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03/05/2017

Saraiva 85: O Eterno Ignorado

03/05/2017 + 4 Comentários API
É INCRÍVEL COMO EM PORTUGAL SÓ EXISTEM 12 BICAMPEÕES EUROPEUS E NO BENFICA MAIS CINCO CAMPEÕES DA EUROPA DE CLUBES. E UM DELES É DADO COMO NÃO EXISTENTE!


Não o vêem - nunca o viram - nas “milhares” (e todas parecem poucas) de homenagens que são feitas aos Campeões Europeus de 1960/61 e 1961/62. Mas ele existe. E felizmente está entre nós e tem muitas histórias para contar. Ninguém o vai é procurar. Não dá “mediatismo”. Este blogue tem uma dívida de gratidão para com todos eles por isso chegou o dia de divulgá-lo. Saraiva. Já escrevi acerca dele três vezes (clicar) (clicar) (clicar) em 7 e 8 de Abril de 2017.


OS 17 GIGANTES QUE IMORTALIZARAM O CLUBE NAS SUAS DUAS CONQUISTAS SUPREMAS
Infelizmente dos 17 que conquistaram as duas Taças dos Clubes Campeões Europeus só estão entre nós sete magníficos. Dez já partiram para o “Quarto Anel”. Hoje vou escrever acerca de Saraiva. Um dos «cromos da bola» mais valiosos nos anos 50 e início da dourada década de 60.

N.º
Campeões Europeus
T
1.º T
2.º T
1
Costa Pereira
2
1960/61
1961/62
2
Cruz
2
1960/61
1961/62
3
Coluna
2
1960/61
1961/62
4
José Augusto
2
1960/61
1961/62
5
José Águas
2
1960/61
1961/62
6
Cavém
2
1960/61
1961/62
7
Ângelo
2
1960/61
1961/62
8
Germano
2
1960/61
1961/62
9
Santana
2
1960/61
1961/62
10
Serra
2
1960/61
1961/62
11
Mário João
2
1960/61
1961/62
12
Neto
2
1960/61
1961/62
13
Saraiva
1
1960/61

14
Artur Santos
1
1960/61

15
Eusébio
1
1961/62

16
Simões
1
1961/62

17
Humberto Fernandes
1
1961/62


Este texto tem por base o que já li acerca dele bem como uma saborosa e soalheira conversa 
Em Portimão, na tarde do passado dia 8 de Abril desde ano. O discurso directo dele, nesse dia, estará a vermelho. Não todo o que tenho registado, mas o que tem interesse para o texto de hoje.




E no início...
Começamos logo com um "problema". Em que dia nasceu Saraiva? Há pelo menos quatro datas escritas e uma dita por ele - 3 de Maio de 1932 - e que já a tinha como real há mais de dez anos quando a esposa estava ainda entre nós e disse - numa "entrevista telefonada" - que era o 3 de Maio de 1932 a data de referência dele nos aniversários familiares. Agora de viva voz, em Portimão, confirmou essa data que nem coincide com o Bilhete de Identidade, mas essas diferenças entre a realidade e o oficial eram frequentes na época. O meu falecido pai "sofria" de dano idêntico.



Interesse do Benfica
Quando o dirigente Gastão Silva aconselhou o presidente Maurício Vieira de Brito a contratar o então treinador do FC Porto, em 1958/59, Béla Guttmann para substituir Otto Glória para 1959/60 deslocando-se à cidade do Porto para mostrar o interesse do Clube, Guttmann depois de aceitar "exigiu" dois futebolistas: José Augusto (do FC Barreirense) e Saraiva (do Caldas SC), um extremo-direito habilidoso goleador e um médio "construtor" com boa capacidade física. E assim foi. Saraiva disse: «Gastão Silva foi buscar-me às Caldas da Rainha. Quando assinei contrato com o Benfica, desci as escadas da Secretaria (rua Jardim do Regedor) a gritar «Já sou do Benfica!» e quando cheguei à rua, levantei os braços e continuei a gritar «Já sou do Benfica!». Comemorei numa tasca logo ali ao lado bebendo um copo de três (vinho) e continuei de braços levantados, a gritar «Já sou do Benfica», em direcção ao Rossio. Estávamos em 1959, talvez em Agosto ou início de Setembro.




Regressemos 27 anos atrás (talvez só 15 anos antes...)
Nascido numa família com alguns recursos, aos 12 anos, teve um acidente que o marcaria para sempre. Quando questionei se o afectou, respondeu como bom transmontano. «Nada! O Futebol joga-se com os pés!»




Igual a todos nós (os que têm mais de 40 anos)
Os primeiros tempos do futebol para o nosso Saraiva tiveram de tudo menos facilidades. Começou como todos nós. Escrevo acerca dos nascidos antes das modernas escolas de futebol a pagar com pisos sintéticos. Iniciou-se nos inúmeros terreiros, dos anos 30, em Peso da Régua, enquanto aprendia a ler, escrever e contar. Fora desse compromisso diário, nos tempos livres, andava (corria) aos pontapés na bola. Em 1947/48 (15 anos) aquele pontapé forte e certeiro não passou despercebido e começou a representar um modesto clube local, filiado do CF "Os Belenenses", jogando a avançado-centro no CF "Os Reguenses". Dois anos depois, aos 17 anos (1949/50) já estava inscrito no principal clube, o Sport Clube da Régua. Para jogar a interior-esquerdo mas o sonho esboroou-se rapidamente pois foi chamado a cumprir serviço militar em Lisboa. No largo de Sapadores, no quartel do Batalhão de Telegrafistas, tinha como colega de armas um "tropa" que jogava num dos clubes mais antigos de Lisboa (e de Portugal) o SF Palmense. E apesar de "pertencer" ao SC Régua jogaria, ao abrigo da "Lei de Cumprimento das Obrigações Militares para Futebolistas" duas temporadas nesse clube de Palma de Cima, próximo de Sete Rios, em 1950/51 e 1951/52 (18 e 19 anos).


Benfica, Encantamento e... 
A jogar como avançado-centro sagra-se o melhor marcador do campeonato distrital de Lisboa e ruma ao estádio do Campo Grande, então campo de jogos do "Glorioso". Faz meia-dúzia de treinos, agrada ao treinador especialista em escolher novos futebolistas e treinar juniores e principiantes/juvenis (José Valdivielso) mas os dirigentes do Benfica dizem-lhe que só assinaria se fosse futebolista "livre", pois o Benfica não iria pagar nada pela chamada "carta de desobrigação". Como continuava ligado ao SC Régua nada feito. Uns anos depois a "conversa" seria outra, pois voltaria...em definitivo. Entretanto, agrada-lhe uma "gaiata" que frequentava a casa do presidente do SF Palmense, Júlio Velha, para ouvir a telefonia. 




"Rapto"
Vinte meses depois terminava o serviço militar e Saraiva regressava à Régua, mas acompanhado pela "gaiata" Maria do Carmo que chegada a casa dos pais, perante o espanto destes, trataram logo de casá-lo na igreja matriz onde fora baptizado. Pouco depois nasceria o seu único filho, Rui Manuel Saraiva, ao que consta a viver nos E.U.A.



Jogar o Futebol que o Diabo inventou
Ao jogar no modesto SC Régua (1952/53) e ao olhar para a mulher e filho pensou que «se queria ser futebolista "a sério"» havia que sair de Trás-os-Montes. Foi ao pé-de-meia e contou o dinheiro para tentar futebolar no SC Braga. O afamado treinador Imbelloni ao fim de vinte dias recusou-o. Não desistiu. «Apanhou a carreira» e foi a Guimarães. Treinou 15 dias no Vitória SC mas o famoso treinador (campeão nacional pelo SCP) Galloway disse-lhe que não servia. Regressou à Régua desiludido e pronto para deixar de jogar. Jogaria no SC Régua (1953/54) mas teria de ter emprego visto o clube pagar pouco. Eis que um amigo salgueirista escreve para o Porto e os dirigentes do SC Salgueiros enviam dinheiro para a deslocação ao Porto para ser testado. Jogaria em 1954/55 no popular clube de Paranhos, treinado pela Glória do Benfica, Alfredo Valadas mas depois começaram os desaguisados oficiais próprios da legislação do futebol daqueles tempos e que não vou esmiuçar por serem enfadonhos. Meteu-se o FC Porto pelo meio e nem SC Régua, nem SC Salgueiros, nem FC Porto... Com um tio de Maria do Carmo a viver nas Caldas da Rainha acabou por ir jogar para o Caldas SC, entre 1955/56 e 1958/59. Com este clube a jogar na I Divisão Nacional cedo começou a ter convites. Foi neste clube que o treinador Fernando Vaz o transformou de avançado-centro em defesa-central ou médio "organizador do ataque". Mas o dinheiro e a "carta de desobrigação" pertencente ao SC Régua que o ia cedendo época-a-época dificultavam. O FC Barcelona chegou a interessar-se mas a idade e o facto de ter escolhido outro estrangeiro no tempo em que havia limite fez gorar-se a oportunidade. A saída do Caldas SC estava tão complicada que chegou a pensar rumar a Lourenço Marques (actual Maputo) para representar o CD Ferroviário.



Saraiva em discurso directo (8 de Abril de 2017)
1. No Salgueiros, quando parti a perna direita achei que já estava engessada há muito tempo e eu parado sem poder jogar. Cortei o gesso com uma faca e fui treinar; 
2. Estive por duas vezes, quase, quase (1955 e 1958, acrescento eu) a ir para o FC Porto. O clube que menos gosto; 
3. Quando estava no Caldas, Artur Capristano era um "lagartão" tão grande que tentou fazer de tudo para eu não assinar pelo Benfica; 
4. O Benfica arrendou-me uma casa na Pontinha onde vivi enquanto estive em Lisboa. Era um "pulinho" até à Luz.

Atrás de Saraiva ao centro, José Augusto que chegou do FC Barreirense

Não foram fáceis os primeiros tempos com o "Manto Sagrado"
Parte I
Começou na categoria "Reserva". Só ao 15.º jogo da temporada de 1959/60 se estreou, como médio-centro porque Artur Santos estava lesionado. Foi em 22 de Novembro de 1959, na 9.ª jornada, do 26.º campeonato nacional, no Calhabé, em Coimbra, com uma vitória por 2-0, frente à equipa da Associação Académica de Coimbra. Regressou à "Reserva".

Com o número 2 (Serra), com o oito (Santana), ao fundo, do lado direito, José Águas, 

Parte II
Só após cinco jogos - três para o Nacional e dois para a Taça de Portugal - sem ser escolhido regressou ao campeonato nacional, na 13.ª jornada, disputada no estádio do Restelo, frente ao CF "Os Belenenses", em 3 de Janeiro de 1960, conquistando a titularidade ao notável e "geniquento" Neto, como médio-direito. Até final da temporada ainda voltaria a perder a titularidade para Neto reconquistando-a nos últimos três jogos da época.

O jogo em que ganhou a titularidade no estádio do Restelo


Parte III
No "Glorioso" jogou quatro temporadas, entre 1959/60 e 1962/63, com um golo em 57 jogos num total de 4 940 minutos. Em 57 jogos foi titular em 54 encontros (52 completos e dois em que foi substituído) e suplente utilizado em três. Fez 29 jogos como defesa-central (14 à esquerda e 15 à direita) e 25 como médio (dois à direita, onze à esquerda e doze ao centro).

Depois de Saraiva, da esquerda para a direita, Ângelo, Caiado, José Augusto, Germano e Pais (ex-júnior)

Parte IV
Foi fundamental na conquista de três campeonatos nacionais, uma Taça de Portugal, e claro, na primeira Taça dos Clubes Campeões Europeus em que fez cinco dos nove jogos. Como este texto vai longo deixo para dia 6 de Novembro de 2017 uma espécie de segunda parte desta comemoração dos 85 anos do nosso Saraiva (assinalando o jogo que colocou o Benfica nas "manchetes" da Imprensa europeia, a vitória sobre o favorito Ujpest Dozsa SC por...6-2)!

Cepa transmontana. Num jogo que estava muito complicado, no Barreiro, com zero-a-zero, aos 52 minutos, Saraiva avança para a marca dos onze metros e faz uma das suas habituais "triveladas" que enganavam os guarda-redes dando a entender que ia bater com o "interior da chuteira" dando-lhe com o lado exterior. Recordemos que estavam em campo, nesse jogo, José Augusto, Santana, José Águas, Coluna e Cavém. Até o habilidoso Serra. Mas foi golo de Saraiva!
Artur Santos observa o "despacho" de Saraiva

Depois do Benfica
Segundo ele «Depois de vestir a camisola do Benfica parecia que já nenhuma outra me ficava bem!»
Estreou-se, em 1963/64, como jogador-treinador do Sport Benfica e Castelo Branco, assumindo depois apenas o cargo de treinador: Sport Benfica e Castelo Branco (1964/65), UD Leiria (1965/66), Grupo União Sport/ Montemor-o-Novo (1966/67 a 1968/69), Portimonense SC (1969/70) e GD Torralta (1970/71 a 1975/76) ficando empregado como responsável pelas praias e piscinas do empreendimento turístico algarvio. Depois gerências diversas e a merecida Reforma.

Em baixo Saraiva, com Eusébio, Santana.De pé, em cima, de óculos escuros, Costa Pereira, Ângelo abraçado e Caiado (segundo a contar da direita)

Para o nosso Campeão Europeu Saraiva. Toda a sorte – nestas idades…saúde – do Mundo

Alberto Miguéns

NOTA1: Aproveitei para saber da saúde de Gastão Silva, telefonando para o Lar nas Caldas da Rainha, onde se encontra, que completou 94 anos, em 31 de Março de 2017. Está bem, embora tenha cegado por completo, deste a última vez que o vi (clicar), por isso "bem" para o que se pode considerar "bem" num nonagenário;


NOTA2: O "Glorioso" contribui, desde há alguns anos, com um valor aceitável que juntando à sua Pensão de aposentado permite-lhe viver numa linda casinha num Lar com óptimas condições em Portimão. Primeiro como casal (com a D. Maria do Carmo) agora em solitário. Sempre com tratamento de qualidade. Desde a visita, juntamente com mais dois Benfiquistas, em 8 de Abril, espera-se que o Benfica consiga fazer chegar o contributo de um outro modo, de forma menos burocrática e mais directa - do Clube para o Lar, sem intermediação - para contribuir a favor da carteira do nosso Campeão Saraiva em vez de reverter para quem muito já tem...

NOTA3: Do que gostava o Campeão Saraiva em Janeiro de 1960

(clicar em cima da imagem para melhor visualização)





4 comentários
comentários
  1. Que artigo saboroso. Obrigado ao Alberto por ter feito esta investigação e esta visita ao grande Saraiva. Qualquer campeão Europeu do nosso Clube é imortal. Como é possível não o acarinhar? Como é possível esquece-lo? Este texto é um grande acto de justiça e de Benfiquismo!

    "Já sou do Benfica!" Essa comoveu-me. Grande, enorme Saraiva. Um Benfiquista como só um bom filho de Trás-Os-Montes sabe ser!

    Recusado pelo Braga e pelo Guimarães. Ainda bem que nunca desistiu.

    No Benfica disputou a titularidade com Neto? Isso diz da sua qualidade como futebolista. Que pena existirem tão poucas filmagens disponíveis de jogos completos desses anos dourados.

    Que o Senhor Saraiva continue a ter qualidade de vida e que receba manifestações de carinho e de apoio por parte do nosso Clube. Bem merece.

    Um grande obrigado a ele e Feliz aniversário!

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  2. Excelente trabalho do Miguéns, que não olha a meios nem a despesas para escrever sobre tudo o que "mexe" no seio do Glorioso.
    Como o Portimonense estará na próxima época na 1ª. Liga, talvez seja uma boa ideia fazer-se uma homenagem ao SARAIVA quando o Glorioso vier a Portimão.

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  3. Sendo eu albicastrense e benfiquista não poderia estar mais agradecido, excelente homenagem do Alberto ao sr Saraiva.

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  4. Estou emocionado.
    Obrigado Sr. Alberto Miguéns pelo inestimável trabalho que continua a fazer em prol de todos nós que amam o Benfica.
    é importante o Benfica não esquecer aqueles que ajudaram a construir a nossa historia.

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