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quinta-feira, 25 de julho de 2024

Regresso a Casa

quinta-feira, 25 de julho de 2024 3 Comentários

E A UM NOVO RELVADO...



O nono desde a inauguração do estádio, em 25 de Outubro de 2003.

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sábado, 9 de janeiro de 2021

Manuel Gourlade 77

sábado, 9 de janeiro de 2021 2 Comentários

 HÁ 77 ANOS, EM 9 DE JANEIRO DE 1944, FALECEU AQUELE QUE "EMBALOU" O CLUBE NOS SEUS PRIMEIROS ANOS.


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terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

Todos Somos Gourlade

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018 5 Comentários
SE AMANHÃ - 28 DE FEVEREIRO - É O DIA DO COLECTIVO, DE UM CONJUNTO DE  INDOMÁVEIS.


Antes desse dia podemos afirmar que foi Manuel Gourlade que permitiu a existência dessa vontade colectiva indómita.

NOTA INICIAL: No final do texto em NOTA FINAL o seu registo de baptismo e o que dele disseram Cosme Damião (em 1945), Daniel dos Santos Brito (em 1950) e Mário de Oliveira/Rebelo da Silva (em 1954). Esses depoimentos, o de 1945 e 1950, são de quem o conheceu e conviveu com ele alguns anos, por isso elucidativos da sua importância para a existência do Clube.


Eterno! Obrigado! Glorioso!

Foi ele que teve uma ideia que levou à fundação do Clube, ou seja, à Ideia
E isso ocorreu porque além de futebolista (defesa à esquerda) também era interessado em tudo o que girava à volta do jogo e das equipas para o jogarem. Foi ele que se lembrou de juntar aos miúdos de Belém ávidos por jogarem futebol à experiência de uma geração anterior, já homens feitos, com renome entre os poucos futebolistas desse tempo, com outro tipo de avidez, a de vencer e com meios - futebol nos pés e na cabeça - para isso, os casapianos que brilharam nos campos de Lisboa e Carcavelos na última década do século XIX.


Como se dizia em Portugal era tudo ali à mão. Porta com porta e porta para um pátio

Gourlade surge, para todos nós, em 1903
Mas muito caminho trilhara desde que nascera no bairro da Ajuda, na rua da Paz n.º 118, pelas onze da manhã de 25 de Outubro de 1872, ou seja, tinha 28 anos aquando da mudança do século XIX para o XX. Fica para outro dia fazer uma pequena biografia pormenorizada deste extraordinário exemplo do Benfiquismo. O melhor é encontrá-lo a jogar, por volta de 1902 ou início de 1903, no Verão deste ano certamente, com o seu companheiro de emprego na Farmácia Franco, Daniel Santos Brito e os miúdos que habitavam no mesmo prédio onde estava instalada a citada farmácia, que tinha um pátio interior onde se conseguia jogar. Mas com o número de entusiastas a aumentar depressa o pátio minguou ou os futebolistas entulharam o espaço. A solução foi passar a futebolar nos logradouros que eram múltiplos entre o bairro de Belém e a linha de caminho de ferro Cais do Sodré - Cascais e até para lá desta à beira Tejo.

Football Club, Grupo de Belém ou Catataus em 1903. As equipas eram fotografadas com a disposição em campo. Da esquerda para a direita: Em cima, os defesas e guarda-redes: José Cruz Viegas, José Rosa Rodrigues (guarda-redes e capitão) e MANUEL GOURLADE; Ao centro (médios): Jorge Afra, Carlos França e Daniel Santos Brito; Em baixo (avançados): Duarte José Duarte, António Rosa Rodrigues, Cândido Rosa Rodrigues, Raul Empis e Armando Macedo

Nos jogos defesa à esquerda no Football Club (Belém)
Não lhe são reconhecidos grandes dotes como futebolista, talvez por se interessar tardiamente pelo «jogo-jogado» (trintão sem passado de adolescente como futebolista) mas quanto ao «jogo-pensado» e ao modo de afirmar um novo clube não há melhor. Consta que num domingo, talvez 29 de Novembro de 1903, o FC (Belém) lançara um desafio ou foi desafiado por um dos mais competentes grupos da época, o Grupo dos Pinto Basto ou FC Swifts (velozes, rápidos). Os miúdos do clube de Belém lá foram entusiasmados, pois o adversário era respeitado, e entre os dois empregados da Farmácia Franco (o balconista Daniel Santos Brito e o contabilista Manuel Gourlade) e os três irmãos Rosa Rodrigues (José, Cândido e António) estava meia-equipa. A outra meia era dos amigos destes, que eram popularmente designados por Catataus. O jogo foi intenso mas saldou-se por uma derrota tangencial, talvez 0-1 ou 1-2, no local logradouro onde era habitual, em Lisboa, jogar-se depois da proibição de o fazer no Campo Pequeno, com a construção da Praça de Touros: as Terras do Desembargador, às Salésias.


A equipa do Grupo dos Pinto Basto/FC Swifts (Velozes)/Internacional/CIF na escadaria da Quinta Nova, em Carcavelos. Poucos eram os grupos de futebol que conseguiam que os ingleses do Carcavellos Club aceitassem os seus reptos ou desafios

Como era normal quem perdia podia pedir desforra
E era no conjunto destes dois jogos - desafio ou repto e desforra - que se apurava o vencedor se o vencido pedisse desforra. A não pedir servia só um jogo. O Football Club pediu desforra mas surpreendentemente, até pela aproximação ao Natal, período religioso e frio em que não se jogava, Gourlade solicitou ao capitão do FC (Belém) José Rosa Rodrigues que pedisse desforra a Eduardo Pinto Basto, capitão do FC Swifts, para daí a 15 dias (talvez 13 de Dezembro) e não para o domingo seguinte. Como era questão de honra o adversário vitorioso, embora provavelmente estranhasse haver um domingo "em branco" pelo meio...aceitou.


Onde tudo se passou e rapidamente. A - Terras do Desembargador, às Salésias onde se jogava. Foi nesse espaço, em finais de 1903, que o Football Club (Belém) perdeu com o Grupo dos Pinto Basto/FC Swifts e foi nesse mesmo espaço que o mesmo grupo reforçado com casapianos da "Associação do Bem" os venceu e na euforia da vitória foi decidido fundar um clube, o "Glorioso"; B - o bairro de Belém (com o prédio da Farmácia Franco e o seu pátio interior, o Café do Gonçalves e o António das Caldeiradas) muito maior que na actualidade pois parte dele foi desmantelado para fazer a "Exposição do Mundo Português", em 1940; C - A "Cerca da Casa Pia" onde treinavam aos domingos, os ex-alunos da Real Casa Pia de Lisboa e onde Gourlade os foi procurar para reforçar o Football Club no jogo-desforra com o FC Swifts; 1 - O local de treinos mais utilizado, entre as traseiras da Casa da Praia do Duque de Loulé e a linha férrea; 2 - os terrenos em frente ao Mosteiro dos Jerónimos problemático por conflituar com o Jardim fronteiriço ao Mosteiro; 3 - Os areais entre docas para lá da linha férrea (em 1903/1904) menos regularizados que aquando desta fotografia que é posterior; 4 - Os terrenos menos utilizados por conflituarem com o Palácio de Belém e a azáfama do bairro que incluía um importante mercado especializado em ter bom peixe; 5 - Os terrenos do Hipódromo de Belém (citados por Eça de Queirós, em "Os Maias") embora excelentes - até mais para o Futebol que para as "Cavaladas" - ficavam pouco acessíveis 

Entre os dois jogos, Gourlade «fisgou-a» bem!
Sabendo que os ex-alunos da Real Casa Pia de Lisboa, que integravam uma agremiação benemérita, a «Associação do Bem», treinavam aos domingos de manhã junto da Cerca da instituição casapiana acercou-se deles no sentido de reforçarem as posições onde o (Belém) Football Club era mais carente. E assim foi. Manuel Gourlade optou pelo menos óbvio. Não se reforçou com os habituais ingleses que andavam por Lisboa sempre livres de clubes e disponíveis para jogar - Eagleson, Ettur ou Gilman - pois mesmo sabendo que o Grupo dos Pinto Basto jogava com ingleses preferiu reforçar-se com futebolistas experientes mas portugueses. Ora um grupo só de portugueses vencer um grupo de ingleses ou mesmo um misto no início do século XX era visto quase como uma impossibilidade, mas não foi...

O "Mítico" logradouro entre a calçada da Ajuda (Oeste) e a rua das Casas do Trabalho (Este), onde nasceu e viveu o infortunado Pepe, limitado a Sul pela rua do Embaixador. As Terras do Desembargador, às Salésias. Local de excelência onde se disputavam os raros jogos de futebol realizados em Lisboa, depois da construção da Praça de Touros, no Campo Pequeno, espaço onde se estreou o Futebol em Lisboa pouco antes do Ultimatum inglês a Portugal

O jogo que tudo criou e mudou
Na desforra, o certo é que o FC (Belém) venceu, por 1-0, e essa vitória foi vivida de um modo estrondoso pois o misto português/inglês que depois deu origem ao Internacional (CIF) era demolidor nos jogos que realizava frente a outros grupos que não fossem os inalcançáveis com exclusividade inglesa: Carcavellos Club e Lisbon Cricket Club (Cruz Quebrada). Na confraternização que se seguiu no Café do Gonçalves (actual Pastelaria Nau de Belém) surgiu a ideia «Com estes futebolistas - e só portugueses - fazia-se um grande team!» E assim foi. A ideia de Gourlade resultara na perfeição.

Os impressos para as quotas do Football Club (Belém) que nos primeiros tempos serviram também como impressos para as quotas do "Glorioso"

Em 28 de Fevereiro de 1904 foi apenas concretizado o que ficara decidido em 1903
Juntaram-se, treinaram de manhã e pela tarde, numa dependência da Farmácia Franco, decidiram fundar o Grupo Sport Lisboa que depois passaria, em 13 de Setembro de 1908, a Sport Lisboa e Benfica, numa efeméride com 110 anos a completar neste ano de 2018. Não foi difícil escolher os primeiros dirigentes. A presidente José Rosa Rodrigues (capitão do Football Club Belém) e como seus auxiliares os dois empregados da farmácia onde o clube ficaria instalado por deferência do proprietário da farmácia, Pedro Franco: Daniel Santos Brito (secretário) e Manuel Gourlade (tesoureiro). 

Primeira categoria do Sport Lisboa em 1907, antes de um jogo com o Internacional/CIF, na Quinta Nova, em Carcavelos. MANUEL GOURLADE em baixo com o casaco vestido e pronto para jogar se um dos onze craques ficasse impossibilitado; Da esquerda para a direita: Em cima: David Fonseca, Henrique Costa, Cândido Rosa Rodrigues, Marcial Costa, Fortunato Levy (capitão) e Carlos França (atrás do capitão); Daniel Queirós Santos, Albano Santos, Manuel Mora (guarda-redes, mais atrás) António Couto e José Cruz Viegas

Primeiros tempos do Sport Lisboa
Coube a Manuel Gourlade a maior parte das atitudes - é isso que se percebe na documentação do Clube (presenças em treinos e iniciativas - financeiras e organizativas - para dotar o clube de condições para singrar). Se as redes para as balizas (e provavelmente os postes e as traves) vinham das embarcações de pesca dos Rosa Rodrigues da Ericeira e Nazaré, o resto era tratado por Gourlade. Era ele que orientava os treinos, registava as presenças, adquiria bolas e utensílios ou, sendo poliglota, escrevia para Inglaterra, fazendo ele do «inglês» que outros clubes tinham (pelo menos um) e o Sport Lisboa...não. Era ele o «nosso inglês»! Não tanto a jogar mas a facilitar a "logística"!




O «nosso inglês» permitia ao Clube ter acesso, directamente de Inglaterra (Reino Unido), ao melhor que havia para o Futebol  em vez de adquirir o que os ingleses a viver em Portugal já não queriam.



O Clube acima de tudo
É que com a entrada progressiva de casapianos "bons de bola" relegou-o para a segunda equipa, como guarda-redes, ou seja, «autorrelegou-se» pois consta que era ele que organizava os plantéis e orientava as duas equipas. E é dele a ideia (mais uma) de reservar um pouco de energia durante os jogos - ou pelo menos não a esbanjar em inutilidades durante os encontros - para ter nos últimos 15 minutos capacidade, se fosse necessário, para empatar jogos aparentemente perdidos ou vencer jogos aparentemente empatados.


Segunda categoria do Sport Lisboa, em 1907. As equipas eram fotografadas com a disposição em campo. Da esquerda para a direita: Em cima, os defesas e guarda-redes: Henrique Teixeira, João Persónio (guarda-redes) e José Neto; Ao centro (avançados): Félix Bermudes (capitão), Eduardo Corga, Leopoldo Mocho, António Meireles e Carlos França; Em baixo (médios): Luís Vieira, Cosme Damião e Marcolino Bragança 
Segunda categoria do Sport Lisboa, em 1905 ou terceira categoria em 1906 ou 1907. As equipas eram fotografadas com a disposição em campo. Da esquerda para a direita: Em cima, os defesas e guarda-redes: Henrique Teixeira, MANUEL GOURLADE (guarda-redes) e Leopoldo Mocho; Ao centro (médios): Carlos Moteiro, Mário Monteiro e Luís Vieira; Em baixo (avançados): António Costa, António Alves, Luís Rodrigues, Eduardo Corga e António Meireles. Equipa que continua na mesa de dissecação de Victor João Carocha o maior especialista mundial em descobrir o que ninguém mais consegue nas imagens da Gloriosa História

Consta que o amor ao Clube levou longe de mais o seu esforço
Empolgado com o Clube que depressa passara de mais um clube a "Glorioso" pois derrotara os mestres invencíveis do Cabo Submarino, em plena Quinta Nova, Carcavelos, o Carcavellos Club (10 de Fevereiro de 1907) e depois sofrendo com a deserção no Verão desse ano, para o Sporting CP, de vários associados - quatro fundadores - incluindo sete futebolistas titulares e mais um futebolista reformado a jogar no segundo team - Manuel Gourlade fez com que contas da Farmácia e do Clube se confundissem. Em breve deixou a Farmácia Franco, mas deslocando-se com o Clube de Belém para Benfica o apego nas margens do Tejo eram mais fortes pois foi aí que passou a "ganhar a vida" como tradutor entre docas e navios que aportavam a Lisboa.

Lá bem ao fundo, encostado à parede, entre a janela e um fresco pintado na parede, sempre atento, Manuel Gourlade, no salão nobre do edifício principal do Asilo d' Espie Miranda. A mesma sala em 2018. Até as «pernas tremeram e as mãos vacilaram» estar junto do lugar onde, em 24 de Julho de 1932, esteve Gourlade. Ainda nem os meus avós - paternos e maternos - tinham casado 

Envelhecimento precoce
Com uma vida que dependia de alguns dias bons e muitos maus o sucedâneo de maus fizeram temer o pior tanto que Daniel Santos Brito temeu pela facto de andar sempre pela borda dos cais em passo errante e más ideias. E foi melhor interná-lo num Lar de Idosos, em Campolide. Lar que tinha, então o nome de Asilo, neste caso Asilo D'Espie Miranda junto aos arcos do Aqueduto das Águas Livres, na encosta de Monsanto, junto à outrora ribeira de Alcântara hoje canalizada por baixo de acessos ao eixo Norte-Sul e avenida de Ceuta.

Com a sua habitual curiosidade, mesmo ancião desfalecido, lá está ele bem atrás da lápide que foi inaugurada em 10 de Outubro de 1932 e que levou sumiço não existindo na actualidade, a não ser o local onde esteve. Pisar o que Gourlade pisou não é cansaço é dádiva

Foi Daniel Santos Brito que lhe levou o crescimento do Benfica
Entrou para o asilo, em 5 de Julho de 1926, aos 55 anos (a confirmar com mais rigor) e lá ficaria até falecer, em 9 de Janeiro de 1944, com 71 anos. Foi o seu amigo, companheiro no futebol e colega da farmácia que lhe ia levando as notícias dos primeiros êxitos nacionais do clube que nasceu (depois de uma ideia sua de juntar os melhores dos miúdos de Belém de início do século XX aos casapianos afamados de finais do século XIX), após o organizar até 1908 e de dar impulso nas «Asas da Águia» ao seu continuador Cosme Damião que soube engrandecê-lo e transformar a Ideia em Ideal. Cosme Damião sempre reconheceu em Gourlade a alma e o alicerce que permitiu depois a ele, enquanto ideólogo, fazer mais do muito que recebera de Gourlade. Acreditamos que foi com rasgado sorriso que Gourlade saboreou os títulos de 1930, 1931 (BI no campeonato de Portugal), 1933 (recuperar o título de campeão regional perdido desde 1920), 1935, 1936, 1937, 1938 (TRI no campeonato da I Liga), 1940 (um BIS com Regional e Taça de Portugal), 1942 e 1943 (BI no campeonato nacional da I Divisão e a primeira "dobradinha" com a Taça de Portugal). Uma vida de sacrifício chegou ao seu final com um sorriso nos lábios e coração ardente de dever cumprido. Aquela azáfama de início de século, entre as papeladas na Farmácia Franco, os logradouros à beira Tejo, as irritações com quem faltava a acordos e compromissos não cumprindo horários e combinações, as cartas para e de Inglaterra, as estações de correio, alfândega, marcações a corda e cal, balizas às costas e as Terras do Desembargador, não tinham sido em vão. Antes pelo contrário. Estava ali não mais um clube, mas O Clube.   

Como mudou a Quinta da Mineira na outra vertente da ribeira de Alcântara em frente à Quinta da Rabicha. Se cresceram os prédios em altura, atrás, dos dois edifícios do Asilo, o eixo Norte-Sul e o alargamento da linha férrea de Campolide para Pinhal Novo "limpou" as casas junto dos arcos do Aqueduto das Águas Livres. Outrora ligavam as duas quintas uma famosa ponte - para jusante da Ribeira só havia outra em Alcântara que significa em árabe, A Ponte.
A ponte do Tarujo foi-se com a canalização da ribeira de Alcântara nos anos 50 para instalar a avenida de Ceuta (a ribeira ou o que resta dela corre por baixo) mas "aposto" que Gourlade, mesmo asilado no edifício mais pequeno - o grande era a residência da família benemérita D' Espie Miranda - deve ter ido colher umas papoilas (antes de serem saltitantes) à Quinta da Rabicha 

Gourlade pode ter ido repousar para o Asilo mas depois todos conhecemos o que se passou
Eis o maior entre os maiores antes de sermos Clube e nos primeiros tempos após o sermos. Manuel Gourlade passou o testemunho a Cosme Damião e este transformou a Ideia em Ideal, o Benfica em Benfiquismo. Digam lá se em todos nós que somos o Benfica, que por vezes ultrapassamos o limite do razoável, que fazemos planos, que compramos e oferecemos Benfica, se não há um Gourlade dentro do nosso coração Benfiquista. Aquele pedaço do nosso músculo das emoções que nasceu e há-de morrer Benfica - que são das poucas células a par de algumas do cérebro que nunca se renovam mesmo que se viva 120 anos - tem um nome, só pode ter um nome, músculo Gourlade.


Gourlade a alma mater do "Glorioso"! O nosso lado do coração à Benfica!

Alberto Miguéns


NOTA À PARTE: Especial agradecimento ao dedicado leitor deste blogue Victor João Carocha (pelas ilustrações e descobertas fascinantes da vida de Manuel Gourlade) e a um dos filhos da família Rosa Rodrigues pelos pormenores que pai e tios contavam acerca da pré-fundação e início do Clube.

É aqui que continuas a estar! Sempre estiveste, como quem te conheceu, testemunhou e reconheceu a obra que iniciaste e outros souberam continuar para torná-la Gigante. Mas há sempre quem semeie primeiro!



NOTAS FINAIS:

1. Registo de baptismo (31 de Outubro de 1872)



2. Cosme Damião (Jornal "A Bola" n.º 11; 5 de Março de 1945; Página 5)



3. Daniel Santos Brito (Jornal "Ecos de Belém; 28 de Outubro de 1950; Página 2)



4. História do Sport Lisboa e Benfica 1904/1954; Mário de Oliveira/Rebelo da Silva (1954; Fascículo n.º 1; páginas 17 a 21/excertos)











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sábado, 12 de novembro de 2016

15 Minutos à Benfica

sábado, 12 de novembro de 2016 5 Comentários
HÁ UNS DIAS PROMETI ESCREVER ACERCA DOS "QUINZE MINUTOS À BENFICA". CHEGOU O DIA. HOJE.


Manuel Gourlade é tido como o criador desse termo. Mais que um nome, uma ideia!

A questão foi colocada em 25 de Outubro
Está aqui digitalizada mas pode ser encontrada em (clicar).



Tudo o que se sabe acerca do assunto deve-se a Mário de Oliveira e a Rebelo da Silva 
Quando publicaram a magistral História do Clube nas Bodas de Ouro (50 anos), em 1954. Para a tornar possível falaram com alguns dos fundadores, entre eles Cosme Damião e Daniel Santos Brito. Este era colega de Manuel Gourlade na Farmácia Franco. Acompanhou-o toda a vida e consta que foi ele que o internou no asilo onde viria a falecer. Além disso os dois eram jogadores do grupo de miúdos Belém FC que depois quando atraiu casapianos de uma geração mais velha deu origem, em 28 de Fevereiro de 1904, ao Sport Lisboa que em 13 de Setembro de 1908 passou a designar-se Sport Lisboa e Benfica. Mais do que ser eu a escrever acerca do assunto vou dar a palavra a quem sabe do tema e reservar comentários.

O Belém FC em 1903. Em pé, o primeiro a contar da direita, é Manuel Gourlade. Daniel dos Santos Brito está na fila do meio, o primeiro a contar da direita. Respectivamente, defesa à esquerda (Back) e Médio ou Meio-defesa à esquerda (Half-Back) 

Daniel dos Santos Brito foi o primeiro a referir o quarto-de-hora
E era o último do jogo. Mas os 15 minutos finais nem sempre correspondiam ao tempo de agora, entre os 75 e os 90 minutos.

Comecemos pelo...princípio
Em Belém funda-se um Clube, depois de um treino matinal, com dez presenças registadas pelo metódico Manuel Gourlade num dos postais do estabelecimento onde trabalhava, a Farmácia Franco. Depois do almoço (o treino terminou pelas 12:30 horas) reuniram-se na Farmácia Franco além desses dez, mais catorze. Entre os dirigentes escolhidos estavam os dois que já foram referidos: Daniel Santos Brito (secretário) e Manuel Gourlade (tesoureiro).


História do SL Benfica 1904-1954; Volume I: páginas 13 e 14; Mário de Oliveira e Rebelo da Silva; edição dos autores; 1954; Lisboa 


Manuel Gourlade
Foi muito importante antes de haver Clube e nos primeiros tempos do Clube. Nasceu em 25 de Outubro de 1872. Tinha pouco mais de 31 anos quando o "Glorioso" foi fundado.  Em 25 de Outubro de 2003 foi inaugurada a "Catedral". Seria para homenagear o nascimento de Gourlade no dia em que faria...131 anos?!

História do SL Benfica 1904-1954; Volume I: páginas 17 e 18; Mário de Oliveira e Rebelo da Silva; edição dos autores; 1954; Lisboa 

O que nos contam é inequívoco
Reservar energias para os minutos finais dos jogos. Não sabemos se era uma estratégia se uma forma de protecção durante o jogo. É que era vulgar na época os futebolistas, sem preparação adequada, não saberem dosear o esforço soçobrando à medida que o tempo se ia escoando. Seria só uma forma de ter um jogo ritmado e ainda conseguir, quando necessário, dar o golpe final nos adversários ou Manuel Gourlade também conseguia que os "seus" futebolistas não andassem em "correrias loucas" logo no início do jogo e no reinício do mesmo após o intervalo? Talvez as duas situações. Até porque em caso de vantagem desde cedo (muito vulgar nos jogos do Clube mesmo em 1905, 1906, 1907 ou 1908) ter energia no final também possibilitava conseguir manter com mais segurança a vantagem.

Raros jogos tinham...90 minutos
Ao contrário do que se pensa poucos jogos até ao início dos anos 10 do século XX tinham 90 minutos (45 + 45). Só jogos entre duas equipas de ingleses a residir em Portugal ousavam jogar tanto tempo. Os jogos entre ingleses e portugueses ou entre portugueses tinham 70 (35 + 35) minutos ou 80 (40 + 40) minutos! Como se pode ver nestas duas digitalizações ou ir ao original (clicar para 1906) (clicar para 1907). Por isso os 15 minutos finais tanto podiam ser entre os 55 e os 70, como entre os 65 e os 80 minutos.



A dedicação de Manuel Gourlade foi...muito dedicada
Como nos contaram Mário de Oliveira, Rebelo da Silva e Daniel Santos Brito.

 (clicar em cima para obter melhor leitura)

História do SL Benfica 1904-1954; Volume I: página 21; Mário de Oliveira e Rebelo da Silva; edição dos autores; 1954; Lisboa 
Ecos de Belém; 28 de Outubro de 1950; página 2; Coluna de Daniel dos Santos Brito

Sempre houve enorme respeito por Gourlade
Talvez pelo que dele disseram os nossos pioneiros (no Clube) e os dois pioneiros a contar a História do Clube.


Faleceu em 1 de Janeiro de 1944
Aos 71 anos. Infelizmente antes de Mário de Oliveira ter entrevistado Cosme Damião (início de Março de 1945) e de ter falado com Daniel Santos Brito (entre finais dos anos 40 e início da década de 50). Que grande entrevista Manuel Gourlade poderia ter dado! Envelhecimento precoce, sem família e filhos (que se saiba) nem meios de subsistência morreu num asilo junto ao Aqueduto das Águas Livres! 


Mais tarde é um facto, com Béla Guttmann, a rapidez com que se passou a marcar golos
Transformou o quarto-de-hora final em quarto-de-hora inicial. Mas isto porque havia essa memória. Essa tradição. Essa Ideia original que foi passando de geração em geração. Gloriosa. Havia uma referência histórica cujo conceito se foi diluindo no tempo mas permanecia o termo. O quarto-de-hora! E este foi ideia de um homem. Um Glorioso. Aqui por baixo, mas sempre aí por cima. Maior do que ele só o Benfica. Que consegue ser maior que todos nós, os que cá estiveram antes de nós e os que hão-de vir por aí, depois e muito depois de nós. Lá no "Quarto Anel" Manuel Gourlade é aquela estrela, por cima dos estádios que quando o Benfica marca um golo depois dos 75 minutos cintila que nem um desvario. Quando olharmos para o Céu depois desse golo é facílimo ela "piscar-nos o olho". É essa a estrela de Manuel Gourlade!  


Um quarto-de-hora À Benfica!

Alberto Miguéns

NOTA: O facto de não estar junto de um local com ligação cibernética impede-me de editar comentários (se os houver). Só pelas 20.00 ou 21.00 horas deste sábado será possível fazê-lo! Obrigado. 
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