Este Blogue tem como objectivo a defesa intransigente do Sport Lisboa e Benfica e da sua Gloriosa História.
Qualquer opinião aqui expressa vinculará apenas o seu autor Alberto Miguéns. António Melo foi quem teve a ideia deste blogue.

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04/02/2017

Olha Que Três...

04/02/2017 + 2 Comentários
COSME DAMIÃO, CÂNDIDO DE OLIVEIRA E RIBEIRO DOS REIS. FUTEBOLISTAS (E BONS) FORMADOS NO GLORIOSO. TEÓRICOS (COM LIVROS BRILHANTES) ACERCA DO FUTEBOL.


Através da leitura da bibliografia destas três personalidades do Benfica podemos perceber o Futebol e a sua evolução história, técnica e táctica em Portugal desde o século XIX até ao final da década de 50 do século XX. Sessenta anos de Futebol contados por futebolistas do Benfica. E treinadores e dirigentes (no caso de Cosme Damião e Ribeiro dos Reis).


Chegaram a jogar juntos com o “Manto Sagrado” em três jogos (Cosme Damião era onze anos mais velho que os dois "pupilos"...)

Primeiro a actividade com o “Manto Sagrado”
A curiosidade reside no facto de apesar de serem poucos jogos em que nos “honram juntos” (três futebolistas no onze) estão bem documentados. Principalmente o primeiro pois está integrado numa digressão a Espanha com seis jogos (dois em Bilbau, dois em San Sebastian/São Sebastião e dois em Madrid). Juntos só jogaram no quarto jogo (em seis). Depois Ribeiro dos Reis continuou na digressão mas não integrou a equipa nos dois jogos em Madrid. Nesta digressão ao País Basco e Madrid ficou assente não se faziam substituições. Há um relato extenso da digressão, muito bem documentada na Imprensa espanhola mas fica aqui apenas o essencial.

Primeiro em três
Em 31 de Dezembro de 1914, na estreia de Ribeiro dos Reis na primeira categoria, em São Sebastião/País Basco, frente à Real Sociedade (D 0-4; com 0-0 ao intervalo), no campo de Atocha, com Cosme Damião na meia-defesa-central (de half-back) ou médio-centro, Ribeiro dos Reis a meia-ponta-direita e Cândido de Oliveira na ponta-esquerda. NOTA: Na crónica do início da digressão (está digitalizada mais abaixo) é possível ver como, em 1914, o Benfiquismo estava já adquirido. Sabendo que a delegação do "Glorioso" que viajava de comboio, desde o Rossio, rumo a Espanha teria de passar a escassos metros do campo de Sete Rios (a localização face à actualidade pode ser vista (aqui) içou-se a Gloriosa Bandeira à sua passagem. 



Segundo em três
Em 19 de Dezembro de 1915, na 3.ª jornada do campeonato regional de Lisboa, no nosso campo de Sete Rios, numa vitória por 4-2 (com 2-1 ao intervalo) frente ao CS Império, com Cosme Damião na meia-defesa-central ou médio-centro, Cândido de Oliveira na meia-defesa-esquerda ou médio-esquerdo e Ribeiro dos Reis na ponta-direita.



Terceiro em três
Em 26 de Fevereiro de 1916, frente ao Real Club Fortuna (Vigo), na despedida de Cosme Damião como futebolista, numa derrota, por 0-2, no campo de Sete Rios, com Cosme Damião na meia-defesa-central ou médio-centro, Cândido de Oliveira na meia-defesa-esquerda ou médio-esquerdo e Ribeiro dos Reis na meia-ponta-direita.


Cosme Damião (1885 - 1947) um médio-centro que jogava e fazia jogar. História do Sport Lisboa e Benfica 1904/1954; página 141; Volume I; Mário de Oliveira e Rebelo da Silva; 1954; edição dos autores; Lisboa

Cosme Damião
Está muito dito e escrito e parece que é sempre pouco. Fundador como outros 23, médio-centro das primeiras equipas da segunda categoria (uma espécie de reservas da primeira) entre 1904/05 e 1906/07, estreia na primeira categoria, como defesa à direita em 17 de Março de 1906, vencedor do primeiro troféu (pela 2.ª categoria) em 21 de Abril de 1907 e fez parte da solução face à deserção dos melhores futebolistas para o Sporting CP, no Verão de 1907, aceitando continuar com o Clube (em vez de o extinguir) inscrevendo o plantel da segunda categoria de 1906/07 no campeonato para a primeira categoria em 1907/08 por proposta de Marcolino Bragança e apoio financeiro de Félix Bermudes. Foi depois preponderante (a par de Félix Bermudes) na junção com o Sport Benfica salvaguardando os valores imateriais do Sport Lisboa dando-lhe continuidade como Sport Lisboa e Benfica. Assegurou a homogeneidade do valioso plantel estabelecendo um método que iria tornar o SLB no maior clube português. Como dirigente soube assumir ser vogal e depois chegar à vice-presidência ficando incumbido da responsabilidade de toda a política desportiva do Clube, com o nome de capitão-geral. Era futebolista (médio-centro), capitão, treinador, orientador e conselheiro de todos os capitães (quatro categorias) do Benfica. 

Cosme Damião como capitão-geral (e capitão do onze da 1.ª categoria) orientava e "ouvia" (sabia ouvir) os capitães da 2.ª, 3.ª e 4.ª categoria
E o «método»? 
Iniciar-se nas categorias mais baixas, mostrar capacidade, responsabilidade e Benfiquismo para ascender ao topo como respeitador do Glorioso passado tudo fazendo para mantê-lo e engrandecê-lo conquistando triunfos e títulos além de honrar o Clube com atitude de desportivismo intangível. Como Félix Bermudes traduziu numa estrofe do Hino: «Honrai Agora os Ases Que Nos Honraram o Passado». Depois com a veterania – menor poder físico, menos tempo para treinar e mais ocupação familiar, particular e/ou profissional – aceder representar o Benfica nas categorias mais baixas inundando de Benfiquismo os jovens (em idade) ou novatos (no Clube) que se iniciavam. Foi um “método” verdadeiramente arrasador, como se pode ver (aqui) nos seus efeitos “práticos”: a conquista de campeonatos. Até 1919/20 foram 31 títulos (66 por cento) em 47 realizados. No total, até a sua saída no final de 1925/26, com 37 títulos obtidos em 73 disputados, ou seja, a conquista de 51 por cento. Mas esgotou-se, porque com o tempo “os tempos mudam”. Desadaptado da realidade, procurando ainda ser ele a comandar como estratego quando o Benfica já não tinha condições para tal, acabou por ter de sair sem que o desejasse (para quem quiser ver esse Dia da Coragem (aqui) num texto neste blogue) em 8 de Agosto de 1926. 



Regresso ao local onde foi sempre feliz
Mais tarde reconsiderou (pois nunca foi marginalizado pelo Clube e seus associados) regressou como presidente da mesa da assembleia geral (6 de Setembro de 1931) foi reeleito em 1932, 1933 e 1934 foi galardoado com o distinção suprema, a “Águia de Ouro”, em 15 de Outubro de 1935. Quis ainda num assomo de vitalidade tentar que o Benfica regressasse do semi-profissionalismo ao semi-amadorismo mas percebeu, com uma experiência como presidente do Casa Pia AC, que era andar para trás. Entretanto ainda como capitão-geral do SLB escreveu (em 1925) um livro notável «Apontamentos e Recortes sobre Football Association» e como Benfiquista inveterado deu uma entrevista imperdível a Mário de Oliveira, publicada logo no número onze (5 de Março de 1945) do jornal “A Bola”, fundado por dois dos seus discípulos: Cândido de Oliveira e Ribeiro dos Reis. Em dias de jogo, na “Catedral”, quando olhamos para o Céu e vemos uma estrela a brilhar com uma intensidade que nos “cega” essa é a estrela dele. A que ele nos legou! A “Chama Imensa”!

Cândido de Oliveira (1896 - 1958) de avançado para médio. Um jogador que "pensava o jogo". História do Sport Lisboa e Benfica 1904/1954; página 319; Volume I; Mário de Oliveira e Rebelo da Silva; 1954; edição dos autores; Lisboa

Cândido de Oliveira
Desde a chegada ao Clube (1 de Setembro de 1914) e a sua estreia directa na primeira categoria (18 de Outubro de 1914) era a grande esperança de Cosme Damião para suceder-lhe na organização da equipa e depois como dirigente. Cosme Damião tivera um revés com Artur José Pereira quando este saiu para o Sporting CP no final de 1913/14. Mas sabia que este podia suceder-lhe como médio-centro, mas dificilmente como capitão e muito menos como capitão-geral (treinador e dirigente). Não tinha esse perfil por ser demasiado temperamental, irascível e imprevisível. O abandono dele sacrificou a época de 1914/15 (o SCP conquistou finalmente o campeonato regional). Cosme Damião sentiu-se obrigado a adiar a sua despedida como futebolista e trazer Carlos Sobral para retomar o trilho dos êxitos. No final de 1919/20 a saída de Cândido Oliveira e de duas mãos cheias de casapianos foi um golpe profundo dado no poderio do Glorioso Futebol. Era Cândido de Oliveira que tinha as condições – uma espécie de versão melhorada de Cosme Damião – para continuar o caminho do sucesso nos anos 20 e seguintes como tinha ocorrido nas duas décadas iniciais. Quando Cândido de Oliveira “virou costas” ao Benfica e ao Benfiquismo Cosme Damião sofreu um duro golpe. Parado no tempo não percebeu – ao contrário de Cândido de Oliveira em relação ao “seu” Casa Pia AC – que não era o Benfica que mudava o Futebol. Devia ser o Benfica a acompanhar, como sua vanguarda, as mudanças. Felizmente havia uma “reserva moral e Benfiquista” no Clube.

António Ribeiro dos Reis (1896 - 1961) o avançado polivalente que "pensava o golo" fixando-se como avançado-centro. História do Sport Lisboa e Benfica 1904/1954; página 470; Volume I; Mário de Oliveira e Rebelo da Silva; 1954; edição dos autores; Lisboa

Ribeiro dos Reis
Ele e Vítor Gonçalves – Cosme Damião há muito que não jogava - foram os únicos casapianos que recusaram acompanhar Cândido de Oliveira apesar da grande amizade que os unia. Coube à Glória Ribeiro dos Reis como avançado-centro dizer basta. Em 1926. E tanto lhe deve ter custado. Era preciso recolocar o “Glorioso” nos trilhos do sucesso, conquistando o principal campeonato – o mais difícil – o campeonato de Lisboa. O último datava de 1919/20, ou seja, ainda com Cândido de Oliveira como capitão. Consta que Ribeiro dos Reis (seu grande amigo que com ele e Vicente de Melo fundaram o jornal “A Bola”) afiançou que enquanto tivesse poder de decidir e de influenciar decisões Cândido de Oliveira nunca seria treinador do Benfica. “Virou as costas” quando fazia falta (o Casa Pia AC foi logo campeão em 1920/21, para muitos futebolistas um bicampeonato iniciado enquanto jogadores do Benfica), foi responsável por 12 temporadas de “seca” – 1920/21 a 1931/32 – e foi adversário do Benfica, algo reprovável até nos anos 30 entre os associados do Clube. Se abandonou quando tanta falta fazia, nada tinha a fazer no “Glorioso” nos anos 40 ou 50. Há quem diga (ou houve quem dissesse) que nunca se proporcionou, mas parece pouco fiável. O Benfica esteve tantas vezes aflito, entre os anos 30 e a vinda de Otto Glória (1954/55) para encontrar um treinador «À Benfica». E Cândido de Oliveira estava tão perto e livre…e era um treinador «À Benfica!»

Ribeiro dos Reis e Cândido de Oliveira. Dois amigos dos "tempos do Benfica" onde actuaram juntos em 22 jogos. Cândido Oliveira fez 38 jogos com Cosme Damião e Ribeiro dos Reis os citados três encontros, estes também com Cândido de Oliveira. Estiveram depois juntos em muitas iniciativas, mas Cândido de Oliveira, após 1919/20, nunca mais regressaria ao "Glorioso" (a não ser como adversário). Virou as costas, de costas ficou!

Ter estes três bons exemplos
Fazem do Benfica um clube de boas práticas. Certamente não foi um acaso. Cosme Damião deu seguimento ao que Manuel Gourlade iniciara. Que clube tem num dos seus fundadores, tornando-se a sua principal figura como dirigente, em simultâneo futebolista na prática e com teoria acerca do Futebol estampada num livro? Nenhum! E certamente que constituiu um exemplo para os outros dois: Cândido de Oliveira e António Ribeiro dos Reis. Também futebolistas, capitães e treinadores com livros acerca da teoria e tácticas de Futebol publicados.

Que clube (no Mundo) pode orgulhar-se de situação semelhante? Nenhum! Duas vezes a negação de algum!

Alberto Miguéns


NOTA: Este texto surgiu-se enquanto entre viagens de comboio para ver o futebol do Benfica jogar (e o jogo até podia ter corrido bem e foi mau “de mais”), relia o livro “Os Segredos do Futebol” de Mestre Cândido de Oliveira.
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  1. Já o disse e reafirmo, é uma vergonha que não esteja disponível uma edição fac-simile do livro de Cosme Damião na loja do nosso Clube.
    Excelente artigo. Obrigado.

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  2. Helder Tavares7/2/17 16:24

    A Escola Casapiana era na verdade importantíssima no Benfica. Veja-se que na comitiva que partiu para Espanha 7 casapianos: Cosme Damião (CAP), Leopoldo Mocho (Fundador da Associação de Futebol de Portalegre),Carlos Homem de Figueiredo, Cândido de Oliveira, Aníbal Santos, Ribeiro dos Reis e Florindo Dias Serras, que com Florindo Tavares (futuro proprietário da SOCIDEL) havia transitado do Grupo Desportivo Luz Soriano,composto só por alunos da Casa Pia, que jogava no Campo de Alcântara, por deligências feitas pelo sempre atento Cosme Damião, capitão Geral do Benfica e das equipas da Escola Casapiana em Belém. Da Revista FOOTBAL de 25 de Março de 1921 respigámos o seguinte comentário do jornalista Ramalhete Serra: Foi ele um dos homens que mais contribuiu certamente para a formação desta rnorme falange de desportistas que hoje se agrupam em redor do Pavilhão do Casa Pia A.C.- Foi ele que os arrastou -a quantos deles!- há uma boa dúzia de anos já, caminhando alegremente pela Serra, de BELÉM até BENFICA....-Vamos ver o nosso Cosme,diziam os rapazes e na volta contando uns aos outros as proezas do SPORT LISBOA, que tinha como capitão um casa+iano, o Cosme, infiltravam no espírito dos mais jovens o entusiasmo pelo Desporto e admiração pelo Benfica...E entre o Clube e a Escola estabeleceu-se um forte elo. O primeiro onze do S.L.B. chegou a alinhar com 7 jogadores ex-alunos da Casa Pia. Os anos decorreram, Cosme tornava-se o pilar do Benfica e o seu Clube o favorito dos casapianos.

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