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06/06/2016

Peregrinações de Marcolino II

06/06/2016 + 6 Comentários
HOJE A MUDANÇA DE SEDE QUE NÃO É BEM ASSIM…


Durante os primeiros tempos o Clube não teve Sede. Mas como não pode haver clube sem Sede…teve! Ainda que provisória na Farmácia Franco. Era lá que trabalhavam dois dirigentes do Clube, Daniel Santos Brito (secretário) e Manuel Gourlade (tesoureiro). O presidente (José Rosa Rodrigues) não trabalhava na farmácia mas andava perto. Morava no piso superior. A “tralha” para os treinos e jogos estava num armazém, numa rua paralela, chamada do Cais (actual Vieira Portuense).


A afirmação progressiva do Clube
Obrigou a mudanças. Era melhor conseguir instalações mais próximas do terreno onde se treinava e jogava. E onde houvesse água para umas lavagens depois dos jogos e dos treinos. Alugou-se um quarto (não havia dinheiro para mais) e devido à exiguidade dele pediu-se a um “amigo” um local que servisse de armazém para a “tralha”. No quarto a papelada, não muito longe os apetrechos para marcar o campo e poder fazer treinos e jogos.

No campo de Alcântara, do Internacional/ CIF, eis duas Glórias do Benfica: à esquerda Marcolino Bragança e à direita, Cosme Damião. Ainda em 1906/07, no tempo em que a segunda categoria ainda não era primeira!
Primeiro quarto alugado
Ficava mesmo em frente às Terras do Desembargador. Tinha duas serventias: pela calçada da Ajuda (n.º 86) ou pelo quintal directamente para o terreno de jogo. E no quintal ainda havia um poço. Finalmente água para combater o suor. Desta vez (12 de Maio de 2016) não foi possível visitar o quarto, mas eu nos anos 90 cheguei a entrar dentro dele. Era mesmo exíguo. Pouco mais daria que para ter os ficheiros de associados, papeladas para inscrever os futebolistas, arquivo contabilístico e acondicionar os equipamentos. E mesmo assim tinham todos de andar sempre com as unhas bem aparadas, pois corriam o risco de algum já não conseguir entrar!  

A filha e neta de Marcolino Bragança na entrada pela calçada da Ajuda, bem como no átrio interior do prédio onde estava localizada a primeira Sede. Andar por onde Marcolino andou. Onze decénios depois dele ou ele 110 anos antes da sua filha e neta calcorrearem os mesmos locais

 
Pelas traseiras (lado esquerdo) o acesso era mais rápido: actual n.º 29 da travessa das Zebras. Chegava-se mais facilmente ao quarto da Sede, ao terreno de jogo ou para treinos e ao poço que ficava no quintal (ver NOTA FINAL) O que está agora murado por um quartel (lado direito) era espaço livre mesmo ali à mão, melhor, ao pé, para fazer umas boas "futeboladas"!
Já não existe o edifício onde esteve a segunda Sede (resta uma cópia do contrato de arrendamento nas mãos de Milita). 

Arrecadação mais a norte
Os materiais usados para marcar um terreno público e instalar um campo para jogar e treinar ficavam no Pátio das Vacas. Não era muito longe. E era muito mais perto que a anterior arrecadação nas colunas da rua paralela à Farmácia Franco e ao Café das almoçaradas, o do Gonçalves. A “tralha” – duas redes, seis barrotes, bandeirolas, regadores, cal e demais apetrechos - para se poder treinar e jogar tinham de ser levadas e trazidas pelos futebolistas, pois o terreno sendo público não era vedado.



No Pátio das Vacas uma "vaquinha" de um amigo permitia desafogar a Sede que não passava de um quarto exíguo

Em 1950, Daniel Santos Brito ainda escrevia acerca do assunto!
Segundo quarto alugado
Como era maior que o primeiro, já permitia guardar tudo num mesmo espaço. O Clube continuava a crescer. Desportivamente, associativamente e eclecticamente com Fortunato Levy (no ciclismo) e Félix Bermudes (no atletismo), curiosamente os capitães – primeira e segunda - das duas categorias em Futebol! Este quarto nunca o conheci, pois consta que o prédio foi demolido nos anos 70 depois da serração de madeira, que lhe sucedeu, ter cessado a actividade.

Era junto a este largo embora denominado Travessa das Zebras que ficava o quarto correspondente à segunda Sede (terceira se a Farmácia Franco contar...)

A titularidade de Marcolino Bragança na 1.ª categoria conseguida com a resposta à deserção para o SCP no Verão de 1907. No campo das Salésias, nas Terras do Desembargador, alinha o novo 1.º "team" para 1907/08, ex-2.º "team" em 1906/07. De cima para baixo. Da esquerda para a direita. Na disposição que jogavam em campo. Em cima (os cinco avançados, do extemo-direito para o extremo-esquerdo): Félix Bermudes (capitão), António Costa, António Alves, Eduardo Corga e António Meireles; Ao centro, os médios ou meia-defesa, da direita para a esquerda: Luís Vieira, Cosme Damião e Marcolino Bragança (que só é Bragança porque já havia um Meireles na equipa quando ele chegou! E que passou a vida, em Angola, a dizer com orgulho: «Eu fui half-back-left na equipa do Benfica com Cosme Damião e Félix Bermudes, dos quais continuo amigo!»); Em baixo: Leopoldo Mocho (defesa à direita), João Persónio (guarda-redes) e Alfredo Machado (defesa à esquerda). Imagem digitalizada da página 55 da História do SL Benfica (1904-1954); volume I; Mário de Oliveira e Rebelo da Silva; edição dos autores; Lisboa; 1954 - 1956
O Clube tem de resistir e resiste...
Mas é preciso esperar pelo final da temporada de 1906/07 para saber se o Clube tinha ou não tinha condições para sobreviver. Com a deserção de oito dos melhores jogadores para o Sporting CP e mais outros tantos associados que já não jogavam em 1907. Claro que teve. 


Aos associados do Clube o que sobrava, em talento para jogar futebol, escasseava em organização. Após a "Crise do Verão de 1907"  o "Glorioso" ficou reduzido a 27 associados. O plano de recuperação foi um sucesso. Em 31 de Dezembro de 1907 contava com 106: 76 efectivos (podiam ser utilizados como futebolistas) e 30 protectores (por este ou aquele motivo não podiam vestir o "Manto Sagrado"). Coube a um "recruta novato" vindo do Restelo FC, Virgílio Paula, organizar a "papelada". Renumerou os associados por sua "conta e risco". Marcolino Bragança (n.º 28) ficou "encostado" a Cosme Damião (n.º 27), não muito longe do capitão Félix Bermudes (n.º 31) e com o Meireles que fez com que Marcolino fosse Bragança a pouca "distância" (n.º 24). Era assim o Sport Lisboa. Grandes a jogar. Trapalhões na burocracia! Digitalização da página 62 da História do SL Benfica (1904-1954); volume I; Mário de Oliveira e Rebelo da Silva; edição dos autores; Lisboa; 1954 - 1956

Os meses passavam e aproximava-se o tempo da grande decisão
Em 1907/08, os futebolistas da 2.ª categoria de 1906/07, inscreveram-se como 1.ª categoria. Por isso estamos aqui em pleno século XXI a falar de… nós. Ai se Marcolino Bragança não se tem lembrado.

Marcolino, Marcolino. O que a tua dedicação ao Clube provoca. O que tu nos fazes “sofrer”!

(continua)

Alberto Miguéns

NOTA FINAL: O "célebre poço" que servia para "tomar banho"... se atirar com baldes de água pode ser considerado isso. Há vinte anos (anos 90 do século XX), quando visitei o quarto e o quintal, já não existia o poço. Mas quando Rebelo da Silva o fotografou, no final dos anos 40 ou início de 50, ainda estava decorado como alpendre, acompanhado por quem lhe dera uso - Daniel Santos Brito - e pelo jornalista Mário de Oliveira. Imagens digitalizadas, respectivamente, das páginas 5 e 13 da História do SL Benfica (1904-1954); volume I; Mário de Oliveira e Rebelo da Silva; edição dos autores; Lisboa; 1954 - 1956




6 comentários
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  1. Mais um belíssimo artigo a lembrar-nos que a história do Benfica foi feita de sacrifícios e por grandes Homens.

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  2. Peço desculpa por só agora comentar. Estou de retiro sabático e mal pego no computador mas o pior é que do telemóvel não consigo comentar...

    Mas cá estou para tentar agradecer a este esforço estóico de Alberto Miguéns de contar a História do Sport Lisboa e Benfica. Aqui confesso que me dá arrepios ao ler estes artigos sobre Marcolino Bragança Meireles (?)...

    É verdade! As fotos da filha e da neta são de valor humano incalculável. Faz-me lembrar a primeira visita ao Estádio da Luz que fiz com o meu filho! Fui falando das fotos dos jogadores afixadas nas fachadas do Estádio; expliquei um pouco o significado do emblema e demorei cerca de cinco minutos na estátua do King. Tentei resumir a vida desportiva de uma lenda a uma criança. Quando vejo estas imagens, sinto honra em quase visualizar uma hipotética visita do meu filho com o filho/s dele daqui a alguns anos àquele mesmo local... E quem sabe recordar as palavras do pai/avô que serão felizmente redutoras face ao que o clube e quem por ele lutou são a realidade...

    Marcolino Bragança - Bella Guttman - Miki Feher... Não discuto o valor simbólico do tributo que o Benfica lhes prestou (e presta) com a edificação daquelas duas homenagens que estão no "nosso" Estádio - Isso nem tem cabimento! Mas, é demasiado evidente que Marcolino foi essencial a que LFV fosse hoje presidente democraticamente eleito do Sport Lisboa e Benfica. Talvez, num futuro mais além, quem dirigir o clube deixe que os seus bisnetos (de LFV) visitem o Estádio da Luz e o centro do seixal para saberem onde LFV esteve... Quem sabe até os deixem sentar nesta mesma cadeira (http://1.bp.blogspot.com/-QIzdG6nshzg/VeVe-qcrdEI/AAAAAAAADuI/8DfDzF2L4pU/s1600/Calma.%2BO%2Bmercado%2Bcorre%2Ba%2Bnosso%2Bfavor-1.gif)...

    Incutir os grandes valores num formato mais moderno, de modo a que sejam assimiláveis aos jovens de hoje, não é fácil! Veja-se que neste momento, e pelo que vejo, só aqui está um comentário... Fosse um artigo de história contra outra entidade, o artigo estaria cheio de comentários!

    Uma grande honra em ser seu leitor Alberto e cresce de modo proporcional, o meu orgulho em ser Benfiquista... O que se aprende aqui...

    Saudações TRIGloriosas.

    AMC

    PS: Estive a reler o comentário extenso (as minhas desculpas) e surgiram duas questões:

    1 - Será que toda a máquina de marketing sabe quem foi Marcolino Bragança? Do valor em ter história verdadeira e documentada cujo valor é mais forte que os arrotos que ouvimos dos vizinhos?

    2 - Hoje em dia, será que o presidente do Benfica tem tempo para tudo... Sempre se delegou mas vendo a foto do Presidente Borges Coutinho, COM TODA A COMITIVA DO CLUBE, em casa de Marcolino... Já nem falo de Ferrereira Bogalho a dar a primeira enxadada na velha catedral e a chorar - quase desmaiou - na sua inauguração!

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    1. Caro AMC

      Agradeço as palavras. é sempre bom ser elogiado por um dos nossos. Um Benfiquista igual a nós!

      1. Não sabem mas também não se interessam por saber. Nem por ouvir ou ler. O Benfica pode ser gerido como uma empresa mas não pode ser uma empresa. Terá de ser sempre um clube. O Clube;

      2. Mas esses presidentes percebiam que eram a continuidade uns dos outros desde 1904!

      Gloriosíssimas TRIsaudações

      Alberto Miguéns

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  3. A segunda parte de uma sério que se percebe vai ser excelente. Mais um artigo excelente e que se reporta a uma zona que me é querida. A Farmácia Franco, as famílias Franco e Rosa Rodrugues foram decisivas para a fundação do nosso Clube.

    Aproveitar uma viagem de homenagem e evocação de um pioneiro decisivo como Marcolino para nos dar informação factual, séria e atractiva deste local tão querido para todos os Benfiquistas é algo de justo e muito bonito.

    Para aqueles que publicam livros a misturar estas famílias ao ponto de dizer que os manos Rosa Rodrigues eram filhos do dono da Farmácia exige-se leitura atenta e outra humildade e competência profissional para o futuro. Melhor seria que se abstivessem de escrever sobre o Glorioso.

    Um grande obrigado Benfiquista ao autor deste blogue!

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  4. o alberto pensa o GLORIOSO exactamente como eu,um clube,o nosso ENORME BENFICA,tenha saude para nos deliciar com a sua prosa.

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  5. Anónimo8/6/16 01:09

    Novamente vergo-me perante os Factos que o Sr. Alberto Miguéns, dá-nos a honra de poder aferir da da Gloriosa existência do Clube nascido na Farmácia Franco, obra de dedicados Homens.
    Grato pelo seu voluntarismo e testemunho da Gloriosa História do Sport Lisboa e Benfica.
    Saibam a Direcção e o Corpo administrativo do Nosso Clube, dar Eco ao seu conhecimento para bem da fidelidade das fontes sobre a Vida do SLB
    The_Saint

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