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27/12/2016

Até Expulsos dos Treinos Fomos (1904)

27/12/2016 + 2 Comentários API
BELÉM DE LISBOA FAZ-ME LEMBRAR BELÉM DA JUDEIA (TEXTOS BÍBLICOS) OU DA GALILEIA (HISTORIADORES). AQUI NASCEU CRISTO QUE NOS FAZ CELEBRAR O NATAL. EM BELÉM DE LISBOA NASCEU O BENFICA.


E não foi fácil. Sem campo próprio treinava-se onde se podia. E felizmente podia-se treinar em muitos locais pois em Belém o que não faltavam eram espaços desde que a regularização da margem norte do rio Tejo e a construção da linha de caminho-de-ferro Cais do Sodré - Cascais fez recuar as águas do rio Tejo para longe das habitações. Esta linha teve três terminais do lado de Lisboa: Pedrouços (30 de Setembro de 1889), Alcântara-Mar (6 de Dezembro de 1890) e Cais do Sodré (4 de Setembro de 1895). Quando começaram a treinar em terrenos públicos mesmo antes da fundação do “Glorioso” (por volta do Verão de 1903) a existência de vastos espaços era uma realidade em Belém. Terreiros completamente planos, sem obstáculos e pelados (sem qualquer vegetação) pois eram recentes. Tinham pouco mais que uma dúzia de anos por serem "artificiais" construídos depois de 1885.

(quase todas as imagens seguintes permitem obter melhor visualização quando clicadas em cima)

O mapa de cima é um excerto da “Planta da Cidade de Lisboa” publicada, em 1875, por João Carlos de Souza. O de baixo é o excerto do mapeamento das margens do rio Tejo para regularização costeira realizado entre 1871 e 1882, publicado como “Planta do Rio Tejo” em 1884

Jogos nas Terras de Desembargador
O futebol em Lisboa, esporádico ao ritmo dos reptos ou desafios e desforras, muitas vezes por equipas improvisadas em tertúlias de cafés, tabernas e tascas jogava-se no Campo Pequeno quando este era um terreiro de venda de gado antes da construção da Praça de Touros. Pouco depois desta inaugurada – 18 de Agosto de 1892 - o futebol foi proibido e na cidade passou a jogar-se em Belém, nas Terras do Desembargador, às Salésias. A miudagem de Belém é que ficou a ganhar. E a tentar imitar aqueles que passaram a ser famosos, entre eles os casapianos que haviam vencido os “invencíveis” ingleses do Cabo Submarino em 22 de Janeiro de 1898 e que entre final do século XIX e início do século XX jogavam por vários grupos que se formavam e extinguiam ao sabor dos vitórias e derrotas.


De um pequeno pátio aos amplos areais de Belém
Depois de o pátio interior do prédio da Farmácia Franco já ser pequeno para tanto miúdo e boladas a mais nos vidros das janelas começaram a jogar nos terrenos exteriores atrás do bairro e até ao rio. Começaram primeiro no terreno da antiga rua do Cais (depois e agora, ainda, rua Vieira Portuense), depois na Praia de Belém (onde está na actualidade a Praça do Império, em frente ao Mosteiro dos Jerónimos), à beira do rio, no terreno entre a doca de Pedrouços e a doca de Belém e depois - e finalmente (ou quase...) - na Praia do Restelo, na rectaguarda da Quinta da Praia do Duque de Loulé entre o muro das traseiras desta e a linha férrea. Os amplos areais de Belém e arredores "eram nossos e estavam por nossa conta e risco"!

Visualiza-se o pátio interior no prédio da Farmácia Franco onde tudo começou entre 1902 e 1903, o n.º 44 (entre colunas) da rua Vieira Portuense que funcionava como armazém dos apetrechos para poder treinar e jogar nos inúmeros espaços públicos que a regularização da margem norte do rio Tejo permitiu disponibilizar. Ficavam mesmo ali à mão, ou melhor tratando-se do "Glorioso Futebol", mesmo ali ao pé! 

Treinos atrás da Quinta da Praia do Duque de Loulé
Foi aí o primeiro treino (28 de Fevereiro de 1904) e o segundo (13 de Março de 1904) com as presenças devidamente anotadas nos postais da Farmácia Franco pelo metódico Manuel Gourlade. É normal que as presenças mais assíduas seja de quem vivia mesmo no bairro. Os que viviam um pouco mais afastados era presenças menos assíduas. Os mais velhos, os casapianos, a viver longe de Belém nem aos treinos compareciam. Nem fazia sentido. Sabia-se do seu valor, como jogavam, a importância que tinham e não tinha lógica virem ao domingo de longe, homens já com família e profissões de reconhecido mérito social, equiparem-se “atrás das árvores” (por isso longe do local de treinos, pelos motivos já apontados) na via pública, treinarem e suarem em terrenos logradouros, desequiparem-se “às escondidas” atrás de árvores ou de muros e voltarem para as suas casas, afastadas de Belém. Compareciam para jogar. Os miúdos, de uma geração dez anos mais nova, é que tinham de treinar, aprender, mostrar valor para serem dignos de jogarem com eles na mesma equipa não fazendo perigar a exibição e a vitória.



Até que um dia…
A partir do dia 13 de Março de 1904 fizeram-se treinos todos os domingos excepto em 3 de Abril que foi domingo de Páscoa. Até que chega um dia fatídico. O dia 24 de Abril de 1904 (6.º treino) em que os nossos pioneiros são obrigados a abandonar o local preferido para treinar. O local que tinha melhor acessibilidade para quem tinha que carregar às costas – para lá e para cá – a “tralha da bola”: seis barrotes, duas redes, seis bandeirolas (no tempo em que havia duas ao meio-campo) e o regador da cal para fazer as marcações mais o cordel para fazer um rectângulo entre as quatro bandeirolas de canto para “fazer direita” as linhas laterais e finais a cal bem como todas as outras marcações “medidas” nos cordéis em sisal.


Depois para o Hipódromo de Belém
Em 24 de Abril foram (fomos...) intimados, por um guarda de passagem de nível, da linha férrea a terem de abandonar o local. Naquele dia o treino não poderia ser naquele local, após cinco treinos. Uma “acção de despejo”, sem direito a recurso, visto os terrenos pertencerem à CP – Companhia Real dos Caminhos de Ferro Portugueses. A ideia não foi…regresso a casa. Foi…procurar outro local. E esse local, ainda que com poucas condições – terreno muito irregular - foi o Hipódromo de Belém a norte da rua de Pedrouços e oeste da “Cerca da Real Casa Pia de Lisboa”.


E finalmente a treinar onde se jogava
Nas Terras do Desembargador, às Salésias, a sul dos dois quartéis. Ainda que com dificuldades pois também era utilizado para manobras militares dos regimentos do exército que estavam instalados na calçada da Ajuda. O certo é que tudo se decidiu a bem. E segundo disse Cândido Rosa Rodrigues ao seu filho: «Do mal…o menos. Se era ali que se jogava aproveitavam-se os treinos para apanhar as pedras que apareciam e “limpava-se” com os treinos o terreno de jogo. Ficou cada vez melhor!»


Se um Clube resistia a estas dificuldades no seu início nenhuma outra o derrubaria nos anos (e séculos) seguintes…


Alberto Miguéns


2 comentários
comentários
  1. Uma extraordinária lição de Gloriosa história, geografia. Um artigo pleno de Benfiquismo. A forma metódica como o Alberto colige, interpreta e apresenta toda esta informação é algo que nunca vi noutro sítio qualquer. Obrigado por este excelente artigo.

    Foram enormes os nossos pioneiros. O grupo era muito alargado embora a comparência nos treinos fosse escassa. Eram tempos duros em que deslocações e tempo livre eram luxos. Sem campo, sem dinheiro, a rapaziada dos treinos tinham mesmo que ser jovens especiais.

    Quando penso que alguns iluminados propuseram que o SLB foi fundado pelo pessoal que compareceu ao treino hesito em considerar a ideia simplista ou absurda. Só não é hilariante porque é um assunto sério. E mesmo assim esses adjectivos são benevolentes. É não perceber coisa nenhuma sobre aquele período.

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  2. O esforço da fundação do Glorioso é praticamente igual aos trabalhos esforçados da fundação da nossa nacionalidade.
    Em ambos os casos foi antes quebrar que torcer!!!
    O Caminho, apesar dos escolhos, era sempre em frente!!!

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