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08/12/2014

Cabrita! Cuida Por Aí Do Teu Glorioso

08/12/2014 + 1 Comentários
FALECIDO HÁ TRÊS MESES PODE DIZER-SE QUE SEM NASCER DO BENFICA FEZ-SE BENFIQUISTA.


Fernando Cabrita foi um treinador que trabalhou no início da sua carreira no Clube com os juniores, passando a adjunto e servindo o "Glorioso" em situações de recurso, quando houve necessidade de orientar a equipa após a saída dos técnicos principais antes de terminarem as temporadas.


Queridos inimigos. Até aos anos 50, em Lagos, o clube dos ricos (CF Esperança de Lagos, em cima) e o clube dos pobres (Sport Lisboa e Lagos, em baixo). Amigos, amigos mas no Rossio da Trindade havia "mosquitos por cordas"
O nosso Sport Lisboa e Lagos em 1935/36. Em baixo, o primeiro a contar da direita, Joaquim Macarrão que em 1937, com 17 anos, foi transferido para Lisboa, a fim de jogar do SLB como extremo-esquerdo. Quantas conversas não teve ele comigo falando deleitadamente do conterrâneo Fernando Cabrita, três anos mais novo que Macarrão. E com o qual se cruzara nos anos 60 no Benfica, ainda que Macarrão fosse empregado na Secretaria. Infelizmente nunca falei com Cabrita. Nunca me cruzei com ele. Mas acredito em tudo o que Macarrão me contou acerca dele. E foi tudo de bom e bem!
Nascer no Barlavento e ser famoso no Sotavento algarvio
Fernando da Silva Cabrita nasceu em Lagos, no 1.º de Maio de 1923. Começou a jogar oficialmente futebol no CF Esperança de Lagos, em 1939/40, aos 16 anos. Este clube lacobrigense era uma espécie de reduto sportinguista em Lagos por oposição a uma das filiais mais antigas do "Glorioso", o Sport Lisboa e Lagos. Uma rivalidade de ódios & estimações dirimidas no velho campo do Rossio da Trindade. Mas três anos depois, em 1942/43, já actuava no SC Olhanense, onde se evidenciou como avançado-centro ou interior, à esquerda ou à direita. Um predestinado para o futebol. Em Olhão foi seleccionado para representar Portugal, em três jogos, entre 1945 e 1950. Após nove épocas no SC Olhanense, foi convidado para jogar em França. Estreou-se pelo Stade Français, de Paris, em 1951 mas seria no SC L'Ouest Angers que jogaria, duas épocas entre 1951/52 e 1952/53, em várias posições, incluindo como defesa, fazendo da polivalência uma imagem da sua categoria.


Do SC Olhanense para o SC Covilhã

De Sporting em Sporting
Em 1953, aos 30 anos, regressou a Portugal para jogar durante cinco épocas no SC Covilhã, onde se iniciou nas tarefas de orientador técnico das equipas jovens. Regressou à selecção nacional para fazer mais quatro jogos, entre 1953 e 1957, atingindo as sete internacionalizações. Disputou o último jogo oficial pelo clube serrano, perdendo por 1-2, na "Saudosa Luz" em 8 de Janeiro de 1959, para o Nacional da I Divisão. Antes a 31 de Agosto de 1958, o Benfica foi o clube convidado para estar presente na sua festa de homenagem, no jogo disputado no Municipal da Covilhã (Santos Pinto), frente ao seu clube, o Sporting local. Causou espanto que andando Cabrita de Sporting em Sporting (Lagos, Olhão e Covilhã), pois o CF Esperança de Lagos só não tinha o nome, de resto era Sporting em tudo, que fosse o "Glorioso" a deslocar-se à Covilhã! Nascia, assim, uma empatia entre Cabrita e o Benfica que iria durar para sempre e eternamente.


Foi um dos internacionais portugueses que estreou a selecção no Estádio Nacional, em 11 de de Março de 1945, coincidindo com a data da sua estreia como internacional português, numa equipa com dois Benfiquistas de Glória: o capitão Francisco Ferreira e Guilherme Espírito Santo. De notar que ao falecer, Cabrita «passou o testemunho» de internacional português mais antigo a Rogério de Carvalho (fez ontem 92 anos). Tal como Espírito Santo, ao falecer, deixou ao mesmo Rogério a "responsabilidade" de ser o decano dos Gloriosos Futebolistas. Rogério "acumula" duas "longevidades": Benfica e selecção nacional
Não demorou muito a chegar ao Benfica
Verdadeiro apaixonado pelo futebol, decidiu-se pela carreira de treinador no Portimonense SC, na II Divisão Nacional, em 1959/60, onde esteve três épocas até 1961/62. É no final desta temporada que ingressa no "Glorioso". É que após a demissão de Valdivielso, treinador dos juniores e principiantes (9 de Janeiro de 1962) e o abandono de Béla Guttmann (7 de Junho de 1962) os quadros técnicos do Clube ficaram fragilizados já que Fernando Caiado,  treinador adjunto de Guttmann, teve que assumir a orientação da equipa "principal", embora no Benfica principais sejam todas as equipas! Foi assim que surgiu, aos 39 anos, em 16 de Junho de 1962, Fernando Cabrita no Benfica, como treinador dos juniores e juvenis (principiantes).


Excelente treinador pedagógico e correcto
Ao ingressar no "Glorioso" referiu que (entrevista completa em 5 de Dezembro de 2014«... tenho duas grandes dívidas de gratidão para com o Benfica. Uma por ter estado presente na minha festa; a outra, por me ter distinguido com a escolha para tão honroso cargo. Tudo farei para aliar a minha força de vontade ao profundo reconhecimento que sinto.» Foi a treinar as "camadas jovens" que Cabrita se evidenciou. Dotado de excepcionais qualidades de carácter e de uma competência extraordinária, conseguiu impor-se pelos métodos do seu trabalho, formando inúmeros futebolistas. Manteve-se neste cargo durante quatro épocas, até 1965/66, trabalhando com vários técnicos conceituados e com Fernando Caiado, que se manteve como adjunto dos técnicos principais durante estas temporadas.

No velhinho estádio do Campo Grande onde funcionava a sua "oficina" tendo atrás o imponente de betão, inaugurado em 10 de Junho de 1956, José Alvalade (2.ª geração) estádio do Sporting CP, actualmente a jogar num da 3.ª geração

Primeira vez a assumir o Glorioso Benfica
Em 1965/66, com a "má época" após o regresso de Béla Guttmann tudo se modificou. Assim, Guttmann começou por ser afastado "dos trabalhos de campo" pela Direcção do Benfica (30 de Março de 1966) e mais tarde registou-se a saída do adjunto Caiado (2 de Abril de 1966) que levou Cabrita a assegurar a orientação técnica da equipa de Honra, a fim de terminar uma época "penosa" em que não conquistámos qualquer título!


Uma equipa técnica de elevado quilate: Cabrita (Juniores e Juvenis), Riera (Honra) e Caiado (Reserva). Três «Fernandos». Três treinadores de classe e três personalidades do melhor que passou pelo futebol português
Não há uma sem duas...
Nas épocas seguintes - 1966/67 e 1967/68 - foi adjunto de Fernando Riera, mas na segunda temporada deste treinador, devido aos problemas entretanto surgidos que levaram ao afastamento do chileno, Cabrita passou a desempenhar as funções de treinador principal, em 1 de Dezembro de 1966. E a tarefa não se apresentava fácil.. nem difícil. Depende da perspectiva! À 7.ª jornada do campeonato nacional da I Divisão, o Benfica seguia em 1.º lugar ex-aequo com o 2.º classificado. Na Taça dos Clubes Campeões Europeus coube-lhe a missão de ultrapassar, nos quartos-de-final, o Vasas SC Budapeste (empate sem golos na Hungria e vitória, por 3-0, no nosso Estádio). Na Taça de Portugal conseguiu o apuramento para os quartos-de-final, eliminando nos "oitavos" a AD Sanjoanense (10.ª classificada na I Divisão), com dupla vitória, por 2-1, numa competição então com eliminatórias a duas mãos. Após a contratação de Otto Glória, ainda nessa temporada, em 10 de Abril de 1968, Cabrita regressou ao cargo de adjunto, mas deixara o plantel apurado na Taça de Portugal e na Taça dos Clubes Campeões Europeus, temporada em que conseguimos atingir, pela 5.ª vez na nossa Gloriosa História, em oito edições consecutivas, a final da mais importante competição europeia. No campeonato nacional seguíamos à 21.ª (em 26 jornadas) em 2.º lugar, em igualdade pontual, com o 1.º classificado. Ou seja, em 14 jornadas Cabrita não conseguira isolar o Benfica na liderança do Nacional. A explicação para o regresso de Otto Glória. No final da época o Benfica conquistou o título de campeão nacional. Dos três treinadores que "trabalharam a equipa", Cabrita foi o que esteve mais jornadas (14), seguindo-se Riera (as 7 iniciais) e Otto Glória (as 5 últimas). Na temporada seguinte (1969/70) Otto Glória manteve-se no Clube continuando Cabrita como adjunto.


Na Amadora, treinador no extinto Estrela
Um interregno de dois anos
Em 1970, a 11 de Fevereiro, "face aos resultados verificados durante a época", o Clube rescindiu o contrato com o treinador Otto Glória e com o seu adjunto Fernando Cabrita. Ao fim de oito épocas - 1962/63 a 1969/70 - era o abandono do Benfica, mas devido à sua capacidade de trabalho deixava a "porta aberta" para regressar! E assim sucedeu duas épocas depois, em 1972/73. Nessas duas temporadas afastado do Benfica treinou o União de Futebol Comércio Indústria de Tomar, conseguindo-o promover da II à I Divisão Nacional.

Vai Nené. Mesmo sem sujar os calções...
Não há duas sem três...
Para o preenchimento do lugar deixado vago, em 1971/72 pelo treinador-adjunto, a Direcção contratou Fernando Cabrita, para auxiliar de Jimmy Hagan, há duas temporadas no Benfica, já que Cabrita mercê do trabalho realizado na sua anterior passagem pelo Clube oferecia as melhores garantias. Após mais uma temporada no Benfica (a 9.ª no total) iniciou a época seguinte - 1973/74 - nesse cargo, mas voltaria a treinar a equipa principal - pela terceira vez! - após a saída de Jimmy Hagan, em 25 de Setembro de 1973, ainda no dealbar da temporada. Nesse mesmo dia sentou-se no "banco" para orientar o Benfica frente à selecção da FIFA, na "Festa de Homenagem a Eusébio". "Fez" a época até ao final, mas os resultados não permitiram a conquista de qualquer título nacional, apesar de conquistarmos a Taça de Honra de Lisboa pela oitava vez, após vencermos três jogos, incluindo o último em 1 de Janeiro de 1974, derrotando por 1-0, o Sporting CP, no estádio do Restelo. Um troféu oficial com o seu "dedo" de treinador, em exclusividade. Nas duas épocas seguintes regressou a treinador-adjunto, na primeira com Milorad Pavic e na segunda com Mário Wilson. Depois percebendo que não era, nem seria jamais, opção para treinador-principal do Clube decidiu rumar a outros emblemas. Foi o adeus definitivo... como técnico, pois Cabrita continuou a estimar o Benfica até transferir-se para o "Quarto Anel"!

No jornal "Diário de Lisboa", em 28 de Setembro de 1973
Valores numéricos importantes
No total, em três períodos - 1965/66, 1967/68 e 1973/74 - orientou a equipa principal/Honra em 70 jogos, com 50 vitórias, dez empates e dez derrotas, marcando-se 205 golos para 67 sofridos. Sagrou-se campeão nacional em 1967/68 (repartindo a conquista com Fernando Riera e Otto Glória) numa época em que também repartiu, com os mesmos treinadores, a campanha europeia do Clube que chegou à final da Taça dos Clubes Campeões Europeus, no mítico estádio de Wembley, em Inglaterra, país do outro finalista (e vencedor) o Manchester United FC. Em 1973/74 conquistou a Taça de Honra de Lisboa.


Ao centro, de azul, a equipa técnica: Morais, Toni, Cabrita e José Augusto. Portugal no Europeu'1984
A vida continua
Prosseguiu a sua carreira de treinador, ocupando vários cargos, desde equipas de clubes modestos - SC Beira-Mar, Rio Ave FC, CF Académico (Viseu), Boavista FC, FC Penafiel, CF Estrela Amadora - até à selecção nacional, em 1983/84, no "célebre" Europeu de França, num triunvirato técnico, aproveitando ainda para conquistar um campeonato marroquino, pelo Raja Casablanca, em 1987/88. Regressou a Portugal para treinar em Viseu e nova ida para Casablanca. Sentia-se o ocaso da carreira. Terminou onde começou. No seu querido CF Esperança de Lagos, em 1991/92. Aos 69 anos era o Adeus ao Futebol. Foi homenageado em Lagos pelas "velhas glórias" da sua terra natal, incluindo o nosso Macarrão - que como não "gostava de perder" jogou nos dois lados - pois o clube convidado voltou a ser o "Glorioso" que fez deslocar ao Algarve a sua Embaixada, o "Saudade"!


Cabrita (à esquerda) e Hagan (à direita). Dois treinadores do melhor que há!

A última transferência do Terceiro para o Quarto Anel
Em 22 de Setembro de 2014, aos 91 anos (feitos em 1 de Maio) faleceu em Loures. Mas será tão eterno enquanto infindável é a História do Benfica. Fernando Cabrita um treinador que fez do trabalho e da dedicação o sucesso para evoluir. Um "Honesto" acima de tudo. Um excelente exemplo para todos. Um dos que contribuíram para fazer da Gloriosa História uma epopeia tão intensa e brilhante que se lê no escuro, sem necessidade de luz, ou não tivesse ela brilho suficiente para ser entendida!

Cabrita! Cuida por aí do teu Glorioso

Alberto Miguéns
1 comentários
comentários
  1. A primeira fotografia diz tudo. Como lhe ficavam bem as nossas cores. Os grandes atraem os grandes. Era inevitável ter chegado ao Glorioso. Pena é que não tenha chegado ainda como jogador. Um homem dedicado e honesto. Assumiu o cargo de treinador principais em circunstâncias difíceis. Todos os Benfiquistas lhe devem um carinhoso reconhecimento para um homem que sempre respondeu em momentos difíceis e que temos orgulho ter contribuído para a nossa rica história.

    Uma saudosa e reconhecida memória. Saudades. Que descanse em Paz.

    VJC

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