A criação deste Blogue, ideia de António Melo, tem como objectivo divulgar, defender o Sport Lisboa e Benfica e a sua Gloriosa história. Qualquer opinião aqui expressa vinculará apenas o seu autor, Alberto Miguéns.

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28/05/2014

O Brasil de Álvaro Gaspar

28/05/2014 + 1 Comentários
UMA GLÓRIA DO GLORIOSO

AVISO: Texto acerca da história do "Glorioso" em 1913/14. Quem não gostar de história é melhor esperar por outro dia!


ÁLVARO GASPAR
Nascimento: 10 de Maio de 1889
Primeiro jogo: Desconhecido (por enquanto)
Primeiro jogo referenciado (3.ª categoria): 20 de Dezembro de 1908 (19 anos)
Primeiro jogo na 2.ª categoria: 24 de Outubro de 1909 (20 anos)
Estreia na 1.ª categoria: 25 de Setembro de 1910 (21 anos)
Último jogo na 1.ª categoria: 1 de Março de 1914 (24 anos)
Último jogo com o "Manto Sagrado": 11 de Abril de 1915 (25 anos)
Falecimento: 3 de Setembro de 1915 (26 anos)
Funeral: 5 de Setembro de 1915 (para o Cemitério da Ajuda)

Verão de 1913 (24 anos)

Origem da digressão ao Brasil
Levar uma equipa de futebol de Portugal para o Brasil no início dos anos 10 do século XX era, no mínimo, audacioso. A viagem de barco (único meio de transporte) durava cerca de 14 dias. Morosa e cara. Por tudo isto demorou cerca de um ano a preparar. A ideia partiu de um clube do Rio de Janeiro, o Botafogo FR em 1912 mas apenas se concretizou no Verão português de 1913.


Estreia de uma selecção portuguesa (ainda que regional) no estrangeiro, no Brasil, nesta imagem no Rio de Janeiro Jornal "O Sport Lisboa"; página 4; n.º 4; 14 de Setembro de 1913

Não constava da 1.ª convocatória. Passou a constar
Num tempo em que o futebol era amador nem sempre era possível conciliar profissão, família e vida particular com o jogo! E muito menos com digressões prolongadas.



Quem de 17 tira cinco ficam 16!
Dos 17 futebolistas inicialmente convocados houve cinco que não puderam aceitar integrar a selecção da AFL: Picão Caldeira (guarda-redes do Internacional), Jaime Cadete (defesa-direito do Sporting CP), António Rosa Rodrigues (meia-direito do Sporting CP), Augusto Sabbo (médio-centro do Internacional) e Gama Lobo (extremo-esquerdo do Internacional). Para dar forma à selecção foram chamados quatro futebolistas: Augusto Paiva Simões (guarda-redes do SLB), Amadeu Cruz (defesa-esquerdo do Sporting CP), Boaventura Belo (médio-esquerdo do Internacional) e Álvaro Gaspar (meia-direita do SLB).

Selecção equilibrada
Tendo em conta o poderio dos clubes demonstrado nos últimos campeonatos regionais e tendo em consideração que a selecção da AFL só contaria com portugueses houve equilíbrio nas escolhas a que não será alheio um tempo em que não havia interesses económicos nem empresariais. Apenas, e só, desportivos. Para capitão foi escolhido Cosme Damião, capitão-geral do SLB campeão regional em 1912/13, acumulando com o estatuto de representante oficial da AFL, função para a qual a AFL disponibilizou 150$00 (75 cêntimos do euro). Eduardo Luís Pinto Basto foi nomeado secretário do grupo.

Em 16, oito do Sport Lisboa e Benfica
Com metade do seleccionado recrutado no "Glorioso", os restantes oito repartiam-se por dois clubes: Sporting CP com cinco (Amadeu Cruz, António Stromp, Francisco Stromp, João Bentes e Cândido Rosa Rodrigues) e Internacional com três (Eduardo Luís Pinto Basto, Boaventura Belo e Carlos Sobral). Uma selecção da AFL de tipo 8 + 5 + 3 = 16.


À chegada ao Rio de Janeiro. Álvaro Gaspar, ao centro, o terceiro a contar de baixo

O "treino", a viagem, os jogos e o regresso
A ida de uma equipa de futebol ao Brasil foi um evento importante. Em 24 efectuou-se um jantar de despedida no Hotel Francfort, em Lisboa. No dia seguinte o grupo escolhido pela AFL derrotou, por 2-1, no campo do Lumiar, um misto de futebolistas. A partida foi a 26 de Junho, pela tarde, a bordo do Drina, paquete da Mala Real Inglesa com uma delegação composta pelos 16 futebolistas, Alberto Lima (presidente do SLB e director do jornal "O Sport Lisboa" que fez a reportagem - que tornam possível o texto de hoje! - fazendo a viagem à sua custa), Duarte Rodrigues (repórter da revista Tiro e Sport, correspondente do Botafogo FR e quem um ano antes fizera a proposta à AFL para esta deslocação) e Mário Duarte (futebolista aveirense que foi nomeado pelo Ministério do Interior para acompanhar a equipa). A chegada ao Rio de Janeiro ocorreu às oito da manhã de 10 de Julho. Depois de sete jogos - quatro no Rio de Janeiro e três em São Paulo - com deslocações entre as duas cidades de comboio, no "nocturno de luxo", a delegação regressou ao Rio de Janeiro para em 28 de Julho receber as últimas homenagens e os derradeiros agradecimentos partindo para Lisboa em 30 de Julho.


O barco que levou a primeira representação oficial do futebol português ao estrangeiro (Brasil)

Sete jogos no Brasil (quatro no Rio de Janeiro e três em São Paulo)
Álvaro Gaspar jogou seis dos sete encontros, não actuando no 4.º jogo, no Rio de Janeiro, frente ao Botafogo FR. Apenas quatro futebolistas - dois do SLB e dois do SCP - foram totalistas com sete jogos. Álvaro Gaspar jogou quatro encontros como avançado-centro e os dois primeiros, ainda no Rio de Janeiro, como meio-avançado, primeiro na direita e depois na esquerda. A mostrar a sua versatilidade como avançado, já que não tinha compleição física para ser centrocampista, defesa ou guarda-redes. Mas como avançado era completo, por ser rápido e tecnicista, podia actuar na meia ou na ponta em qualquer das alas, mas também como avançado-centro por ter "instinto goleador". Mas no Brasil não marcou nenhum dos seis golos da selecção portuguesa, obtidos por Artur José Pereira (três), Carlos Sobral (dois) e António Stromp (um).


A equipa (versão 6 + 3 2do primeiro jogo, em 13 de Julho de 1913, no Rio de Janeiro. De cima para baixo. Da esquerda para a direita: Amadeu Cruz, Carlos Homem de Figueiredo, Cosme Damião (capitão), Eduardo Luís Pinto Basto, Henrique Costa e Artur José Pereira, com José Domingos Fernandes (suplente); António Stromp, Álvaro Gaspar, Carlos Sobral, Luís Vieira e João Bentes 

PARTICIPAÇÕES DOS FUTEBOLISTAS DO "GLORIOSO" NA SELECÇÃO DA AFL EM DIGRESSÃO PELO BRASIL
Futebolistas
Tot
Rio de Janeiro
São Paulo
(1)
(2)
(3)
(4)
(5)
(6)
(7)
Henrique Costa
7
DE
DE
DE
DD
DD
DD
DD
Carlos H. Figueiredo
7
MD
MD
MD
DE
DE
MD
MD
Cosme Damião
6
MC
MC

MC
MC
MC
MC
Artur José Pereira
6
ME
(golo)
ME

MC
m.D
(golo)

m.D
(golo)
DE
José D. Fernandes
6
-
m.D
ME
ME
MD
ME
m.E
Álvaro Gaspar
6
m.D
m.E
AC

AC
AC
AC
Luís Vieira
6
AC
AC
m.D
AC
m.D
m.E

Augusto P. Simões
4
-
GR
GR

GR
GR

NOTAS: (1) - Em 13 de Julho, D 1-3 frente ao Misto inglês do Rio Cricket e Paysandu;
(2) - Em 14 de Julho, D 0-1 frente aos brasileiros do Misto do Rio de Janeiro;
(3) - Em 17 de Julho, E 0-0 frente à Liga Metropolitana de Sports Atléticos;
(4) - Em 20 de Julho, V 1-0 frente ao Botafogo FR
(5) - Em 23 de Julho, E 2-2 frente à Associação Atlética das Palmeiras;
(6) - Em 25 de Julho, D 1-5 frente á equipa do Colégio MacKenzie;
(7) - Em 27 de Julho, V 1-0 frente ao Clube Atlético Paulistano


A equipa (versão 6 + 3 + 2) do último jogo, em 27 de Julho de 1913, em São Paulo. De cima para baixo. Da esquerda para a direita: De pé (defesas e guarda-redes): Henrique Costa, Eduardo Luís Pinto Basto e Artur José Pereira; sentados (ao centro, os avançados): António Stromp, Carlos Sobral, José Domingos Fernandes, Álvaro Gaspar e João Bentes; em baixo (centrocampistas): Carlos Homem de Figueiredo, Cosme  Damião (capitão) e Boaventura Belo


Em 77 presenças - 11 futebolistas em 7 jogos - os benfiquistas tiveram... 48!
Se os futebolistas do "Gloriosíssimo" representavam 50 por cento da Selecção, em campo fizeram subir a percentagem para os 62 por cento. Quando se tem classe!

A delegação de Portugal (futebolistas da AFL) em São Paulo. Álvaro Gaspar em segundo lugar nos sentados, a contar da esquerda, na 3.ª fila a contar do primeiro plano

Luís Vieira depois de Francisco Santos
Seguiram de Lisboa 16 futebolistas portugueses mas só regressaram 15, pois Luís Vieira ficou pelo Brasil "contratado" pelo Botafogo FR, sendo o primeiro português (que se saiba) a jogar no Brasil e o segundo no estrangeiro depois de Francisco Santos jogar na SS Lázio de Roma, em 1907/08. Se Francisco Santos quando regressou a Portugal foi jogar no Sporting CP, Luís Vieira em 1916 regressou a Portugal e ao Benfica. Em 14 de Agosto de 1913 chegou esta delegação pioneira na representação oficial - ainda que de uma associação regional - do futebol português, a bordo do Orita da Mala Real Inglesa, entre o Rio de Janeiro e Liverpool.




A necessidade de ter uma Federação
Esta representação portuguesa no futebol fez perceber às entidades que dirigiam o futebol em Portugal a necessidade de criar uma federação nacional que organizasse as selecções de futebolistas de modo a fazer delas representações do País e não apenas de uma associação regional. Menos de um ano depois, em 31 de Março de 1914, estava fundada a União Portuguesa de Futebol (UPF). Filiou-se na FIFA, provisoriamente, em 26 de Agosto de 1914, definitivamente em 20 de Maio de 1923 e alterou o nome para Federação Portuguesa de Futebol em 28 de Maio de 1926, mais uma vez provisoriamente pois apenas em 3 de Dezembro de 1938 legalmente passou a ser FPF com a aprovação dos Estatutos, pois até 1938 vigoraram os de 1914 da UPF. Mesmo "futebol à portuguesa". Trapalhadas e devagar, devagarinho...


Na viagem de regresso a bordo do paquete Orita, com Álvaro Gaspar em primeiro plano de chapéu (o primeiro, em baixo, a contar da esquerda)

O que se disse de Álvaro Gaspar no Brasil?
Nada. Apesar de haver muitas e longas crónicas dos jogos e das actividades da delegação portuguesa no Brasil vertidas para prosa nos diversos jornais do Rio de Janeiro e São Paulo, Álvaro Gaspar não é referido, mas de Luís Vieira também não há referências e ele ficou a jogar no Rio de Janeiro!

Depois do Brasil - Verão de 1913 - adivinhava-se uma grande temporada para Álvaro Gaspar em 1913/14! Ilusões!

Alberto Miguéns

NOTA: No ano passado, em 2013, esta efeméride centenária não teve o destaque que deveria ter por parte da AFL. Passou despercebida. E não merecia. É não perceber que só há este presente e perspectiva de futuro porque houve um passado!

NOTA FINAL: Por dificuldades técnicas - impossibilidade por excesso de informação - para que resulte com eficácia (publicar fotografias e documentos a ilustrar os textos) "A Vida Desportiva de Álvaro Gaspar Numa Dúzia de Datas (entretanto 14!)" está programada para os seguintes dias (coincidindo com efemérides relativas à relação de Álvaro Gaspar com o Clube):

PUBLICADO
1.       01.Mar.2014       O Último Jogo;
2.      05.Mar.2014      O Debutante;
3.      16.Mar.2014       O Crescimento;
4.      30.Mar.2014      A Resistência;
5.      09.Abr.2014       O Triunfo;
6.      10.Abr.2014       O Reservista;
7.      29.Abr.2014       A Titularidade;
8.      30.Abr.2014       A Internacionalização;
9.      06.Mai.2014       A Ficha;
10.    28.Mai.2014       O Brasil;

A PUBLICAR
11.     05.Jun.2014       A Derradeira Glória;
12.     03.Set.2014        A Última Época;
13.     04.Set.2014        O Funeral
14.     05.Set.2014        O Legado  

Aquando do 100.º aniversário do seu falecimento, em 3 de Setembro de 2015, conto fazer um "Especial" que junte os 14 textos e mais algum ou alguns se entretanto os tiver feito!  

 Plano para Maio
(Previsão sempre à meia-noite):
De 28 para 29: O Calendário sem nexo ou talvez não...;
De 29 para 30: Centenário da Gloriosa Natação;
De 30 para 31: Futsal: SLB vs AD Fundão;
De 31 para 01: Atenção ao "Futeluso - versão 2015";
De 01 para 02: Eu Benfiquista no Museu do FCP by BMG (parte II);
De 02 para 03: Gostava Tanto Que..;
De 03 para 04: Tanta e Tanta Glória (O golo onze mil);
De 04 para 05: Álvaro Gaspar (1913/14 - A Glória Final);
De 05 para 06: Hóquei em Patins: SLB vs FC Porto

    
1 comentários
comentários
  1. Este é um capítulo fascinante em que se nota que a comitiva que era quase uma verdadeira seleção Portuguesa manteve uma digna representação. Do ponto de vista desportivo os jornais Brasileiros por vezes mostraram algum desapontamento nas exibições mas também as relativizaram com o cansaço, factor que devera efectivamente ter pesado. Fora de campo terá sido muito bem sucedido. Existem reportes de recepções e banquetes. Um dos participantes nesses eventos sociais foi o Dr. Bernardino Machado que logo em 6 de agosto de 1915 (e até 5 de dezembro de 1917 até ser deposto por uma junta militar encabeçada por Sidónio Pais) viria a ser presidente da Républica (teria um 2º mandato em 1925, destituído depois pela revolução militar de 28 de maio de 1926). Um presidente com pouca sorte.

    Mas voltando a esta digressão nota-se que a primeira convocaória tinha maior equidade na seleção de jogadores (mais 2 do CIF e mais 2 do SCP). foram então 16 jgadores embora Candido Rosa Rodrigues se tivesse lesionado durante a viagem. Felizmente que Álvaro Gaspar teve oportunidade para ir ao Brasil. Na sua curta vida esta experiência terá sido muito importante. Quem já foi ao Brasil sabe bem do fascínio que aquelas terras provocam e nesse tempo de pouca difusão mediática os contrastes seriam bem mais desconhecidos e coloridos.

    A imagem da equipa do último jogo em São Paulo é muito cativante. Nota-se uma atitude tranquila e compentrada dos jogadores. Particularmente a atitude corporal de Álvaro Gaspar é muito tranquila. Pobre rapaz que tão trágico fim teve. Mas o Alberto a seu tempo falará nisso.

    Cosme Damião pelo que percebi foi muito apreciado e teve uma postura digna de um capitão e de grande sentido diplomático.Notável para um homem com origens humildes mas que dotado do conhecimento que a Casa Pia lhe proporcionou, emergiu como um condutor de homens com grande visão e vontade. Tanto que lhe devemos...

    Outro nome importante é Luis Viera. Mais importante do que se pensa. Foi um jogador de grande relevância e longevidade. Homem de Belém, vindo do tempo das Salésias acompanhou as mutações do clube. O sucesso ou não da sua experiência no Botafogo é para mim desconhecido. Foi precursor por muitos anos de Rogério Pipi. Luis Viera, descobri recentemente, foi em 1922 presidente do Clube de Futebol os Belenenses, fundado (ou cedo participado) por tantos ex-Benfiquistas ilustres, os manos Pereira, Henrique Costa, Bogalho, Rio, Veloso, Virgílio Paula, António Reis Gonçalves um fundador do Sport Lisboa que também foi presidente do CFB).

    Um artigo notável. É claro que é possível que ainda venham a surgir mais alguns detalhes mas foi uma fortuna (ou uma sábia decisão) ter integrado pelo menos um reporter e varias outras pessoas que na comitiva tinham uma postura consciente da importância histórica desta digressão. Ficaram registos de enorme valor histórico. Mais uma vez o Alberto faz um excelente papel de divulgador daquilo que deveria ser amplamente divulgado pela AFL e pela FPF.

    Muito obrigado por isso

    Saudações Benfiquistas
    VJ

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