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08/08/2014

Francisco, Luiz e Rogério

08/08/2014 + 1 Comentários API
SAÍRAM DO BENFICA OS PRIMEIROS - E FORAM TRÊS - FUTEBOLISTAS PORTUGUESES A JOGAR NO ESTRANGEIRO



Na actualidade fala-se muito dos futebolistas (e treinadores) a actuar no estrangeiro mas com pouco critério. Há que distinguir os que saem de Portugal e vão de "burro para cavalo" (excepções) e os que vão de "cavalo para burro" (quase todos). Pois o Benfica em três períodos distintos do século XX - primeira década, anos 10 e anos 40 - teve três futebolistas que foram jogar para "melhores futebóis": Itália (SS Lazio) e Brasil (Botafogo FR). Não é para todos. Em Portugal para quase ninguém!

Francisco Santos
O primeiro a sair foi Francisco Santos. Logo em 1906. Para Roma jogando nas temporadas 1906/07, 1907/08 e 1908/09 na histórica SS Lazio, fundada em 1900. NOTA: A AS Roma apenas surgiu em 1927 como resultado de uma união forçada pelos autarcas fascistas da cidade de Roma, numa fusão complexa - tentativa de unificar por toda a Itália os clubes populares num por cidade - mas da qual a SS Lazio conseguiu "safar-se" por ter "um dirigente fascista mais fascista" que aquele que forçou a união que deu origem à AS Roma!



Nasceu em Paiões (Rio de Mouro/ Sintra), arredores de Lisboa, em 22 de Outubro de 1878. Começou a jogar, ainda no século XIX, na equipa da Real Casa Pia e depois da fundação do "Glorioso" seguiria o rumo dos restantes: jogar no Sport Lisboa. Entretanto estudou em Paris, entre 1903 e o início de 1906. No Sport Lisboa participou em cinco jogos na 2.ª categoria mas na 1.ª categoria apenas em 4 de Novembro de 1906 como avançado na meia-esquerda frente aos ingleses no Carcavellos Club (D 1-3) na Quinta Nova, em Carcavelos.

Grupo de Futebol da Casa Pia de Lisboa em 1898 que bateu os Ingleses de Carcavelos. Da esquerda para a direita - De pé: João Cambraia, António CoutoEmílio de Carvalho, Raúl Carapinha, Silvestre da SilvaJanuário BarretoJosé Neto e Francisco dos Santos; Sentados: João Pedro, Pedro Guedes (Capitão) e Bruno do Carmo. A vermelho futebolistas que jogaram no "Glorioso". Daniel Queirós dos Santos não está na fotografia mas também jogou no Sport Lisboa. Januário Barreto não jogou mas foi presidente da Direcção do Clube, entre 1906 e 1908
Entretanto para desenvolver a sua aprendizagem em escultura foi, no final de 1906, para Roma aproveitando para jogar na SS Lazio enquanto por lá andou. 


Pela envergadura física não é difícil descobrir: Onde está o Francisco Santos ou Dos Santos como era conhecido em Roma?

Quando regressou a Portugal, em 1909, os seus amigos tinham deixado o Clube, em Maio de 1907, para irem formar a 1.ª categoria do Sporting CP, que embora existisse não conseguia ter bons futebolistas. Foi para lá, mas jogou pouco. Tal como os seus amigos casapianos: António Couto, José Neto, Daniel Queirós dos Santos e Emílio Carvalho. Daniel Queirós dos Santos chegou a presidente do Conselho Directivo, o quinto por ordem cronológica, entre 16 de Novembro de 1914 e 18 de Abril de 1918. Francisco Santos viu muitas das suas obras serem elogiadas, escolhidas e ornamentarem espaços públicos. Faleceu em 27 de Abril de 1930, aos 51 anos, quando trabalhava no Monumento ao Marquês de Pombal erigido na Rotunda.

Luís Vieira
O segundo a sair foi Luís Vieira. Ou melhor... ficou lá! Em 1913. No Rio de Janeiro jogando no Botafogo FR entre 1913 e 1916. Luís Vieira integrou os plantéis do Benfica logo após a fundação. Em 1906/07 fazia parte da 2.ª categoria ascendendo à primeira na temporada seguinte quando a "primeira de 1906/07 desertou para o Sporting CP". 


A 2.ª categoria do Sport Lisboa em 1905/06. De cima para baixo. Da esquerda para a direita: (médios) Luís Vieira, Cosme Damião e Marcolino Bragança; (avançados) Félix Bermudes (capitão), Eduardo Corga, Henrique Teixeira, António Meireles e Carlos França; (defesas) José Rosa Rodrigues (à época presidente do Clube), João Persónio e José Neto Fotografia digitalizada da página 73 do Volume I da História do Sport Lisboa e Benfica 1904 - 1954 de Mário de Oliveira e Rebelo da Silva; 1954; Edição dos autores
A 1.ª categoria do Sport Lisboa em 1912/13. De cima para baixo. Da esquerda para a direita: (médios) Carlos Homem de Figueiredo, Cosme Damião (capitão) e Artur José Pereira; (defesas) Romualdo Bogalho, Paiva Simões e Henrique Costa; (avançados) Herculano Santos, José Domingos Fernandes, Luís Vieira, Álvaro Gaspar e Alberto Rio  Fotografia digitalizada da página 239 do Volume I da História do Sport Lisboa e Benfica 1904 - 1954 de Mário de Oliveira e Rebelo da Silva; 1954; Edição dos autores
Luís Vieira a jogar como avançado-centro, com o capitão Cosme Damião a observá-lo, em 10 de Março de 1912, frente ao Sporting CP, marcando um golo, em Palhavã - campo alugado pelo SLB ao SC Império - numa vitória por 4-0 Fotografia digitalizada da página 196 do Volume I da História do Sport Lisboa e Benfica 1904 - 1954 de Mário de Oliveira e Rebelo da Silva; 1954; Edição dos autores


Estreou-se a jogar como centrocampista, ou na defesa, mas em 1909/10  o capitão-geral Cosme Damião começou a utilizá-lo, com sucesso, como avançado-centro. Após épocas de glória com a conquista de três campeonatos regionais (1909/10, 1911/12 e 1912/13) integrou a delegação da Associação de Futebol de Lisboa que se deslocou ao Brasil no Verão de 1913. Foi o único que não regressou. 



Passou por lá quatro anos de futebol e bem longe da I Guerra Mundial que sendo mundial desenrolou-se na Europa e em África (entre as colónias africanas das potências europeias).



Luís Vieira como jogador do Botafogo Futebol e Regatas, em 1914, no Rio de Janeiro numa equipa que venceu o Fluminense FC, outro clube do Rio de Janeiro. O Dérbi - jogo mais importante da cidade - do Rio de Janeiro é o Flamengo - Vasco da Gama
Regressou para (re)estrear-se em 3 de Dezembro de 1916 - o último encontro com o "Manto Sagrado" datava de 24 de Junho de 1913. Muito desgastado pela idade e pela estadia no Brasil jogou pouco. Fez 13 jogos (e sete golos) em 1916/17 e três encontros (e um golo) em 1917/18, o último jogo em 3 de Fevereiro de 1918. Tentou reaparecer um ano depois, em 16 de Fevereiro de 1919, mas com dificuldades físicas abandonou o jogo ao intervalo. Não voltaria a vestir o "Manto Sagrado".

Rogério Lantres de Carvalho
O terceiro a sair foi Rogério Carvalho. Em 1947. Para o Rio de Janeiro jogando no Botafogo FR em 1947 e 1948. 



Nascido em 7 de Dezembro de 1922 e criado no bairro da Madre de Deus em Chelas, chegou ao Benfica vindo do Chelas FC no início de 1942/43 fixando-se como extremo-direito numa época história com a primeira "dobradinha" do Benfica: Bicampeão nacional e vitória na final da Taça de Portugal frente ao Vitória FC Setúbal, com 5-1 e um golo de Rogério. No final da primeira temporada jogava onde fez "mais história": extremo-esquerdo. Na temporada seguinte - 1943/44 - segunda conquista consecutiva na Taça de Portugal com Rogério a marcar cinco golos na vitória, por 8-0, frente ao GD Estoril Praia.


Depois de cinco temporadas a jogar no Benfica - 1942/43 a 1946/47 - foi contactado por um representante do clube brasileiro Botafogo FR no sentido de jogar no popular clube do Rio de Janeiro. O Brasil preparava-se para organizar a fase final do Campeonato do Mundo de 1950 e os brasileiros do Botafogo FR queriam um futebolista português. Depois de observarem jogos em Lisboa - SL Benfica, Sporting CP, Atlético CP e CF "Os Belenenses" - decidiram-se pelo "mais brasileiro dos futebolistas portugueses": tecnicista, ambidextro e rematador certeiro. E ainda conseguia ser veloz! Apresentaram-lhe uma proposta financeira irrecusável. Devido à urgência não terminou a temporada em 1946/47 (último jogo em 18 de Maio de 1947). Até breve Rogério! 




Esteve quase um ano no Brasil, entre Junho de 1947 e Fevereiro de 1948. A adaptação dele e da família - casou e foi fazer a lua-de-mel em Copacabana - não foi fácil até porque a sua linda e amada esposa queria que o filho nascesse em Lisboa.


Para gáudio dos Benfiquistas (re)estreou-se em 28 de Março de 1948 na 18.ª jornada (em 26) do campeonato nacional da I Divisão, no Estádio do Campo Grande, numa vitória por 3-0 frente ao Vitória FC Setúbal. Ainda a tempo de jogar a temporada de 1947/48. Afinal jogara no Brasil mas em termos de épocas no Benfica não interrompera a carreira, ainda que a ida para o Botafogo FR o tenha impedido fazer mais jogos e marcar mais golos com o "Manto Sagrado".


Regressou em boa-hora. Campeão nacional e latino em 1949/50, antes vencera a Taça de Portugal, em 1948/49. Na finalíssima da Taça Latina devido à impossibilidade do capitão Jacinto Marques subir à tribuna do Estádio Nacional foi através dele que a Taça Latina passou para o "Glorioso".


No anos 50 participou (e de que maneira) na conquista das Taças de Portugal em 1951, 1952 e 1953, ou seja, na histórica série de quatro consecutivas - 1949 a 1953 - pois em 1950 não se realizou. Com 15 golos marcados em finais é o recordista da competição, mas com vários recordes:
1.      Maior número de golos - 15 - marcados em finais (1-5-1-4-3-1);
2.      Maior número de golos - cinco - numa final (V 8-0; 1943/44);
3.     Maior número de golos - 4 - em menos tempo - 26 minutos - entre os 60 e os 86 minutos, dos 5-0 aos 8-0 em 1943/44;
4.      Seis finais com golos em todas as finais (1-5-1-4-3-1);
5.      Quatro finais consecutivas - 1949 a 1953 - com nove golos (1-4-3-1);
6.   Golo decisivo mais tardio em toda a história da competição, entre 1921/22 e 2013/14 (aos 90' fez o 5-4 frente ao Sporting CP em 1951/52)


O Benfica organizou um grandiosa Festa de Homenagem e Despedida, em 5 de Setembro de 1954, no Estádio Nacional, frente ao FC Porto, onde estrearam o "Manto Sagrado"... Costa Pereira, Coluna, Naldo e Alfredo. Um quarteto de luxo e um duo que seria Bicampeão Europeu!



Com 91 anos - completará 92 anos em 7 de Dezembro deste ano - é um prazer falar com ele do Benfica, de antes dele e de agora. "Antes dele" porque nos anos 30 já era do Benfica e com o irmão - futebolista no Chelas FC que o pai fundara em 1912 -  acompanhava como Benfiquista o Clube, extasiado com o "Manto Sagrado" e os pontapés fulminantes do extremo-esquerdo Valadas que ele substituiria em 1942/43. Como o Mundo é pequeno! Actualmente é o Decano dos Gloriosos Futebolistas (completam-se 72 anos em 4 de Outubro) e dos Internacionais de Portugal (completaram-se 68 anos em 14 de Abril). Estive com ele há pouco e não vai demorar muito a voltar a passar uma tarde com ele. Está-se sempre, segundo-a-segundo, a Benficar com o Rogério!

Três casos, dois clubes, países e desfechos
Foram do "Glorioso" os primeiros futebolistas a emigrar para Brasil (dois) e Itália (um). O primeiro foi para Itália e quando regressou foi para o Sporting CP. Os dois seguintes para o Brasil, para o mesmo clube (Botafogo FR) e ambos regressaram ao Benfica.

Há ir e voltar. E há Benfica. Sempre Benfica!

Alberto Miguéns


Plano para Agosto
(Previsão sempre à meia-noite)
De 08 para 09: Centenário da Gloriosa Natação (parte III);
De 09 para 10: Supertaça: A competição do Sistema;
De 10 para 11: Era uma vez um jogo com o Rio Ave FC;
De 11 para 12: Três Dias do Voleibol (Última década);
De 12 para 13: Três Dias do Voleibol (2013/14);
De 13 para 14: Três Dias do Voleibol (Todos os campeões);
De 14 para 15: Cancella de Abreu, Obrigado!;
De 15 para 16: Eu Benfiquista no Museu do FCP by BMG (parte II);
De 16 para 17: O Glorioso na Primeira Jornada;
De 17 para 18: Era uma vez um jogo com o FC Paços Ferreira;
De 18 para 19: Mil e Cem de Cem em Cem (parte II)
1 comentários
comentários
  1. Bruno Paiva8/8/14 17:09

    Outro artigo de inegável qualidade. Gostaria apenas de deixar aqui o meu apreço pelo Campeão Latino. É graças a ele, entre outros, que o SL Benfica trm o prestígio que tem e é conhecido mundialmente. Um exemplo para os mais jovens diria eu.

    É uma honra ter como Decano Rogério Pipi. Desejo-lhe ainda muitos anos de boa saúde.

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