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03/02/2014

As Equipas das Cadernetas de Cromos

03/02/2014 + 7 Comentários API
OPINIÃO/ HISTÓRIA

Ou como andando eu à procura de fotografias de Eusébio descobri cadernetas, histórias, desejos e cromos de futebolistas perdidos na minha infância e adolescência

Quando era miúdo, ainda a viver na Figueira da Foz, melhor nos seus arredores, no bairro pobre do Casal do Rato, "terra" de estivadores, pescadores, ferroviários, estropiados e bêbados, via o Benfica a preto-e-branco numa televisão semi-pública numa taberna, pois não havia dinheiro para ter uma em casa. Foi também nessa televisão que vi, juntamente com uma pequena multidão os jogos do Mundial de 1966. Tinha cinco anos.

Na Figueira da Foz, a casa onde vivia já foi demolida, mas ainda existe o prédio em cujo rés-do-chão, nas traseiras da "Mercearia da Rosinda" estava instalada a "Taberna do Tinoco", tasca que fechou nos anos 80 do século XX. Que saudades daquela televisão "pública", minúscula, com má imagem, a preto-e-branco lá longe colada ao tecto. Onde o Benfica (2 ou 3 jogos por época) vencia e convencia.
Um Mundo Novo
Em Julho de 1967, com seis anos, a minha família (pai e mãe) mudou-se para Lisboa, passando a alugar uma "parte-de-casa" na Rua Senhora da Glória, n.º 86 - 1.º Esquerdo. Perto da minha casa, melhor dessa "parte-de-casa", a cerca de 20 metros na rua do Sol à Graça, n.º 11 ficava a papelaria do "Gordo". A primeira visita a essa lojinha de palmo-e-meio foi como descobrir que o mundo era muito maior do que pensava. Havia papéis com os jogadores do Benfica de vermelho, os cromos da bola. Nunca na Figueira da Foz havia visto tal coisa, o que não quer dizer que não existissem. Para mim, até visitar "o Gordo" não existiam cromos e cadernetas.

Ainda existe a papelaria. Infelizmente "O Gordo" já faleceu
A temporada de 1966/67
Acabado de chegar a Lisboa, vindo da Figueira da Foz, no verão de 1967 estava a terminar a época de futebol. Sei agora que o "Glorioso" jogou pela última vez "oficialmente" em 18 de Junho de 1967, eliminado da Taça de Portugal pela equipa da Associação Académica de Coimbra e o último encontro foi três dias depois (21) em Angra do Heroísmo, num 6-1 frente ao SC Angrense, delegação do "Glorioso" na Ilha Terceira dos Açores.

Caderneta com descontos
Em face do findar da temporada de 1966/67 e havendo ainda cadernetas e cromos em boa quantidade n' "o Gordo" a minha mãe descobriu que estavam mais baratos. Afinal a inicial recusa em comprar papéis sem valor a meu pedido, teve um "volte-face". Um belo dia chegou a casa, melhor à "parte-de-casa" com uma caderneta e meia dúzia de cromos enrolados num rebuçado. Aos seis anos foi o dia mais feliz da minha vida. Ainda por cima havia um ou dois Benficas entre os cromos! Pedi cola. Não havia cola mas a minha mãe lá a arranjou molhando farinha, penso que era assim que se fazia "cola caseira"! Como? Não sei! Mas que colava, colava! As cadernetas ficavam era com o dobro da espessura e o triplo do peso! Sem muito espaço dentro de casa, melhor na "parte-de-casa", fui colar os cromos para o parapeito da única janela que estávamos autorizados a utilizar pelo senhorio (que afinal era inquilino!). Primeiro os do Benfica!

Muitos cromos do Benfica eu colei no parapeito dessa janela por cima da porta de entrada no prédio
Pouco jeito para coleccionar
Em breve soube que tinha pouca paciência e método para fazer coleccionismo. Talvez por isso admire - ainda hoje - quem consegue coleccionar o que quer que seja! Raramente completava as cadernetas até porque havia cromos muito difíceis de sair. Mesmo com trocas e baldrocas quase nunca completava as cadernetas.

Cromos só do Benfica
Em breve arranjei um "esquema". Comprava as cadernetas mas só completava as páginas do Benfica. Só coleccionava os cromos do "Glorioso". Chegava a trocar dez dos "outros" por um do Benfica! Acho que o recorde foram trinta dos "outros" por um do Artur Jorge. Já nos anos 70.

Este cromo - um Artur Jorge 71/72 - valeu... 30! Tenho essa ideia, embora certezas a mais de 40 anos de distância...
Mudanças e arquivos
O facto de ter mudado de casa(s), melhor de "partes-de-casa", e as poucas condições em ter espaço para acomodar essas 15 ou 20 cadernetas apenas com a página ou páginas (às vezes eram duas) do Benfica preenchidas, foi "meio-caminho" para terem sido perdidas com a passagem implacável dos anos, da década de 60 e 70 - quando coleccionei os "Benficas em cromos e cadernetas" - para a actualidade. No século XXI restam-me cinco colecções de cromos de desporto, uma de hóquei em patins e quatro de futebol, incluíndo uma dos "Internacionais portugueses". Que nem sei por onde "andam". Talvez estejam na minha aldeia de Montalvão, num sótão.

Surpresa e interrogações
Quando coleccionava os cromos surpreendia-me com as escolhas do "dono dos cromos". Porque escolheria ele aqueles onze e não os outros, que faziam parte de plantéis muito maiores que onze e que no Benfica chegavam a ser trinta! E interrogava-me se aqueles onze eleitos pelo "dono dos cromos" alguma vez fariam mesmo um "Onze" e que resultados obteriam! Mal sabia eu que um dia teria, saberia, todos os jogos e "onzes" do "Glorioso". E poderia responder a tal questão. Só que quando soube todos os onzes do Benfica deixei de ter as cadernetas dos "cromos Benfica"! Quando as tinha não podia responder à questão. Quando podia responder não as tinha! Um típico caso de casamento entre a mulher a dias e o guarda-nocturno. Nunca se encontram!

Eis que a internet tudo mudou
Andava eu há dias a fazer umas pesquisas para ter imagens do Eusébio quando encontro esta imagem.


E atrás dela - como é próprio da internet - fui parar a um portal/ blogue (Mística de Cadernetas Digitalizadas) de um Benfiquista de Famalicão, Joaquim Lima que digitalizou e colocou na internet um número "infindável" de cadernetas e páginas com "cromos Benfica" desde os anos 30. E não é que encontrei a "célebre primeira caderneta de 1966/67", não a minha penso eu, mas uma semelhante, à tal que foi comprada n' "o Gordo". 



Finalmente junta-se o agradável (os cromos) ao útil (os jogos)
Assim, passados 37 anos, entre 1967 e 2014 consigo (finalmente...) saber quantos jogos fizeram aqueles onze futebolistas escolhidos pelo "dono dos cromos" para representarem o "Glorioso" na temporada de 1966/67 que significou a conquista do título de campeão nacional (mais três pontos que o 2.º classificado, a equipa de estudantes da Associação Académica de Coimbra), da Taça de Honra de Lisboa (V 2-0 com o Sporting CP na final), a presença nos quartos-de-final da Taça de Portugal, nos oitavos-de-final da Taça das Cidades cm Feiras, e dois terceiros lugares nos Torneios da Costa do Sol (Málaga) e Nova Iorque.


Onze cromos em 34 futebolistas
Apesar de serem onze cromos, o treinador Fernando Riera utilizou para disputarem os 55 jogos da temporada 34 futebolistas incluindo cinco guarda-redes (Nascimento, Costa Pereira, José Henrique, Abrantes e Melo). Nos 55 jogos o "Glorioso" obteve 37 vitórias, nove empates, nove derrotas, 127 golos marcados - por 16 futebolistas - e 53 golos sofridos. Só Eusébio marcou... 56 golos! Mais três tentos que o total de golos sofridos pelo Clube.


Os "onze cromos" apenas jogaram juntos em... dois jogos
Em 1966/67 para disputar os 55 jogos o treinador Riera escolheu 40 "onzes" diferentes. Coube ao "onze da caderneta de cromos" realizar dois jogos, e consecutivos, ambos para o campeonato nacional, correspondendo ao 35.º e 36.ºs jogos da temporada, por ordem cronológica. Além deste "onze" com dois jogos, houve mais oito "onzes" que também fizeram dois jogos e dois que fizeram quatro jogos. No total 26 jogos (18 jogos com nove "onzes" e oito jogos feitos por dois "onzes"). Restam 29 "onzes" diferentes para os restantes 29 jogos! Complicado!


OS JOGOS DO ONZE DA CADERNETA
Data
C./j.
Res
Adversário
Estádio
int.
Golos
05.Fev
CN/14
V 7-0
Vitória SC (G.)
SLB
3-0
Torres (3)
J. Augusto (3)
Jaime Graça
12.Fev
CN/15
V 2-1
Leixões SC
Mar
1-0
José Torres (2)

O "dono dos cromos" soube escolher
Os onze eleitos para cromos apenas fizeram dois jogos juntos a titular, em 55 encontros, mas foram os onze futebolistas com mais jogos, dos 34 jogadores utilizados durante a temporada pelo treinador Fernando Riera. No alvo, esta escolha!

O ONZE DA CADERNETA
Nome
Posição
(jogos)
Minutos
Jogos
Totais
GM
GS
Cavém
DD
52
4 626
52
1
-
Eusébio
MC/Av.
40
4 408
49
56
-
Raul
DCD      
43
4 158
47
2
-
José Augusto
ED         
37
4 039
48
19
-
Cruz
DE         
44
4 005
45
-
-
Jacinto
DCE      
44
3 988
45
-
-
Jaime Graça
ME       
40
3 795
44
2
-
Simões
EE        
40
3 656
41
5
-
Coluna
MD      
32
2 878
32
2
-
Nascimento
GR        
30
2 685
31
-
30
José Torres
AC         
23
2 484
30
16
-

OS FORA-DO-ONZE DA CADERNETA
(os futebolistas que mais contribuíram para que os "Onze da Caderneta" não jogassem juntos a titulares em mais jogos)
Nome
Substituíram
os "cromos"
Minutos
Jogos
Totais
GM
GS
Nélson
José Torres
2 219
28
9
-
Iaúca
José Augusto
1 827
25
4
-
Costa Pereira
Nascimento
1 798
21
-
20
Jorge Calado
Coluna
1 627
19
3
-
Santana
Jaime Graça
994
13
1
-
Augusto Silva
Cruz
677
9
1
-
Humberto F.
Raul/ Jacinto
495
6
-
-
Diamantino C.
Simões
480
5
3
-


Até há fotografia da equipa do "onze dos cromos 1966/67, apesar de terem alinhado juntos em apenas dois jogos

Da esquerda para a direita. De cima para baixo. Jaime Graça, Raul, Jacinto, Cruz, Cavém e Nascimento; José Augusto, José Torres, Eusébio, Coluna (capitão) e Simões
E quanto aos dois "onzes" que fizeram quatro jogos cada um
Resta dizer que se os "onze futebolistas da caderneta de 1966/67" foram os mais utilizados nos tais dois onzes que fizeram, cada um deles, quatro jogos. Um desses "onzes" teve em comum com o "onze da caderneta" nove futebolistas: saíram Coluna e Torres, para entrarem Jorge Calado e Nélson. No outro "onze utilizado também em quatro jogos" a semelhança com o "onze dos cromos" ainda é maior, pois dez futebolistas são comuns, com apenas Iaúca no lugar de Simões.

Da esquerda para a direita. De cima para baixo. Nascimento, Adolfo, Jorge Calado, Cavém, Cruz, Raul, Jacinto e José Henrique; Camolas, Simões, José Augusto, Eusébio, José Torres, Eusébio e Ferreira Pinto.

Mas esta temporada de 1966/67 foi muito ingrata para dois futebolistas
Para um - Luciano - foi fatal. Para outro - Augusto Silva - foi a sua actividade de futebolista que ficou irremediavelmente perdida! Falando de cromos há que recordá-los eternamente quando se escreve sobre esta temporada que acabou feliz (título de campeão nacional) mas viveu duas tragédias, uma delas fatal.

Luciano faleceu, electrocutado, em 5 de Dezembro de 1966 no tanque de hidromassagem do Estádio da Luz, onde estava na fase final da recuperação de uma lesão contraída num jogo com o Atlético CP, para o campeonato nacional, em 16 de Outubro de 1966

Augusto Silva sofreu uma trombose cerebral em 28 de Janeiro de 1967 durante uma digressão (para dois jogos) em Santiago do Chile. Essa fatídica manhã de sábado inviabilizou uma carreira auspiciosa como futebolista e limitou o resto da sua vida com um dia-a-dia muito limitado, com esta Glória impedida de brilhar intensamente, mas felizmente ainda entre nós

Os últimos são os primeiros
Um agradecimento muito especial, por ser entre Benfiquistas, a quem teve a brilhante ideia de colocar na internet digitalizações com qualidade dos "cromos do Benfica"! (quem quiser aceder é só clicar)

Espero, em breve, "fazer mais uma caderneta"!

Alberto Miguéns

NOTA: Note-se que apesar de ver o Benfica a preto-e-branco na TV, foi através do ciclismo que descobri, às cavalitas do meu pai, na baixa da Figueira da Foz, em Setembro de 1965 (a mês e meio de fazer cinco anos) que o Benfica era vermelho. Porque os ciclistas que comandavam o pelotão na rua Manuel Fernandes Tomaz em direcção da Estação dos comboios, eram do Benfica, segundo as palavras do meu pai. Disse-me ele, então com 27 anos: "Tens sorte! O Benfica vem à frente!" Olhei e disse-lhe: "O Benfica são os de vermelho?" O meu pai olhou para cima dos seus ombros e disse: "Então não sabes que o Benfica é vermelho? Toda a gente sabe!" Eu não sabia. Na televisão era a preto-e-branco!
7 comentários
comentários
  1. Excelente história de Benfiquismo.

    Eu também me tornei do Benfica... Cinzento. O meu pai é que, sempre que lhe era possível, comprava umas revistas a cores que festejavam conquistas, neste caso as europeias.

    http://aminhachama.blogspot.pt/2013/07/jogos-imortais-sport-lisboa-e-benfica-5.html

    Tenho algumas cadernetas do início dos anos 80... Um must!

    Saudações Gloriosas.

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  2. Anónimo3/2/14 15:25

    Gostei muito deste post, sobretudo da NOTA final. Acho que deveria contar mais histórias deste género, pois dão um ar mais garrido ao blog. Cumprimentos... de um não benfiquista

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  3. Era uma satisfação danada quando me saia um cromo do Benfica. Bons tempos.
    Excelente artigo.

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  4. Essa montagem dos cromos do Eusébio é do meu blogue www.cromodoscromos.com feita por mim, aquando o seu falecimento e quando demos também uma entrevista para a revista "Visão".

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    Respostas
    1. Caro João Brites

      Parabéns pelo trabalho. Infelizmente na internet não identificam quem faz as composições. Copiam e repetem. Eu até pensei que foi outro coleccionador Joaquim Lima. Contactei-o mas ele foi evasivo. Ficou de responder mas não cheguei a receber retorno dele acerca dos cromos.

      Renovo os meus parabéns pelo magnífico trabalho que fez.

      Alberto Miguéns

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  5. Bom dia amigo:
    Desculpe esta simples homenagem de um coleccionador que anda nisto há mais de 40 anos.
    PARABÉNS.
    Isto é que é reviver a nossa infância e não escrever baboseira sem nexo nenhum pois parece que foram eles que descobriram o bacalhau demolhado, como se diz aqui no Porto.
    MUITO BOM,opinião de um grande coleccionador.
    Obrigado
    Nascu60

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  6. Boa tarde
    Também tenho um blog com as cadernetas que tenho mais as carteirinhas.
    Uma excelente descrição do que eram os anos 60 e as coleções,deixe-me dizer-lhe caro amigo que ainda hoje coleciono e fico sempre contente quando sai um cromo do Benfica,junto também as saquetas e quando compro alguma dos anos 60 é um prazer tão grande como era na época.
    Parabéns pelo blog.

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