Último Jogo de Serra
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04/10/2018

Último Jogo de Serra

04/10/2018 + 3 Comentários
BICAMPEÃO EUROPEU INJUSTAMENTE ESQUECIDO. SE HÁ UM FUTEBOLISTA AZARADO SERRA É O EXEMPLO DISSO.


Há precisamente 56 anos, em 4 de Outubro de 1962 (clicar para o jornal «Diário de Lisboa»), fez o último jogo com o "Manto Sagrado". 




Deixou o Benfica no final de 1962/63. Vítima de lesões penou no final da carreira. Defesa-direito titularíssimo, não jogou a final da «Primeira», em 31 de Maio de 1961, por se ter lesionado frente ao FC Porto, em 30 de Abril de 1961. Morreu assassinado num café do Cacém. O Cacém o viu nascer e o viu morrer. Foi no Cacém que começou e findou a jogar Futebol. Foi no "Glorioso" que atingiu a imortalidade. Que nunca será esquecido.


Manuel Francisco Serra
Nasceu em 6 de Novembro de 1935, na cidade de Lisboa, em São Sebastião da Pedreira. Iniciou-se no futebol pelo clube da localidade onde vivia desde um ano de idade com uma avó, Atlético Clube do Cacém, filial do Atlético CP jogando depois no COL/Oriental. Ainda muito jovem, aos 18 anos, ingressou no “Glorioso”, para jogar na categoria júnior, em 1954/55. Estreou-se em 25 de Outubro de 1954, como defesa-central, num encontro do campeonato distrital de Lisboa, com o Atlético CP, no nosso estádio do Campo Grande. No final desta 1.ª temporada (1954/55) consagrou-se com um duplo triunfo: campeão distrital e nacional em juniores. Na época seguinte dividiu a temporada entre jogos numa categoria intermédia – Aspirantes – criada para permitir mais um ano de formação como futebolista e a Reserva, respectivamente com 17 e seis jogos. E foi na categoria de reserva que iniciou a 3.ª época no Clube, continuando como defesa-central. Finalmente, após 66 jogos em equipas – Juniores, Aspirantes e Reserva - do Clube, chegou à equipa principal.


Finalmente no topo
Em 17 de Fevereiro de 1957 jogou como médio-esquerdo, no estádio da Tapadinha, propriedade do Atlético CP, num encontro particular com o CF “Os Belenenses”. Até final de 1956/57, alternaria jogos na reserva e na honra, respectivamente seis e 24, actuando sempre a defesa-central. Foi nesta posição que conquistou o primeiro título, quando na final da Taça de Portugal, no estádio Nacional, o Benfica venceu por 3-1 o Sporting Clube da Covilhã.


Futebolista coragem
Foi um magnífico executante. Muito regular nas suas exibições, era ponderado e todos reconheciam que podiam contar sempre com ele. Sabia com seriedade, defender as cores que envergava. Um futebolista nobre, altivo e valente. Revelava em campo as características da sua personalidade. Nas duas épocas iniciais na equipa principal actuava como defesa-central, se bem que não fosse titular, a posição em que estava rotinado desde que se iniciara no futebol. No início de 1958/59 o treinador Otto Glória tendo já o habitual titular a defesa-central “em forma”, não retirou Serra da equipa, mas num “golpe de mestre e astúcia”, manteve-o no sector defensivo, mas colocou-o na direita! Magnífico no “corte” e na recuperação, sabia fazer incursões até próximo das defesas contrárias, sem perder a noção dos riscos em desguarnecer o sector recuado. Foi um precursor dos defesas-direitos, com características de laterais! Ganhou a titularidade e a nossa equipa um defesa-direito de grande categoria.


Titular indiscutível
Jogou no Benfica, ao mais alto nível, entre 1956/57 e 1962/63, mantendo-se titular a defesa-direito em três temporadas consecutivas de 1958/59 a 1960/61. Não foi feliz quanto às sempre arreliadoras lesões, mas mesmo assim, efectuou 36 jogos consecutivos pelo “Glorioso” num total de 3175 minutos. Entre 17 de Junho de 1959 e 13 de Março de 1960, ou seja durante nove meses, participou em todos os jogos do “Glorioso”. Uma série interrompida por uma operação ao menisco do joelho da perna esquerda.


Bicampeão Europeu
Foi no início da década de 60, que obteve os dois triunfos mais importantes da sua carreira de futebolista, a dupla conquista da Taça dos Clubes Campeões Europeus (TCCE), em 1960/61 e 1961/62. Mas nunca jogou qualquer das finais, ainda que no primeiro título fosse o titular indiscutível a defesa-direito. Isto porque entre as duas mãos das meias-finais lesionou-se gravemente, na penúltima jornada do campeonato nacional da I Divisão, quando no estádio das Antas, com o FC Porto fracturou a clavícula esquerda aos oito minutos do encontro, abandonando o campo, ficando o Benfica reduzido a dez jogadores até final do jogo, quando ainda faltavam 82 minutos para este terminar. É que pelos regulamentos da competição, não eram permitidas substituições. Ocorreu no dia 30 de Abril de 1960 com a final da TCCE a realizar-se um mês depois, em 31 de Maio! Uma infelicidade que lhe retirou a possibilidade de figurar para sempre entre os onze finalistas. Foi homenageado pelos associados com duas medalhas de honra das assembleias gerais em 19 de Agosto de 1961 e 14 de Maio de 1962.


Internacional por Portugal
Apenas conseguiu uma internacionalização pela selecção principal, em 11 de Novembro de 1959, na cidade de Paris, num jogo particular com a França. Tinha 24 anos. No ano anterior, em 16 de Novembro, esteve na estreia absoluta da selecção de Esperanças, num jogo amigável em Lisboa, com a selecção da África do Sul. Nestes dois encontros actuou a defesa-direito.


Despedida
Fez o último encontro pela equipa de honra, que capitaneou, em 4 de Outubro de 1962, na 1.ª eliminatória da Taça de Portugal, quando vencemos por 12-0 o Luso FC, do Barreiro, no estádio da Luz. Jogou pela última vez com a “camisola vermelha da águia” na categoria de reserva, em 23 de Junho de 1963, num encontro no estádio da Luz, com vitória por 11-0 ao Oriental (COL). Tinha 27 anos. No final da temporada de 1962/63, deixou o Clube, ingressou no SC Vianense, regressando depois ao Atlético do Cacém.


Muita qualidade
Jogou nove temporadas no “Glorioso”, com sete na equipa principal, incluindo três épocas como titular a defesa-direito. Na equipa de honra, jogou um total de 12 555 minutos (correspondentes a nove dias) em 146 jogos, com 130 completos. Marcou um golo, em 26 de Abril de 1959, num jogo particular disputado em Coimbra, no estádio Municipal, onde vencemos por 3-0 a equipa da Associação Académica de Coimbra. A defesa-direito jogou 8 648 minutos (seis dias), participando em 99 encontros. Capitaneou o Benfica em dois jogos, ambos em jogos da Taça de Portugal.


Triunfos absolutos
Na equipa principal conquistou oito títulos oficiais: o Bicampeonato Europeu em 1960/61 e 1961/62; três campeonatos nacionais em 1956/57, 1959/60 e 1960/61; e três Taças de Portugal em 1956/57, 1958/59 e 1961/62. Esteve em três finais consecutivas, mas em 1957/58 não vencemos. Nos 146 jogos em que representou o Benfica ajudou o Clube a obter 96 (65 %) vitórias e 29 empates. Como defesa-direito em 99 jogos, esteve em 74 (75 %) vitórias e 15 empates. Actuou em 273 jogos do “Glorioso” repartidos por quatro categorias: 30 nos juniores, 18 nos aspirantes, 79 na reserva e 146 na honra. Nesta equipa, entre os jogadores do Benfica, é o 15.º defesa-direito mais utilizado e o 121.º jogador com mais tempo de jogo!


Para lá do Futebol até ser assassinado
Depois de abandonar o futebol empregou-se - mas a vida não lhe correu de feição. Viu-se sem emprego, já numa idade avançada, conseguindo uma ocupação precária - tarefeiro cinquentão, a encher garrafas - numa fábrica de cervejas, perto do Cacém, localidade onde residia. A falta de sorte teimava em não o abandonar. Foi abatido a tiro, por um primo, na via pública junto à Sede do clube Atlético Clube do Cacém, próximo do café que era habitual frequentar, em 5 de Agosto de 1994, aos 58 anos.



Um dos doze
Serra foi daqueles futebolistas que não teve a sorte que merecia, pelo que foi e representou no Futebol Benfiquista e português. Viveu sempre com o estigma de não ter estado em nenhuma - podendo estar em todas - das duas finais da Taça dos Clubes Campeões Europeus, apesar de ser um dos doze Bicampeões Europeus.

                         QUADRO RESUMO

Eterno Serra

Alberto Miguéns


NOTA: Agradecimento a Mário Pais por ter insistido em fazer este blogue lembrar Serra e a Victor Carocha pelo apoio fotográfico. «Todos por um - eis a divisa/ Do velho clube campeão», como escreveu Félix Bermudes a propósito de «E Pluribus Unum».

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  1. Foi dramático o fim de vida do Glorioso Serra. Custa a aceitar a crueldade desse desfecho. e como o Alberto nos conta, foi um desenlace de uma vida particular atribulada. Há pessoas que nascem mesmo sob uma má sina. Que Deus o guarde e que descanse em Paz.

    Não sabia que Serra tinha ingressado no SLB em 1954. Abençoado ano em que também ingressaram no SLB homens como Otto Glória, Costa Pereira e Coluna, entre outros. E Serra fez depois o trajecto mais bonito que um jogador pode fazer no Glorioso, desde as camadas jovens, bebendo a mística e transportando-a depois para os mais novos. Essa é a essência do SLB.

    Trágico também o seu azar às portas da Glória final Europeia. E pensando nisso... Embora a prestação de Mário João na final de Berna seja hoje lendária é curioso pensar que poderia pela lógica ter sido Serra o titular. Terminou a sua carreira no SLB muito cedo. Foi "perdido" aos 27 anos. Outra peça da tragédia.

    Um agradecimento ao Alberto por mais um texto de extraordinária justiça. Uma muito justa e bela homenagem que lembra aos Benfiquistas a importância deste bicampeão europeu e como a memória de quem foi dos nossos e HONROU o manto sagrado, deve ser apanágio de todos os que gostam do Clube. Obrigado.

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  2. O Luso que foi batido por 12-0 era de que concelho/distrito, Mealhada/Aveiro?
    Grato pela atenção e com saudações benfiquistas

    MC

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    1. Caro MC

      Não. Era o Luso FC do Barreiro.

      Gloriosas Saudações

      Alberto Miguéns

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