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25/08/2016

Anatomia do Erro

25/08/2016 + 1 Comentários
FAZER A HISTÓRIA DOS JOGOS DE FUTEBOL É MUITO MAIS DIFÍCIL DO QUE PARECE.


Como há pouco tempo – a propósito da primeira vez a fretar um avião – passei por um jogo, disputado em 12 de Fevereiro de 1969, em que no texto, publicado em 19 de Agosto de 2016, escrevi que foi o mais complexo de “fixar” a estatística entre todos os jogos para competições oficiais do Glorioso Futebol. Doze jornais (retirando "A Capital"). Há no entanto jogos particulares que obrigaram a mais pesquisa. Penso que 18 ou 19 jornais foi o “recorde” de consultas. O texto foi o seguinte publicado em 19 de Agosto:

3. É um dos jogos para competições oficiais mais difíceis de "estatisticar" devido à disparidade de informação - nos minutos dos quatro golos (V 3-1) e nos minutos das duas substituições na equipa do Benfica - pois os jornais do dia 13 de Fevereiro de 1969 - e dias seguintes - dão valores dispares!

Quem quiser ver todo o texto “Sob o Signo das Primeiras Vezes” (clicar) 

Comparando com o Almanaque, zerozero e UEFA
Embora o objectivo do texto de hoje não seja esse, é impossível não abordar o assunto. Até porque este jogo mostra a “fraqueza” dessas recolhas. Escolher um jornal e despachar o assunto. Uma forma de poupar tempo, mas desperdiçar verdade e rigor. E logo por “azar” foram escolher o jornal que nesse jogo mais trapalhada fez. Não é por acaso que, por estimativa feita por amostragem (ver NOTA FINAL1), calculo que cerca de 30 por cento das fichas dos jogos publicados na 1.ª edição (2004) do Almanaque contêm erros, desde grosseiros (troca de futebolistas) a pormenores (disposição de futebolistas em campo). E as edições seguintes mantém os erros até 2004, com as fichas dos jogos depois dessa data (de 2004 a 2015) já com menos erros (mas mesmo assim com erros o que parece inacreditável pois são encontros contemporâneos), porque são feitas em simultâneo com a realização dos encontros. Mas isto da "montanha de erros" no Almanaque (e por acréscimo no zerozero) está mais que exemplificado neste blogue, Não vale a pena "bater mais no ceguinho"!


«A Bola» é o único jornal a indicar a segunda substituição aos 75 minutos. É omissa no minuto da primeira substituição, embora na apreciação individual indique que foi aos 39 minutos. Os 40 minutos registados no "Almanaque" só são registados no «Record». Quem fez a ficha do jogo viu apenas dois jornais, mas o «Record» só para quantificar o minuto da substituição de Simões por José Augusto ao não encontrar a substituição na ficha de "A Bola".  

O zerozero faz variações em relação ao Almanaque que curiosamente (ou talvez não) são semelhantes (pois iguais não podem ser como se observa na ficha da UEFA por baixo desta)
A ficha "oficial" inacreditável da UEFA. O Benfica jogou com dez futebolistas (Simões não jogou), José Augusto substituiu...ninguém.  Os minutos dos golos não correspondem à Imprensa portuguesa, mas podem ser retirados da Imprensa internacional, por exemplo a holandesa! (clicar para aceder ao original)

Foi dos jogos mais complexos
Eis o quadro resumo das pesquisas feitas para averiguar em que minutos realmente ocorreram os quatro golos e as duas substituições, já que a única realizada pelo adversário foi ao intervalo.

OCORRÊNCIAS ESTATÍSTICAS DURANTE O JOGO
Jornais
GOLOS
Substituições
1-0
2-0
1-2
3-1
1.ª
2.ª
 mundo DESPORTIVO
30
35
46
59
30
54
 A BOLA
30
35
47
58
39
75
 Record
32
36
47
61
40
--
 O Benfica
30
27*
46
59
30
54
 Diário de Notícias
30
35
46
59
36
--
 O Século
30
35
46
--**
--***
55
 Diário Popular
30****
--
47
--
--5*
--6*
 Diário de Lisboa
30
--
--
59
--7*
--
 A CAPITAL
30
35
47
58
--
75
 O Norte DESPORTIVO
31
35
46
65
--8*
--9*
 Jornal de Notícias
31
36
47
61
39
55
 O PRIMEIRO DE JANEIRO
31
36
47
59
--10*
57
 O Comércio do Porto
31
36
47
60
--
--
NOTA: * Erro tipográfico (talvez seja 37); ** Depois dos 60 minutos; *** Antes do intervalo; **** Minuto da grande penalidade; 5* Perto do intervalo; 6* Antes do 3-1; 7* Logo depois do 2-0; 8* Depois do 2-0; 9* Depois do 3-1; 10* Depois do 2-o 

Recolha de informação: Três + um
Geralmente são suficientes quatro títulos da Imprensa para conseguir fazer correctamente uma ficha de um jogo. Correcta no sentido de escolher o que diz a maioria dos jornais. Depois dos anos 50 (o «Record» teve o primeiro número em 26 de Novembro de 1949) a consulta deste, de «A Bola» (29 de Janeiro de 1945), «Mundo Desportivo» (desde 6 de Abril de 1919 como «Os Sports») e «O Benfica» (28 de Novembro de 1947) são suficientes. Quando o «Mundo Desportivo» enfraqueceu surgiu a «Gazeta dos Desportos» (12 de Fevereiro de 1981) e depois desta «O Jogo» (22 de Fevereiro de 1985). Há sempre três jornais desportivos. E antes dos anos 50 também. Os mais importantes eram "Os Sports", "Os Sports Ilustrados" (11 de Junho de 1910) e "O Sport Lisboa" (24 de Agosto de 1913), além das revistas "Tiro Civil" (7 de Março de 1895), depois continuou como "Tiro e Sport" e "Stadium" (8 de Novembro de 1926). Sempre houve muita imprensa desportiva ao contrário do que se pensa. Infelizmente para este jogo em Amesterdão, "Mundo Desportivo", "O Benfica", "A Bola" e "Record" não chegaram.

A BOLA
Sem informação da substituição de Simões por José Augusto foi preciso procurar na crónica (apreciação individual aos futebolistas) para saber que Simões foi substituído e quando.




Record
Inacreditável como não registaram o minuto da substituição de Raúl por Humberto Fernandes. É bom saber que neste tempo muitas vezes nem era o "enviado especial" (neste caso Artur Agostinho que também fez a crónica para o Diário Popular) a retirar a informação. Nas Redacções dos jornais ouvia-se e viam-se os jogos e retirava-se a informação para fazer as fichas.

Mundo Desportivo
Como era habitual a ficha mais simples e completa!



O Benfica
Ficha muito completa, à jornal "O Benfica" embora com o erro tipográfico no 2-0 que não podia ser três minutos antes de 1-0!



Um caos instalado
Apenas há certeza na minuto do primeiro golo. E probabilidades quanto aos outros. Talvez 35 minutos (2-0), o golo do adversário é impossível saber a não ser que foi marcado pouco depois do intervalo, e o 3-1 por volta dos 59 minutos. Quanto às substituições, talvez 39 minutos e 54, mas há uma possibilidade 21 minutos depois (é muito tempo) de ser aos 75 minutos (A Bola). 
Também aparece em "O Benfica" algo que ocorre muito em todos os jornais, os erros tipográficos que por serem tão absurdos percebe-se que são erros. Com isto tudo é necessário avançar para os matutinos de Lisboa, fidedignos pois não podem ter copiado de nenhum desportivo, ao saírem para as bancas também de manhã.

OCORRÊNCIAS ESTATÍSTICAS DURANTE O JOGO
Jornais
GOLOS
Substituições
1-0
2-0
1-2
3-1
1.ª
2.ª
 mundo DESPORTIVO
30
35
46
59
30
54
 A BOLA
30
35
47
58
39
75
 Record
32
36
47
61
40
--
 O Benfica
30
27*
46
59
30
54
NOTA: * Erro tipográfico (talvez seja 37)

Matutinos
Consultando os dois jornais diários generalistas mais completos da época ressalta a "pobreza" da ficha de jogo muito simplificada. É necessário ler as crónicas o que por vezes é doloroso. Os jornalistas neste tempo escreviam bem, mas nós décadas depois não queremos ler o jogo. Queremos saber o que ocorreu (e quando ocorreu) durante o encontro.


Diário de Notícias
Jornal que era proprietário do "Mundo Desportivo" causa espanto como não coincide a estatística. A crónica é comum aos dois. Manuel Mota. O que prova que a ficha (ou uma imitação dela) foi feita em Lisboa, na Redacção.




O Século
Crónica escorreita e simples. Se houvesse mais preocupação com o rigor tinha tudo para chegarem seis jornais para estabelecer, definitivamente, uma ficha deste jogo.






Começa a haver certezas mas...
As substituições são difíceis de estabelecer em que minutos ocorreram. A primeira foi aos 30, 36, 39 ou 40? E a segunda foi aos 54, 55 ou num absurdo 75 minutos. Para já parece uma impossibilidade. As crónicas ao serem lidas indicam que Humberto Fernandes já estava em campo quando José Augusto (n.º 15) fez o 3-1!

OCORRÊNCIAS ESTATÍSTICAS DURANTE O JOGO
Jornais
GOLOS
Substituições
1-0
2-0
1-2
3-1
1.ª
2.ª
 mundo DESPORTIVO
30
35
46
59
30
54
 A BOLA
30
35
47
58
39
75
 Record
32
36
47
61
40
--
 O Benfica
30
27*
46
59
30
54
 Diário de Notícias
30
35
46
59
36
--
 O Século
30
35
46
--**
--***
55

NOTA: * Erro tipográfico (talvez seja 37; ** Depois dos 60 minutos; *** Antes do intervalo 

Vespertinos
Sem certezas restam os jornais que se publicavam pela tarde. Algo inexistente na actualidade. Sempre com a precaução de haver o cuidado de poderem plagiar informação dos jornais da manhã.

A CAPITAL
Em cheio. Copiou a informação de "A Bola" e deixou para a posteridade a pior ficha dos jornais desportivos. Simões não foi substituído e a segunda substituição foi aos 75 minutos, ou seja, depois do Benfica marcar o terceiro golo. Informação eliminada!



DIÁRIO POPULAR (crónica de Artur Agostinho)
Apesar de também fazer a crónica para o «Record» (e certamente que fez o relato) a Redacção em Lisboa tratou de dar informação estatística diferente do «Record».


Diário de Lisboa (crónica de Mário Zambujal)
Uma crónica bem escrita e original (com citações de declarações dos futebolistas pelo meio a explicarem determinadas decisões) mas pouco rigor (quase nenhum) estatístico.



Continuam as dúvidas nas substituições
Há que recorrer aos jornais da cidade do Porto. Em regra mais simples, com informação mais prática, que os de Lisboa.

OCORRÊNCIAS ESTATÍSTICAS DURANTE O JOGO
Jornais
GOLOS
Substituições
1-0
2-0
1-2
3-1
1.ª
2.ª
 mundo DESPORTIVO
30
35
46
59
30
54
 A BOLA
30
35
47
58
39
75
 Record
32
36
47
61
40
--
 O Benfica
30
27*
46
59
30
54
 Diário de Notícias
30
35
46
59
36
--
 O Século
30
35
46
--**
--***
55
 Diário Popular
30****
--
47
--
--5*
--6*
 Diário de Lisboa
30
--
--
59
--7*
--
 A CAPITAL
30
35
47
58
--
75
NOTA: * Erro tipográfico (talvez seja 37); ** Depois dos 60 minutos; *** Antes do intervalo; **** Minuto da grande penalidade; 5* Perto do intervalo; 6* Antes do 3-1; 7* Logo depois do 2-0

Jornais da cidade do Porto
Começar pelo desportivo da cidade - um fantástico jornal até aos anos 60 - mas ainda com classe, embora poucas páginas durante os anos 70!

O NORTE DESPORTIVO






JORNAL DE NOTÍCIAS
Uma ficha do jogo excelente com toda a informação. O "problema" era "bater certa" com a dos outros. Ou a de muita dos outros!


O PRIMEIRO DE JANEIRO
Informação simples que ajuda a fazer o comparativo numérico.




O COMÉRCIO DO PORTO
Ainda não se tinham habituado às substituições!



Complicado saber o minuto de cada substituição
Os golos foram aos 30 minutos (1-0), 35 minutos (2-0), 47 minutos (1-2) e 59 minutos (3-1). As substituições aos 39 minutos pois há mais uma referência próxima (40 minutos) e aos 55 minutos pois há outra referência aos 57 minutos. Certezas? Não existem! Isto é uma forma de tentar a maior aproximação possível à verdade. A realidade pode ser outra, mas essa talvez de se consiga saber um dia. Metafisicamente, falando! 


OCORRÊNCIAS ESTATÍSTICAS DURANTE O JOGO
Jornais
GOLOS
Substituições
1-0
2-0
1-2
3-1
1.ª
2.ª
 mundo DESPORTIVO
30
35
46
59
30
54
 A BOLA
30
35
47
58
39
75
 Record
32
36
47
61
40
--
 O Benfica
30
27*
46
59
30
54
 Diário de Notícias
30
35
46
59
36
--
 O Século
30
35
46
--**
--***
55
 Diário Popular
30****
--
47
--
--5*
--6*
 Diário de Lisboa
30
--
--
59
--7*
--
 A CAPITAL
30
35
47
58
--
75
 O Norte DESPORTIVO
31
35
46
65
--8*
--9*
 Jornal de Notícias
31
36
47
61
39
55
 O PRIMEIRO DE JANEIRO
31
36
47
59
--10*
57
 O Comércio do Porto
31
36
47
60
--
--
TOTAIS
6
4
5
4
6
5
5
2
3
2
3
2

NOTA: * Erro tipográfico (talvez seja 37; ** Depois dos 60 minutos; *** Antes do intervalo; **** Minuto da grande penalidade; 5* Perto do intervalo; 6* Antes do 3-1; 7* Logo depois do 2-0; 8* Depois do 2-0; 9* Depois do 3-1; 10* Depois do 2-0 

E ainda há mais!
Num tempo em que já havia substituições não se consegue encontrar uma ficha ou crónica do jogo com os suplentes não utilizados. Para se conseguir saber é necessário consultar os jornais das vésperas dos jogos para conseguir descobrir os futebolistas que seguiram na comitiva. E depois saber os que não foram utilizados. Neste jogo seguiram para Amesterdão os dezasseis que podiam ser convocados, além dos treze que foram utilizados (onze + José Augusto e Humberto Fernandes) há a nomear mais o guarda-redes Abrantes, Adolfo (defesa-lateral), Humberto Fernandes ou I (defesa-central) e Abel Miglietti.

Há o jogo (jogos) em resumo
Os três jogos da eliminatória apenas documentam como foram os golos. E que golos!



No Benfica, com o Benfica nunca se perde tempo. Ocupa-se o tempo!

Alberto Miguéns

NOTA1: Amostragem aleatória sistemática. Porque abri uma página (na realidade duas, uma à esquerda e outra à direita), comparei as fichas do Almanaque com as minhas. Fiz depois esse comparativo de 30 em 30 páginas. A edição do Almanaque em 2004 tem 701 páginas. Abri cerca de 20 vezes, ou seja, 40 páginas. Deu um valor pouco acima de 30 por cento de fichas erradas. Uma "barbaridade". E ainda hoje lamento o tempo que gastei.

NOTA2: Para os novatos que se iniciam (ou andam nestas andanças) da recolha de informação estatística dos jogos é necessário ocupar o tempo, sem pressas nem consultando apenas uma publicação. Depressa e bem não há quem!

NOTA3: Por este apanhado se percebe como Rui Tovar e o filho Rui Miguel Tovar despacharam uma recolha complexa em pouco tempo de modo a poderem comercializá-la a baixo custo enquanto, por exemplo, Mário Pais anda há volta dos actuais 1 097 jogos internacionais do Benfica há anos, com 691 disputados no estrangeiro. É que se eu bastava-me haver coincidência de três publicações - embora por vezes tivesse que consultar muitas mais para obter essas "três coincidências" nos registos de um jogo - desde a data e local à disposição táctica dos futebolistas em campo - para Mário Pais não chega. Consulta tudo o que existe acerca desse jogo. ainda consegue ficar mais próximo de tudo o que foi escrito;


NOTA4: E tudo isto em relação a um jogo para uma competição oficial das "mais importantes" (quartos-de-final da Taça dos Clubes Campeões Europeus). Jogos para competições oficiais que na actualidade, após o domingo passado, apresentam números de golos incríveis (por serem simultaneamente redondos) mas até as vitórias e as derrotas terminam em zero! O Benfica já disputou 3 768 jogos de futebol para competições oficiais com os seguintes resultados:

2 470 vitórias;
658 empates,
640 derrotas;
9 300 golos marcados (o último por Raúl);
3 700 golos sofridos

NOTA4: Se fazer a estatística para jogos em competições oficiais é o que é - como ficou demonstrado com o texto de hoje - imagina-se a dificuldade para os restantes jogos de âmbito particular ou para troféus e torneios:
1 384 jogos;
493 vitórias
257 empates;
364 derrotas;
3 609 golos marcados;
2 031 golos sofridos.


1 comentários
comentários
  1. Muitos podem chamar estas coisas de "picuinhas", mas um historiador que se preze, o RIGOR não é uma palavra vã. Informação sobre muito, pouco ou nenhum rigor, não faltam nesta peça.

    Um video de 10 minutos sobre os jogos contra o AJAX sabe sempre bem, nomeadamente os golos do nosso Glorioso. Como nesses anos estava em Angola, não os tinha visto.
    Há sempre novidades nas missas do galo no blogue do Miguéns.

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