A criação deste Blogue, ideia de António Melo, tem como objectivo divulgar, defender o SL Benfica e a sua Gloriosa História. Qualquer opinião aqui expressa vinculará apenas o seu autor, Alberto Miguéns.
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quinta-feira, 25 de julho de 2024
terça-feira, 6 de fevereiro de 2018
José Rosa Rodrigues 134
| ● Alberto Miguéns ● terça-feira, 6 de fevereiro de 2018 | ● 00:00 | 5 Comentários |
O PRIMEIRO PRESIDENTE DO "GLORIOSO" NASCEU HÁ 134 ANOS. INFELIZMENTE UM HABITUAL "PRESIDENTE-ESQUECIDO".
Às seis desta manhã deste 6 de Fevereiro, mas no
ano de 1884. Com a curiosidade de ambos - primeiro presidente e Clube -
nascerem no mesmo mês com um intervalo de 20 anos (1884 - 1904) e 22 dias (6 e
28 de Fevereiro).
Se Cosme Damião é o Pai do Benfiquismo
Podemos considerar que Manuel Gourlade é o «Pai
do Glorioso» mas José Rosa Rodrigues (e mais os dois irmãos: Cândido e António)
é/são a "Mãe do Clube".
Cosme Damião
Foi ele que deu consistência à Ideia de 28 de
Fevereiro de 1904 transformando um clube "como tantos outros" na
maior referência do desporto português e dando-lhe as condições para depois, de
rumar, em 1947, ao «Quarto Anel», de se transformar num Clube Mítico da FIFA.
Manuel Gourlade
Se «Todos Somos Benfiquistas» (graças a
Cosme Damião) podemos considerar que «Todos Somos Gourlade» (graças ao Clube) que Manuel Gourlade soube conduzir desde o
início com método e decisões inovadoras face ao panorama geral do que eram os
clubes, em Portugal, no início do século XX.
José Rosa Rodrigues
Era o mais velho de quatro irmãos (e uma irmã)
núcleo-duro do Belém Football Club que soube atrair vizinhos do prédio, rua e bairro, mas principalmente
dois empregados da Farmácia Franco, em Belém - Manuel Gourlade e Daniel Santos
Brito - uma farmácia que ficava no piso térreo do prédio onde vivia a família
Rosa Rodrigues. Atrás havia um pátio com dimensões razoáveis para uns
"baliza-a-baliza" onde começou o "pontapé na bola" para
depois em terrenos públicos começar a ser conhecido por "Grupo dos
Catataus" e passar a futebolar com qualidade. É a esta juventude, genica e
vontade de vencer que depois se juntam (por acção de Manuel Gourlade), em
Dezembro de 1903, futebolistas experientes casapianos "bons de bola"
e afamados entre o reduzido meio futebolístico lisbonense surgindo uma Ideia
que rapidamente se transforma num Ideal, o Sport Lisboa, o Sport Lisboa e
Benfica, o Benfiquismo.
Os progenitores
Os pais da prole de quatro irmãos - três
fundadores do "Glorioso" e um demasiado novo (Jorge, com onze anos)
para ser futebolista entre adultos - casaram em Lisboa pois ambos moravam na
cidade, embora o pai fosse de uma família da Cova da Piedade/Almada. Aquando do
casamento (20 de Fevereiro de 1879) o pai Cândido Rodrigues morava na rua de
São Bento n.º 243 e a mãe Maria da Conceição Gomes Rosa na rua de São Paulo n.º
246. Distavam cerca de cem metros e - tudo indica - foram viver para onde
nasceria o primeiro filho e primeiro presidente do "Glorioso", na rua
da Esperança n.º 22. A cerca de 50 metros das
residências de solteiros. E demorou a existir um primogénito: cinco anos, entre
1879 e 1884! Mas com um filho e certamente interesse
em outros (e seriam mais quatro - três rapazes e uma rapariga) depressa rumaram
a Belém, pois o segundo filho - Cândido Rosa Rodrigues (o nosso primeiro
avançado-centro) já nasceu na rua de Belém n.º 144 (porta principal do prédio). O tal edifício onde estava a
Farmácia Franco no n.º 147 (nesse tempo, no Concelho de Belém, os números eram consecutivos). Se o «Tio Zé» nasceu em 6 de Fevereiro de 1884, o «Candinho»
não demorou muito...13 de Abril de 1885. Um ano e dois meses.
![]() |
| Rua da Esperança onde nasceu há 134 anos (logo pelas seis da matina é tempo certinho) José Rosa Rodrigues, o Glorioso Primeiro Presidente |
Os irmãos
Seguiu-se o «Neco» (19 de Outubro de 1896) e ali
estava um conjunto de três valorosos que vendo as futeboladas dominicais nas
Terras do Desembargador, às Salésias, depressa os quiseram imitar. O irmão
benjamim Jorge (1 de Julho de 1892) era demasiado novo para alinhar.
Limitava-se a acompanhar o "Grupo dos Catataus" e ficar junto de uma
das balizas a guardar os pertences dos outros pois em terrenos públicos a
mãozinha do alheio é sempre muito leve. Em Portugal levíssima. Mas ainda foi Glorioso Guarda-redes já no dealbar dos Anos 10 do século XX. A irmã Maria
José (16 de Julho de 1888) gostava de ver tudo aquilo mas era rapariga. Cuidado
com a menina. Como Cândido Rodrigues entrou para o negócio de armadores da
família dos sogros, expandindo a empresa Catatau (alcunha dos armadores Gomes Rosa)
para lá do mercantilismo enveredando pela pesca e até para "barcas de
banhos a veraneantes" redes para as balizas e traves e postes para as
sustentar não era problema. O que já não podia ser usado na pesca era usado em
Belém. Um luxo!
Do branco para o vermelho-e-branco
Do Belém FC para o "Glorioso" sobrou
muito. Os futebolistas - depois repartidos , pelo primeiro e segundo
"team" - os impressos nos primeiros tempos das quotas, o calção
branco - e a cor branca no escudo - a que se juntou a vermelha, bem como a
energia da juventude e vontade de fazer sempre mais, que nunca se extinguiu
passados tantos anos, mais de um século.
Eis o resultado de tão acertada decisão:
Do Belém FC: José Cruz Viegas, Carlos França, António, Cândido e José Rosa Rodrigues;
Da equipa escolar de 1895/1898 da Casa Pia: António Couto, Emílio Carvalho e Silvestre Silva;
Do adversário Grupo do Campo de Ourique: Manuel Mora e Albano Santos;
Um dos primeiros aderentes ao Sport Lisboa: Fortunato Levy.
Além deste onze havia outros tantos e...mais na segunda categoria, em grande parte do Belém FC, como Manuel Gourlade e Daniel Santos Brito, mas também casapianos como Januário Barreto, Daniel Queirós dos Santos, José Neto, Francisco Santos, João Persónio e Cosme Damião. Quase todos até ao Verão de 1907 passariam, mesmo que episodicamente, pela primeira categoria
Eis o resultado de tão acertada decisão:
Do Belém FC: José Cruz Viegas, Carlos França, António, Cândido e José Rosa Rodrigues;
Da equipa escolar de 1895/1898 da Casa Pia: António Couto, Emílio Carvalho e Silvestre Silva;
Do adversário Grupo do Campo de Ourique: Manuel Mora e Albano Santos;
Um dos primeiros aderentes ao Sport Lisboa: Fortunato Levy.
Além deste onze havia outros tantos e...mais na segunda categoria, em grande parte do Belém FC, como Manuel Gourlade e Daniel Santos Brito, mas também casapianos como Januário Barreto, Daniel Queirós dos Santos, José Neto, Francisco Santos, João Persónio e Cosme Damião. Quase todos até ao Verão de 1907 passariam, mesmo que episodicamente, pela primeira categoria
Presidente (Comissão Administrativa) e futebolista
Sendo ele o principal elemento do Belém FC, como
irmão mais velho, e herdeiro da empresa pesqueira (o seu tio e padrinho era
solteiro e nunca teve filhos) a escolha para presidente da Comissão
Administrativa, em 28 de Fevereiro de 1904, foi natural. E continuou a jogar
futebol, doravante de vermelho ficando o branco como pré-equipamento. E assim
foi épocas a fio...
Presidente-futebolista tem muitas "obrigações"
Enquanto não houve dinheiro (?) e/ou disponibilidade (?) para fazer novo timbre foram usados os recibos que sobravam do (Belém) Football Club até serem impressos os do Sport Lisboa
![]() |
| Será que o pinheiro manso do Presidente da República, no Palácio de Belém, ainda é o mesmo? |
Presidente-futebolista tem muitas "obrigações"
Treina (este o primeiro) mas esteve presente em 25 dos 29 treinos efectuados entre 28 de Fevereiro e 18 de Dezembro de 1904, 24 (totalista) em 1903/04 e um dos cinco em 1904/05:
Joga (mesmo na segunda categoria em 1905/06 e início de 1906/07):
Responsabiliza-se (um dos muitos documentos assinados pelo presidente, ainda quando o novo clube era confundido com o antigo, tendo o mesmo presidente/principal impulsionador e carola):
Joga (mesmo na segunda categoria em 1905/06 e início de 1906/07):
Responsabiliza-se (um dos muitos documentos assinados pelo presidente, ainda quando o novo clube era confundido com o antigo, tendo o mesmo presidente/principal impulsionador e carola):
Enquanto não houve dinheiro (?) e/ou disponibilidade (?) para fazer novo timbre foram usados os recibos que sobravam do (Belém) Football Club até serem impressos os do Sport Lisboa
Da primeira para a segunda categoria
Não foi duradoira a presença de José Rosa
Rodrigues entre os melhores futebolistas. Mas ainda foi útil na segunda
temporada do Clube (1905/06) jogando na segunda categoria.
Epílogo
Com a eleição do primeiro presidente (Januário Barreto) de uma
Direcção (22 de Novembro de 1906) José Rosa Rodrigues
perde protagonismo. O "Glorioso" queria mais que Belém, queria o
Mundo.
Obrigado, Senhor José Rosa Rodrigues - o Primeiro!
Alberto
Miguéns
NOTA1: "Tradução" do registo de baptismo:
Aos onze dias do mês de Maio do ano de mil oitocentos e oitenta e quatro, nesta Igreja Paroquial de Santos-o-Velho de
Lisboa eu o Presbítero Joaquim da Silva Sardinha coadjutor na mesma, baptizei
solenemente um indivíduo do sexo masculino a quem dei o nome de José, que nasceu às seis horas da manhã do dia seis de Fevereiro, mês próximo passado,
filho legítimo, o primeiro, do nome de Cândido
Rodrigues natural da Freguesia de São Tiago da Vila de Almada do Patriarcado e
de Dona Maria da Conceição Gomes Rosa Rodrigues natural
da freguesia de São Paulo desta cidade,
recebidos (casados) na de Santa Isabel e moradores nesta de Santos, na rua
da Esperança, vinte e dois, neto paterno de Estanislau Rodrigues e Dona Maria
José Rodrigues e materno de José Gomes Rosa e Luísa Emília Fialho Gomes Rosa,
foi padrinho José António Gomes Rosa, solteiro
proprietário e madrinha Dona Maria da Conceição Gomes Rosa, solteira. E para constar
lavrei este assento que depois de lido e conferido, comigo assinaram. Era ut supra.
Maria da
Conceição Rosa (madrinha; tia da mãe do
nosso JRR)
O Pároco
João Joaquim Henriques e Abreu
NOTA2: José Rosa Rodrigues faleceu muito novo, vítima tardia da "gripe pneumónica", aos 40 anos, em 30 de Abril de 1924. Casou em final de 1913, com D. Maria Augusta Pinto Basto Martins (logo um familiar dos rivais no futebol: Grupo dos Pinto Basto/GPB/FC Swifts/ Internacional/ CIF), tendo um filho (José António Martins Rosa Rodrigues) com vida longa, nascido em 7 de Dezembro de 1917.
sábado, 26 de outubro de 2013
Era Uma Vez... o Futebol
| ● Em Defesa do Benfica ● sábado, 26 de outubro de 2013 | ● 00:00 | 13 Comentários |
OPINIÃO
O futebol estava longe de ser criado
O futebol exportado para o "Ultramar" inglês
E eis-nos em Portugal
Olá Campo Pequeno! Adeus Campo Pequeno
Adeus Campo Pequeno! Olá Belém
O Grupo Margiochi: Origem
O Grupo Margiochi: "Apalpar terreno"
O Grupo Margiochi: "Nem dava para acreditar"
Os Manos Catataus
A Associação do Bem
Manuel Gourlade
De Belém Football Club a Sport Lisboa
Um Clube. Duas Gerações. Dois comportamentos. Cosme faz a transição
Nunca esquecer esta data: 10 de Fevereiro de 1907
Cosme Damião em entrevista a Mário de Oliveira; A Bola; n.º 11; páginas 5 e 7; 5 de Março de 1945; Lisboa
Ler mais ►
Conselho:
Quem puder enquanto lê este texto e vê as fotografias, degustar um pastel de
cerveja do antigo Café do Gonçalves é avançar. Ou não fosse nesse café que
surgiu a ideia, em 1903, de fundar um clube que seria "Glorioso" e
quem sabe (há metade/metade a dividir com o actualmente inexistente António das
Caldeiradas) se não seria neste café que em 28 de Fevereiro de 1904 os nossos
pioneiros almoçaram, entre o treino matinal e uma tarde que ficou para a
história num estabelecimento mesmo à sua frente, a Farmácia Franco onde se
fundou um Grande Clube, o Maior de Todos os Clubes...
Passam hoje 150 anos
da célebre reunião em Londres, na Freemason’s Tavern, quando os representantes
de onze clubes londrinos decidiram uniformizar as regras para disputarem jogos
entre eles. Para trás ficava o tempo histórico da “afinação das Leis do Jogo”,
em Cambridge e Sheffield, e da combinação - pelos dois capitães das
equipas - das regras a utilizar durante
o prélio, em confronto, antes deste se iniciar.
E como
chegou o Foot-Ball a Portugal
Primeiro foram os
ingleses a viver e trabalhar em Portugal. Depois os portugueses que estudavam
nos colégios ingleses de... Inglaterra. Finalmente os miúdos portugueses que
viam homens de pelo na perna, calções pelo joelho e camisolas garridas aos
pontapés num pedaço de couro para tentarem colocá-lo dentro de uma espécie de
capoeira. E às vezes, muitas vezes, acabava tudo ao sopapo.
![]() |
| Uma equipa no largo do Campo Pequeno, junto ao Palácio Galveias |
![]() |
| De 1889 para 2013. As pedras, se os homens não as destruírem, duram a eternidade. Ao contrário dos homens... |
E como o
“Glorioso” surgiu em Belém
Na sequência da
mudança do local de jogos de futebol em Lisboa, do largo do Campo Pequeno para
as “Terras do Desembargador", às Salésias, pelo facto da construção da Praça de
Touros inviabilizar a prática de um “jogo espalhafatoso”!
![]() |
| Um jogo frente ao Internacional, nas Terras do Desembargador (1906) |
CONSELHOS:
Se apenas gosta da "espuma dos dias" (quem não gosta...) evite ler o texto de hoje. Ou procure no arquivo do blogue "espuma dos dias".
Se só lhe interessa perceber porque foi o Benfica fundado em... Belém, evite 1 e 2 e vá directamente para 3.
Se só lhe interessa perceber porque foi o Benfica fundado em... Belém, evite 1 e 2 e vá directamente para 3.
Se considera os ingleses em Inglaterra
aborrecidos, mas questiona por que razão se joga futebol em Portugal desde o
século XIX, esqueça o ponto 1 e vá rapidamente para o ponto 2.
Se gosta de uma história do futebol
preenchida com século e meio, leia logo a partir de 1.
1 Cada vez a
utilizar mais os pés
O futebol nasceu nas
escolas públicas inglesas, com particular destaque para Eton e Cambridge,
porque revelou ser um desporto “pedagógico”. As actividades físicas com bola
eram extremamente violentas, pois para travar quem agarrava uma bola era
necessário empregar a violência - rasteirar, empurrar, placar e carregar - eram as
únicas formas de alguém libertar a bola ou ser impedido de atingir o objectivo,
de fazer golo. Além da impetuosidade eram jogos muito individualistas, pois quem tinha
a posse de bola tentava chegar ao golo. Os colegas de equipa serviam,
essencialmente, para afastar os adversários de quem dominava a bola, usando
bloqueios ou empurrando, abusando da violência.
![]() |
| Futebol Confusão antes do Football Association |
Cambridge: Primeira
metade do século XIX a afinar regras
Os responsáveis pela
actividade física e pedagogos das escolas inglesas, com destaque para J. C.
Thring, perceberam que quanto mais utilizassem os pés e menos as mãos, maior
era a importância do jogo como actividade física – não causava grandes danos
físicos e era excelente como educação por ser colectivo, criando um espírito de
agregação e solidariedade entre os membros de uma equipa, pois obrigava a
grande entreajuda para atingir o objectivo. Foi assim que em Cambridge foram
sendo criadas, progressivamente, regras de modo a atingir os objectivos. E iam
todas no mesmo sentido: reduzir a violência, aumentar a simbiose dentro da
equipa e simplifica-las de modo que todos as entendessem e diminuíssem os
problemas de interpretação. Como? Reduzindo a utilização das mãos para dominar
e controlar a bola.
Sheffield:
Autodidactas no campo e à secretária
Entretanto noutro
lugar de Inglaterra, a norte de Cambridge e Londres, mas no centro da Ilha, em
Sheffield, também estavam a eliminar a utilização das mãos para dominar uma
bola e a criar regras para reduzir a violência na intercepção da bola. Com a
particularidade de serem dois jogadores (Nathaniel Creswick e William Prest, na foto pela mesma ordem) a adaptarem as
regras após jogarem, numa tentativa de melhorarem a dinâmica e concepção do
jogo. Quem ficava a ganhar eram os espectadores. O jogo de futebol era lúdico
para quem jogava e interessante para quem presenciava. Em 21 de Outubro de 1858,
um ano depois da fundação do Sheffield FC as regras estavam assim definidas.
Era uma vez
o futebol
E eis-nos chegados à
“Taberna dos Livres Pensadores” (Freemason’s Tavern) em Londres com representantes de onze clubes da
capital do Reino Unido, mais quatro observadores do Sheffield FC a fazerem a
primeira reunião para começarem a uniformizar as Regras do Futebol, tendo por
base o código simplificado de Cambridge. Decidiram fundar a Football Association
(ainda hoje a Federação Inglesa) e continuar a “partir pedra” ou não estivessem
eles na “Mason (Maçons)”. Começaram onze: Barnes, Civil Service, Crusaders, Forest of Leytonstone (depois Wanderers), N. N. (No Names) Club (Kilburn), Crystal Palace (não é o actual), Blackheath, Kensington School, Perceval House, Surbiton e Blackheatn Proprietary School. Terminaram dez, após seis reuniões durante Novembro e
Dezembro desse ano, pois o representante do Blackheath não concordou com a
abolição de duas regras que entendia serem fundamentais para se poder chamar
ao futebol um jogo: poder ter a alternativa de correr com a bola nas mãos e fazer
“Hacking” (travar a progressão de um adversário podendo utilizar pontapés nas
pernas, rasteirar, imobilizar e placar). Ao que se conta, afirmou: «A luta é a verdade do futebol. Querer suprimi-la é tirar ao jogo o seu carácter de coragem e virilidade. É condená-lo à decadência e extinção!» Em breve surgiria outro desporto, o
Râguebi!
O futebol estava longe de ser criado
Ainda levaria muito
tempo até haver consenso – quanto a regras a utilizar - entre os inúmeros
clubes que surgiam em Inglaterra. Só em 1877, quinze anos depois da fundação da
“FA” com a fusão das regras de 1863 com as de Sheffield o futebol, enquanto
desporto coerente, teve a expansão que merecia, por ser uma actividade lúdica
única e simples. Se Cambridge deu a base das regras (abolição do excesso de
violência e a simplicidade) foi Sheffield que estudou o jogo, dando-lhe o
ritmo, graciosidade, inovações técnicas, como por exemplo: pontapés de canto –
em vez de lançamentos da linha final; cabeceamento – em vez do “Fair
Catch”(poder utilizar as mãos para uma bola com trajectória elevada); traves
fixas na baliza – em vez de uma fita; apenas troca de campo ao intervalo - em
vez de troca de campo após um golo; guarda-redes – em vez do jogador mais
próximo da linha de golo poder usar as mãos; e possibilidades tácticas, tão do
agrado de quem estava de fora. A pacífica unificação de 1877 teve as
necessárias cedências. As principais: Sheffield cedeu na regra do fora-de-jogo
(de nenhum futebolista que quisesse atacar poder estar para lá da linha da bola
adoptou-se a regra de Cambridge de ter três defensores contrários - em 1925
passou para os actuais dois); Londres cedeu a obrigatoriedade dos lançamentos
laterais terem de ser "rigorosamente" na perpendicular à linha
lateral e a bola só poder ser jogada depois de tocar no chão. Regras - no geral - que o
râguebi conserva. O futebol era cada vez mais um "desporto à parte"
de todos os outros, por que jogados com as mãos e braços.
![]() |
| Os "termos técnicos" nos primórdios do futebol |
O futebol exportado para o "Ultramar" inglês
O futebol teve
expansão rápida nas duas ilhas da Britânia (Grã-Bretanha
e Irlanda) tal como nos países vizinhos e com importantes comunidades
britânicas. O que não era difícil pelo facto da industrialização no Mundo
depender da tecnologia inglesa e estes não venderem as patentes, mas
estabelecerem contratos de instalação e exploração. O futebol expandiu-se pelo
Mundo através de dois tipos de pessoas, essencialmente jovens burgueses:
técnicos ingleses que estudando nas escolas inglesas, onde abusavam nos tempos
livres dos "football matchs", instalavam fábricas e maquinaria em
países distantes, aproveitando a universalidade do futebol para disputar jogos
entre os membros das colónias de britânicos; e filhos de comerciantes e negociantes indígenas
que estudavam nos colégios ingleses (onde se passava o tempo a "jogar à
bola").
2 O
Foot-Ball muda-se para Futebol
Nos anos 70 do século
XIX, ingleses e portugueses já jogavam "Foot-Ball" e "Jogo do
coice".
![]() |
| O campo da Quinta Nova, em Carcavelos, no Cabo Submarino |
E eis-nos em Portugal
O futebol e as bolas
para o jogar chegaram a Portugal através dos ingleses. Em Lisboa foram os
engenheiros e técnicos que começaram a praticá-lo em Carcavelos, a partir de 1875,
quando iniciam a instalação do Cabo Submarino. Mas era um "assunto
deles". A "febre da bola" entre os portugueses surge com os
irmãos Pinto Basto que trazem para Portugal uma bola, as regras e o vício do
"jogo do coice". Em 1888 já se joga em Cascais e em 1889 dentro da
cidade de Lisboa.
Olá Campo Pequeno! Adeus Campo Pequeno
Certamente que houve
vários jogos, cujos relatos e descrições não despertaram interesse por isso não
foram descritos e não chegaram até nós. Mas houve jogos que ficaram na
história, entre portugueses, mas principalmente entre portugueses e ingleses. É
preciso não esquecer que houve o Ultimato Inglês, em 1890, logo em 11 de
Janeiro. Os confrontos no futebol frente aos ingleses, para os humilhados e
ofendidos portugueses, eram mais do que um jogo. Jogava-se, essencialmente no
Largo do Campo Pequeno onde se podiam "marcar dois campos, aos domingos, quando
não havia feira de gado". Porquê "dois campos". Porque sempre
houve "mirones" do tipo: Eu fazia melhor! Quem queria jogar futebol
marcava um campo para jogar e outro para os inoportunos oportunistas se
entreterem com uma bola "mais usada". Uma boa ideia para não serem
incomodados enquanto jogavam! Tudo ficou mais complicado quando se finalizou a
Praça de Touros, inaugurada em 18 de Agosto de 1892. Não tardou a proibirem os
jogos de futebol, para além do espaço ser drasticamente reduzido. Só que às vezes
«há males que vêm por bem».
![]() |
| Os miúdos de Belém a "copiarem"os craques das Terras do Desembargador |
Adeus Campo Pequeno! Olá Belém
O Campo Pequeno era
na última década do século XIX um local semi-ermo, onde o futebol era jogo para
conhecedores e amigos. Findo o Campo Pequeno como terreno de jogo, os
futebolistas rumaram a um logradouro amplo - também dava para marcar dois
campos - onde não havia problemas de vizinhança, a não ser partilharem o espaço
com os aquartelamentos de Belém que utilizavam o mesmo local para exercícios
de cavalaria. Eram as Terras do Desembargador, às Salésias. Só que em Belém, a
"cantiga era outra". O bairro (até 1940, três vezes maior que o
actual em dimensão e com dez vezes mais (ou mais) miúdos do que na actualidade)
estava cheio de gente jovem que se extasiava a ver jogar ao domingo e imitava os
"craques da bola" no resto da semana.
Uma «nova
espécie» de futebolistas
Depois dos ingleses
formados nas escolas técnicas inglesas e dos portugueses que estudavam nos
colégios em Inglaterra, surge uma nova classe. Os miúdos portugueses que viam
jogar uns e outros. Em Portugal. Eis a nova geração, portugueses que em
Portugal, estavam ávidos para jogar (bem) um jogo de ingleses e
"inglesados". E era em Belém que estavam reunidas as condições
exemplares para espalhar o Foot-Ball, alindar o "Jogo do Coice" e
transformá-lo em Futebol. Só que a história nunca é tão simples e linear como
se quer.
![]() |
| Os casapianos (com Cosme Damião em destaque) |
3 Entre a
miudagem "geniquenta" e os casapianos "bons de bola"
Em Belém não havia só
muita miudagem com muito tempo livre para pontapear. Nas traseiras do Mosteiro
dos Jerónimos, estava instalada a Real Casa Pia de Lisboa. E dentro desta
formara-se, entre a penúltima e última década do século XIX, uma grande equipa
de futebol (e não só) que batia "em campo" os grupos de portugueses e
não só. Em 1897 (integrando um misto de portugueses e estrangeiros) e em 1898
(um onze integral de casapianos), no então feriado municipal de São Vicente, em
22 de Janeiro, foi a Carcavelos derrotar os ingleses do Cabo Submarino. Os
invencíveis.
![]() |
| Provedor Simões Margiochi |
O Grupo Margiochi: Origem
Com o Provedor Simões
Margiochi a Casa Pia viveu um dos melhores (se não o melhor) período da sua
história multicentenária. Também é verdade que se juntou a esse excelso
Provedor uma geração intrépida que fez história na cultura e desporto em
Portugal. À boa maneira inglesa Margiochi quis tirar dos seus alunos o melhor
que eles podiam dar em termos artísticos, fomentando o futebol, enquanto
actividade física não violenta, colectiva e solidária, dentro das instalações
da Casa Pia, construindo um campo (e que depois seria melhorado aquando da
criação do Casa Pia AC) sacrificando uma parte das hortas junto à Cerca, nas
traseiras onde está hoje o Planetário. Rapidamente os aspirantes a médico
(Januário Barreto), a pintor (Pedro Guedes), a cinzelador (Emílio Carvalho), a
escultores (José Neto e Francisco Santos), a professor (Silvestre Silva) e a
arquitecto (António Couto), entre outros, tornaram-se famosos entre a miudagem
de Belém por serem "craques da bola".
O Grupo Margiochi: "Apalpar terreno"
Em 1897 foram três
(Couto, Guedes e Emílio) que integraram o misto que chegou à Quinta Nova e
impôs uma derrota aos ingleses (não havia memória de qualquer derrota, apenas
um empate frente ao Ginásio Clube Português, em 1893, nos seus tempos áureos).
De resto vitórias frente aos outros clubes de ingleses da Grande Lisboa e
resultados esmagadores frente aos clubes mistos ou de portugueses. Tão copiosas
que os levavam à extinção, tal o desalento.
O Grupo Margiochi: "Nem dava para acreditar"
Um ano depois,
em 1898, temerários, decidiram deslocar a equipa completa. Na Quinta Nova, os ingleses gostavam de defrontar
grupos que dessem réplica. Aceitaram. Um conselho (mais um). Decorem alguns
nomes que ainda vou "falar" deles em 1907! Valentim
Machado, no número 131 da revista "Tiro Civil", em 1 de Fevereiro de
1898, escreveu numa crónica o seguinte: «Realizou-se no dia de S. Vicente uma partida de foot-ball entre o team
de Carcavelos e o grupo da Casa Pia. O
Casa Pia (capitaneado pelo "back/ defesa à direita" Pedro
Guedes) alinhou: - Silvestre Silva; Pedro Guedes e Januário Barreto; Emílio
de Carvalho, Daniel Queirós dos Santos e António Couto; J. Tavares, A. Torres,
João Persónio, David da Fonseca e Francisco Santos. O grupo da Casa Pia venceu
por 2-0. No final do jogo ecoam palmas, bonés voam pelos ares e com razão,
porque é um grupo completamente português, composto de jogadores que se fizeram
em Lisboa, devido aos constantes treinos e boa vontade da parte de todos os do
grupo. Viva! Três vezes viva!, pelos valentes rapazes que em tão poucos anos
tanto conseguiram.» Daqui a nove anos voltarei a escrever sobre eles.
Alguns deles. Nove anos? Salvo seja. É como se estivéssemos em 22 de Janeiro de
1898. E nove anos será em 10 de Fevereiro de 1907. Tudo por uma questão de
invencibilidades.
Os Manos Catataus
Em Belém o futebol
fervilhava entre os miúdos. No prédio onde estava instalada a Farmácia Franco,
nobre, muito frequentado e cosmopolita estabelecimento do bairro, viviam os quatro irmãos Rosa Rodrigues - José,
Cândido, António e Jorge (no 1.º andar). Por cima os irmãos Carrilhos
e não muito longe os Monteiros e os França. Até nos empregados da farmácia -
Manuel Gourlade e Daniel Brito - as "futeboladas" tiravam do sério.
Tudo começou no amplo pátio interior do prédio (ainda existe!) que depressa
ficou pequeno. Depois houve que sair para a rua, aproveitando a largueza dos
terrenos junto às docas.
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| Cartão de um membro da "Associação do Bem" |
A Associação do Bem
Os casapianos
foram-se formando, tornando adultos e saindo da Instituição. Mas continuaram a
jogar (e a brilhar) em grupos episódicos que se faziam e desfaziam ao sabor de
reptos, desafios e desforras. Só que afastados uns dos outros não era a
"mesma coisa". A típica centenária (e perpétua) saudade portuguesa já
existia no início do século XX. Decidiram juntar-se, criando um grupo
altruísta, a Associação do Bem, que entre muitos assuntos "na ordem do
dia" constava: juntarem-se nas manhãs de domingo, do lado de fora da
Cerca casapiana para fazer uns exercícios físicos e... porque não,
"futebolar"!
Manuel Gourlade
O "Grupo dos
Catataus" estava cada vez mais forte e afamado. E já podia desafiar o FC
Swifts (Velozes), grupo misto dos Pinto Basto e amigos ingleses, que ao
contrário do dito de Valentim Machado para os casapianos, "que se fizeram
futebolistas em Lisboa", estes "fizeram-se footballers players em
Inglaterra". Num confronto num domingo, no final de Novembro de 1903
(provavelmente a 29), nas Salésias, os Pinto Basto conseguem uma vitória
tangencial inesperada, de tão escassa. Como código de honra os vencidos têm
direito a desforra. E pedem-na para daí a duas semanas. Um dos mais curiosos,
com jeito para orientar e metódico a organizar, defesa à esquerda no
"Grupo dos Catataus", Manuel Gourlade tem uma ideia brilhante. Com um
domingo pelo meio (provavelmente a 6) decide deslocar-se à Cerca para convidar
alguns casapianos a fim de reforçar o "Grupo dos Catataus" onde este
estava mais vulnerável. Cosme Damião que pertencia à "Associação do Bem"
conta a Mário de Oliveira: «Tu não calculas o que era a
figura desse rapaz. Estou-o vendo: aparecia sempre equipado por completo - da
cabeça aos pés... Kepi preto - boné circular
de fôrma, camisa branca, calção preto, meias de futebol - pretas pelos joelhos - e botas também
de futebol - as chuteiras de couro com
travessas, pois claro. Mas o que dava mais nas vistas era uma grande faixa
sobre a camisa, a tiracolo, com as três cores da bandeira francesa. Era o
Manuel Gourlade, o empregado da Farmácia Franco. Pensou que nós podíamos
defrontar aquele grupo (os Pinto Basto).
Fizemos assim, um misto entre a Associação do Bem e o Lisbonense (os
Catataus)». E assim foi, provavelmente
no domingo 13 de Dezembro de 1903.
Só com
portugueses
Ainda Cosme Damião,
após vitória escassa, provavelmente por 1-0: «Houve festa rija numa cervejaria em frente da Farmácia Franco (a
tal dos pastéis de cerveja...) para
celebrar a vitória. E partiu da referida festa a ideia de nos reunirmos em
clube». Houve quem acrescentasse na euforia da vitória. «Com estes elementos
- e só portugueses - fazia-se um grande team!» E assim se fez!
De Belém Football Club a Sport Lisboa
Entre meados de
Dezembro de 1903 e final de Fevereiro de 1904, foram dois meses e meio de
escolhas, ideias e concretizações, tendo por objectivos: um emblema com nobreza
heráldica, pleno de importância, simbolizado na Águia; um lema latino "E
Pluribus Unum"; branco e vermelho, cor garrida e alegre, para jogadores e
público; nome com significado e sigla com expressão: SL, Sport Lisboa. E
associados em quantidade que permitissem "treinos jogados". Seriam "Vinte e
Quatro", um bom número. Duas equipas. Os de topo e os de reserva. Treinos e mais
treinos antes de aceitar o primeiro desafio. Desde treinos pouco concorridos -
necessitando de convidar "estranhos" a um com 20 associados, em 17 de
Abril. Pudera! Neste dia estreavam-se balizas e logo com redes!
Um Clube. Duas Gerações. Dois comportamentos. Cosme faz a transição
A criação do Sport
Lisboa permitiu juntar duas gerações de futebolistas distintas, em valor,
experiência e atitude. O núcleo de Belém eram miúdos com grande vontade,
energia e metódicos a treinar, com menos de 20 anos: Cândido Rosa Rodrigues, "irmão
do meio" tinha 18 anos. Carlos França menos dois! Aprenderam a gostar de
futebol vendo os casapianos a jogar. Estes tinham muita experiência, eram
futebolistas consagrados, respeitados e com cartel. Mas não treinavam, até
porque alguns já tinham emprego, família e ocupações várias. Consideravam que a
experiência e conhecimento do jogo suplantava o treino e preparo físico. Januário
Barreto que seria presidente do Sport Lisboa em 1906, aquando da fundação tinha
27 anos. Estavam todos perto dos 30 anos: Pedro Guedes e António Couto tinham
29. Não há notícia que tenham participado em qualquer treino. E foram três
dezenas antes da estreia do emblema em campo. Ao contrário dos miúdos de Belém
que raramente faltavam a um treino. Sabiam que só com muita capacidade, muito futebol e "jogo", podiam
ser a primeira escolha. Cosme Damião fazia a ligação: era da mesma geração dos
miúdos de Belém e casapiano. O fiel da balança. Logo em 1904.
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| Um jogo em Inglaterra (repare-se na assistência) em 1905. Quando o "Glorioso" se estreou, em 1904, nem pequena área havia |
Estreia em
1 de Janeiro de 1905
Quando se anunciou a
estreia, a capitanear a equipa estava António Couto, sem nenhuma presença em
treinos e com 30 anos. Em campo Pedro Guedes e Silvestre Silva, a entrar na fase de trintões,
sem treinos e a fazerem valer o "estatuto". Até para que o Sport
Lisboa tivesse "crédito" para que os seus reptos fossem aceites pelos
grupos já com estatuto. O primeiro encontro, frente ao Grupo do
Campo de Ourique, com vitória por 1-0, cujo "goal soberbo" (como foi
descrito na Imprensa) elevou a capitão Silvestre Silva. Entretanto muitos
outros casapianos "bons de bola" foram chegando, entrando para
associados e ocupando o seu lugar. E não consta que treinassem. Craque é
craque. Até em 1905 ou 1906. Recuemos a 1898. Couto, Silvestre e Guedes
estiveram lá, na fantástica vitória dos casapianos sobre os ingleses do Cabo
Submarino. Passaram sete anos e nunca
mais houve uma equipa que conseguisse igual proeza. Mas estava a chegar...
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| Folha de uma agenda de um fundador-jogador com o "relato" do Grande Jogo |
Nunca esquecer esta data: 10 de Fevereiro de 1907
O prometido é devido.
Com 13 jogos disputados, oito vitórias e 20 golos marcados, incluindo três vitórias
(em quatro jogos) frente ao poderoso Internacional, o CIF dos irmãos Pinto
Basto, a última por 1-0, em 22 de Janeiro de 1907, eis que chega o dia de mais
um Carcavellos Club frente ao Sport Lisboa. Há um ano, em 18 de Fevereiro de
1906, o resultado de 0-7 era passado. Os ingleses estavam invencíveis desde
aquele 22 de Janeiro de 1898, quando a Real Casa Pia lhes infligiu 2-0. Haviam
passado... nove anos! Quase uma década. O Sport Lisboa apresentou-se, alindado
por Manuel Gourlade, com o onze habitual em 1906/07, considerado o melhor de
sempre no Clube. A guarda-redes: Manuel Mora, experiente
"goal-keeper" do Grupo de Campo de Ourique (foi ele que sofreu, em 1
de Janeiro de 1905 o "goal soberbo" de Silvestre). Na defesa, os backs
Henrique Costa (à direita, um "fortalão de pêlo na venta"!) e Emílio
Carvalho (à esquerda). Recuemos a 1898. Este esteve lá. Como médio-direito. Contemos:
UM! No meio-campo, os "half-backs": o capitão escolhido em assembleia-geral a 22
de Novembro de 1906, Fortunato Levy (à direita, mais um que foi adversário pelo
Campo de Ourique), António Couto (ao centro) e Albano Santos (à esquerda, outro
do Campo de Ourique em 1904/05). António Couto? Recuemos a 1898. Este, também
esteve lá! Como médio-esquerdo. Contemos: DOIS! Na frente, os cinco "forwards",
da direita para a esquerda: Marcial Costa, António Rosa Rodrigues, Daniel
Queirós dos Santos, Cândido Rosa Rodrigues e David José Fonseca. Recuemos a
1898. Daniel Queirós dos Santos (como médio-centro) e David José Fonseca (como
meio-avançado-esquerdo) estiveram lá! Contemos: TRÊS e QUATRO! QUATRO em Onze.
E o presidente do Sport Lisboa era, desde 22 de Novembro de 1906... Januário
Barreto. Também esteve lá, em 1898, como defesa à esquerda. Não admira que
Félix Bermudes (extremo direito), capitão da 2.ª categoria, onde alinhava Cosme
Damião (médio-centro), José Neto (defesa à esquerda), João Persónio
(guarda-redes) e Francisco Santos (médio-esquerdo), todos casapianos, com estes
dois últimos a estarem lá (em 1898, respectivamente, avançado-centro e extremo
esquerdo). Entretanto perdi-me. Não admira que Félix Bermudes dissesse que esta
equipa era "GLORIOSISSIMA"! Até hoje!
Cosme
Damião? O principal fundador? Não! A principal figura? Sim! Sim! E Sim!
O que impressiona é o
facto de nove dos onze casapianos que em 1898 venceram os mestres ingleses na
Quinta Nova terem passado pelo Clube. Apenas J. Tavares e A. Torres não
jogaram, que conste, no Sport Lisboa. De facto o clube permitiu reunir os
casapianos que andavam dispersos pelos clubes efémeros, em Lisboa, que se
faziam e desfaziam ao sabor dos resultados, positivos ou negativos. E os
principais fundadores - José, Cândido e António Rosa Rodrigues, Manuel Gourlade
e Daniel Brito, por exemplo, treinavam muito e depois jogavam pouco (excepto os
dois Rosa Rodrigues mais novos: Cândido e António). Mas souberam dar lugar aos melhores. Cosme
Damião treinava pouco. Como os outros casapianos. Jogava na 2.ª categoria, como
a maior parte dos fundadores. Mas nem por isso não são fundadores. Um clube não
se fazia só com protagonistas, com "cigarras". Também precisava de
"formiguinhas"! E que as formigas se agigantassem. Pegassem no Clube,
aquando de momentos complicados. E o levassem para o céu. Como águias. Mas para
isso tinham de estar no clube. Mesmo que não treinassem. Mesmo que jogassem
pouco ou na 2.ª categoria. Por dentro. Foi assim com Cosme Damião. De uma
figura com pouco futebol em 1905, quase anónimo, a não ser ter boa caligrafia
mercê da sua formação na Casa Pia para guindar-se a maior símbolo do Benfica.
Com todo o mérito. O que nos une?! Mais que o gosto pelo futebol (desde 26 de
Outubro de 1863), a paixão pelo Sport Lisboa e Benfica (desde 28 de Fevereiro
de 1904)!
Obrigado Cosme!
Como é que
de 26 de Outubro de 1863 tudo acaba em Belém e no mestre Cosme Damião? É o
"Glorioso"!
Alberto Miguéns
NOTAS
BIBLIOGRÁFICAS: Que merecem ser lidas e relidas, porque estão escritas de um
modo soberbo, com engenho e arte, que eu não tenho. Espero com o longo texto
anterior, não ter feito má publicidade que levem os leitores do EDB a evitarem
ler o que deve (e merece) ser lido!
Para o
ponto 1
The Rules of Association Football, 1863; The Bodleian Library; Universidade de Oxford; 72 páginas; 2006
Match. The Complete Book of Football; Chris Hunt; Hayden Publishing; páginas 9 a 14; 2003
The Little Book of Football; Michael Heatley; Green
Umbrella Publishing; páginas 4 a 23; 2008
(Disponíveis
na livraria cibernética Amazon.com ou importação através de uma das lojas FNAC)
Para quem tiver dificuldade em compreender inglês, é pedir a alguém "mais
habilitado". Quem me valeu foi a Isabel Cutileiro!
Para o ponto 2
História dos Desportos em
Portugal. O Futebol; edição em 17 fascículos; Tavares da Silva, Ricardo Ornelas
e Ribeiro dos Reis com a colaboração de Mário de Oliveira; páginas 147 a 351 dos fascícolos 7 a 12;
Editora Inquérito; 1940; Lisboa
(Disponível
na Biblioteca Nacional de Lisboa)
Para o ponto 3
História do Sport Lisboa e
Benfica 1904-1954; volume I; Mário de Oliveira e Rebelo da Silva; páginas 3 a
88 dos fascículos 1 a 4; Edição dos Autores em 24 fascículos mensais; 1954-1955; Lisboa
Cosme Damião em entrevista a Mário de Oliveira; A Bola; n.º 11; páginas 5 e 7; 5 de Março de 1945; Lisboa
(Disponível
na Biblioteca Nacional de Lisboa e na Hemeroteca Municipal de Lisboa, além da
própria "A Bola")
Cosme
Damião soube descrever, muito bem, os momentos antes, durante e depois de 28 de
Fevereiro de 1904. Mesmo já extenuado - como assinalou Mário Oliveira durante a entrevista - pela doença que seria fatal. Daniel dos Santos Brito - que, em 28 de Fevereiro de 1904,
esteve no treino matinal e foi escolhido como secretário da Comissão Administrativa - corroborou mais tarde, tudo, incluindo Cosme Damião na leva de
casapianos que surgiram a reforçar o grupo dos miúdos de Belém (página 9 da
História do SLB 1904-1954, de Mário de Oliveira e Rebelo da Silva).
Cosme Damião não é um dos fundadores
de 1904?! Conversas...















































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