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16/07/2016

Acto 2 (Sempre Grato a Félix Bermudes)

16/07/2016 + 1 Comentários
COM O BENFICA FINALMENTE BEM INSTALADO NUMA SEDE À SUA DIMENSÃO, FÉLIX BERMUDES AFASTA-SE COMO DIRIGENTE.


Em 4 de Outubro de 1908 já fora agraciado como “Sócio Benemérito” e em 15 de Fevereiro de 1923 será “Sócio de Mérito”. Félix Bermudes era um homem de tudo ou nada. Assertivo. Ou estava de “corpo e alma” ou não estava. Importante no “Glorioso” (entre 1905 e 1916 como já foi descrito no acto 1) e ainda tinha muito para “dar”. Nada para receber.

Benfica: Resistência e vários passos em frente
Fundamental para a junção com o Sport Clube de Benfica (1908), na elaboração dos Estatutos inovadores (1912) e na absorção do Desportos de Benfica, disponibilizando-se como presidente da Direcção até à sua realização (1916).


Dramaturgo conceituado: A Parceria
Em 1912, com a junção de João Bastos a Ernesto Rodrigues e Félix Bermudes (estes dois a colaborarem desde 1907) ficou composto o trio, denominado “A Parceria” que iria transformar o teatro ligeiro em Portugal sendo o percursor da famosa “Revista À Portuguesa” que iria ocupar os teatros do Parque Mayer a partir do final dos anos 20. Depois de 1916 intensifica-se a vida familiar (filhas a crescer e amor para corresponder à sua esposa) bem como absorvido pela dramaturgia que lhe permitia o dinheiro indispensável para sobreviver. Foi o seu “ganha-pão” de uma vida. A morte prematura de Ernesto Rodrigues, aos 50 anos, em 26 de Janeiro de 1926, foi um rude golpe na produção teatral de Félix Bermudes. O sportinguista Ernesto Rodrigues era o cérebro, o inventor. João Bastos escrevia, escrevia até mais não e Félix Bermudes dava-lhe os retoques finais e versejava quando necessário, mas tinha a classe de dizer: «Ernesto Rodrigues dá ideias ao João Bastos, este vai na dança, toca a bastar e eu depois é que sofro ao ter de o desbastar!” Entre 1916 e 1926 há a assinalar praticamente uma peça por ano:
1917 – “A Torre de Babel
1918 – “Salada Russa
1919 – “A Traulitânia
1920 – “O João Ratão
1920 – “Miss Diabo
1920 – “O Aldrabão
1921 – “J.P.C.
1921 – A Parceria com Lino Ferreira “Bichinha Gata
1922 – A Parceria com Henrique Roldão “Lua Nova
1922 – “A Pérola Negra
1923 – “As Onze Mil Virgens
1923 – A Parceria com Henrique Roldão “O Bolo Rei
1924 – “O Poço do Bispo
1924 – “O Amigo de Peniche
1925 – “O Leão da Estrela”
1925 – “O Rei do Lixo”
1926 – “O dr. da Mula Ruça
Houve ainda mais de uma dezena de adaptações de peças estrangeiras com destaque para: “O Príncipe Real” (de Alexandre Othis); “O Pescador de Pérolas” (1921); “A Carta Anónima” (de Pedro Muñoz Seca/1923); “O Arroz Doce”; “O Pão de Ló”; e “Que Homem Tão Simpático” (a peça que "A Parceria" trabalhava aquando do falecimento de Ernesto Rodrigues).


O “caso” Leão da Estrela
Começou por ser uma peça de teatro de grande sucesso em 1925. Só em 1947 foi transformada em filme. Trata-se da história de um sportinguista, não por influência de Félix Bermudes, mas pela ideia da peça de teatro ter sido de Ernesto Rodrigues, associado do Sporting CP desde 1910.


O Parque Mayer
Personalidades cosmopolitas, a viajar pela Europa, aperceberam-se da influência da cultura americana no Velho Continente. Para responder aos críticos que acusavam o trio de "A Parceria" de repetir sempre a mesma fórmula, com truques, tipo transformar “O Poço do Bispo” em “O Bispo do Poço” decidem fazer uma…parceria com outra parceria, em quarteto, famosa (Luís Galhardo, Alberto Barbosa, Xavier de Magalhães e Lourenço Rodrigues) reunidas sob o pseudónimo de “Gregos e Troianos”, num nome que diz tudo. Para agradar a….
Juntaram-se, em 1925, para escrever quatro revistas: “Foot-Ball”, “Rataplan!”, “Ás de Espadas” e “Pó de Arroz” (estas duas já estreadas após o falecimento de Ernesto Rodrigues).
Com tanta produção teatral escasseavam teatros em Lisboa. Para aumentar a oferta decide-se construir no Parque Mayer quatro teatros. O primeiro (Maria Vitória inaugurado em 1 de Julho de 1922) teve a estreá-lo a revista “Lua Nova” e o segundo (Variedades inaugurado em 8 de Julho de 1926) teve como estreia “Pó de Arroz”. Afinal quando tudo parecia um sonho concretizado eis o pesadelo. A morte do “cérebro” d' "A Parceria", Ernesto Rodrigues, aos 50 anos, em 26 de Janeiro de 1926.


Depois da Parceria
O falecimento do amigo e “parceiro” Ernesto Rodrigues foi um duro golpe, pessoal e profissional. Mas continuou a escrever:
1926 – com João Bastos e André Brum: “O Arroz de Quinze”;
1934 – com Ascensão Barbosa e Abreu de Sousa: “O Tavares Rico”;
1935 – com Ascensão Barbosa e Abreu de Sousa: “A Bicha de Rabiar”;
1936 – com Ascensão Barbosa e Abreu de Sousa: “As Meninas Pires”.


Literatura
Estreou-se na literatura em 1923, com “Cinzas e Nada” (versos e novelas) mas outros livros se seguiram (ver Acto 3). Não é um livro extraordinário, mas contém um bom conjunto de temas que pecam por não se enquadrar nas correntes literárias da época. Nem no modernismo (Almada Negreiros preparava-se para publicar o sublime “Nome de Guerra”) e Alves Redol iria rebentar com tudo e todos alicerçando o neo-realismo que seria o futuro da literatura portuguesa ao qual o nosso Félix Bermudes nunca aderiu.


Oficial da Ordem de São Tiago
Apesar de satirizar com insistência (e com insolência a mais – como se isso existisse - segundo alguns republicanos, a I República) vê esta reconhecer os seus méritos, bem como a Ernesto Rodrigues e João Bastos outorgando-lhes, em Julho de 1925, o grau de Oficial da Ordem Militar de Santiago de Espada, como dramaturgo.



O Hino do Benfica (1929) e não só!
Ao aproximarem-se as comemorações das “Bodas de Prata” do Benfica – 28 de Fevereiro de 1929 – decide propor um Hino em cuja letra procura evocar os valores eternos do Clube bem como o seu Ideal propondo ao maestro João Alves Coelho (fundador da SPA) um tema intimista que sirva de “oração inspiradora e de refortalecimento” para atletas e associados. Também procura com o seu amigo cenógrafo Stuart Carvalhais, um dos mais notáveis desenhadores portugueses de sempre, revitalizar o emblema mantendo a tradição – a Águia a agarrar, de asas bem abertas e esvoaçantes, a elevar para o Céu, o lema do Clube – mas de cabeça bem erguida, temerária.




Sociedade Teosófica de Portugal
Fundada em 1921, Félix Bermudes era o Secretário Geral quando faleceu em 1960, ocupando sete triénios (21 anos, entre 1948 e 1960) na sua Direcção: três como Vice-secretário Geral e três como Secretário Geral.  


Três gigantes reunidos na revista teatral "Lua Nova": Félix Bermudes e João Alves Coelho (Hino) e Stuart Carvalhais (Emblema)

Sociedade Portuguesa de Autores (SPA)
Em 22 de Maio de 1925, foi um dos principais entusiastas que permitiram a fundação de uma instituição que protegesse os direitos de quem vive do trabalho intelectual, a Sociedade de Escritores e Compositores Teatrais Portugueses, a SECTP (actual SPA desde 9 de Setembro de 1970). "A Parceria" foi o motor com Félix Bermudes como vice-presidente, Ernesto Rodrigues vogal da Direcção e João Bastos, presidente do Conselho Fiscal. Uma organização decalcada dos órgãos Sociais do Benfica. Félix Bermudes foi o segundo presidente, sucedendo ao consagrado (mas execrável) Júlio Dantas, entre 1928 até falecer em 1960, ou seja, durante 31 anos!


GRUPO DE SÓCIOS FUNDADORES DA SECTP/SPA (Fundada em 22 de Maio de 1925). De pé entre outros: Pedro Bandeira, Lino Ferreira, Francisco Luz Júnior, José Galhardo, Carlos Ferreira, Mário Duarte, João Alves Coelho, André Brun, Carlos Caldeon, Eduardo Schwalbach, Raul Portela, Feliciano Santos e Raul Ferrão. Sentados, da esquerda para a direita: João Bastos, Félix Bermudes, Henrique Lopes de Mendonça (autor da letra do hino nacional "A Portuguesa") e Ernesto Rodrigues. Atrás de Félix Bermudes, o maestro João Alves Coelho. Eis o HINO do GLORIOSO personificado


Desportista ecléctico
Embora deixando de jogar futebol, o nosso Félix Bermudes continuou "mente sã em corpo são" a praticar desportos, embora "menos físicos": hipismo, ténis de mesa, mas principalmente esgrima e tiro onde obteve destaque honroso nos Jogos Olímpicos de Paris, em 1924 (clicar


Benfica: Dirigismo
Para o final do texto de hoje ficou guardado o melhor “pedaço”. Sempre com o Benfica no coração, preocupa-se com o rumo do Clube. Ainda no rescaldo de um maior envolvimento nas "Bodas de Prata" (1929), concorre em 1930, numa lista única de consenso, para o cargo de presidente da Direcção. Eleito em 1930, com 275 votos em 461 votantes, não toma posse. As votações como eram nominais - os associados que votavam riscavam os nomes de quem entendiam não ter capacidade ou inteligência para desempenhar o cargo a favor do engrandecimento do Clube - mostraram que preferiam um belicista nato, intransigente e coerente como Manuel da Conceição Afonso a um consensualista, ainda que assertivo, como Félix Bermudes. Tudo isto num envolvimento desportivo conflituoso entre o SL Benfica, a AFL, a FPF e o Governo da Ditadura implantada em 28 de Maio de 1926. Mas isso são contas para outro texto daqui por uns tempos. Ou talvez nunca...


Até amanhã…

Alberto Miguéns
1 comentários
comentários
  1. Excelente texto! Não apenas os Benfiquistas mas também os amantes do teatro ficarão muito felizes em ler este texto.

    A inteligência faz a diferença nas alturas decisivas. Aí se revela a diferença com os homens talhados para as rotinas.

    Não sei se o Alberto vai falar nisso mas algumas peças da Parceria foram representadas e pelo que sei com sucesso no Brasil. As companhias de teatro (Chaby, Satanela, Procópio, etc) representaram alguns dos exitos no Rio de Janeiro e presumo que também em São Paulo.

    1926 terá sido um ano de grandes convulsões para Bermudes. Por um lado deve ter acompanhado mesmo não sendo protagonista a saída traumática de Cosme, depois a morte de Ernesto Rodrigues, amigo do tempo de escola e pelo que sei o mais talentoso dos três.

    Presumo que Bermudes ter-se-á mantido afastado. Há vários momento decisivos na história do SLB. 1926 foi um deles.

    É pena que não exista (não conheço) uma entrevista de fundo com Félix Bermudes sobre os seus primeiros dias no sport Lisboa e depois na fusão de 1908.

    Estamos no Acto 2 e já se vê quão rica e produtiva foi a vida de Félix Bermudes. Que grande foi. Tanto que lhe devemos.

    Tudo isso porque o trabalho de investigação foi exemplar e o cuidado no texto foi soberbo.

    Um texto com talento à Benfica

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