórias no futuro!
Não seria motivo de orgulho no futuro. Teria provavelmente mais um ou dois jogos. Teria uns quantos a mais e a menos frente a outros emblemas. Não teria faltas de comparência em jornadas do campeonato regional de Lisboa. Poderia ter mais um título de campeão regional e certamente não teria a pior classificação de sempre do "Glorioso". Mas teria sido incoerente, embora isso fosse varrido da memória e da história. Não o saberíamos! Assim não foi. O que foi feito em 1934 ficou para sempre. E ficou para sempre para termos altivez no passado.

Que orgulho nos nossos dirigentes. Na sua coerência. Mesmo que isso tenha custado ao "Glorioso" as duas únicas faltas de comparência e a pior classificação de sempre do Benfica!

Alberto Miguéns

O pequeno grande Eugénio Salvador (31 de Março de 1908 a 1 de Novembro de 1992). De ponta esquerda do Futebol Benfiquista a ponta esquecida do teatro e cinema português




Do Teatro



Para o Cinema



Sempre com o Benfica


Eusébio, Amália, Eugénio Salvador e João Santos, presidente da Direcção do Sport Lisboa e Benfica, entre 1987 e 1992


Plano para Junho/ Julho
(Previsão sempre à meia-noite)
De 25 para 26: Atenção ao "Futeluso - versão 2015";
De 26 para 27: Oitocentos Anos;
De 27 para 28: Notícias da Nossa Selecção (parte III);
De 28 para 29: Três Dias do Basquetebol (Última década);
De 29 para 30: Três Dias do Basquetebol (2013/14);
De 30 para 01: Três Dias do Basquetebol (Todos os campeões);
De 01 para 02: Notícias da Nossa Selecção (parte IV);
De 02 para 03: Três Dias do Hóquei em Patins (Última década);
De 03 para 04: Três Dias do Hóquei em Patins (2013/14);
De 04 para 05: Três Dias do Hóquei em Patins (Todos os campeões);
De 05 para 06: Notícias da Nossa Selecção (parte V);
De 06 para 07: Gostava Tanto Que..;
De 07 para 08: Tanta e Tanta Glória Benfica (Golo 27 mil);
De 08 para 09: Eu Benfiquista no Museu do FCP by BMG (parte II);
De 09 para 10: Notícias da Nossa Selecção (parte VI);
De 10 para 11: Três Dias do Voleibol (Última década);
De 11 para 12: Três Dias do Voleibol (2013/14);
De 12 para 13: Três Dias do Voleibol (Todos os campeões);
De 13 para 14: Notícias da Nossa Selecção (parte VI);
De 14 para 15: Centenário da Gloriosa Natação (parte II)
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