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Thursday, March 12, 2026

Mário Zambujal no Quarto Anel

Thursday, March 12, 2026 5 Comentários

UM BENFIQUISTA ESCLARECIDO E EXIGENTE. FAZEM CADA VEZ MAIS FALTA E... MORREM!



Mário Joaquim Marvão Gordilho Zambujal nasceu em Moura, a 5 de Março de 1936, falecendo em Lisboa, hoje, 12 de março de 2026, aos 90 anos e uma semana.



Era um excelente conversador (clicar)(clicar)



(em actualização até final do dia)


É irmão de outro grande artista e caricaturista Benfiquista, Francisco Manuel Marvão Gordilho Zambujal, que faleceu muito novo, aos 55 anos e um mês, com quem se vai encontrar no "Quarto Anel". Irmão nascido em Moura, a 15 de Março de 1935 e que faleceu, em Faro, a 12 de Abril de 1990, há quase 36 anos. Agora juntos e unidos para sempre, que olhem pelo Benfica e pelo Benfiquismo.


Equipa do «Glorioso» em 1963/1964. Da esquerda para a direita. Em cima: Germano, Cruz, Coluna, Cavém, Neto e Costa Pereira. Em baixo: José Augusto, Iaúca, José Torres, Eusébio e Simões

Mário Zambujal entrou para associado, há 67 anos, um mês e cinco dias, em 7 de Fevereiro de 1959. Faleceu com o número 1 902.



O segundo livro, em 1983, três anos depois da estreia com um livro que ficou para a historia, mas isso do seu início como escritor fica para o final.



Ainda não há muitos meses, a 11 de Novembro de 2025, publicou o seu 19.º e último livro com um excelente enredo e ainda melhor título. Premonitório.


Um "Grande Livro", lançado em Outubro de 2009.


Em 2018 mais um (bom) malandro.



O primeiro e inigualável, lançado em Março de 1980.



São sete os "bons malandros" que dão vida a esta história. Temos Renato "o Pacífico" mais a sua Marlene. Temos a Adelaide Magrinha, Pedro Justiceiro, Flávio "o Doutor", Arnaldo Figurante e Silvino Bitoque. Cada um mais tonto que o outro e cada um com uma história de vida mais estranha que a anterior. Formam um bando de criminosos que se preparam para um assalto ao Museu Gulbenkian. Podia ser o ponto de partida para mais um policial de suspense como tantos outros, não estivéssemos nós a falar de Mário Zambujal, que dispensa os ladrões profissionalizados de quadrilhas norte-americanas, para nos oferecer um grupo de larápios à portuguesa. Com muito humor à mistura, como já é habitual na escrita dele.

 

São 144 páginas que divertem e muito. Zambujal não falha nesta missão. Brinca com as palavras, com as frases-feitas, mexe com trocadilhos que só a nossa língua permite e usa expressões tipicamente portuguesas que enchem as medidas do leitor. 

 

Conhecem-se as personagens com um capítulo dedicado a cada um, à sua história de vida e ao que os levou, mais tarde, a encontrarem-se no Bar do Japonês e a entrar no mundo do crime. Cada história é melhor que a anterior, repleta de situações cómicas, personagens caricatas e um bocadinho da desgraça do quotidiano com que qualquer português de gema se consegue identificar. E a forma como estes sete personagens, liderados por Renato "o Pacífico" planeiam o roubo é, no mínimo, original.




Obrigado, Mário Zambujal (fizeste de mim um "bom malandro")


Alberto Miguéns


Entrevista publicada, em 5 de março de 2016, dia em que se jogou, para a Liga NOS (25.ª jornada) um Sporting CP - Benfica, numa vitória por 1-0, golo de Mitroglou.

Para um amante da beleza e do prazer como o Mário Zambujal é, tornou-se natural apaixonar-se pelo futebol?

O futebol tem estética. Há lances de futebol de puro bailado. Aliás, é um jogo muito bem imaginado. Como dizia o meu primeiro chefe, o Vítor Santos, de A Bola, o futebol é um desporto jogado com a parte inábil do corpo humano: os pés, a cabeça, os joelhos, todas as partes em que o ser humano não tem habilidade. Por isso também é tão belo.

Mas gosta de futebol ou gosta do Benfica?

Não são duas coisas paralelas. Gosto muito de futebol. Do Benfica gosto enquanto herança familiar, enquanto sentimento de pertença a um grupo. O futebol é a parte mais visível, espetacular e apaixonante desse Benfica. Mas não deixaria de ser benfiquista se não houvesse futebol, nem deixaria de gostar de futebol se não houvesse Benfica.

A paixão pelo Benfica foi-lhe então passada pelo seu pai...?

Foi. Tenho amigos que são benfiquistas e os filhos sportinguistas, ou vice-versa, mas para mim isso são modernidades. À antiga, o pai tinha o cuidado de instilar no filho, logo de pequenino, a paixão e o gozo de pertencer a um clube. Aquilo era parte da família.

Portanto consigo isso começou também muito cedo...?

E estou grato ao meu pai por isso, acho que ele fez muito bem. O Benfica tem-me dado grandes satisfações.

E algumas desilusões, também...

Não sou do género de adepto que fica amargurado quando o clube perde. Fica-se chateado um quarto de hora, claro que sim. Tenho uma neta de 20 anos que é uma benfiquista fervorosa e digo-lhe: a vida é a vida e a gente saboreia esta coisa que é o futebol. Com alegrias e desilusões, mas... eh pá, não passa disso.

Ainda vai ao estádio?

Sou sócio fundador, tenho lugar anual e a minha casa está à distância de ir a pé ao Estádio da Luz, mas raramente vou. Até é a minha neta que utiliza mais o cartão. Se me chateio com um jogo e estou em casa, vou fazer outra coisa. No estádio não.

Mas para um crítico da desumanização criada pela tecnologia, ver o jogo pela televisão não afasta também as pessoas?

Um pouco, sim. Futebol é no estádio. Até porque um jogo vê-se bem é no estádio. Nas bancadas é que se entende o futebol. Mas tenho um bocado de preguiça.

E não sente falta do ritual de ir ao estádio?

De vez em quando sinto, sim. E nessas alturas vou. Geralmente vou muito cedo, passeio pelo estádio, olho para as pessoas, sinto o início da festa. Gosto disso. Ver um jogo no estádio é insubstituível. Mas hoje vejo mais o futebol na televisão, confesso.

Vê tudo ou vê só o Benfica?

Vejo o campeonato português e vejo muito o campeonato inglês. Aí é que me entusiasmo, como apaixonado pelo futebol. Gosto muito da liga inglesa. São combates duros, limpos, nobres. É raro ver um jogador a atirar-se ao chão. Foram os gajos que inventaram o jogo e têm um grande respeito por ele.

Gostava de ter sido jogador de futebol?

Eu fui. Fui capitão da equipa de juniores do Sporting Lisboa e Faro, que era a filial número um do Benfica. O clube tinha os melhores bailes do Algarve.

Isso já explica muita coisa...

Pois, talvez. Desportivamente estava um bocado adormecido e fui encarregado de arranjar uma equipa de juniores. Conhecia muitos tipos que jogavam bem à bola e fizemos uma equipa, e tal. Só que havia um problema: o clube tinha realmente bailes fabulosos. E eu percebi duramente como as noites de sábado são demasiado próximas das manhãs de domingo. Por isso ficávamos todos rotos para os jogos, que eram ao domingo de manhã.

E havia outro problema, que era o seu pé esquerdo...

Esse era um grande problema. O treinador obrigava-me a treinar com uma sapatilha no pé direito e uma chuteira no pé esquerdo, para eu tratar a bola com o pé esquerdo. Ó pá, ia de sapatilha, ia de tudo, o pé esquerdo é que nada.

Jogava melhor do que o presidente Cavaco Silva?

Eu acho que jogava melhor do que ele. Isso acontecia porque as nossas famílias passavam férias nos Olhos d’Água, no Algarve. Eu devia ter uns 17 anos e ele era mais novo, teria uns 14 anos. Ele era um rapazito muito alto, muito esguio, chamávamos-lhe o Nibinho, diminutivo de Aníbal. Ele sabe que nunca votei nele, mas foi sempre simpático comigo.

E ele não era tão duro a jogar futebol como foi mais tarde a tomar decisões políticas?

Aquilo eram jogos na praia. Ele era um rapaz alto, rápido, mas não me lembro de como jogava, sinceramente.

A sua carreira de futebolista acabou nos juniores?

Sim, depois fui convidado para selecionador de juniores do Algarve. Há distinções na minha vida que me dão vontade de rir e esta é uma delas. Quem era eu para ser selecionador de juniores do Algarve?! De maneira que disse que sim. Fui a Olhão convidar o senhor Fernando Cabrita para treinador. Então eu era selecionador e ele treinador, mas ele é que fazia tudo. Eu só lhe dizia: ó Fernando, não me lixem com isto. De maneira que foi esta a minha pouco consistente carreira de homem do futebol.

Mas depois construiu uma carreira de jornalista desportivo e foi o primeiro rosto do desporto da RTP no pós-25 de abril, quando apresentou o Grande Encontro...

A vida é cheia de acidentes. Eu com 16 anos escrevia contos no «Ridículos», que era um jornal satírico, por causa de um professor que tinha em Faro que me incentivava a enviar para Lisboa o que escrevia. Bem, a minha família ficou muito admirada, porque eu só queria saber de futebol e bailes. Mas enfim, escrevia nesse jornal quando adoeceu o correspondente de A Bola no Algarve. Teve de ficar três meses em casa e pediu-me para o substituir. Assim aconteceu. Depois ele regressou e ficámos os dois, mas A Bola pedia-me mais coisas a mim, o que até gerou uma situação desconfortável, mas pronto.

Depois tornou-se o primeiro corresponde de A Bola a vir para Lisboa, correto?

Inicialmente disse que não, que no Algarve tinha oito meses de praia, mas depois lá vim. Aluguei um quarto no Bairro das Colónias e os primeiros tempos foram difíceis. Eu tinha uma vida boa lá em baixo, pá... Toda a gente me conhecia, tinha montes de amigos.

Foi nessa altura que, como diz, foi adotado pelo Carlos Pinhão...

O Carlos Pinhão levava-me para todo o lado. Eu sentia-me sozinho, faltavam-me as amizades, e ele levava-me para casa dele. O Carlos Pinhão foi um grande amigo. Como foram o Alfredo Farinha, o Aurélio Márcio, o Cruz dos Santos, o Homero Serpa, enfim.

Tudo grandes escritores...

Nunca fui um analista do jogo. Fui um contador de histórias. Agora às vezes ouço falar de losangos invertidos e digo logo: eh lá, isto é de mais para mim. Há tempos num debate com o José Peseiro até disse que estavam a matar o futebol. Antigamente havia uma coisa fundamental que é o espaço. Depois foram ao basquete buscar o pressing, agora há pressing em todo o terreno, tiraram o espaço aos artistas e isto está a matar o jogo. Um tipo como o Peyroteo tinha só um Gaspar Pinto a marcá-lo, não havia cá dobras, e mais dobras, e mais coisas. Agora vão quatro jogadores a uma bola...

Mas isso não faz parte da evolução natural do jogo?

Pois, talvez. Mas depois assistimos a coisas estranhíssimas como um clube grande comprar quatro avançados fabulosos, cada um a custar uma fortuna, para colocar um no onze, um no banco e dois na bancada. Custa-me ver jogadores fabulosos, comprados a peso de ouro para marcar golos, que depois não jogam porque o jogo está feito maioritariamente para não sofrer golos. Isto é uma crueldade para o futebol.

Consegue eleger o craque da sua vida?

Diria que foi o Eusébio. Mas não esqueço o Matateu, o Travassos, o Carlos Duarte, do FC Porto, enfim, houve grandes jogadores. Mas se tivesse de escolher um, pela excecionalidade, o Eusébio. Digo mais: se o Eusébio jogasse hoje continuaria a ser um estrondoso jogador. Tal como o Simões, o Zé Augusto, o Vasques, o Travassos ou o Hernâni, do FC Porto. Mas talvez ganhassem menos lances. Olha-se para o Gaitán, e ele tem pés de ouro. Faz coisas extraordinárias. Mas a malha está mais apertada e por isso é um jogador menos perfeito.

Curioso que não tenha falado de Messi ou de Cristiano Ronaldo...

O Messi e o Cristiano têm a vantagem de fazer coisas extraordinárias, numa época particularmente difícil para os avançados.

Mas o futebol hoje em dia tem menos cor, é isso?

Antigamente também havia o catenaccio. Também havia o Benfica de Riera, que era um grande amigo meu, com quem passei muitas noites a beber copos, mas que era um treinador que tinha uma ideia clara: a bola era a arma do jogo. Por isso tinha uma obsessão de jogar para o lado e para trás, fazer tudo para não perder a bola. Mas regra geral havia mais espaço, havia mais espetáculo, o futebol era mais colorido.

Ainda compra jornais desportivos?

Sim, compro jornais desportivos.

Mas o jornalismo hoje é muito diferente...

A vida hoje é muito diferente. A vida é muito mais comercial. Por exemplo, não tenho pachorra para ver os programas de televisão que tem um tipo do Benfica, um do Sporting e um do FC Porto a discutir arbitragens. Não consigo ver. É preciso gostar do futebol com todas as suas imperfeições e ter educação desportiva. Quando se fala de verdade desportiva sem condenar o jogador que simula penáltis e tenta ludibriar o árbitro... Quando até se elogia o jogador que tem ratice para cavar penáltis... Por amor de Deus.

Hoje há menos educação desportiva, para usar a sua expressão?

Sempre houve. Os árbitros sempre foram acusados de ser gatunos, sempre houve insultos, antigamente até havia jogos que acabavam em pancada de meia-noite. O que hoje há mais, e é grave, é a insinuação. É dizer uma coisa, sem o dizer, é atirar uma coisa para o ar e depois esconder-se. Ah, e tal, não foi isso que disse. Essa falta de frontalidade é terrível.

Voltando um pouco atrás: surpreendeu-o o convite para o Grande Encontro?

Eu ri-me. Como diabo se foram lembrar de mim? Comecei por dizer que não, mas houve uma noite, eram para aí quatro da manhã, num bar - sempre gostei muito de bares -, em que o Serafim Marques, coordenador de desporto da RTP, me dá cabo da cabeça, que tinha de ir e que ia só fazer uma experiência. Bem, lá fui, às tantas percebo que ia ser em direto, fiquei nervosíssimo, em pânico, meti os pés pelas mãos completamente.  

Foi assim tão mau?

Terrível, terrível. Às tantas havia uma prova de atletismo no Estádio Nacional e tínhamos de ir em direto para acompanhar as duas últimas voltas do Carlos Lopes. Atrapalhei-me tanto que quando fomos em direto já o homem tinha tomado banho, ou caraças. Saí do estúdio a dizer que não voltava, mas depois pensei: se sair agora, saio derrotado. Só saio quando estiver a ganhar, ou pelo menos empatado.

Por isso lá voltou...

Por isso lá voltei e fui ficando. Ainda por cima na altura usava um bigode à mexicano, fantástico, e o Serafim obrigou-me a cortar o bigode...

O jornalismo desportivo no pós-25 de abril era tão instável como o país?

Nessa altura não existia jornalismo desportivo. Vou confessar-lhe uma coisa. Eu estava em O Século nessa altura e ninguém se entendia naquele jornal, andava tudo à porrada. Como nunca gostei disso, bati com a porta. Apareceu-me um convite para diretor do Mundo Desportivo e eu pensei: bestial, anda tudo à porrada e eu aqui a ver a bola. Nisto vou falar com o Coronel, administrador do grupo, e digo-lhe que só queria ficar como sub-chefe de redação do Diário de Notícias, em comissão de trabalho no Mundo Desportivo. E era ele: eh pá, mas você quer ficar como sub-chefe de redação? Diretor é muito mais importante... E eu só lhe digo: ó Coronel, o Mundo Desportivo vai acabar.

E acabou...

Pois acabou. Não tinha condições. Podia ter sido mais poderoso do que A Bola, porque tinha muito dinheiro, mas era subsidiário do Diário de Notícias e não tinha uma redação excecional, como tinha A Bola. Tinha o David Sequerra, e pouco mais.

Depois ainda apresentou o Domingo Desportivo...?

Pois, entrei para os quadros da RTP e estando nos quadros tinha de fazer o que me mandavam. Mas essa segunda vez já fui sem nenhum entusiasmo. O Adriano Cerqueira insistiu comigo e eu sem pachorra nenhuma. Já estava muito afastado do desporto.

Como é que se consegue fazer tantas coisas numa vida só?

Fui um tipo bafejado por esta coisa muito importante que é a sorte. Quando era miúdo, o correspondente de A Bola adoeceu e eu comecei uma carreira de jornalista, que mudou por completo a minha vida. Um dia fui parar ao Diário de Lisboa, onde tinha o Fernando Urbano e o Assis Pacheco. Num dia de férias fiquei em casa, com uma garrafa de whiskey, comecei a escrever uma brincadeira, que mostrei a esses amigos, homens das letras e das artes, e assim nasceu a Crónica dos Bons Malandros, que também mudou a minha vida. Passados 35 anos ainda saem edições desse livro.

Aliás, fez tantas coisas que até dirigiu uma revista chamada Modas e Bordados...

Ahahahahah. Eu não dirigi coisa nenhuma, pá. Um dia a diretora da Modas e Bordados foi saneada e o Francisco Sousa Tavares, que era o administrador do grupo, chamou-me às gargalhadas a dizer que tinha uma coisa para mim: as senhoras da redação só aceitavam voltar a trabalhar se eu fosse o diretor. Eu disse que não punha lá os pés, mas que dava o nome. Só impus duas coisas: mudar o nome da revista para Mulher e tornar a fundadora, a D. Maria Lamas, diretora honorária. Um dia meti a redação no meu Fiat 125 e fomos todos a Évora, tomar um chá e fazer o convite à D. Maria Lamas. De resto não fiz mais nada, avisei logo que não valia a pena falar-me do ponto cruz.

Voltando atrás, qual é o dérbi que não esquece?

É pá... Há um jogo, uma final da Taça de Portugal, que o Benfica ganha por 5-4 com três golos do Rogério Pipi. Eu não vi o jogo, só ouvi o relato, mas deve ter sido uma coisa eletrizante. E o Benfica nessa altura não era melhor, pelo contrário: era o grande Sporting, ainda com alguns Violinos. Como também não esqueço um jogo que o Sporting ganhou com quatro golos do Lourenço... Foi uma coisa completamente inesperada.

Já esqueceu o 7-1?

O 7-1 acontece num ano memorável para o Benfica, que foi campeão. Mas enfim, gosto muito do Manuel Fernandes, que entrevistei algumas vezes. Foi um jogo que aconteceu, como o Benfica ganhou também 6-1 e ganhou 5-0, penso que com cinco golos na primeira parte. Agora não escondo que o 7-1 doeu. Eh pá, 7-1, que ganda vergonha. Mas houve outro Benfica-Sporting que não esqueço, que foi o do 6-3. O Sporting tinha uma grande equipa, com Figo, Paulo Sousa, Balakov, o Benfica tinha o João Pinto e ganhou o título.

Como imagina que vai ser este dérbi de sábado?

Eu sou um dos vaticinadores do Expresso e atenção: a semana passada ia em terceiro. Não sou mau. Apostei num 2-2. Mas não sei, pá. Isto depende muito da noite. Se o Sporting ganhar não será surpresa, como se o Benfica ganhar também não o será.

Um Sporting-Benfica no dia do 80º aniversário é uma bonita homenagem que o futebol lhe faz?

Eu acho que a maior parte das pessoas nem sabe, para me dar essa atenção. É uma coincidência naturalmente, mas muitas das pessoas de quem eu gosto lá irão acabar a jornada em Alvalade ou em frente da televisão. Eu tenho um encontro de comemoração, possivelmente não verei o dérbi em direto, mas vou ver depois seguramente.

Aos 80 anos, o que sente que lhe falta fazer?

O meu projeto mais urgente agora é fazer 81 anos.

Não tem planos, portanto?

Eh pá, nunca planeei nada, por isso vou deixar que a vida corra e continue a oferecer-me coisas boas como tem oferecido.


(Texto publicado na Revista Única, do semanário «Expresso», na edição de 19 de Dezembro de 2009)

Foi jornalista, apresentador de televisão, locutor de rádio. E um sedutor. A beleza e as mulheres inebriam-no. Mário Zambujal foi, também, um amante da noite. Nas maratonas da boémia, sem urgências, podia celebrar o gosto pela vida, pelos amigos, pela conversa. Sorver cada minuto. Apesar disso, diz que é um tímido e que gosta do isolamento. Aos 73 anos, dedica-se à escrita. Foi há 30 anos, com um copo de whisky na mão, que escreveu o seu livro mais emblemático, "Crónica dos Bons Malandros". Recebeu-nos num apartamento em Benfica, com vista para Monsanto, ao som de Vivaldi. É ali que escreve e se isola. Para depois chegar aos outros com grande vontade de falar, de ouvir. E seduzir. Sempre.

Foi durante toda a vida um noctívago. Ainda sai à noite? Vivo a vida com muita intensidade. Não interessa se é noite ou dia. O que me interessa são os lugares e, sobretudo, as pessoas. Durante décadas, fiz parte da turma da mão fria. Gente que estava sempre de copo na mão. Era o copo social. Bebíamos habitualmente whisky com gelo, daí essa expressão. Como trabalhei muito em matutinos, saía do jornal às duas ou às três horas, e depois a noite prolongava-se quase até de madrugada. Naquela altura, os bares eram os apeadeiros da noite.

Quais eram os sítios que frequentava? Ia muito ao Snobe ou ao Procópio. Pelo facto de já ter muitos anos, tenho algumas vantagens. Conheci épocas distintas. Já era crescido quando o Homem chegou à Lua. Sou dum tempo em que não havia telemóveis, hoje sou um dependente. Nasci em 1936, junto à fronteira com Espanha. A vida de há 100 anos para trás era muito igual, mas nos últimos 50 mudou muito.

E a noite também. A noite também. Nos finais dos anos 60, em que aconteceu de tudo, houve também uma enorme progressão nas técnicas do som. Surgiu a música gravada, e a música anglo-saxónica separou as gerações. O meu bisavô, o meu avô e o meu pai dançavam as mesmas músicas: a valsa, o tango, o chachachá, o bolero... Na década de 60, a música veio afastar fisicamente os rapazes das raparigas. Foi um desperdício (risos).

No seu tempo ainda havia os slows. Era tão bom! Mas esta revolução da música veio também alterar a noite. No meu tempo, fazíamos aquilo a que chamávamos a geografia da madrugada. Íamos a vários bares na mesma noite, e nesses percursos encontrávamos as pessoas conhecidas. Eram sempre as mesmas. Gente dos jornais, do teatro, profissionais da noite. Bebi muitos copos com o Dinis Machado. Fui para alguns bares com o Cardoso Pires, o Mário Ventura, o Baptista Bastos...

Nessa altura, a noite era muito masculina. Ainda era bastante masculina, mas já havia algumas mulheres. Era impossível, como hoje, ver uma mesa com cinco mulheres. As que se viam eram as mulheres da noite, como se chamava às prostitutas. Depois começaram a aparecer as namoradas daqueles que gostavam da noite.

Bebia muito? Cheguei muitas vezes àquilo que se chama um grão na asa. É aquela euforia, aquela verborreia, uma leveza e eloquência (e di-lo com entusiasmo, em pose quase teatral). Nunca me embriaguei ao ponto de não saber o que estava a fazer.

Essa euforia dava-lhe para fazer o quê? Rir, brincar. Nunca fui quezilento. O álcool acentua-me a alegria e a euforia. E a lucidez. Se fosse escrever nesse estado, as ideias surgiam-me a grande velocidade. Quando escrevi a "Crónica dos Bons Malandros", a família foi para a praia e eu fiquei em casa com uma garrafa de whisky e gelo. Não sei qual é o efeito do álcool na destreza do cérebro, mas ajuda. Até que depois prejudica.

Trabalhou em muitos jornais sediados no Bairro Alto. Os bares eram uma extensão das redacções... Esse convívio entre jornalistas acabou? Hoje, a vida está muito diferente e as pessoas mais dispersas. Quando era chefe de redacção de "O Século", de 70 a 75, havia pessoas que no dia da folga iam para o jornal. Era ali que se sentiam bem. Verdade se diga que a maioria não tinha carro, segunda casa, planos para o dia de folga, não tinham coisas que hoje são naturais. Actualmente, as pessoas estão muito mais afastadas e muito mais agarradas às máquinas. Não sou inimigo das máquinas, como daquelas que ajudam a ciência médica ou fazem grandes obras de engenharia. Mas há máquinas que são abomináveis.

O computador também afastou as pessoas? No meu tempo havia o barulho das máquinas de escrever e o sussurrar das pessoas, eram música para mim. Os colegas falavam uns com os outros, tiravam dúvidas. Hoje vão ao Google e está lá tudo. Essa desumanização incomoda-me. Quando inauguraram a estação do Alto dos Moinhos, que fica aqui perto de casa (Mário Zambujal vive em Benfica), fui lá. Não vi ninguém. Estavam duas máquinas a olhar para mim com ar trocista. Andei à volta de uma delas a ver se me vendia um bilhete. Senti um grande abandono humano. Quando passou uma pessoa, fiquei muito feliz. Perguntei-lhe como funcionava. Depois, a senhora máquina lá fez o favor de me vender o bilhete. Mais à frente estava outra assim à minha espera (e cruza os braços). Fui ter com ela, humildemente, a ver se me deixava entrar. Não gostaria de viver num mundo em que não podemos olhar os outros nos olhos.

Quando actualmente vai a uma redacção, sente muitas diferenças? As pessoas estão com um ar tão concentrado a olhar para a máquina que tenho medo de incomodar, de interromper algum pensamento. Passam o dia com o seu interlocutor, mas na minha opinião estão muito sozinhas.

É crítico do jornalismo que hoje se faz? Hoje impera o grafismo. No meu tempo, as notícias estavam na primeira página pela importância. Agora, as primeiras páginas são altamente comerciais, são montras. Vivemos numa época marcadamente comercial. Os jornais reflectem muito isso.

Como olha para as interferências do poder político na comunicação social? Haverá sempre uma tentativa de o poder político influenciar os média. Os média é que fazem a opinião pública, e os políticos temem essa opinião e desejam que seja o mais favorável possível. Haverá sempre tentativa de manipulação, de uma forma delicada ou mais azeda. Do que se falou nos últimos tempos não sei nada. Não sei se Sócrates fez alguma coisa para acabar com o jornal de sexta-feira da TVI. O que sei é que há muitas omissões. E as omissões servem para esconder a mentira. Mas não tenho dúvidas nenhumas dos apetites.

Esta tentativa de manipulação tem alguma semelhança com o que se fazia no tempo da censura? A grande pressão hoje sobre os jornais chama-se mercado. Contudo, sinto e sei que há recados, tentativas, consultores que tentam enfiar notícias. Custa-me mais quando é a própria justiça a fazer isso ou os seus agentes a manipular a informação.

Foi director de vários jornais. O Presidente da República, os governos, os ministros alguma vez o tentaram pressionar politicamente? Tive responsabilidades nos jornais no tempo da censura e nunca conheci nenhum membro do Governo. Conheci um secretário de Estado numa altura em que estava no Pão de Açúcar, no Rio de Janeiro. Quando era chefe de redacção de "O Século" tinha muitos convites para ir a sítios onde estavam membros do Governo. Nunca fui.

Nunca foi porquê? Vou-lhe contar. Havia muitas cerimónias no Palácio Foz. O meu director era o Manuel Figueira. Um homem do regime, mas com uma abertura de espírito extraordinária. Um dia disse-me que as pessoas perguntavam como era o chefe de redacção de "O Século". Não sabiam se era gordo ou magro. Sugeriu-me um evento para ir. Perguntei-lhe se era serviço ou conhaque. Disse-me que não era serviço. Não fui. Nunca me obrigou a ir.

Também esteve em jornais desportivos. Os dirigentes desportivos pressionavam-no? Eh! Sou benfiquista e apanhei duas pancadas do jornal do Benfica porque me sentia livre para dar a minha versão do jogo. A população desportiva é muito especial. Toda a gente sabe de tudo. Todo o leitor de jornal desportivo se sente apetrechado para ter opinião e para se indignar contra uma opinião contrária.

Sentia isso por parte dos leitores. E dos dirigentes de futebol? Não tive essa experiência.

Como olha para as redes socais. Para os amigos virtuais do Twitter, do Facebook... Não entro. É um sucedâneo maquinal daquilo que deve ser o convívio entre as pessoas. É uma coisa desumana. Para mim, não faz sentido falar com uma pessoa sem lhe estender a mão, olhá-la nos olhos, dar-lhe um abraço.

Os seus amigos dizem que é muito afável, afectuoso. Que é capaz de ir na rua e dar a mão, o braço, que precisa do contacto humano. Sou naturalmente afectuoso. O toque humano é muito importante para mim. É uma coisa que julgo que será latina, portuguesa até. Mas há tantas regras e tantas coisas que começaram a ser opostas à liberdade...

Essa afectividade vem de onde? Da sua educação? Os meus pais eram assim. Tive uma família muito boa. Já perdi dois irmãos. Éramos os maiores amigos do mundo. Ainda hoje com a minha irmã é assim. A Lurdes é um coração de ouro, muito melhor do que eu. Os meus pais eram muito afectivos, embora o meu pai tivesse alguma severidade. Um dia apanhei dois dias de suspensão na escola, e ele só me deixou sair do quarto para ir à casa de banho.

Na juventude, era muito irrequieto, vadio e até mau aluno. Os seus pais não temiam pelo seu futuro? Tinha uma grande sede de viver. A minha paixão era ir ao futebol e aos bailes. Os bailes tinham um significado extraordinário, davam a oportunidade única de falar com raparigas. E, mais, podíamos abraçá-las a pretexto de uma coisa chamada música. Os meus pais ficaram banzados quando aos 15 anos tive um conto publicado no semanário "Os Ridículos". Tinha feito uma redacção, e o meu professor de português achava que devia ser publicada. O conto foi publicado na página três, com ilustração e tudo. O director do jornal mandou-me um cartão a agradecer e a sugerir que escrevesse mais. Fi-lo durante três ou quatro anos. A minha família ficou espantada. O meu irmão era um sábio e eu era um ignorante total. A partir daqui olharam para mim com olhos novos, pensando que o rapaz poderia ter jeito para alguma coisa na vida. Depois comecei a escrever umas crónicas para o "Jornal do Algarve".

Começou por ser jornalista em "A Bola" e depois no "Diário de Lisboa". Foi chefe de redacção de "O Século", do "Diário de Notícias" e de "O Jornal", director-interino do "Tal e Qual", subdirector do "Record", entre outros jornais por onde passou. Tem dificuldades em assentar? As rotinas cansam-me. Tenho um sentido de aproveitamento da vida. Isso leva-me a desejar conhecer muita coisa e estar em sítios diferentes. É bom começar de novo. Levam-se as dúvidas, as inseguranças, os medos. Ninguém entra num sítio triunfante, por muito preparado que esteja. Gosto da mudança. Estive 20 anos na RTP, mas mudei muito lá dentro. Estive na informação, na programação. Fiz programas de desporto, de cultura... Gosto de mudar.

Como jornalista, fez de tudo um pouco. Até dirigiu uma revista de bordados. Conte-nos essa história. Eu era chefe de redacção de "O Século", e uma das revistas da empresa proprietária do jornal era a "Modas e Bordados". Foi em 1975, os tempos estavam muito turbulentos. Parte da redacção dessa revista, onde estavam jornalistas com muita qualidade, sanearam a direcção. Um dia, o Francisco Sousa Tavares, que estava no conselho de administração, chamou-me. Perdido de riso, disse-me que tinha uma coisa muito boa para mim, que as meninas da "Modas e Bordados" só aceitavam continuar a fazer a revista se eu fosse o director. Respondi-lhe que não podia aceitar uma coisa dessas. Mas acabei por ir falar com as senhoras. Mudei duas coisas. A revista passou a chamar-se "Mulher" e convidei a fundadora para ser a directora honorária. Os conteúdos foram mudando, e a revista deixou de ser apenas para a dona de casa que gostava de fazer bordados.

A palavra que mais detesta é obrigação. Também não gosta de ter horários. É por isso que a escrita o atrai? Nunca tive horários, mas trabalhei mais do que se tivesse. A palavra que mais gosto é liberdade. E a minha liberdade é poder fazer em cada momento aquilo que me apetece. Sou um animal de prazer. Tenho prazer no trabalho e na escrita. Não gosto de prazos. Aprecio fazer as coisas quando me apetece. Mas sei que é imperioso ter prazos. Nos anos 80, o Mega Ferreira fez-me um espantoso convite. Convidou-me para escrever livros para o Círculo de Leitores. Disse-me para deixar tudo o que fazia e dedicar-me à escrita, aos livros. Achei-me o tipo mais feliz do mundo. Mas disse-lhe que não. Entendi que a liberdade de escrever deve ser tão grande como a liberdade de não escrever. Hoje teria 20 ou 25 livros publicados. Mas teria um emprego de escrita. Gosto de imprevistos. Quando olho para a minha vida, vejo muitos imprevistos. A vida é feita de acasos. Gosto que a vida me permita uma margem de surpresas.

Sente-se mais escritor ou mais jornalista? Jornalismo é uma profissão e escritor não é. Não gosto de rótulos. Quero escrever livros que as pessoas apreciem. Já ando a pensar num novo livro para 2010. Quero fazer um livro mais reflectido que este último.

Quantos livros já escreveu? Seis e mais alguns em co-autoria.

Ainda escreve à mão ou já usa o computador? Escrevo à mão. No computador, já mando uns e-mails.

A "Crónica dos Bons Malandros" foi o seu primeiro livro. A sua escrita e a sua imagem ficaram muito coladas a essa obra. Por muitos livros que escreva, ficarei sempre marcado por esse. Foi um livro abrangente. Tanto divertiu doutores como operários. Essa horizontalidade de leitores é muito boa. Não é um livro para intelectuais, mas eles divertem-se, é uma paródia.

Nos livros que se lhe seguiram há muitos aspectos que se mantêm, como o sentido de humor, a escrita solta, de fácil leitura... De uma maneira geral, sou capaz de distinguir um livro escrito por alguém que foi jornalista de outro que o não foi. No jornalismo, o texto quer-se claro, justamente porque o consumidor de jornais é muito heterogéneo. A língua portuguesa pode ser usada com toda a dignidade, até literariamente ser perfeita, e ser muito clara. A minha escrita é muito marcada pelo facto de ter sido jornalista. Preciso das coisas claras. Quero que toda a gente entenda o que escrevo. Um livro é também um acto de comunicação.

Como é que essa forma de contar histórias é vista pelos outros escritores ditos intelectuais? Esses escritores não são o meu público. Uma vez fui à RDP a convite de Carlos Pinto Coelho. Também lá estava o David Mourão-Ferreira. Declarei que me sentia uma espécie de espontâneo das touradas. Um tipo que está na bancada, que não é toureiro, mas que vai à arena fazer uma faena. Depois volta para o seu lugar. Na altura, o David Mourão-Ferreira disse que não queria mais ouvir-me desfazer naquilo que fazia. Disse-me que, como professor de Literatura da Universidade Clássica de Lisboa, tinha alunos fabulosos, e todos eles adoravam aquilo que eu escrevia. Apesar disso, não alterei a forma de olhar para a minha escrita. Se eu fosse escritor, que palavras usariam para designar Eça de Queirós ou Camilo Castelo Branco?

Durante a infância jogou futebol com Cavaco Silva. Ainda é amigo do Presidente da República? Juntávamo-nos muito na praia dos Olhos de Água. Era uma praia onde as nossas famílias alugavam as casas dos pescadores e íamos por três meses. Éramos 10, 12 famílias. Éramos amigos de Verão. Eu sou mais velho, da idade do irmão Rogério. Ele é mais novo do que eu três anos, o que faz a sua diferença quando temos 15 anos. Ele era o miúdo. Fazíamos equipas de futebol, às vezes faltavam elementos e então dizíamos que entrava o Nibinho. O Nibinho era o Aníbal, que era o mais novo do grupo.

Qual era a sua posição no campo de jogo? Era médio.

E a do Nibinho (Cavaco Silva)? Era um rapaz muito ágil, porque era alto, perna longa. Já namorava com a Maria, também outra frequentadora da praia. Uma pessoa com impulsividade terrena, mas muito culta. O Nibinho corria bem e marcava alguns golos.

Mantiveram a amizade ao longo da vida? Encontramo-nos ocasionalmente. Ultimamente, mais quando ele vai à entrega dos Prémios Gazeta no Clube de Jornalistas (Mário Zambujal é o presidente).

Como é que vê a sua actuação como Presidente da República. Do ponto das ideias, temos algumas discordâncias. Penso que tem sido um bom Presidente. Não digo que não possa ter cometido erros. Tem o culto da honestidade, aquele culto quase rural do "isto faz-se", "isto não se faz". Fico satisfeito com isso, pois é o puto que conheci na juventude.

Alguma vez votou em Cavaco Silva? Não. As águas não se misturam. Embora do ponto de vista político tenhamos opções diferentes, nas próximas eleições talvez vote nele. Também em política, o que interessa são as pessoas. Gosto de ouvir uma ideia inteligente e lúcida, tanto me faz do partido de onde vem.

Diz que é um tímido, mas ao mesmo tempo gosta de estar com as pessoas, de conversar. Não é uma contradição? Não. Sou um tímido, de facto. A primeira vez que fiz televisão estava apavorado. Com muita vontade de fugir dali. Depois habituei-me. Embora tivesse algum pudor em entrar na casa das pessoas sem que elas me convidassem. Se vou para um ambiente desconhecido e não sei quem está, vou um pouco intimidado. Mas gosto imenso de galantear uma mulher bonita. Mesmo que não o seja, digo-lhe que é.

É um sedutor nato. O que o seduz nas mulheres? Tenho uma grande ternura pelas mulheres. Para além da sensualidade, gosto do funcionamento da sua cabeça. As mulheres foram o elemento colonizado e, como tal, servem-se de um trabalho mental muito mais elaborado. O homem é muito primário. A mulher tem de jogar no jogo da inteligência para conseguir o que os homens conseguem pela força. Elas têm uma vida interior, mental, de meditação muito mais rica que a dos homens. A mulher é um ser muito mais perfeito e sedutor.

O que primeiro o seduz quando olha para uma mulher na rua? Não sou capaz de lançar um piropo a uma mulher na rua. Quanto muito, se vir uma mulher muito bonita, posso dizer: "Ai, Nossa Senhora!" Mas às minhas amigas digo-lhes muitas vezes que estão bonitas.

Os seus amigos dizem que vive em sedução permanente e que o belo e o feminino o inebriam... São talvez excessos (risos). Sou apreciador das mulheres e tenho uma verdadeira admiração pelo belo. Mas o belo pode ser uma paisagem, não tem de ser necessariamente uma mulher. O problema é que a paisagem é muda. Não reage aos nossos elogios. A mulher permite-nos diálogo, há um vaivém de ideias.

Há quem diga que o Mário Zambujal foi um bom malandro. É verdade? Nunca fui malandro, nem sou. É uma palavra excessiva para caracterizar uma pessoa como eu. Gosto de brincar, de rir, de viver intensamente. Por vezes há alguma malícia nas minhas piadas. Gosto da sensualidade das coisas. Não sou um tipo que guarde rancor. Não tenho paciência para estar zangado com ninguém. Nem estou zangado com a vida.

Há algum tempo, confessou que lhe faltava vocação para ser marido. É casado há quase 50 anos. No dia em que disse isso não chegou a casa e a sua mulher não lhe disse "olha o malandro"? A minha mulher tem uma boa elasticidade mental. Achou, se calhar, que eu tinha toda a razão. A vida em comum é muito friccionante. Alguém tem de abdicar do seu prazer em favor da harmonia. Como sou um tipo um pouco individualista, se calhar tinha vocação para ser um solteirão. Não me arrependo de ter casado. Fi-lo com 26 anos. Tenho dois óptimos filhos e uma mulher excelente. Vivemos quase sempre em casas separadas porque ela o admitiu. É de uma grande compreensão. Mas o que é certo é que ela casou com um tipo que já chegava a casa às cinco ou seis da manhã. Era a minha profissão e sempre fez parte de mim ser assim. Ela é mais tranquila e eu sou um irrequieto. Temos casa no Algarve, e aí também tenho o meu próprio espaço. É um modo de viver um pouco incomum. O desgaste da vida a dois leva a que os casamentos acabem por menos do que acabaria o meu. Penso também que temos sido poupados a esses desgastes.

Passou a infância entre a Guerra Civil de Espanha e a II Guerra Mundial. Lembra-se desses tempos difíceis? Vivíamos na Amareleja, perto da fronteira, e lembro-me de um corredor comprido em casa onde dormiam espanhóis fugidos da guerra. A aldeia inteira acolhia-os, como todas as aldeias da fronteira.

Saiu do Alentejo muito novo. Cresceu no Algarve. Sente-se mais alentejano ou algarvio? Saímos do Alentejo quando eu tinha 5 anos. Depois vivi até à idade adulta no Algarve. Sinto-me muito mais alentejano. Não são só as raízes. Quando fui para o Algarve, levei o Alentejo comigo. A minha mãe fazia migas, ensopado de borrego, era uma mulher profundamente alentejana. E o meu pai cantava muito bem, era também um bon vivant.

Tem ar de pessoa feliz e realizada. É hedonista ou narcisista? Não me tenho em grande conta. E olhe que ninguém me conhece melhor do que eu. Tenho consciência das minhas próprias debilidades. Sou preguiçoso. Só de medir o tamanho da minha ignorância não posso ser narcisista. Nalguns aspectos estou contente comigo próprio. Estou contente por ser uma pessoa pacífica. Não sei o que é o ódio. Tenho uma certa paz interior. Mas também sou suficientemente autocrítico. Sou hedonista no sentido em que o prazer comanda os nossos sentidos, os meus gestos.

O que lhe dá mais prazer? Fazer, em cada momento, aquilo que me apetece.

Qual é o seu maior luxo? Onde é que gasta mais dinheiro? A comprar jornais e revistas. Faz parte do meu dia-a-dia. Também gosto de ir a um bom restaurante, mas também me sinto bem a ir a uma tasca. O que me seduz são as pessoas.

Quem o conhece bem diz que é muito guloso e que adora chocolate. Sabe que os chocolates são afrodisíacos? Já tinha suspeitado que aquilo vinha de qualquer lado...

5 comentários
  1. Caro Alberto,
    O inicio do seu comentario diz tudo. "Fazem cada vez mais falta ....e morrem".
    O Benfica que conheci esta a desaparecer. Se calhar ja desapareceu mesmo e eu nao quero ver.
    Temos uma versao muito diluida, superficial, fragilizada, vulneravel do SLB que conheci.
    Nao sei mais o que dizer.
    RIP Mario Zambujal.
    Obrigado por tudo.

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  2. As minhas mais sentidas homenagens a este grande Benfiquista, como eu me deliciei a ler as suas crónicas na Bola, isto quando a Bola era a Bíblia do desporto...

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  3. Que notícia tão triste. No espaço de poucos dias perdemos um grande escritor e um magnífico escritor e jornalista, ambos enormes benfiquistas. Da grande escola de jornalismo e jornalismo desportivo em Portugal, que hoje já não existe. Mário Zambujal era também um homem educadíssimo, gentil, elegante no trato. Far-nos-á muita falta. Os meus sentimentos a toda a família e amigos. Só tenho pena que a minha timidez me tenha impedido de o cumprimentar quando uma vez me cruzei com ele num café em Benfica, não longe do mural que foi pintado em sua homenagem.

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  4. Boa Tarde, Sr. Alberto Miguéns....Em uma semana perdemos dois Benfiquistas distintos...Depois de António Lobo Antunes...agora foi se outro grande escritor e jornalista...Mário Zambujal....Quem não se lembra dele a apresentar o Domingo Desportivo?...A nossa cultura ficou, hoje, ainda mais pobre ..Os meus pêsames à família...Um Abraço Glorioso.

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  5. Um notícia muito triste.
    Para além de uma grande perda para a Cultura em Portugal, é um Benfiquista ilustre que parte. Um contador de histórias, um conversador, jornalista e escritor. Este mês de março está a ser trágico em perdas para o Benfiquismo.
    Condolências à família.
    Que descanse em paz.

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