A criação deste Blogue, ideia de António Melo, tem como objectivo divulgar, defender o Sport Lisboa e Benfica e a sua Gloriosa história. Qualquer opinião aqui expressa vinculará apenas o seu autor, Alberto Miguéns.

SEMANADA: ÚLTIMOS 7 ARTIGOS

02/06/2012

Há 100 Anos

02/06/2012 + 0 Comentários
PODEMOS COMEMORAR HOJE O CENTENÁRIO DO PRIMEIRO JOGO NO ESTRANGEIRO.


O Benfica estreou-se em Espanha (Corunha/Galiza) em 2 de Junho de 1912
Os jogos em Espanha confundem-se com a própria história do Benfica. Foram inúmeras as digressões por todo o território espanhol, com destaque para a Galiza.

Proximidade, facilidade (comboio) e competitividade
Os dirigentes do "Glorioso" bem como os responsáveis do futebol, com destaque para Cosme Damião, sempre entenderam que "ir a Espanha jogar à bola" era ir aprender, para vir mais forte para Portugal. O futebol espanhol sempre foi mais evoluído que o português, com contactos frequentes com o francês. As equipas de clubes espanhóis deslocavam-se a França e as equipas de clubes franceses deslocavam-se frequentemente a Espanha. As delegações do Benfica chegavam a Portugal "carregadas" de ilusões, pois via outras formas mais avançadas de jogar a modalidade, com cambiantes a todos os níveis: técnicos, tácticos, físicos e emocionais. Perceber o modo como "se montavam os onzes" era uma delícia para Cosme Damião e restantes elementos das comitivas, incluindo os futebolistas.

Digressões e torneios
O Benfica correu Espanha de "fio a pavio". Primeiro foram as digressões e depois os torneios de Verão. Digressões, nos anos 10 e 20, pela Galiza, Madrid, País Basco, Madrid, Galiza, Madrid, Galiza, Catalunha e Andaluzia. Depois deslocações a Barcelona (1930/31 e 1940/41). Seguiram-se as participações, desde final dos anos 50, em inúmeros torneios, de norte (Teresa Herrera, na Corunha) a sul (Ramon Carranza, em Cádis). Mas, também no País Basco, em Málaga, Madrid, Barcelona, Badajoz ou Salamanca, por exemplo. O Benfica deve ser o clube estrangeiro (para Espanha) com mais jogos nesse país ibérico.

Primeiros jogos na Corunha
Coube à Galiza, a norte do Minho português receber a estreia do “Glorioso” por terras de Espanha. Foram três jogos na “capital” da Galiza, na Corunha, frente ao emblema local, o Real Club Corunha. O Benfica realizou três jogos, em 2, 6 e 9, cruzando-se na Corunha com outro clube português também em digressão pela Galiza, o Internacional (CIF) que defrontou o Real Club Deportivo Corunha.


Adversário galego
Actualmente apenas o Real Club Deportivo Corunha existe. E este foi um clube que nasceu, em 2 de Março de 1906, da rivalidade com o, então, único clube da cidade a jogar futebol, o Real Clube Corunha (RCC), fundado em 1904, que (dizia-se em Lisboa) inspirou o equipamento do CS Império, os aurinegros (embora também se dissesse...na mesma Lisboa, que as cores eram as do Império Bizantino). Mas aconteceu a Real Clube Corunha o mesmo que ao CIF (Internacional), embora de modo mais radical. Não soube durante os anos 10 do século XX adaptar-se ao profissionalismo e acabou por desaparecer em 1919. O CIF continua activo embora com pouca expressão no futebol, praticando-o como amador, embora tenha eclectismo semi-profissional noutras modalidades desportivas. O RCC jogava no campo de Monelos, em Oza, nos arredores da cidade da Corunha. Em 1908 foi o primeiro clube espanhol a receber o título de Real. Depois muitos outros se seguiriam. O clube começou por se denominar Corunna Foot-Ball Club, mas uma inesperada vitória, e por 3-0, logo ao seu primeiro jogo, em 24 de Março de 1904, frente a uma tripulação inglesa do navio Dilligent faz renascer o orgulho espanhol, passando a designar-se Coruña Fútbol Club. Depois da glória o fracasso. Muitos futebolistas praticavam outros desportos num ginásio da cidade, a Sala de Armas Calvet. Foram desafiados pelo dono da sala em conjunto com outros alunos a fazerem dois jogos de futebol no campo Corralón de la Gaiteira. O impensável ocorreu. Em 8 e 9 de Dezembro de 1905, os experientes futebolistas perderam o primeiro (D 1-2) e empataram o segundo (E 0-0) frente a quem nunca jogara futebol de um modo organizado. Destes inexperientes futebolistas surgiria o actual Real Club Deportivo Corunha que passaria a jogar em "La Gaiteira" e pouco depois, em 1909 no campo do Riazor que em 1944 (28 de Novembro) passaria a estádio.


Real Clube Desportivo da Corunha
No “rescaldo” do sucesso frente a um clube organizado, nasceria um novo clube, precisamente nesse dia, em 8 de Dezembro de 1906 com um nome óbvio – Club  Deportivo da Sala Calvet. Em 1909, também passaram a Real. E dois anos depois (1911) definitivamente Real Clube Desportivo da Corunha. 

Uma equipa do "Depor" fotografada já de "azul-e-branco" no ano de 1912 quando o SLB se desloca à Galiza, para defrontar o outro clube da Corunha, o Real Clube da Corunha

Nacionalismo galego
Começaram com um equipamento de ginásio, adoptando pouco antes da visita do Benfica as cores da Galiza: azul-e-branco. O Internacional deve ter sido dos primeiros emblemas a defrontar o clube com o novo equipamento "nacionalista".




Ao contrário do que se tem publicado
O SL Benfica não defrontou o “Depor” em 1912, mas sim o Real Clube da Corunha. Foi com este clube, actualmente inexistente, que o “Glorioso” fez a sua estreia internacional, precisamente há cem anos. A completar hoje. A estreia, foi o oitavo jogo de um clube ou misto português no estrangeiro depois de um em Madrid (Internacional), quatro em Vigo (do FC Porto), um em Badajoz (Internacional) e um em Huelva (Misto de Lisboa).


O Internacional chegou depois à Corunha
Para defrontar o outro clube, o Real Club Deportivo Corunha, em 6, 7 e 9 de Junho de 2012. O Internacional levou a sua equipa reforçada com dois futebolistas do Sporting CP: Jaime Cadete e Francisco Stromp. O Benfica jogou em 2, 6 e 9. Venceu um jogo (V 1-0) e perdeu dois encontros (D 1-2). O Internacional venceu um jogo (V 2-0), empatou outro (E 0-0) e perdeu o primeiro (D 1-3). Os jogos do “Glorioso” foram dirigidos sempre por árbitros espanhóis. Os do Internacional foram arbitrados por um espanhol, outro por Cosme Damião, no dia em que o SLB não jogou, a 7 de Junho (a única vitória do Internacional) e no último outro pelo conceituado e veterano Plácido Duro! Para ver os jogos internacionais até ao final de 1912 (clicar)


Dificuldades com a equipa desfalcada
O “Glorioso” não conseguiu que todos os futebolistas tivessem disponibilidade para estar fora de Lisboa durante onze dias. Os titulares Augusto Paiva Simões (guarda-redes), Carlos Homem de Figueiredo (médio-direito) e Luís Vieira (avançado-centro) ficaram em Lisboa. O mais problemático foi substituir o guarda-redes que teve de ser Germano Vasconcelos, habitual extremo-direito. Apesar de tudo a comitiva do SLB foi composta por 14 elementos, entre futebolistas e dirigentes, mas o Benfica alinhou sempre com o mesmo “onze”:
Germano Vasconcelos;
Henrique Costa e Francisco Belas;
Romualdo Bogalho, Cosme Damião (capitão) e Artur José Pereira;
Álvaro Gaspar, Francisco Viegas, José Domingos Fernandes, Virgílio Paula e Alberto Rio.



Primeiro jogo
Em 2 de Junho, há precisamente cem anos, o Benfica defrontou o Real Club Corunha que se apresentou reforçado com três futebolistas ingleses. O jogo foi arbitrado pelo senhor Long do RC Corunha. Na primeira parte o Benfica fez um ataque incessante à baliza do adversário ficando com a ideia que lhe era claramente superior. E conseguiu traduzir esse domínio com um golo de José Domingos Fernandes após uma hábil e rápida jogada de contra-ataque que surpreendeu a equipa galega. No segundo tempo tudo se modificou. Os futebolistas adversários apresentaram um jogo mais cerrado e conseguiu marcar dois golos e vencer o jogo por 2-1. O empate surgiu numa infelicidade de um futebolista do Benfica que introduziu a bola na baliza de Germano Vasconcelos e pouco depois, após um pontapé-de-canto, os espanhóis chegaram à vantagem que seria final. Jogou-se em certas fases do jogo com muita dureza. Os jornais espanhóis destacaram o guarda-redes (Germano Vasconcelos), Cosme Damião e um dos dois defesas (pela descrição dá a ideia que Francisco Belas).  
Segundo jogo
Quatro dias depois (6 de Junho) - passam cem anos na próxima quarta-feira - uma Gloriosa Data – a primeira vitória do Clube - num jogo disputado fora do território português. O encontro foi arbitrado por Eduardo Guardado, antigo guarda-redes do clube adversário. Cosme Damião deu indicações à equipa em função do jogo anterior. Foi um jogo muito disputado. Alberto Rio fez o único golo do encontro. O adversário ainda marcou um golo, mas foi invalidado por fora-de-jogo.

Terceiro jogo
Três dias depois o último jogo da primeira digressão ao estrangeiro, arbitrado pelo juiz do primeiro encontro (por Long do RC Corunha). Foi um jogo de beneficência a favor de uma instituição local, os “Niños Delcalzos” (órfãos e crianças pobres abandonadas). Previa-se um jogo duro, pois seria a desforra, após uma vitória de cada clube. O adversário iniciou o jogo ao ataque, mas Germano Vasconcelos respondeu sempre com valentia. O jogo foi endurecendo com os espanhóis a visarem aquele que estava a ser o melhor jogador em campo, Artur José Pereira, que foi muito castigado. Chegou mesmo a estar longo período lesionado durante o primeiro tempo. Tal como pouco depois um espanhol que era recorrente no jogo faltoso. O encontro foi muito interrompido pelo árbitro para marcar faltas. O intervalo chegou com o marcador sem funcionar. No segundo tempo o jogo recrudesceu em violência. Numa jogada um futebolista adversário carregou Artur José Pereira, tombando-o, junto da linha lateral. E depois dirigiu-se ao futebolista português. Este no chão insultou o espanhol…próximo da tribuna de honra, com muitas senhoras presentes. Cosme Damião como capitão da equipa reprovou a atitude, entendeu que estava a denegrir a imagem do Clube, pedindo a Artur José Pereira para abandonar o campo, acompanhando-o. O “Glorioso” ficou reduzido a dez jogadores a cerca de meia-hora dos 90 minutos. Durante o segundo tempo o adversário marcou dois golos e o Benfica respondeu apenas com um, marcado por José Domingos Fernandes. O SLB perdeu por 1-2.


Artur José Pereira

(H)À Benfica
Havendo um jantar ao final do dia, Cosme Damião proibiu Artur José Pereira de estar presente. Durante a confraternização, os espanhóis mostraram-se agradados com a simpatia do clube português e o capitão do RC Corunha, Carruncho, pediu a Cosme Damião para terminar a penalização a Artur José Pereira, disponibilizando-se para o acompanhar ao hotel para “resgatar” Artur José Pereira do castigo. E tudo terminou em bem. O Benfica marcou, duplamente, esta jornada pioneira – ir ao estrangeiro pela primeira vez, vencendo um jogo – com uma atitude de Clube grande e respeitado. Porque se dava ao respeito.

Gloriosa História! É o que é!

Alberto Miguéns
0 comentários
comentários

Enviar um comentário

Em Defesa do Benfica no seu E-mail