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14/06/2017

Desilusão Real

14/06/2017 + 1 Comentários
ESTE TEXTO SERVE DE CONTRAPONTO - E ESTÁ FEITO E SUCESSIVAMENTE ADIADO/REAGENDADO - DESDE O DIA SEGUINTE AO QUE LHE SERVIU DE PONTO.


O texto que lhe serviu de ponto foi publicado em 27 de Abril de 2017 com o nome: Ilusão Real (clicar). É acerca do orgulho de quando se faz pesquisa da Gloriosa História encontrarmos assuntos não procurados, mas que nos enchem - ainda mais - de satisfação e fazem adiar a pesquisa do momento para depois de nos banquetearmos com a delícia, que nunca é inesperada, pois assuntos do Benfica são sempre esperados, por ser Glorioso. "Surpresas boas". Eis um texto escrito por Mestre Cândido de Oliveira.


Encontrar textos destes provocam o efeito contrário. Que não "ao contrário". 

Cândido de Oliveira iniciou-se no futebol nas equipas escolares da Casa Pia de Lisboa sendo adversário, nos campeonatos escolares organizados pela AFL, de Ribeiro dos Reis que jogava no Liceu da Lapa, depois Pedro Nunes. Ingressou no Benfica, estreando-se de imediato na primeira categoria, em 18 de Outubro de 1914. Uma excepção, pois Cosme Damião sujeitava os novatos no Clube a começarem nas categorias inferiores para perceberem o que era jogar no Benfica e ser Benfiquista, visto as categorias inferiores serem um misto de novatos e veteranos, algumas Glórias Eternas do Clube que tinham conquistado prestígio e sequências de campeonatos e troféus na primeira categoria de valor de excelência. Já em percurso descendente exigiam aos novatos igual dedicação para em percurso ascendente «Honrarem os Ases Que Nos Honraram o Passado».

Após terminar, em 10 de Junho de 1920, campeão regional em 1919/20, o capitão do "Glorioso" Cândido de Oliveira, decidiu com os outros casapianos desertar para fundar, em 3 de Julho de 1920, o Casa Pia AC. Desertaram todos...menos Cosme Damião (por razões óbvias, pois era o dirigente máximo - capitão-geral - responsável pela componente desportiva no SLB) e os futebolistas António Ribeiro dos Reis e Vítor Gonçalves que mantiveram-se fiéis ao Ideal de 1904. De resto fugiram mais de duas dezenas, entre futebolistas das quatro categorias de então e atletas de outras modalidades, embora poucos, pois a maior parte praticava além de outra modalidade...Futebol, nem que fosse na quarta categoria.

Fotografia da autoria da filha de António Ribeiro dos Reis, D. Margarida Ribeiro dos Reis (confirmou a sua autoria pelo telefone durante a canicular tarde de ontem)

Sempre causou sensação o facto do mais conceituado treinador português, entre final dos anos 20 e 1958 (quando faleceu em Estocolmo enquanto acompanhava, como repórter de "A Bola", a fase final do Campeonato do Mundo da FIFA) nunca ter treinado o "Glorioso" e ter havido bastas vezes e inúmeras oportunidades para tal. Dizia-se que o seu grande amigo Ribeiro dos Reis (dirigente e associado consagrado no Clube até falecer em 1961) opôs-se sempre dando a entender: Quem nos "virou as costas" em 1920 quando tanta falta nos fazia, como se provou (o SLB só voltou a ser campeão regional em 1932/33) nada tem a fazer por cá!

Só consegui falar deste assunto (Qual o clube da simpatia de Cândido de Oliveira?) com Joaquim Macarrão, Guilherme Espírito Santo e Mário Wilson.

Joaquim Macarrão dizia que nunca soube. Falou uma ou duas vezes com ele e nunca abordou o assunto, nem se atreveu a perguntar-lhe o porquê de desertar no Verão de 1920. Só sabia que no Sporting CP chamavam-lhe "Melancia" e que nos "papou o campeonato do pirulito".

Guilherme Espírito Santo nunca se mostrou à vontade para falar dele - que foi seu seleccionador/treinador - várias vezes. Sabia de outros "assuntos laterais" e não queria muito falar de Cândido de Oliveira apenas afirmando que para ele, Mestre Cândido era o "Senhor Futebol". «Se tivesse sido seu treinador no "Glorioso" (1936 a 1949) teria sido fantástico. Mas nunca foi!» Pois não!

Mário Wilson que foi treinado pelo Mestre, em Coimbra, na equipa da Associação Académica (AAC) foi por mim questionado três vezes (pelo menos...) Na última pelo telefone, a poucas semanas de falecer, disse que Cândido de Oliveira era uma figura tão íntegra - nunca conheceu alguém que sequer se assemelhasse - só tinha um clube! O Futebol. Penso que da primeira vez - há mais de 20 anos - até me disse. Sei! Era o Futebol Clube Futebol, FC Futebol. Nessas conversas eu até esmiuçava. Mas quando preparava algum jogo da AAC frente ao SLB (onde tinha jogado), SCP e FCP (clubes que treinara) não notava diferenças? E não falava com mais simpatia do Casa Pia AC, clube que fundara, onde jogara, treinara e foi dirigente? Mário Wilson era peremptório. NÃO! O clube dele era o FC Futebol! Só! E chegava-lhe bem...

Desilusão real mas aguenta-se...

Alberto Miguéns

NOTA: Como Glória do Benfica jogou seis temporadas (1914/15 a 1919/20). Participou em 8 900 minutos, com 99 jogos, marcando 27 golos. Fez pelo menos 23 assistências para golo. Capitaneou a Gloriosa Equipa em 26 encontros. Ajudou o SLB a conquistar cinco troféus correspondentes a quatro títulos de campeão regional (1915/16, 1916/17, 1917/18 (um TRI) e 1919/20 e um troféu numa competição oficial*, a Taça de Honra de Lisboa, em 1919/20, ou seja uma "dobradinha".

* Não há jogos oficiais e não oficiais. Há jogos de futebol. As competições é que são oficiais e não oficiais.
1 comentários
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  1. Desilusão? Talvez.

    Cândido de Oliveira é uma figura extraordinária, um homem desportivo de grande valor, um intelectual de gabarito, um treinador sabedor, um jornalista de visão e talento, um homem de valores que sofreu duramente pela sua verticalidade. Tomou partidos, correu riscos, teve méritos múltiplos e uma vida multi-facetada e inspiradora para muitos outros homens. Como não admirar?

    Mas as luzes brilham mais quando se sabe que também existem sombras.

    Desilusão? Talvez.

    No texto que o Alberto publica eu faço notar que Cândido de Oliveira falou no passado. "Pertencia".

    Seria ele o primeiro homem do desporto que tinha uma preferência clubística e que depois mudou por uma experiência marcante e formativa noutro Clube? Acho que não.

    Mas no fundo, Cândido de Oliveira terá talvez transcendido a preferência Clubística. ele ganhou um lugar que o coloca para lá disso. Viveu para o futebol e morreu no futebol. Talvez como o Velho Capitão lhe disse, ele seria mesmo o Sr. Futebol. Alguém que pelo seu percurso tinha contactado com tantas realidades e paixões Clubísticas que se calhar no fundo só mesmo o seu Casa Pia Atlético Clube teria o seu coração. Afinal foi ele que o criou mesmo dilacerando o Clube onde provavelmente foi mais feliz.

    Paz à sua Alma.

    Muito obrigado por este magnífico (mesmo que doloroso) texto. Este blogue só conhece e divulga a Verdade. Mesmo que ela doa.

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