A criação deste Blogue, ideia de António Melo, tem como objectivo divulgar, defender o Sport Lisboa e Benfica e a sua Gloriosa história. Qualquer opinião aqui expressa vinculará apenas o seu autor, Alberto Miguéns.

SEMANADA: ÚLTIMOS 7 ARTIGOS

03/09/2014

A Última Época de Álvaro Gaspar

03/09/2014 + 7 Comentários API


Há 99 anos, a completar às 21 horas de hoje, morreu uma Glória do Benfica. A certidão de óbito (pela primeira vez tornada pública) do "Chacha":




AVISO: Texto longo acerca da história do "Glorioso" em 1914/15. Quem não gostar de história é melhor esperar por outro dia!


ÁLVARO JOSÉ GASPAR
Nascimento: 10 de Maio de 1889
Primeiro jogo: Desconhecido (por enquanto)
Primeiro jogo referenciado (3.ª categoria): 20 de Dezembro de 1908 (19 anos)
Primeiro jogo na 2.ª categoria: 24 de Outubro de 1909 (20 anos)
Estreia na 1.ª categoria: 25 de Setembro de 1910 (21 anos)
Último jogo na 1.ª categoria: 1 de Março de 1914 (24 anos)
Último jogo com o "Manto Sagrado": 11 de Abril de 1915 (25 anos)
Falecimento: 3 de Setembro de 1915 (26 anos)
Funeral: 5 de Setembro de 1915 (para o Cemitério da Ajuda)


1914/1915 (25 anos)

Em que época começou a jogar?
Pela Ficha de Inscrição que deve ter sido preenchida no início de 1912/13, quando Álvaro Gaspar tinha 23 anos, ele escreveu que jogava há sete anos sempre no SL Bemfica (ainda e até 1945 com mê) sem interrupções. Deve ter sido preenchida antes do início da época, pois segundo Rogério Jonet essa era a prática no Clube. Todos a preenchiam até o Capitão-Geral (treinador e organizador das equipas) Cosme Damião. Se jogava há sete anos e ininterruptamente, começou em 1905/06 ou 1906/07.


Campeonatos regionais em 1914/15: Hexa, Tri, Bi e nada!
O Benfica não conquistou o título na 1.ª categoria, mas foi tricampeão na 2.ª categoria, hexacampeão na 3.ª categoria (conquista definitiva da 2.ª taça) e bicampeão na 4.ª categoria.

Os quatro campeonatos regionais, em 1914/15, mostram a consolidação do futebol lisbonense
Os mesmos clubes, comparativamente com 1913/14, na 1.ª, 2.ª e 4.ª categoria. E mais três emblemas na 3.ª categoria "obrigando" a formar duas séries com recurso a uma final (como na 4.ª categoria) para apurar o campeão.

PARTICIPAÇÃO NO CAMPEONATO REGIONAL
Clubes
(N.º por categoria)
1.ª cat
(6)
2.ª cat
(6)
3.ª cat
(10)
4.ª cat
(11)
 SL BENFICA
2.º
V
V
V
 Sporting CP
V
3.º
2.º
4.º sB
 CS Império
3.º
5.º
5.º sS
3.º sT
 Lisboa FC
4.º
4.º
5.º sB
2.º sT
 GS Cruz Quebrada
5.º
6.º
4.º sB
5.º sB
 Internacional/ CIF
6.º
2.º
3.º sS
5.º sT
 Tejo FC
-
-
2.º sS
2.º
 SF Palmense
-
-
2.º sB
4.º sT
 SG Sacavenense
-
-
3.º sB
6.º sB
 Vitória FC Setúbal
-
-
4.º sS
-
 Olímpico CP
-
-
-
2.º sB
 Luzitano SC
-
-
-
3.º sB
NOTA: O Campeonato Regional para a 3.ª categoria, devido à inscrição de dez clubes (teria que ter 18 jornadas) foi dividido em duas séries. Na 1.ª série (sS) o Sporting CP classificou-se em 1.º lugar (entre 5 clubes). Na 2.ª série (sB) o SL Benfica classificou-se em 1.º lugar (entre 5 clubes). Na final a duas mãos, o SLB conquistou o título após empate (fora) e  vitória (em Sete Rios) sobre o Sporting CP;
O Campeonato Regional para a 4.ª categoria, devido à inscrição de onze clubes (teria que ter 20 jornadas) foi dividido em duas séries. Na 1.ª série (sT) o Tejo FC classificou-se em 1.º lugar (entre 5 clubes). Na 2.ª série (sB) o SL Benfica classificou-se em 1.º lugar (entre 6 clubes). Na final a duas mãos, o SLB conquistou o título após duas vitórias sobre o Tejo FC

O futebol em meados dos anos 10 do déculo XX
O "Chacha" deixou o futebol e o mundo dos vivos a meio da década de dez do século XX. Na fase de arranque definitivo do futebol em Portugal. A todos os níveis. Os clubes eram já organizações sociais e não apenas grupos de futebol. Os futebolistas tinham brio como se fossem profissionais (e alguns eram como Artur José Pereira no Sporting CP!). Os recintos desportivos multiplicavam-se, com melhores condições para jogar e para se poder assistir aos jogos. As assistências aumentavam sustentadamente. O Benfica conseguira atrair dez mil pessoas, em 1914, para ver um SLB frente a uma afamada equipa de escoceses de Glasgow: Third Lanark AC.
Em 1915 o futebol estava em revolução (e evolução) mas não era tema de conversa diária, como hoje. Era mais efémero. Mas por isso, também por isso, impressiona como em 1947 Álvaro Gaspar ainda era recordado e referenciado com um dos melhores futebolistas do Benfica!

Entre o campo das Laranjeiras e o de Palhavã, em trezentos metros, nem tanto, localizavam-se três campos (e mesmo quatro pois o CS Império conseguiu construir um segundo campo - Palhavã A, paralelo a Palhavã - para jogos de categorias inferiores e treinos). Houve domingos, pelas 15 horas, com três jogos em simultâneo - todos os encontros dessa jornada do Regional - quando Internacional, Benfica e CS Império jogaram, no mesmo dia, em casa, respectivamente, nas Laranjeiras, Sete Rios e Palhavã! Houve domingos em que 66 entre os 100 melhores futebolistas portugueses estavam a jogar, podendo, em 90 minutos, ir "espreitá-los" a três locais diferentes com facilidade!
Álvaro Gaspar com seis jogos: um na 2.ª categoria e  cinco na 3.ª categoria
Com Álvaro Gaspar a integrar equipas "secundárias" em 1914/15 não há registos na Imprensa da época das suas participações e golos. Resta a ficha curricular do Clube. Através dela aquilo que se pode aferir é que fez toda a temporada como ponta-direita (extremo-direito) essencialmente na 3.ª categoria, com uma participação episódica na 2.ª categoria. Só há informações para jogos do campeonato regional de Lisboa. Se na 2.ª esteve num encontro (dos dez realizados por esta categoria) na 3.ª categoria esteve em cinco dos seis jogos disputados "em campo", incluindo a final a duas mãos. Não há informação dos golos marcados, mas sabendo-se que os resultados foram volumosos deve ter marcado muitos e bons... À "Chacha"!


Novembro de 1914
Em 15 do penúltimo mês do ano de 1914 estreou-se na temporada de 1914/15 na 3.ª categoria. Um jogo em Sete Rios, às 13 horas (a hora da 3.ª categoria em 1914/15), frente ao Lisboa FC, numa espectacular vitória por nove-a-zero!


O Sport Lisboa n.º 66; 21 de Novembro de 1914; página 2
Dezembro de 1914
Em 27 do último mês, jogou na ponta-direita, num jogo da 2.ª categoria, para suprir ausências dos habituais titulares. Ele que estava doente não faltava. Já alguns dos "outros" ao domingo... já era! Um jogo em Sete Rios, às 11 horas (a hora da 2.ª categoria em 1914/15), frente ao GS Cruz Quebrada, numa espectacular vitória (novamente!) por nove-a-zero!


O Sport Lisboa n.º 72; 2 de Janeiro de 1915; página 2

Ano de 1915. Ano fatídico!


Sofrer como espectador (parte I: Prazer)
Em 17 de Janeiro na 5.ª jornada do campeonato regional para a 1.ª categoria, Álvaro Gaspar (já sem capacidade para jogar entre os melhores) foi um dos milhares de espectadores presentes no campo de Sete Rios para presenciar um jogo fundamental para continuar, pelo 4.º ano consecutivo, campeão de Lisboa. O Benfica venceu e o "Chacha" foi feliz para casa na rua dos Jerónimos.


Magnífico trabalho de interpretação de Victor João Carocha.
A fotografia da assistência foi publicada em "O Sport Lisboa" n.º 75; 23 de Janeiro de 1915; Primeira página
Espectadores a presenciar a jornada caseira do Benfica frente ao Sporting CP, em 17 de Janeiro de 1915. Adoentado, com tuberculose. A nove meses de falecer. Uma alegria com a vitória do SLB por 3-0. Mas o mal estava feito. Só um milagre" na 2.ª volta, no campo do adversário, poderia dar o tetracampeonato regional. Ilusão

Como se perdeu (ou vai perder) um campeonato!


O sorteio da edição 1914/15 do Regional parecia favorável ao Benfica para renovar o título pela 4.ª vez consecutiva e obter o quinto campeonato regional. Na 1.ª jornada defrontava "fora" o Internacional, 2.º classificado da temporada anterior (E 2-2 e V 2-1) e na 5.ª jornada, última da primeira volta, em "casa" com o Sporting CP - 3.º classificado em 1913/14 - que se reforçara no CIF e no SLB! Seria um campeonato a três, mas o Benfica era melhor, mesmo perdendo três jogadores, com dois dos melhores futebolistas portugueses: Paiva Simões (guarda-redes) e Artur José Pereira (médio). E iria beneficiar da luta pelo segundo lugar entre Internacional e Sporting CP.


Equipa da 1.ª jornada. Vitória por 5-0 com o Internacional, no campo das Laranjeiras, em 15 de Novembro de 1914. De cima para baixo. Da esquerda para a direita. De pé - Augusto da Fonseca, Francisco Pereira, Mário Monteiro, Cândido de Oliveira, Henrique Costa e Jaime Cadete; Sentados: Aníbal Santos, Herculano dos Santos, Carlos Homem de Figueiredo, Cosme Damião (capitão) e Rogério Peres. Augusto da Fonseca, depois presidente da Direcção do SLB nos anos 40, substituía Artur José Pereira, Mário Monteiro no lugar de Paiva Simões e Jaime Cadete para o lugar da "esperança" Boaventura Silva. Aliás Augusto da Fonseca é o único associado do SLB que foi presidente dos três Órgãos Sociais: Conselho Fiscal (anos 30), Direcção (anos 40) e Conselho Fiscal (anos 50). Um dos melhores de nós! Alentejano natural de uma aldeia do concelho de Odemira... Colos!
E o Regional não podia ter começado melhor. Agora (e também no final dessa temporada quando foi analisado o insucesso na época) sabe-se "bem de mais". Na 1.ª jornada, no campo das Laranjeiras, o grande rival histórico do SLB, o Internacional (ainda não era o SCP) perdeu por... 0-5! O 2.º classificado na época anterior esmagado no seu campo!

Equipa da 2.ª jornada, em 6 de Dezembro de 1914, um dia terrível para o Benfica. Derrota por 1-2 com o GS Cruz Quebrada, no campo de Benfica (Desportos de Benfica) na Quinta de Marrocos, perpendicular à Estrada de Benfica. De cima para baixo. Da esquerda para a direita. De pé - Augusto da Fonseca (não foi utilizado), Jaime Cadete, Carlos Homem de Figueiredo, Mário Monteiro, José Domingos Fernandes, Henrique Costa, Cosme Damião (capitão) e Leopoldo Mocho (não foi utilizado); Sentados: Aníbal Santos, Cândido de Oliveira, Francisco Pereira, Herculano dos Santos e Alberto Rio. A meia-defesa ou os centro-campistas com José Domingos Fernandes no lugar de Augusto da Fonseca nem ajudou a defesa nem municiou devidamente os avançados. Cosme Damião pensou que o jogo ia ser fácil, colocou Domingos Fernandes - a recuperar de uma lesão - a médio-direito mas a meio da primeira parte ressentiu-se da lesão e passou a fazer figura de corpo presente. A equipa desorganizou-se tentando individualmente resolver o jogo. Uma saída mal calculada do guarda-redes deu o empate. Em desespero todos tentavam marcar golo. E deixaram de marcar os adversários. Estes num contra-ataque fizeram o segundo golo. Depois colocaram-se todos à defesa. Tipo locomotiva, pois os autocarros escasseavam em Portugal nesse tempo. Passaram os 90 minutos e as bolas não entravam. Quantas vezes é que este "filme" não ocorreu já na História do Futebol? E na do "Glorioso"?
Pensando que era o Benfica que estava forte de mais e não o Internacional que estava fraco de mais, a 2.ª jornada foi preparada (e jogada) com desleixo. Em 6 de Dezembro de 1914 registou-se uma das derrotas mais humilhantes do Benfica. Um dia muito triste. O Tricampeão regional perdia, por 1-2 (depois de estar a vencer aos cinco minutos) com o GS Cruz Quebrada, 4.º classificado em 1913/14 e que em 1914/15 ficaria em penúltimo lugar (o Internacional passou de 2.º em 1913/14 para último em 1914/15). O GS Cruz Quebrada em dez jogos só obteve três vitórias, uma frente ao SLB, Lisboa FC (V 4-1) e CIF (V 3-0). Na 2.ª volta perdeu por 1-4 com o Benfica. Em 6 de Dezembro de 1914, um erro de cálculo e displicência que custaria a revalidação do título.

Equipa da 5.ª jornada. Vitória por 3-0 com o Sporting CP, no campo de Sete Rios, em 17 de Janeiro de 1915, com Álvaro Gaspar a assistir (de certeza!). De cima para baixo. Da esquerda para a direita. De pé - Mário Monteiro, Carlos Homem de Figueiredo, Henrique Costa, Cosme Damião (capitão), Leopoldo Mocho e Francisco Pereira; Sentados: Aníbal Santos, Herculano dos Santos, Manuel Veloso, Rogério Peres e Cândido de Oliveira. Uma grande equipa. Das melhores na história centenária do "Glorioso". A base para o segundo Triregional, entre 1915/16 e 1917/18. Que o "Chacha" já "viu" do Quarto Anel...
Antes do final da 1.ª volta, antes da 5.ª jornada (SLB frente ao SCP, no campo de Sete Rios) o SCP liderava com 8 pontos (4 vitórias em 4 jogos e 16/1 em golos. O Benfica era 2.º com 6 pontos (três vitórias e uma derrota e 22/3 em golos) com duas goleadas: V 10-1 ao CS Império, em casa deste (Palhavã); e V 6-0 ao Lisboa FC também em terreno alheio (Campo Grande). No final da primeira volta o SLB e SCP empatados na liderança, com 8 pontos. Mas... falta a segunda volta e a finalizar esta a ida ao terreno do Sporting CP. Havia que golear até lá! E assim foi!

Regressando ao "Chacha"

Janeiro de 1915
Em 24 do primeiro mês de 1915, jogou na ponta-direita, em mais uma jornada da 3.ª categoria. Um jogo em Palhavã, às 13 horas, frente ao SG Sacavenense, numa vitória por 5 a 2!

Fevereiro de 1915
Não há registos de participações em jogos durante Fevereiro, mas a 3.ª categoria esteve em franca actividade, com três jogos!

Março de 1915
Em 7 do terceiro mês de 1915, jogou na ponta-direita, em mais uma jornada da 3.ª categoria. Um jogo em Sete Rios, às 13 horas, frente ao SF Palmense, numa vitória por 4 a 2!

Sofrer como espectador (parte II: Dor)
Em 28 de Março o jogo da 10.ª jornada (e última) do campeonato regional para a 1.ª categoria disputou-se no novo "Stadium de Lisboa" construído por José de Alvalade junto do campo do Sporting CP no Sítio das Mouras (e com madeiras retiradas das bancadas deste). Um empate chegava ao Sporting CP para permitir a disputa de uma final e poder conquistar o primeiro título de campeão regional na 1.ª categoria. Ao Benfica também. Mas jogava em terreno alheio. A final seria em campo neutro.

O "panorama" antes da última jornada era o seguinte: 
Sporting CP com 16 pontos (8 vitórias e 1 derrota; 34/7 em golos);
SL BENFICA com 16 pontos (8 vitórias e 1 derrota; 49/5 em golos).


Uma equipa de uma das 10 jornadas em que SCP que conquistou o primeiro Regional em 1914/15. Da esquerda para a direita. De cima para baixo. Raul Barros, Amadeu Cruz, Artur José Pereira, Jorge Vieira, Boaventura Silva e Paiva Simões; António Stromp, António Rosa Rodrigues, Morice, João Bentes e John Armour. A vermelho ex-Benficas e a negro ex-CIF´s em 1913/14 (época anterior).
António Rosa Rodrigues (Neco) saiu do Sport Lisboa em Maio de 1907. Depois de duas épocas (1907/08 e 1908/09) regressou numa temporada ao SLB em 1909/10 (foi campeão regional pelo SLB) e depois voltou ao Sporting CP, a partir de 1910/11, jogando até 1916/17. Foi um dos 24 fundadores do "Glorioso" em 28 de Fevereiro de 1904. Faleceu em 29 de Julho de 1938. A par do seu irmão, um ano mais velho, Cândido Rosa Rodrigues importantíssimos para fazer do SCP uma equipa ganhadora. Quanto a mim mais importantes que os dois Stromp (António e Francisco). Para mim os Stromp, apesar de bons jogadores são lenda! Porque morreram de sífilis. António numa agonia devastadora e arrepiante. Francisco temendo o mesmo suicidou-se! Os Stromp estavam no SCP desde 1906, e não se atreviam a competir a nível superior. Nem se inscreveram no campeonato de 1906/07, apesar de José Alvalade ser secretário da Liga de Football Association que organizou a competição. Só com a chegada dos dois Catataus, em Maio de 1907, o Sporting CP conseguiu, degrau-a-degrau, passar a rivalizar com o Benfica!

Na última jornada do Regional, no Stadium de Lisboa
Não houve empate. O SCP venceu. Por 3-1. O Benfica até esteve a vencer! Mas perdeu: o jogo e campeonato. 

Custou muito. Mostrar que era melhor que o Sporting CP, quer no confronto directo, quer nos resultados com os adversários. E sucumbir devido àquele fatídico dia 6 de Dezembro de 1914! Logo na 2.ª jornada.

Ribeiro dos Reis deu conta dessa tristeza. E em particular do lamento de Álvaro Gaspar, que doente, não podia ajudar o Benfica. Ou o Sport Lisboa como "as velhas raposas da imprensa que acompanhavam o Clubes desde os primórdios" continuavam a chamar ao SLB!

O Sport de Lisboa n.º 85; 3 de Abril de 1915; página 3

«Ânimo rapazes! O Gaspar só queria ter um bocadinho das vossas pernas...»
Um desabafo de Álvaro Gaspar, em 28 de Março de 1915, para os companheiros que acabavam de perder o título após três anos consecutivos campeões, descrito (e por isso registado para o posteridade) por António Ribeiro dos Reis no jornal n.º 85 d'O Sport de Lisboa, em 3 de Abril de 1915, uma semana depois do jogo, ainda com Álvaro Gaspar vivo, apesar de doente:


O Sport de Lisboa n.º 85; 3 de Abril de 1915; página 4

Regressando ao "Chacha"

Abril de 1915
Com o campeonato regional para a 3.ª categoria disputado em duas séries, para apurar o campeão regional foi necessário jogar uma final em duas mãos. Em de Abril, às 13 horas, no campo do adversário, no Sítio das Mouras, ao Lumiar, o Benfica - vencedor da 2.ª série - empatou (a um golo) com o Sporting CP (vencedor da 1.ª série). Uma semana depois, em 11 de Abril, pelas 13.30 horas, na 2.ª mão, o SLB com o "Chacha" a ponta-direita, venceu por 5-0 e sagrou-se campeão regional.

O Sport de Lisboa n.º 86; 10 de Abril de 1915; página 5

O Sport de Lisboa n.º 87; 17 de Abril de 1915; página 4

E foi assim que terminou a curta carreira de uma Glória do Benfica
Como campeão. Aos 25 anos. No campo do "Glorioso", em Sete Rios. Com goleada. De cinco-a-zero. Ao Sporting! Provavelmente com Álvaro Gaspar a marcar golos. Em 1915. Em Abril. A 11. Às três-e-um-quarto da tarde!

Em Sete Rios, onde tanta glória registou e tantos golos marcou! Até entrar com a bola pela baliza dentro, em dribling! À Chacha!
Campeão na 2.ª e na 3.ª categoria. Uma época, dois títulos!
Se na 2.ª categoria foi campeão mas apenas participou num jogo (V 9-0) dos dez que o Benfica jogou, na 3.ª categoria foi gigante, aquele dez réis de gente! Até porque o Benfica venceu quatro jogos por falta de comparência dos adversários. Álvaro Gaspar apenas não esteve no empate, sem golos, na jornada forasteira frente ao SF Palmense.

 Resumo da actividade de duas categorias campeãs regionais
2.ª categoria com 10 vitórias em... 10 jogos. 50 (cinquenta golos!) marcados e... 2 (dois!) sofridos. Vinte (20) pontos. Mais sete que o 2.º classificado. O Benfica de Cosme Damião nos anos 10 arrasava!

3.ª categoria, na 2.ª série, com sete vitórias e um empate (invicta) em oito jornadas. 18/4 em golos. 15 pontos. Mais dois que o SF Palmense.   

Jogo a favor de Álvaro Gaspar
Em 25 de Abril de 1915, a duas semanas de completar 26 anos, realizou-se no campo de Sete Rios, um segundo jogo a favor de Álvaro Gaspar, cujo estado de saúde piorava. Foi elaborado um programa de jogos colocando em competição todas as categorias, incluindo a 3.ª onde o "Chacha" jogara em 1914/15. Todos empenhados em honrar Álvaro Gaspar, vencendo e apurando dinheiro - 383$27 de valor líquido - que infelizmente seria mais para o funeral que para a cura. Assim registaram-se três triunfos e um empate:
1.ª categoria: Empate, a um golo, frente a um Misto de Lisboa;
2.ª categoria: Vitória, por 5-0, frente ao CS Império;
3.ª categoria: Vitória, por 3-1, frente ao Tejo FC;
4.ª categoria: Vitória, por 4-0, frente a um Misto de Lisboa


O Sport de Lisboa n.º 88; 24 de Abril de 1915; página 6
Equipa do SLB no segundo jogo de beneficência a favor de Álvaro Gaspar. De cima para baixo. Da esquerda para a direita. De pé - Mário Monteiro (ao lado de Aníbal), Aníbal Santos, Francisco Pereira, Cosme Damião (capitão), Leopoldo Mocho e Henrique Costa; Sentados - Cândido de Oliveira, Rogério Peres, Herculano dos Santos, Carlos Homem de Figueiredo e Jaime Cadete

O Sport de Lisboa n.º 89; 1 de Maio de 1915; página 5

Álvaro Gaspar morreu, passam hoje - às nove horas da noite - 99 anos! Mas morreu campeão! Pelo Benfica! Que honrou como poucos enquanto teve força e saúde. Consta que Félix Bermudes quando escreveu o Hino do SLB, em 1929, 14 anos depois do desaparecimento do "Chacha" era também a pensar nele que idealizou e escreveu a estrofe: «Honrai agora os ases que nos honraram o passado.»

Alberto Miguéns

NOTA FINAL: Por dificuldades técnicas - impossibilidade por excesso de informação - para que resulte com eficácia (publicar fotografias e documentos a ilustrar os textos) "A Vida Desportiva de Álvaro Gaspar Numa Dúzia de Datas (entretanto 15!)" está programada para os seguintes dias (coincidindo com efemérides relativas à relação de Álvaro Gaspar com o Clube):

PUBLICADO
1.       01.Mar.2014       O Último Jogo;
2.      05.Mar.2014      O Debutante;
3.      16.Mar.2014       O Crescimento;
4.      30.Mar.2014      A Resistência;
5.      09.Abr.2014       O Triunfo;
6.      10.Abr.2014       O Reservista;
7.      29.Abr.2014       A Titularidade;
8.      30.Abr.2014       A Internacionalização;
9.      06.Mai.2014       A Ficha;
10.    28.Mai.2014       O Brasil;
11.     19.Jun.2014       Percursos;
12.     02.Set.2014       A Derradeira Glória;
13.     03.Set.2014        A Última Época;

A PUBLICAR
14.     04.Set.2014        O Funeral;
15.     05.Set.2014        O Legado  


Aquando do 100.º aniversário do seu falecimento, em 3 de Setembro de 2015, conto fazer um "Especial" que junte os 15 textos e mais algum ou alguns se entretanto os tiver feito!  
7 comentários
comentários
  1. boas tardes, gostava de saber se possivel os melhores marcadores europeus em hoquei pantis.
    obrigado pela atençao.

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    1. Caro Vítor Catita

      É possível. Mas como estão em papel, época-a-época, levará aí umas 10/12 horas porque depois tem tudo de bater certo, fazendo o somatório de todos os hoquistas em comparação com os resultados do Clube!

      Lembre-me uma semana antes do primeiro jogo do Benfica na Liga Europeia.

      Gloriosas Saudações Benfiquistas

      Alberto Miguéns

      Eliminar
  2. Notável!

    1 - Facto relevante é a primeira vez que se demonstra a causa da morte de Gaspar. Tuberculose... tal como a sífilis, doenças que naqueles tempo ceifavam pessoas, não escolhendo classes sociais.

    "uma doença terrível, na qual a luta entre a alma e corpo é tão gradual, silenciosa e solene, e com um final tão certo que dia a dia, grão a grão, os resíduos mortais partem e esvaem-se "...[Charles Dickens em Nicholas Nickleby (1839)].

    Ainda no século XIX figuras como Júlio Diniz, Cesário Verde morreram dessa terrível doença. Nesses tempos e até cerca 1946 (quando apareceu um antibiótico adequado) não existiam fármacos eficazes e por isso apenas se tentava praticar o isolamento e se possível, alguma de melhoria de condições de vida. Geralmente sem resultados positivos. A progressão da tuberculose pulmonar em Gaspar terá sido rápida e fatal.


    2 - Interessante ler alguns nomes de clubes que nunca tinha ouvido falar e provavelmente já não existem: Tejo FC, Olímpico. Sendo o Campeonato regional presumo que o Luzitano SC não deverá ser o Lusitano de Évora.


    3 - Muito interessante o mapa que localiza os três campos de futebol. Deixa perceber que, apesar da zona de Belém ser nessa época o mais importante viveiro de jogadores, era na zona Alcântara que o futebol de competição mais fervilhava. Com assistência crescente devem ter sido Domingos de grande bulício.


    4 - Uma palavra para as fotografias que publica neste e noutros artigos. São muito raras, para mim algumas inéditas e de muito boa qualidade. Obrigado!


    5 - Foi pena que o Catatau António Rosa Rodrigues não tenha voltado para ficar. Que eu conheça existem pelo menos duas fotografias em que ele em 1909 se exibe a gloriosa camisola do Sport Lisboa contratando com a dos seus colegas Benfiquistas. Igual só mesmo David da Fonseca (mas esse voltou para ficar). O Neco fez dois jogos de águia ao peito. Infelizmente voltou a sentir falta de chá... Em 1909 Gaspar ainda não jogava na equipa principal por isso não deverá ter jogado com ele. Mas como nos disse ontem os Catataus apreciavam muito este pequeno grande jogador.


    6 - Esse campeonato de 1914-1915 foi mesmo uma lição.


    Muito obrigado!
    Saudações Benfiquistas
    VJC

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    1. Caro Victor João Carocha

      2. O Tejo FC teve muita força (como 4.ª categoria) nessa época de 1914/15, a única em que competiu oficialmente.Tenho ideia que era uma dissidência momentânea no Ateneu Comercial de Lisboa. O Olímpico CP e o Luzitano SC também apenas competiram em 1914/15. O Lusitano de Évora é Lusitano Ginásio Clube.

      Com o falecimento de Álvaro Gaspar deixo de ir fazendo a história do futebol do Benfica (o que é o mesmo que fazer grande parte da história do futebol português.

      É verdadeiramente escandaloso que a AFL e a FPF tenham feito 100 anos, respectivamente, em 1910 e 1914, e não tenham aproveitado para fazer a verdadeira história do futebol regional e nacional. E têm arquivo vasto e importante para isso. Era um grande contributo para perceber como surgem e foram crescendo os clubes, porque têm as moradas das Sedes e Campos bem como as datas das filiações, emblemas, equipamentos, etc. Querem ser só eles a saber desses "assuntos" não percebendo que são pessoas, por isso desaparecem. Quantos que quiseram guardar só para eles essas preciosidades já se foram? Há muito amiguismo e cunhismo em Portugal. Um dia - se é que não aconteceu já - um imprevisto ou tragédia fará desaparecer documentação que por não estar editada são peças únicas.

      3. Os mapas são da zona de Sete Rios, entre o Jardim Zoológico (campo das Laranjeiras) e a actual Praça de Espanha (no enfiamento do campo de Palhavã). Os campos estiveram pouco tempo em simultâneo, com a saída do Benfica, em 1916, para o campo da Quinta de Marrocos em Benfica. Mas o do Internacional (que começou em Alcântara, mas em 1912 passou para as Laranjeiras) e o do CS Império duraram até meados dos anos 20 (pelo menos). E esse facto - jogos naquela zona da cidade - deu os "seus frutos" entre a miudagem. Por exemplo Vítor Silva (nascido em 1909, por isso criança no tempo do Álvaro Gaspar) que vivia "paredes meias" com o campo do Internacional, na Quinta das Laranjeiras, dizia que passara a infância entretido a ver jogar futebol. E assim se fez futebolista.

      Gloriosas Saudações Benfiquistas

      Alberto Miguéns

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  3. Não tens um unico post que não me deixe impressionado, meu caro.

    Um gigantesco obrigado!

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  4. Errata:
    ...
    5 - Foi pena que o Catatau António Rosa Rodrigues não tenha voltado para ficar. Que eu conheça existem pelo menos duas fotografias em que ele, em 1909, exibe a gloriosa camisola do Sport Lisboa contrastando com a dos seus colegas Benfiquistas. Igual só mesmo David da Fonseca (mas esse felizmente voltou para ficar). O Neco fez dois jogos de águia ao peito. Infelizmente voltou a sentir falta de chá... Em 1909 Gaspar ainda não jogava na equipa principal por isso não deverá ter jogado com ele. Mas como nos disse ontem os Catataus apreciavam muito este pequeno grande jogador.

    ...

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  5. Anónimo4/9/14 14:22

    Caro Alberto

    Realmente é extraordinário ler o seu trabalho diariamente.

    Parabéns e como Benfiquista MUITO OBRIGADO

    Saudações Benfiquistas

    Jorge Santos

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