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09/01/2018

Otto Glória: 101 Anos

09/01/2018 + 1 Comentários API
COMPLETAM-SE HOJE 101 ANOS DO NASCIMENTO DO TREINADOR OTTO GLÓRIA.


A par de Cosme Damião (anos 10), Janos/João Biri (anos 30) e Eriksson (anos 80) foi um revolucionário no Glorioso Futebol. E mais do que isso foi o inovador, na sua primeira passagem pelo Clube (anos 50), que alterou o conceito do futebol do Benfica. Há um antes de Otto Glória e um depois.

Dois gigantes do treino e orientação de grandes equipas do "Glorioso": Otto Glória e Béla Guttmann

Na galeria dos grandes treinadores
Onde também têm de estar Béla Guttmann (sagacidade teórica e capacidade táctica) e Jimmy Hagan (inovador prático e simplicidade de processos). Além de outros pois, felizmente, em 114 épocas de Glorioso Futebol há muitos e bons.


A indescritível alegria no "dia do impossível ser possível", em 24 de Abril de 1955 quando o Benfica consegue ser campeão nacional após o "Milagre do Martins": Otto aos ombros e o capitão Fernando Caiado também!

O Benfica ficou a conhecer Otto Glória
Quando, em 30 de Junho de 1953, o Benfica defrontou, no estádio do CF "Os Belenenses", nas Salésias, o clube do Rio de Janeiro, América FC, perdendo por 1-3. Há a curiosidade do primeiro futebolista estrangeiro, contratado fora de Portugal - segundo depois de Jorge Gomes (Boavista FC) - ter sido transferido deste popular clube brasileiro: César. O presidente da Direcção do Benfica, Joaquim Ferreira Bogalho que jogara, em final dos anos 1o e início da década de 20, futebol no Benfica e depois assumiu várias vezes cargos na Secção de Futebol gostou da organização do clube brasileiro e fixou o nome do responsável pelo futebol agradável e eficaz: Otto Glória.  


No Lar dos Jogadores, à mesa com Costa Pereira, rodeados por alguns dos melhores craques desse tempo, em Portugal

Do Rio de Janeiro para Lisboa
Nascido em 9 de Janeiro de 1917 (há 101 anos) no Rio de Janeiro, Octaviano Martins Glória era brasileiro de ascendência portuguesa - o seu avô paterno era açoriano e o avô materno de Vila Nova de Gaia. Desde pequeno interessado pelo Futebol, o menino que partia vidraças com a bola no bairro da Tijuca, em breve ingressou no "clube mais português do Brasil". No CR Vasco da Gama cresceu como futebolista, para além de também praticar basquetebol. Após uma passagem, breve, pelo Botafogo FR (de Futebol e Regatas) regressou ao emblema «cruzmaltino». Repentinamente, apenas com 24 anos, Otto deixou de jogar futebol e basquetebol. Queria ser treinador. Uma paixão que saberia traduzir em sucesso. Iniciou-se, aos 25 anos, na orientação dos plantéis de aspirantes, juniores e principiantes. E o popular Vasco conquistou os três títulos cariocas! Em 1949 (32 anos) foi nomeado adjunto do célebre Flávio Costa que treinava a equipa principal do CR Vasco da Gama e a selecção brasileira. Em 1952, o América FC (numa tentativa de se aproximar dos quatro colossos - Flu, Vasco, Fla e Botafogo - do futebol carioca fez-lhe uma proposta irresistível para treinar a principal equipa de futebol, onde se manteve até 24 de Junho de 1954, data que o levou a desembarcar em Lisboa, com 37 anos. Foi o primeiro brasileiro a treinar um clube português. Aliás os dirigentes do Benfica eram muito desconfiados no que dizia respeito aos treinadores "fora do universo Benfiquista" como se comprova.  


Relatório e Contas da Gerência de 1954 e Parecer do Conselho Fiscal do SL Benfica; página 15 (excerto)
Há Bogalho/Otto Glória, como Maurício Vieira de Brito/Guttmann e Borges Coutinho/Jimmy Hagan

Ordem para mudar: Acabar com soluções pontuais e decididas mais com o coração que com a cabeça
O Clube era um colosso associativo, com uma força social ímpar, simpatizantes por todo o «Império português do Minho a Timor», vivia a euforia da construção da "Saudosa Catedral", mas o futebol há muitas temporadas que não se conseguia impor nas competições portuguesas - em nove épocas, entre 1945/46 e 1953/54 apenas conquistou um título de campeão nacional (1949/50) que abriu a possibilidade de conquistar a «Taça Latina», embora fosse o grande dominador na Taça de Portugal com quatro conquistas sucessivas (recorde do Benfica e em Portugal), entre 1948/49 e 1952/53, pois em 1949/50 a competição não se realizou. No Futebol o Benfica havia vivido de soluções pontuais, sem sequência e estratégia, não permitindo organizar e reforçar criteriosamente o plantel de futebol da equipa mais representativa do Clube.


Há as "pedradas no charco". Otto Glória provocou uma com muita classe e sabedoria

E tudo Otto Glória (com Joaquim Bogalho) mudou
Otto Glória era imaginativo e ambicioso, trazendo algumas ideias que em Portugal eram desconhecidas, baseadas na originalidade dos processos técnicos (a célebre variação do WM, a «Diagonal») e na mentalidade, como factor de motivação e superação. A profissionalização do principal plantel permitiu racionalizar o número de futebolistas como poder exigir-lhes concentração total no Futebol. A criação do "Lar do Jogador" possibilitou uma cautelosa fiscalização dos hábitos de vida, alimentação vigiada e assistência médica cuidada aos atletas. Mais do que um Lar (onde viviam os futebolistas solteiros) era um local de concentração na noite que antecedia os jogos ou na manhã dos treinos.



Um grande treinador faz de equipas...grandes equipas e um grande clube transforma treinadores em grandes treinadores. Eis a "relação" Otto Glória/Benfica! Tinha tudo para ser grandiosa e foi!

Além do Estádio e do Lar, um autocarro novo (que era velho)
A aquisição de um autocarro privativo (embora em segunda mão para não encarecer, mas também era um veículo adaptado para viagens longas, pertencente à companhia "Os Companheiros da Alegria" de Igrejas Caeiro) permitia juntar logo a equipa antes dos treinos (geralmente no pelado do Campo Grande), jogos em Lisboa e arredores ou levar os futebolistas até uma estação de comboio para depois viajarem de comboio para localidades afastadas de Lisboa. O Benfica chegou a alugar automotoras à CP para os jogos em Coimbra e na Covilhã, transportando futebolistas, treinadores e alguns adeptos mais endinheirados que pudessem pernoitar onde o Benfica ia jogar. Com os futebolistas focados no Futebol tal permitiu um regime de treinos mais apertado, aumentando os treinos semanais de três para cinco com um plano bem elaborado e diversificado, contemplando todos os aspectos, dos mais gerais aos de maior pormenor, mesmo individualizados: por jogador ou adversário.




Época 1954/55: Ano Um do "Novo" Benfica
A nível táctico adaptou-se uma variante do "velho conhecido e estafado" WM - a diagonal - que permitia alguma liberdade aos jogadores mais criativos e imaginativos, gerindo o esforço dos atletas, principalmente os mais "frágeis" (geralmente, também, os mais habilidosos). Foi esta "gestão de esforços" para aguentar os 90 minutos de jogo que provocou, entre os adeptos do "Glorioso", alguma desconfiança.


Ao fundo, de costas, o dedicado Fernando Caiado. Otto Glória (à esquerda) com Costa Pereira à sua frente. Ao lado deste, Coluna e José Águas no canto. E quantos golos não marcou ele após um...canto! Agradeço a Victor Carocha a ajuda na legendagem

A dobradinha à Sporting CP
A época de 1954/55 decorreu sob o signo da mudança. O Benfica ou como Otto Glória gostava de chamar à equipa «o meu timinho», chegou à última jornada do campeonato nacional em segundo lugar. E teve o título de campeão nacional perdido para o CF "Os Belenenses" até quatro minutos do final da última jornada (e do Nacional) quando o avançado-centro do Sporting CP, Martins marcou o segundo golo que empatou o jogo no campo do adversário, oferecendo ao Benfica o oitavo título de campeão nacional. O estádio das Salésias era talismã para o treinador. Foi aí que "deu nas vistas" (em 1953) foi aí que conquistou o primeiro título de campeão nacional. Menos de um ano depois! O Benfica conquistava dramaticamente, mas com justiça, o título máximo ao fim de quatro temporadas consecutivas de domínio do Sporting CP. Que quando entrou em campo na última jornada - se vencesse o CF "Os Belenenses" e o "Glorioso" perdesse, na "Saudosa Catedral" com o Atlético CP - podia conquistar o quinto título de campeão nacional. Ao contrário do que sistematicamente se insinua que o SCP «tendo o campeonato perdido "deu" o título ao Benfica» empatando com o CF "Os Belenenses". E no final da temporada mais um troféu, a 11.ª Taça de Portugal, permitindo ao Benfica o segundo duplo (campeonato e taça) da nossa história, após uma vitória, por 2-1, sobre o Sporting CP, no Estádio Nacional.  


Da esquerda para a direita: Costa Pereira, Naldo, Fernando Caiado, José Bastos, Otto Glória e José Águas 

Apoteose no Brasil
O treinador conseguiu um crédito tão grande que até obteve permissão para prescindir de jogar a Taça Latina (em França) pois segundo ele o futebol português (e os futebolistas) necessitavam de jogar encontros internacionais para evoluírem, individualmente e enquanto colectivo, e a Taça Latina resumia-se a dois jogos com "futebóis semelhantes". E que propôs Otto Glória? O Benfica finalmente aceitar os pedidos incessantes da diáspora portuguesa na América do Sul que queriam ver o Benfica, como tinham visto os africanos, na digressão depois da conquista da Taça Latina, em 1950. Assim o Clube terminou a temporada de 1954/55 com uma digressão que seria apoteótica pelo Brasil e Venezuela, onde foram conseguidos alguns resultados históricos, como as primeiras vitórias absolutas - para clubes portugueses - sobre o CA Peñarol (no estádio Maracanã/Rio de Janeiro) e o SE Palmeiras (no estádio Pacaembu/São Paulo). Uma temporada de 1954/55 que foi das melhores épocas de sempre - a vários níveis - na Gloriosa História. E que até teve a peripécia de nas eleições dos Órgãos Sociais, que até 1967, eram anuais o presidente Bogalho ter sido reeleito em 15 de Março de 1954 mas não querer tomar posse. Só o fez em 5 de Maio! Depois "descobriu-se". Se o Benfica não fosse campeão nacional - e à data das eleições tal parecia improvável - Bogalho poria o seu lugar à disposição dos associados por parecer ter dado "um passo maior do que a perna". O que aquele golo de Martins não valeu! A todos os níveis.


O "solitário" treinador no Campo Grande onde se treinava durante a semana para brilhar, na Luz, ao domingo

A terceira "dobradinha" chegou em 1956/57
Na temporada de 1955/56 o Benfica não conseguiu qualquer título nacional, apesar de realizar uma época regular. Chegou ao final do campeonato nacional empatado pontualmente com o campeão (FC Porto) mas acabou por perder o título por uma diferença de 12 golos! Nesta temporada estreou-se, no "Glorioso", a extremo-esquerdo Cavém, com Salvador titularíssimo a interior-esquerdo. Dois bons reforços. A perspicácia do treinador em acção a fazer os caboucos do "Benfica Campeão Europeu". Mas, em 1956/57, o Clube recuperou o título de campeão nacional, provando que continuava a ter um plantel de excelência no Futebol. Obteve-se mais uma dupla conquista (campeonato e taça), pois na final da Taça de Portugal, no Estádio Nacional, derrotou-se, por 3-1, o SC Covilhã, a competir no principal escalão eliminando o FC Porto (2.º classificado, a um ponto do Benfica). Após esta conquista o Clube voltou a sair do País, mostrando em Madrid (final da Taça Latina frente ao Real Madrid CF, no seu estádio), Brasil e EUA (primeiro clube português a jogar neste país) que estava na forja uma equipa que iria "dar que falar"! Nesta época, Pegado foi o titular a médio-direito. A época de 1957/58 não foi brilhante, com a decepção na estreia, frente ao Sevilha FC, na Taça dos Clubes Campeões Europeus. A nível interno ficou-se aquém das expectativas: terceiro lugar no Nacional (atrás de Sporting CP e FC Porto) e final da Taça de Portugal perdida (0-1) para o FC Porto. A única até hoje!


Otto Glória treinador de Basquetebol com um "Cinco Glorioso"


Entre parêntesis: Basquetebol em 1955/56
Com a temporada de Basquetebol, em 1955/56, a correr mal com quatro derrotas, um empate e duas vitórias em sete jogos, O Benfica solicitou ao treinador de Futebol que treinasse também . foi mais orientar nos jogos - o plantel de basquetebol do "Glorioso" e assim foi. O primeiro treino foi em 13 de Dezembro de 1955 e depois de assegurar o apuramento para a fase final do campeonato nacional despediu-se frente ao Sporting CP, em 19 de Abril de 1956, num dia de infâmia em que os árbitros "obrigaram" o Benfica a empatar, a 70 pontos, com o Sporting CP. Foram catorze jogos, com nove vitórias, um empate e quatro derrotas com 949 pontos marcados e 817 sofridos, com o segundo lugar no campeonato regional (apuramento para a fase de...apuramento para o Nacional) e terceiro lugar na fase de apuramento para o campeonato nacional com o "Glorioso" a classificar-se em 5.º lugar (já sem Otto Glória que saiu após a 5.ª jornada - final da primeira volta - da fase de apuramento para o Nacional). Com Otto Glória jogou Basquetebol com o "Manto Sagrado" o guarda-redes de futebol...Costa Pereira (40 pontos em oito jogos, marcando 17 pontos ao CF "Os Belenenses" apenas num jogo).  


Dois dos melhores de sempre no Benfica: Otto Glória como treinador e Cândido de Oliveira (jogador e capitão do "Glorioso" nos anos 10)

A última temporada da primeira passagem
Em 1958/59 o "Glorioso" só não venceu o campeonato nacional, perdido com o mesmo número de pontos, mas por um...golo, porque ao longo dessa edição o FC Porto conseguiu viciar alguns jogos obtendo resultados que lhe deram pontos e golos permitindo a meio da segunda volta ultrapassar o Benfica e conquistar o campeonato nacional. E eis que Gastão Silva (já uma saudade falecido na passada sexta-feira, quase com 95 anos) e o presidente Maurício Vieira de Brito chegam a um entendimento. Gastão Silva desloca-se à cidade do Porto e fica a saber que o treinador do FC Porto Béla Guttmann gostaria de treinar o Benfica! Assim, o Benfica não renova o contrato a Otto Glória e este já não assegura a campanha da Taça de Portugal do Benfica. Treina e orienta a equipa até ao final do contrato (30 de Junho de 1959) deixando o "Glorioso" apurado para os quartos-de-final, competição que o Clube acabaria por conquistar com o treinador-adjunto Valdivielso (entretanto chamado a treinador efectivo) a orientar as equipas nos últimos jogos, incluindo a final, pelo segundo ano consecutivo frente ao FC Porto, no Estádio Nacional, com uma vitória por 1-0 tendo o golo do "Glorioso" sido obtido por Cavém, por volta dos 13 segundos, ainda o golo decisivo mais rápido numa final da Taça de Portugal.  




Depois o treinador andou por muitas outras paragens
Até regressar ao Benfica, decorria já a temporada de 1967/68. Mas isso é para contar numa segunda parte a publicar pelo meio-dia. Foram três temporadas (até 1969/70) com muita História e estórias que merecem destaque à parte.



Que o Glorioso Otto Glória merece tudo!



Alberto Miguéns



NOTA: Este texto estava "meio-feito, meio-por-fazer" há um ano (no Centenário do seu nascimento) e teve de ser adiado. Ficou prometido e eis que a promessa fica cumprida. Mais do que isso fica honrada tratando-se de Otto Glória.
1 comentários
comentários
  1. A vida de Otto, do que conheço dava um filme fabuloso. Era uma figura extraordinário e presumo que dele sei muito pouco. O texto do Alberto é extraordinário pois dá-nos o enquadramento e as maiores feitos e contribuições deste homem que foi um revolucionário do nosso futebol. Juntamente com Ferreira Bogalho e sua equipa e com um notável conjunto de jogadores e funcionários, foram estes os homens que puseram em marcha o grande SLB europeu. Foi só a subir. Um das ironias da História é que nao foi Otto a colher os maiores frutos do que semeou (um pouco como D. João II e D. Manuel I)

    Otto, ao que sei, era inicialmente torcedor do Botafogo mas tornou-se Vasco pela sua carreira inicial como basquetebolista e depois treinador. Lidou com génios dentro e fora do campo do futebol Brasileiro. Essa aprendizagem e o carácter juntaram-se na altura certa ao potencial do SLB. O resto foi a História maravilhosa que o Alberto resume.

    De tal forma ficou identificado com o SLB que os Benfiquistas nunca dão importância ao tempo que ele passou no SCP, no CFB e no FCP. E como negar que Otto seguramente deixou a maior porção do seu coração naquele resplandecente Estádio da Luz e nas gentes Gloriosas que tanto e tanto o amaram.

    Honra à memória de Otto Glória.

    Maravilhoso texto. Obrigado.

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