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19/01/2016

A Oriente Como a Ocidente

19/01/2016 + 6 Comentários
DEPOIS DA VITÓRIA OCIDENTAL, NA AMOREIRA, ESPERA-SE OUTRA MAIS A ORIENTE.


Depois de três pontos na 1.ª jornada frente ao CD Nacional seguem-se duas jornadas em terreno alheio. Para começar, hoje, no recinto do Clube Oriental de Lisboa e terminar, quase de certeza, a definir a presença na meia-final, na última jornada, em Moreira de Cónegos.


NOTA INICIAL (DE AGRADECIMENTO PÚBLICO): Ao futebolista Leitão (GD "Os Fósforos" e Clube Oriental de Lisboa) - falecido em 11 de Outubro de 2009 - que não sendo Benfiquista teve a paciência de me acompanhar (melhor e com mais rigor: indicar e levar-me) aos locais de interesse para conhecer a história esquecida dos três emblemas (três campos, três sedes, Companhia dos Fósforos e principais locais das três tertúlias) em meados dos anos 80. 

Era uma vez…
Três clubes, Chelas FC, Marvilense FC e GD "Os Fósforos" que em 8 de Agosto de 1946 acabaram apenas num: Clube Oriental de Lisboa (COL). Três clubes que ocupavam a mesma área da cidade mas com realidades sociológicas completamente diferenciadas mas também com semelhanças a nível desportivo. Sem grandes proezas desportivas, geralmente competiam nas divisões secundárias da Associação de Futebol de Lisboa (AFL) poucas vezes foram adversários do "Glorioso" (o Marvilense FC nunca o foi) a não ser nas categorias inferiores à equipa principal. Sem pretensões (até porque seria impossível em espaço tão reduzido) de fazer a história do COL apenas algumas linhas em homenagem ao adversário do "Glorioso". O Benfica fez-se Glorioso porque teve adversários para se afirmar. Sem adversários não haveria Benfica. Sem adversários para vencer com regularidade e expressão não haveria Glorioso. 

Localizações das três campos por indicações obtidas junto de Rogério Lantres de Carvalho (futebolista do Chelas FC, SLB e COL/Oriental; Glória Eterna do Benfica) e de Leitão (Glória do GD "Os Fósforos" e do COL/Oriental)
O Chelas FC era o mais antigo (25 de Dezembro de 1911) mas apenas em 1917/18 começa a competir oficialmente no "Campeonato de Promoção" (3.º escalão) da AFL. Sem grandes proezas ficaria "famoso" por ter sido promovido sem necessitar de fazer o jogo frente ao último classificado da II Divisão, o Internacional/CIF um dos clubes mais importantes na história do futebol português até ao início dos anos 20 do século passado. Em 1923/24 conquistou o 3.º escalão ascendendo à II Divisão pela desistência do histórico Internacional que depois de ficar em último lugar na II Divisão desistiu do futebol a nível oficial. O Chelas FC com campo no Alto dos Toucinheiros apenas competiu entre 1929/30 e 1933/34, durante cinco temporadas, na principal divisão sendo por isso adversário do Benfica. Depois perdeu poder desportivo e passou a competir nas divisões secundárias.  

Meio século de futebol em Portugal (1888-1938); Júlio de Araújo; 1939; edição de autor; Lisboa

O Marvilense FC e o GD "Os Fósforos" foram fundados no mesmo ano, em 1920, respectivamente, em 7 de Fevereiro e 1 de Setembro. Eram ambos clubes de Marvila, mas com características distintas, pois o GD "Os Fósforos" começou por se designar Grupo Desportivo do Pessoal da Companhia dos Fósforos, cuja fábrica se localizava na rua do Açúcar, n.ºs 195-197, precisamente o local da Sede. A Sede do Marvilense FC era no rés-do-chão do n.º 131 da rua de Marvila. Estes eram clubes rivais. Mais do que o Chelas FC. É fácil de perceber porquê. O GD "Os Fósforos" em breve não servia "apenas" para permitir aos seus funcionários jogar futebol, também oferecia emprego a bons futebolistas dos clubes vizinhos. Houve alguns que começaram no Marvilense FC e terminaram como empregados na Companhia dos Fósforos. Além disso tinham os seus campos de jogos no mesmo espaço - Quinta dos Alfinetes - paralelos separados por um tabique (estrutura de madeira com tábuas emparelhadas). Mais poderoso o GD "Os Fósforos" tinha campo com uma das bancadas laterais em alvenaria numa intervenção do engenheiro-chefe Carlos Salema alto quadro da Companhia dos Fósforos com responsabilidade na gerência do seu grupo desportivo. Fundados no mesmo ano (1920) mas a suficiente distância no tempo para o Marvilense FC estrear-se na época de 1920/21 e o, ainda, GDP Companhia dos Fósforos em 1921/22. Emparceiraram os três no "Campeonato de Promoção" até 1923/24 quando o Chelas FC ascendeu à II Divisão. O Marvilense FC nunca chegou a competir na I Divisão. O GD "Os Fósforos" foi adversário do "Glorioso" durante três épocas, entre 1941/42 e 1943/44, na I Divisão dos campeonatos regionais, como é óbvio.


O nosso Rogério enquanto futebolista do COL recebe Jacinto Marques e José Bastos no campo eng.º Carlos Salema depois de ter deixado o Benfica no final da temporada de 1953/54. Em 1954/55 jogou na II Divisão até conseguir colocar o COL na I Divisão, em 1956/57. Rogério é, na actualidade, o decano dos Gloriosos Futebolistas e dos Internacionais/Goleadores da selecção nacional. Em 2016 completará 94 anos! Fotografia de Roland de Oliveira

Decisão no tempo certo (como se soubessem...)
No Verão de 1946 decidiu-se o que estava latente desde a fundação, em 18 de Setembro de 1942, do Atlético CP (fusão do Carcavelinhos FC com o União Futebol de Lisboa). A criação de um clube com características semelhantes, unir em vez de dividir os adeptos entre Xabregas, Chelas, Beato e Marvila. E tudo correu de feição. Entre 1934/35 e 1946/47 os clubes eram apurados para os campeonatos I Liga/ I Divisão e II Liga/ II Divisão através dos campeonatos regionais que iniciavam as temporadas. Em 1944/45 e 1945/46 os três clubes iniciaram as épocas a competir na II Divisão da AFL (Regional) e, depois, terminaram essas duas temporadas a jogar na II Divisão da FPF (Nacional). Em 1945/46, o Benfica ao classificar-se em 4.º lugar na I Divisão Regional conseguiu ser apurado para a I Divisão Nacional no limite (eram os quatro primeiros). O 5.º e 6.º classificados na I Divisão Regional bem como os clubes da II Divisão da AFL competiam na II Divisão Nacional após definidas as classificações nos respectivos campeonatos regionais. Em Lisboa e por todo o País. Havia ainda uma particularidade no campeonato regional de Lisboa. As promoções/despromoções não eram directas. Havia que provar "em campo" (a duas mãos) que o primeiro classificado da II Divisão Regional era superior ao último classificado na I Divisão Regional. E assim foi em 1945/46. Mesmo sendo necessário recorrer a terceiro jogo, o GD "Os Fósforos" afastou o GD Estoril Praia. Estavam reunidas as condições para realizar a fusão. O COL herdou a posição do GD "Os Fósforos" (tal como o número 80 de filiação na AFL) e iniciaria a sua história a disputar a I Divisão Regional/Distrital tentando o apuramento para a I Divisão Nacional que falhou por pouco: cinco pontos. Coube ao Atlético CP a última vaga de Lisboa para disputar o campeonato nacional da I Divisão, em 1946/47. O primeiro que foi disputado com promoções e despromoções. O Clube Oriental de Lisboa manteve-se na II Divisão Nacional até 1949/50. Ou seja, o COL teve de conseguir, em 1949/50 - época da Gloriosa Taça Latina - o apuramento para a I Divisão através da II Divisão Nacional, estreando-se no primeiro escalão do futebol português em 1950/51.



Uma História Inacreditável: De três, Um
Um clube que resultou da fusão de três outros clubes rivais, com muitos jogos disputados entre eles, sempre a nível regional, quer no "Campeonato de Promoção" quer na II Divisão da AFL durante duas décadas e meia! E mais alguns na II Liga/ II Divisão quando conseguiam o apuramento, entre 1934/35 e 1945/46. Em 1946/47 já foi como COL que disputou a II Divisão Nacional. Consta que escolheram o equipamento aproveitando o facto do Carcavelinhos FC ter deixado de usar o "grená" pois da fusão com o União Futebol de Lisboa resultaram outras cores para o equipamento do Atlético CP. O equipamento do Carcavelinhos FC foi sempre muito elogiado por não ser uma cor vulgar, nem uma composição às riscas. A camisola do COL tem precisamente a mesma tonalidade que tinha a camisola do Carcavelinhos FC. Os calções é que não são os azuis do antigo clube de Alcântara, mas brancos pois brancos eram os calções dos três clubes que deram origem ao Clube Oriental de Lisboa. 

Colecção de Cromos "Clubes da AFL" no Euro 2004. Gentilmente cedidos pela AFL

Um novo emblema com base nos três emblemas
O escudo foi copiado da forma do escudo do Marvilense FC. A bola com o listão e sigla veio do emblema do Chelas FC. A águia sobre o escudo foi adaptado do anterior emblema do GD "Os Fósforos".


E depois…
O emblema inicial até nem era assim. Consistiu numa forma simples apenas com as iniciais CL dentro do O, de C.O.L. mas não agradou por ser demasiado simplista e não respeitar a tradição dos clubes que estiveram na origem do Clube Oriental de Lisboa.


Primeiro emblema
Primeira equipa. Estreia frente ao CF "Os Belenenses" em 15 de Setembro de 1946, na primeira jornada do campeonato regional de Lisboa (AFL) no estádio das Salésias (D 1-2). De cima para baixo. Da esquerda para a direita: Fernando (GD "Os Fósforos"), Rocha (Marvilense FC), Morais (GD "Os Fósforos"), Isidoro (GD "Os Fósforos"), Armínio França (Chelas FC) e Carlos Costa (GD "Os Fósforos"); Roçado (GD "Os Fósforos"), Leitão (GD "Os Fósforos"), Augusto (Chelas FC), M. Vicente (Marvilense FC) e Moura (Marvilense FC). Legenda que pode não corresponder com rigor ao alinhamento dos atletas

Como era diferente o futebol em Portugal: entre 1949/50 e 1950/51
O Clube Oriental de Lisboa conseguiu a promoção, pela primeira vez, ao primeiro escalão do futebol português classificando-se em 2.º lugar na fase final da II Divisão, atrás do vencedor (Boavista FC). Mas não foi um apuramento directo. No final da temporada de 1949/50, teve que realizar um jogo frente ao 13.º classificado (e penúltimo) da I Divisão, o CAD - "O Elvas". Em Santarém (campo neutro), venceu por 4-3 e isso significou a conquista da passagem para defrontar, em 1950/51, os melhores clubes portugueses, a nível nacional.



O Benfica e o Oriental em 1950
Enquanto o COL/Oriental vencia o CAD - "O Elvas" para conseguir a promoção à I Divisão, o campeão nacional Benfica promovia a venda de bilhetes para a Taça Latina que conquistaria.


E seria erguida por uma Glória dos dois clubes (tal como do Chelas FC)... Rogério






Deve e Haver
Se, historicamente, as diferenças são abissais não será hoje – num jogo que se quer de caminhada para a conquista de mais um troféu – que o “Glorioso” vai ceder. Em 23 jogos, temos 19 vitórias (invictos) com quatro empates e 88 golos marcados (mais 77 em relação aos onze sofridos).

                                QUADRO I
            JOGOS TOTAIS POR COMPETIÇÃO frente ao COL COM O “GLORIOSO”
Competição
J
V
E
D
GM
GS
TOTAIS
23
19
4
-
88
11
Campeonato Nacional (FPF)
14
10
4
-
46
7
Taça de Portugal (FPF)
2
2
-
-
11
1
Taça da Liga (LPFP)
-
-
-
-
-
-
Campeonato Regional (AFL)
2
2
-
-
14
2
Taça de Honra de Lisboa AFL
4
4
-
-
15
1
Torneio Preparação AFL
1
1
-
-
2
0

Quatro empates
Nos sete jogos disputados no estádio do adversário para o campeonato nacional (cinco nos anos 50 e dois nos anos 70), tantos encontros quantas as presenças do emblema de Marvila e arredores no primeiro escalão do futebol português registam-se em quatro os únicos insucessos, sempre a empatar. Mesmo no estádio Engenheiro Carlos Salema a diferença de golos é colossal: mais 15 (22 marcados e sete sofridos).

                QUADRO II
            JOGOS TOTAIS POR COMPETIÇÃO frente ao COL COM O “GLORIOSO” COMO FORASTEIRO
Competição
J
V
E
D
GM
GS
TOTAIS
9
5
4
-
22
7
Campeonato Nacional (FPF)
7
3
4
-
13
6
Taça da Liga (LPFP)
-
-
-
-
-
-
Campeonato Regional (AFL)
1
1
-
-
6
1
Taça de Honra de Lisboa AFL
1
1
-
-
3
0

Invictos em 23 jogos
Um registo de grande classe. Defrontar o Clube Oriental de Lisboa em 23 encontros e não perder nenhum. Quer em competições regionais (sete jogos) quer em competições nacionais (16 jogos). É para manter! Porque não?

       QUADRO III                     
      OS 23 SL BENFICA – CLUBE ORIENTAL DE LISBOA
N.º
Época
Comp
Sit
V
E
D
01
46/47
CR
C
8-1
02
CR
F
6-1
03
47/48
TH
C
7-0
04
TH
F
3-0
05
49/50
Torn
C
2-0
06
50/51
CN
C
9-0
07
CN
F
4-2


08
51/52
CN
F
5-2
09
CN
C
3-1
10
53/54
CN
F
0-0
11
CN
C
5-0
12
56/57
CN
F

1-1

13
CN
C
3-0


14
57/58
CN
C
7-0

15
CN
F
0-0

16

73/74

CN
C
2-0

17
TH
C
3-1


18
CN
F
3-1


19
TP
C
8-0

20
74/75
CN
F
0-0
21
CN
C
4-0

22
87/88
TH
C
2-0


23
04/05
TP
C
3-1


24
15/16
TL
F



TOTAIS
23 J – 19 – 4 – (88/11)

Carrega Benfica

Alberto Miguéns

NOTA FINAL: Tem de haver rigor. O COL não conquistou o título de campeão da II Divisão em 1949/50 como o seu portal divulga (clicar). Ficou em 2.º lugar, atrás do Boavista FC. Foi promovido porque derrotou o penúltimo classificado da I Divisão.



6 comentários
comentários
  1. Bela história essa a do Clube Oriental de Lisboa! Muito obrigado.

    O acesso à primeira divisão tinha mesmo de ser ganho por mérito. Excepto em 1939 quando o campeonato teve de ser alargado para o FCP poder participar...

    Essa última fotografia tem pelo menos duas Saudades Benfiquistas: Alfredo (três-pés), Alberto Augusto (Batatinha). Tem um outro que apesar de nunca ter jogado no Glorioso era um grande Benfiquista (isto nas palavras do seu irmão Rogério Pipi): França.

    Um último detalhe que desconheço é saber ao certo quais foram as palavras que Rogério proferiu quando levantou a Taça Latina. O Alberto sabe?

    Obrigado.

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    1. Caro VictorJ,

      Já nem ele se lembra de tudo....

      Diz que acabou a dizer «... esta já é nossa!»

      Gloriosas Saudações Benfiquistas

      Alberto Miguéns

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  2. Mais um excelente artigo.
    A titulo de curiosidade, há alguns anos, não sei quantos, li/ouvi já não me lembro onde, que o C.O.L. foi o primeiro clube português a usar números nas camisolas. Será verdade? Sabe o caro Alberto alguma coisa sobre este assunto?

    Saudações benfiquistas.

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    1. Caro Pedro,

      Obrigado.

      Sem dúvida e logo na estreia frente ao CF "Os Belenenses". Pode ver uma fotografia num jogo entre o COL e o SLB. Eles com e o "Glorioso" sem:

      28 de Outubro de 2015 em http://em-defesa-do-benfica.blogspot.com/2015/10/o-oriental-foi-mesmo-o-primeiro.html

      Gloriosas Saudações

      Alberto Miguéns

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  3. de entre as vastas temáticas a que o Alberto alude neste blog benfiquista, uma das minhas preferidas é sem dúvida a do associativismo lisboeta nos princípios do século xx!
    Abraço e obrigado
    - Pedro

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    Respostas
    1. Caro Pedro,

      De facto isso dava para fazer um blogue só com essa temática. Seria fabuloso. Perceber época a época como evoluiu o futebol em Lisboa. Como foi crescendo em qualidade e popularidade. Chegaram a coexistir, só na cidade/concelho de Lisboa 42 clubes com equipas de futebol de 11 a jogar na AFL. Alguns com 4 categorias e ainda mais um Grupo Infantil, como foi o caso do SLB e do CIF!

      Obrigado por ter o cuidado de ter feito esse comentário oportuno que permitiu "sonhar" que um dia (quando me Reformar) poderá acontecer... Material não falta. Notícias, fotografias, esquemas, entrevistas, depoimentos, etecetra.

      Saudações

      Alberto Miguéns

      Eliminar

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