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07/08/2015

Enfrentar Americanos em 1929 no Basquetebol!

07/08/2015 + 6 Comentários API
O BENFICA A "DAR LUTA" AOS AMERICANOS NOS ANOS 20 EM BASQUETEBOL? POIS FOI!

Foto descoberta e enviada pelo dedicado leitor deste blogue Victor João Carocha
Quando circulou pelos meios desportivos de Lisboa que estava um navio de guerra ancorado em Lisboa com marinheiros interessados em defrontar basquetebolistas portugueses nenhum dos principais clubes de Lisboa se quis expor a uma abada. Ninguém? Nenhum? Houve um que avançou sem medo. O Benfica. NOTA: Esta história foi-me contada por um Glorioso Basquetebolista, na sua residência em Albarraque: Homero Reisentretanto desaparecido. Penso que ele esteve na bancada nesse jogo, mas foi depois como praticante que ouviu contar  esta história, que é uma façanha.

Antes uma homenagem ao navio (foi dele que saíram os adversários)
Têm sido os bons adversários que vão valorizado a Gloriosa História. Sem eles (principalmente os bons) não tínhamos passado a linha que separa "ser mais um clube" de ser O Clube


USS Raleigh (CL-7) cruzador rápido entre a Glória dos anos 20 (lançado ao mar em 25 de Outubro de 1922), 30 e 40 e a Tragédia (foi um dos navios torpedado pelos japoneses em 7 de Dezembro de 1941 em Pearl Harbour (Porto das Pérolas). Foi desmantelado em 27 de Fevereiro de 1946, na véspera do 42.º aniversário do "Glorioso".


Os americanos não podiam ficar a "ver navios"
Esperava-se que os dois clubes mais conceituados de Lisboa aceitassem o desafio da guarnição do cruzador "Raleigh" da marinha de guerra dos EUA ancorado no rio Tejo. Em 26 de Abril de 1929 estava concluída a primeira volta do II campeonato regional de Lisboa. Em cinco jogos o "Glorioso" seguia em 3.º lugar com três vitórias, dois empates e uma derrota e 69/51 em pontos. Quando surgiu o desafio o campeão regional em 1927/28 (Sporting CP) declinou tal como o 2.º classificado nessa primeira edição (Triângulo Vermelho Português/ACM) e líder em 1928/29. No Benfica soou a indignidade essas escusas. Recusarem a oferta dos americanos por cobardia! Nunca se jogara basquetebol frente a estrangeiros, quanto mais defrontar americanos. Era uma oportunidade única que não podia ser desperdiçada. 

Jornal "Os Sports"; página 4; 26 de Abril de 1929
O "Glorioso" respondeu que sim
Foi acordado defrontar os americanos na tarde (seis horas) de 26 de Abril de 1929, sexta-feira, no recinto do Clube nas Amoreiras. O Benfica conseguiu reunir os seus cinco melhores basquetebolistas. Ao intervalo os marinheiros tinham uma vantagem de três pontos (cesta e meia), com 4-7, para no final triunfarem por dois pontos (uma cesta, como se escrevia - e dizia - na época): 15-17. Foi um resultado que impressionou a multidão pois todos queriam ver os inventores a mostrar o que inventaram. O Benfica saiu, mais uma vez, em glória. Sem medo, para honrar o basquetebol português, arriscou e petiscou!

NOTA: A posição em campo (lado direito e esquerdo) pode não corresponder à realidade
No tempo do 2.1.2
O Benfica apresentou como dois defesas (mais possantes): António Bravo e Avelino Filipe, que como era habitual não marcaram pontos. Eram dois atletas que tinham começado a jogar na época anterior. Tinham época e meia de experiência. Recordemos que em 1928/29 o Benfica jogava pela 3.ª temporada consecutiva. Este primeiro encontro internacional - do Clube e em Portugal - foi o 19.º jogo em campo (21.º se contabilizarmos dois jogos (e vitórias) por falta de comparência dos adversários) e 9.º em 1928/29. Os dois avançados (mais ágeis) foram Júlio Pereira (seis pontos) e Adelino Almeida (quatro pontos). Estrearam-se no "Glorioso" nesta temporada. O lançador era um dos melhores basquetebolistas do Clube nos anos 20, capitão da equipa e que fez parte do "sete" que estreou o Benfica na modalidade em 20 de Março de 1927 marcando o único ponto na derrota (1-11) frente à experiente equipa da Escola Académica. Manuel Acheman (que aparece na fotografia a lançar) foi a Primeira Glória do Basquetebol. Um dos gigantes do Benfica, injustamente ignorado.

AE - Avançado-esquerdo; AD - Avançado-direito; L - Lançador (Avançado-centro);
DE - Defesa-esquerdo; DD - Defesa-direito
O jogo disputou-se em "casa"
Junto ao estádio das Amoreiras, o Benfica com aquele engenho e arte que durante muitos anos foi apanágio dos Benfiquistas ergueu um campo que foi também o da estreia da modalidade na tal derrota copiosa. Foi neste espaço que o basquetebol singrou e que se fizeram basquetebolistas muitos Benfiquistas. António Bravo em 1929 já integrava a selecção de Lisboa que defrontava Coimbra e o Porto (com uma época em competição de avanço para Lisboa).


Espaço desportivo ecléctico À Benfica
Um campo inaugurado em 13 de Dezembro de 1925, para Futebol (desde 1 de Janeiro de 1905), Hóquei em Campo (desde 10 de Março de 1923), Râguebi (desde 26 de Dezembro de 1924) e Andebol (desde 8 de Maio de 1932). No topo norte ainda foram construídos dois campos de Ténis (desde 29 de Maio de 1915) e o campo de Basquetebol (desde 20 de Março de 1927). O Ténis de Mesa (desde 29 de Janeiro de 1928) e o Bilhar (desde 2 de Novembro de 1938) eram jogados na Sede, na avenida Gomes Pereira, tal como o Hóquei em Patins (desde 3 de Junho de 1917) no rinque localizado nas traseiras da Sede.


Os hábitos da tendência
No actual espaço (Liceu Francês) que ocupa a área das antigas instalações do "Glorioso" reservaram os campos de jogos das actividades de educação física desse afamado estabelecimento de ensino para o espaço onde o Benfica construiu o campo de basquetebol.



Manuel Acheman: quando os últimos são os primeiros
Pioneiro e resistente, deve-se muito a este basquetebolista a importância da modalidade no “Glorioso”.

Manuel de Matos Leopoldo Segurado Acheman nasceu em 1908, há mais de um século, entrando para associado aos 17 anos, em 1925. Dois anos depois, foi um dos “sete magníficos” que estreou o nosso basquetebol, em 20 de Março de 1927, há mais de 88 anos, jogando nessa equipa atípica de sete atletas, que saiu derrotada por 1-11 como lançador, por ser perito em “fazer cestas”, marcando o único ponto do Benfica, num “lançamento”, após uma falta de um jogador da Escola Académica.

Resistente
Em 1927/28, na segunda temporada do basquetebol benfiquista, a primeira com jogos oficiais para o campeonato regional de Lisboa, foi titular na 2.ª categoria, fazendo também um jogo na 1.ª categoria, na 8.ª jornada (antepenúltima) do respectivo campeonato, marcando cinco pontos, na derrota por 8-15 com o Triângulo VP. Ganhou depois a titularidade na 1.ª categoria, e até mais do que isso, resistiu às dificuldades que assolaram o nosso basquetebol em 1933, levando mesmo a Direcção a escrever: “Ou há possibilidade de progresso e então a existência da Secção impõe-se, ou não há e o melhor é acabar-se com uma coisa que não aproveita a ninguém e que interessa a muito poucos”. Manuel Acheman não vacilou, e contagiando outros associados, transformando uma modalidade aparentemente moribunda no seio do Clube, para uma continuidade que duraria… até à actualidade!

Bom lançador
Foi um bom lançador no seu tempo, jogando por isso a avançado-centro, mas denotava dificuldades a defender, e no tempo em que não havia substituições, mas havia exclusões do jogo à 4.ª falta, obrigando a equipa a terminar os jogos com menos atletas: eram considerados bons basquetebolistas aqueles que marcavam muitos pontos ou os que não permitiam que os adversários marcassem; excelentes os que marcavam e também sabiam defender bem; e extraordinários, os que além disto, pela sua destreza técnica, ainda provocavam faltas, e exclusões, na equipa adversária. Não podemos afirmar que alguma vez Manuel Acheman tivesse sido o melhor basquetebolista benfiquista do seu tempo. Mas era o mais certeiro no cesto, dedicado, entusiasta, resistente e equilibrado entre todos. Nunca foi escolhido para os encontros entre selecções regionais. Coube a António Bravo, nosso excelente defesa-direito a honra de ser o primeiro jogador do “Glorioso” seleccionado para Lisboa, em 1928/29, para dois encontros, o II Lisboa-Porto e o II Lisboa-Coimbra.

O primeiro decénio
Acheman jogou na 1.ª categoria durante nove temporadas consecutivas, entre 1926/27 e 1934/35, participando nos primeiros oito Regionais de Lisboa, sete em rigor, pois 1932/33 foi a excepção, em que foi decidido inscrever os melhores basquetebolistas no campeonato “mais fraco”, o da 3.ª categoria, permitindo a sua conquista, porque nem a “Liga dos Pequenos” nos conseguiu “parar”! Aliás, foi essa a equipa que nos representou no final da temporada no I Campeonato de Portugal. Entre 1935/36 e 1939/40 jogou nas outras categorias, mas em 1937/38, titular na 2.ª categoria, havendo ainda a 1.ª categoria de reserva, regressou episodicamente à 1.ª categoria de honra, como suplente utilizado, para marcar dois pontos, em 14 de Novembro de 1937, na derrota por 17-18, nas Amoreiras, com o CA Campo de Ourique. Aos 29 anos, despedia-se da equipa principal. Nesta categoria, em dois jogos conseguiu marcar 20 pontos, valor fantástico para o tempo em que jogou: em 1929/30, na vitória por 30-29 com a equipa do Triângulo Vermelho Português, em Almada, marcando 67 por cento da nossa pontuação, em 29 de Setembro de 1929; e cinco anos e meio depois, em 1934/35, na vitória por 34-12 com o Carnide Club, na 10.ª (e última) jornada do Regional de Lisboa, marcando 59 por cento da pontuação da equipa, em 17 de Fevereiro de 1935.

Mais de mil pontos
Nas 14 temporadas em que jogou no Benfica, entre 1926/27 e 1939/40 disputou 198 jogos, com 152 como capitão, marcando 1411 pontos: na Honra, com 121 jogos (88 como capitão) e 626 pontos; na Reserva, com 19 jogos, sempre como capitão, e 221 pontos; na 2.ª categoria, com 40 jogos (27 a capitão) e 415 pontos; e na 3.ª categoria, com 18 encontros, sempre como capitão, e 149 pontos. Quando fez o último encontro pelo Benfica, na 3.ª categoria, em 11 de Fevereiro de 1940, há mais de 75 anos, era o nosso basquetebolista recordista com mais presenças em jogos, mais encontros a capitão e mais pontos obtidos. Honrou como poucos o "Manto Sagrado"!

Treinador
Ainda enquanto jogador da categoria de honra, na temporada de 1931/32, treinou o nosso basquetebol, conseguindo nos campeonatos regionais, o 5.º lugar (Honra), 3.º lugar (Reserva), 3.º lugar (2.ª categoria) e 2.º lugar (3.ª categoria).

Triunfos
Nunca conseguiu sagrar-se campeão regional na 1.ª categoria, título que tanto perseguiu, mas obteve dois títulos regionais - na 3.ª categoria (1932/33) e na Reserva (1935/36). Tinha 32 anos quando participou, no último jogo como basquetebolista, em 11 de Fevereiro de 1940, em jornada do Regional da 3.ª categoria, como suplente utilizado a defesa-esquerdo, marcando um ponto ao Sporting CP. Estreou-se com um ponto em 1927... despediu-se com outro em 1940!
                         
Distinções honrosas

Foi Sócio de Mérito em 31 de Julho de 1938, com 33 anos, falecendo aos 54 anos, em 1962, como associado n.º 622. Tinha 37 anos de sócio dedicado ao Clube. Partiu para o "Quarto Anel" há 53 anos, mas também nos deixou um legado importante - o Basquetebol como modalidade histórica no Clube. Agradecemos!

A Gloriosa História é inultrapassável!

Alberto Miguéns

PLANO PARA AS EDIÇÕES DURANTE  AGOSTO
(provisório como é evidente)
De 8 a 18 de Agosto de 2015 (Sempre pela meia-noite)
Sábado (de 7 para 8): O "Glorioso" na Supertaça;
Domingo (de 8 para 9): O Dérbi de Lisboa;
Segunda-feira (de 9 para 10): E depois da Algaraviada?
Terça-feira (de 10 para 11): Sinto-me tão portista;
Quarta-feira (de 11 para 12): Uma modalidade por semana: Atletismo;
Quinta-feira (de 12 para 13): O Mais Belo e Inigualável 138;
Sexta-feira (de 13 para 14): Mentiras Oficiais Made in SLB;
Sábado (de 14 para 15): O "Glorioso" nas Primeiras 82 Jornadas;
Domingo (de 15 para 16): O "Glorioso" frente ao GD Estoril Praia;
Segunda-feira (de 16 para 17): E depois da Primeira?;

Terça-feira (de 17 para 18): Benfica tão brilhante que se vê no escuro
6 comentários
comentários
  1. O Alberto brinda os Benfiquistas com um artigo excepcional!

    Nesta história revelou-se mais uma vez o ADN do Benfica. Agigantou-se quando os outros se reduziram à sua diminuta natureza. Adoro estas histórias em que se cruzam caminhos do nosso clube com pessoas, locais ou objectos com história ilustre. Este navio teve um papel na história da II Guerra Mundial.

    O Alberto tem um capital tremendo de conhecimento porque investigou e porque soube reconhecer, procurar e falar com pessoas chave. Obrigado por partilhar estas preciosidades e por nos fazer sentir orgulho do Benfica em histórias que estavam esquecidas.

    O Benfica é enorme!

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  2. Anónimo7/8/15 08:34

    Caro Alberto Minguéns:

    Muitos parabéns por mais uma história soberba do nosso Benfica, agora na modalidade do Basquetebol! É o passado que nos engrandecer, mas também é a energia para que no presente se conquistem mais e mais títulos que no futuro farão de nós um clube imortal!

    No entanto, sobre a modalidade de basquetebol e tocando num assunto que não tem nada a ver com o Benfica, eu gostaria de ver explicada uma situação de facto que ninguém comenta e que a mim me causa tremenda confusão, no mínimo.

    Como é do conhecimento geral, em 2011 o fcp terminou com a sua secção de basquetebol. Entretanto,penso que várias pessoas ligadas a esta secção decidiram instituir uma equipa de basquete chamada Dragon Force. Assim, durante os últimos anos a Dragon Force Basket tem participado nas competições desportivas existentes em Portugal e por direito próprio, o ano passado venceram o campeonato da proliga, mas declinaram ou rejeitaram a subida de escalão. Dizem os regulamentos que uma equipa não pode optar pela manutenção no escalão onde está, pois isso conduz a despromoção da referida equipa!

    Fonte - http://www.ojogo.pt/Modalidades/Basquetebol/interior.aspx?content_id=3987464

    No entanto, e ao arrepio de todas as regras criadas e previstas para regulamentar as competições, a Dragon Force teve direito a permanecer na Proliga. Durante a época desportiva, essa equipa de basquetebol voltou a vencer o campeonato da proliga e mais uma vez tem direito a subir de divisão. Contudo, no arranque para mais uma época desportiva na mais importante competição nacional de basquetebol, constatamos que a equipa inscrita não é a Dragon Force, mas sim o fcp,mantendo-se a Dragon Force como segunda equipa do fcp na Proliga. Mais, é criada uma nova competição europeia de basquete, à qual o fcp concorreu e cuja candidatura foi aceite, mesmo não tendo vencido qualquer competição interna - não é campeão nacional, não é vencedor da taça de Portugal, nem de nenhum dos outros troféus mais importantes em Portugal!

    Mesmo que a Federação entenda que não haja qualquer ilegalidade em toda esta situação, não deixo de sentir que a verdade desportiva está gravemente ferida e a competição nacional de basquete manchada por uma acção que viola qualquer ditame ou regra ética!

    No entanto, e caso tenha possibilidade, gostava que o autor do texto pudesse clarificar esta situação e dar a sua opinião sobre a mesma, uma vez que, a nossa comunicação social continua a assobiar para o lado, em vez chamar os bois pelos nomes!

    Obrigado pela atenção.

    Viva ao Benfica

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    Respostas
    1. Caro,

      A explicação que dá é a que eu poderia dar para explicar o inexplicável. Só faço duas notas:

      1. A Dragon Force é o FCP travestido para jovens. O FCP diz que é um nome para internacionalizar o "produto";

      2. Há um Dragon Force na Proliga porque a Dragon Force tinha uma equipa B no 3.º escalão que foi promovido à Proliga. Como a DF despiu o vestido e vestiu calças para ser FCP ao ser promovido ao 1.º escalão permitiu a DF poder competir no 2.º escalão.

      Gloriosas Saudações Benfiquistas

      Alberto Miguéns

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  3. Obrigado Miguel por existires.

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  4. Artigo incrível. Precisaríamos de 20 "Albertos Miguéns"!

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  5. Manuel Achemann o meu avô paterno ❤

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