A criação deste Blogue, ideia de António Melo, tem como objectivo divulgar, defender o Sport Lisboa e Benfica e a sua Gloriosa história. Qualquer opinião aqui expressa vinculará apenas o seu autor, Alberto Miguéns.

SEMANADA: ÚLTIMOS 7 ARTIGOS

06/11/2014

Herculano João dos Santos

06/11/2014 + 7 Comentários
ESTREIA HÁ 103 ANOS EM 5 DE NOVEMBRO DE 1911.



Herculano João dos Santos estreou-se na 4.ª categoria do "Glorioso" há 103 anos. Viajar mais de um século permite conhecer um dos Grandes Benfiquistas de todos os Tempos, reconhecer um futebolista que não sendo um "fora-de-série" em nada foi um "fora-de-série" por ser tudo, um dos primeiros jogadores "À Benfica" e perceber porque conseguiu Cosme Damião fazer de um clube o Maior Clube Português.

AVISO PRÉVIO: Texto muito longo acerca da Gloriosa História. Quem não gosta ou não tem tempo/ paciência é melhor esperar por outro dia.

Herculano João dos Santos
Chegou ao Benfica já decorria a temporada de 1911/12, para colmatar na 4.ª categoria ausências e evitar faltas de comparência, progrediu ao estilo de Cosme Damião (da 4.ª para a 3.ª e da 3.ª para a 2.ª categoria) até chegar à 1.ª categoria (final de 1912/13), onde se fixou como titular durante onze anos (dez temporadas) que a mobilização para a I Guerra Mundial "roubou" uma época (1917/18). Mas nem em França deixou de organizar jogos de futebol!

Metódico como sempre Cosme Damião preparou bem a temporada de 1911/12, mas...
A Associação de Futebol de Lisboa (AFL) organizou pela primeira vez quatro campeonatos colocando em disputa quatro troféus. A 4.ª categoria estrear-se-ia "oficialmente" em 1911/12. E que estreia. Aproveitando o campeonato organizado os clubes mais populares que nunca se atreveram a competir inscreveram os seus melhores futebolistas no campeonato para a 4.ª categoria. Houve até clubes que se formaram (e filiaram na AFL) para poderem competir. O resultado foi um campeonato desmesurado para a época com 22 jornadas (12 clubes), muito mais que as 14 jornadas (8 clubes) na 3.ª categoria, 12 jornadas (7 clubes) na 2.ª categoria e seis jornadas (4 clubes) na 1.ª categoria. Um campeonato com 22 jornadas iria ocupar quase todos os domingos entre finais de Outubro de 1911 e início de Maio de 1912.

Poucos clubes inscritos nas quatro categorias
Dos sete clubes participantes nos três regionais (1.ª, 2.ª e 3.ª categoria) em 1910/11 passou-se a 16, mas apenas quatro se inscreveram no da 1.ª categoria e destes apenas três concorreram nos outros três campeonatos. O Internacional (CIF) reservou-se para apenas três categorias e nem assim a época correu de feição, a não ser na 1.ª categoria (2.º lugar). Os clubes aproveitaram para entrarem num esquema pouco desportivo. Reservavam os melhores futebolistas para as categorias "inferiores" abdicando de enfrentarem os melhores clubes lisbonenses. O Lisboa FC com a equipa de 1.ª categoria da época anterior inscrita na 2.ª categoria conseguiu um brilhante 2.º lugar. E o GS Cruz Quebrada ausente em 1910/11 conseguiu ser campeão regional da 2.ª categoria em 1911/12. O novo campeonato da 4.ª categoria teve 12 inscritos. O SLB e Cosme Damião foram apanhados de surpresa, com os pequenos clubes a apostarem neste campeonato onde os "Quatro Velhos de Lisboa" (Benfica, Internacional, Sporting e Império) tinham os jogadores menos dotados, por serem muito jovens ou muito veteranos. O Sporting CP e José Alvalade foram espertos. Inscreveram a 2.ª categoria de 1910/11 como 4.ª categoria em 1911/12. Foram campeões! Na temporada seguinte (1912/13) já não nos apanharam "distraídos"!

PARTICIPAÇÃO NO CAMPEONATO REGIONAL
Clubes
(N.º por categoria)
1.ª cat
(4)
2.ª cat
(7)
3.ª cat
(8)
4.ª cat
(12)
 SL BENFICA
V
3.º
V
4.º
 Sporting CP
3.º
4.º
2.º
V
 SC Império
4.º
5.º
3.º
12.º
 Internacional/ CIF
2.º
6.º
8.º
-
 Lisboa FC
-
2.º
5.º
10.º
 GS Cruz Quebrada
-
V
7.º
-
 Ginásio Clube Português
-
-
6.º
9.º
 FG Nacional
-
-
4.º
-
 GS Luz Soriano
-
7.º
-
-
 Grupo Football Benfica
-
-
-
2.º
 Grupo Luzo-Campolide
-
-
-
3.º
 SC Cruz Pedra
-
-
-
5.º
 SF Palmense
-
-
-
6.º
 SC Progresso
-
-
-
7.º
 Beato SC
-
-
-
8.º
 Ateneu Comercial Lisboa
-
-
-
11.º

Cosme Damião inscreveu futebolistas suficientes para garantirem os quatro títulos
Por que como dizia «Todas as categorias são principais. Jogam para ganhar os campeonatos onde estão inscritas!»

1.ª categoria
Campeã regional em 1909/10, com o título perdido em 1910/11 para o Internacional, Cosme Damião apostava tudo na reconquista do título e recuperação do troféu (que ficava na Sede do Clube enquanto fosse titular do mesmo), dotando a equipa de um misto de experiência, saber e juventude acrescentando um guarda-redes categorizado em estreia no SLB: Augusto Paiva Simões, vindo de um clube conceituado e antigo (SC Campo de Ourique) mas em desagregação. E assim foi. Deu-se início a um ciclo de tricampeonato que trouxe, definitivamente, para o Clube o troféu que foi conquistado a primeira vez pelos ingleses do Carcavellos Club, do Cabo Submarino! Um troféu que esteve junto dos "mestres ingleses invencíveis" repousaria para a eternidade no "Glorioso".

PLANTEL INSCRITO PARA A 1.ª CATEGORIA


2.ª categoria
Campeã regional em 1909/10 e 1910/11, Cosme Damião queria conquistar o tricampeonato para poder ficar com a posse definitiva do troféu. Que começou por ser conquistado, em 1908/09, pelo Internacional. A equipa foi dotada de todas as cautelas, a única com dois suplentes (embora todos fossem suplentes de todos) e com um misto de experiência (na defesa e meia-defesa/meio-campo) e juventude (na linha avançada). Henrique Teixeira e António Bernardino Costa eram ainda do tempo em que o Clube tinha o nome reduzido a Sport Lisboa. O guarda-redes Jorge Rosa Rodrigues era irmão do principal núcleo que fundou o Clube, em 28 de Fevereiro de 1904, os Rosa Rodrigues, popularmente conhecidos em Belém por "Catataus"! Mas não foi assim! O GS Cruz Quebrada conquistou o campeonato e ficou na posse, provisória, do troféu. Só em 1914/15 com o terceiro título consecutivo seria definitivamente do SLB!

PLANTEL INSCRITO PARA A 2.ª CATEGORIA


3.ª categoria
Campeã regional em 1909/10 e 1910/11, Cosme Damião queria conquistar o tricampeonato para poder ficar com a posse definitiva do troféu. E nesta categoria foi mesmo assim! O primeiro troféu a entrar, definitivamente, para o Clube. Uma equipa de muito futuro, como este iria provar: Francisco Pereira, Álvaro Vivaldo, Rogério Peres e o inesquecível Álvaro Gaspar. Mas havia "veteranos" como Marcial Costa (ainda do tempo do Sport Lisboa) e Mário Monteiro (guarda-redes titular na 1.ª categoria da temporada anterior).


PLANTEL INSCRITO PARA A 3.ª CATEGORIA


4.ª categoria
Em estreia numa competição devidamente organizada, esta categoria mereceu de Cosme Damião uma atenção especial com a inclusão do veteraníssimo Félix Bermudes a fazer o enquadramento futebolístico e Benfiquista dos jovens valores que procuravam o Clube para jogar entre os mais afamados futebolistas de Lisboa e arredores... até Timor! Cosme Damião não contava era com a "golpada" que os outros clubes deram, nem com a falta de aplicação de vários futebolistas que queriam jogar mas não apareceram. Talvez sonhassem com outra categoria que não a quarta! Pouca "Alma Benfiquista"! Desapareceriam para sempre. Sem honra, nem glória!


PLANTEL INSCRITO PARA A 4.ª CATEGORIA



Da esquerda para a direita: Troféus para a 1.ª, 2.ª, 3.ª e 4.ª categoria (todos conquistados após Tricampeonatos)
Início do campeonato para a 4.ª categoria
Com tantas jornadas, o campeonato iniciou-se muito cedo. Muito precocemente para o que era habitual, nesses tempos recuados. Primeira jornada marcada para o campo do Benfica, na Feiteira, logo em 15 de Outubro, frente a um estreante, o Grupo Luzo-Campolide. Inesperadamente para o que era hábito no Benfica não se apresentaram onze futebolistas, mas apenas nove, com Cosme Damião e Félix Bermudes a arrumarem em campo os nove que compareceram. Derrota por 0-2.





E na semana seguinte (22 de Outubro) voltaram a ser nove os futebolistas em campo, na 2.ª jornada, também na Feiteira, frente ao Sport Futebol Palmense. Novo "modelo" táctico a nove permitiu vencer, por 2-1. Mas serviu de exemplo. Não era habitual o Benfica apresentar-se desfalcado. Muito menos próximo de arriscar perder os jogos por falta de comparência. Cosme Damião não admitia. A 1.ª categoria NUNCA perdeu um jogo por falta de comparência a não ser premeditadamente (Ver texto em 25 de Junho de 2014). Cosme Damião entendia que não apresentar a equipa completa revelava incapacidade e desorganização dos dirigentes, desleixo e desrespeito para com o Clube e colegas de equipa por parte dos futebolistas faltosos. Com duas jornadas realizadas e a 3.ª prevista para 5 de Novembro, tratou de resolver o assunto tendo um domingo de permeio (29 de Outubro) para observar e recrutar novos valores.



Nos registos do Clube aparece pela primeira vez Herculano João dos Santos
É no jogo da 3.ª jornada, frente ao Grupo Football Benfica, jogando a meia-ponta-esquerdo. Não tenho (ainda...) notícias deste jogo. O adversário (2.º classificado) deve ter vencido pois em 22 jogos teve um empate e três derrotas enquanto o SLB (4.º classificado) teve dois empates e sete derrotas. Na 2.ª volta o SLB perdeu.

Ficha curricular de Herculano João dos Santos nos serviços do Clube

A primeira referência é na 8.ª jornada
Apenas em 17 de Dezembro - sexto jogo de Herculano João dos Santos com o "Manto Sagrado" pelos registos do Clube - tenho uma referência retirada dos jornais acerca da actividade do futebolista. Jogou na linha avançada, como meia-ponta-direita (também como consta no seu currículo no Clube) num jogo no campo do Sporting CP, no Sítio das Mouras, no Lumiar, frente ao Sport Clube Progresso, numa vitória por 9-1! Numa equipa já devidamente constituída e "arrumada". Como se pode ver no esquema:



Um futebolista ao gosto de Cosme Damião
Jovem debutante em 1911/12 foi progredindo em conhecimento do jogo e do Benfiquismo. Como Cosme Damião advogava. Em 1912/13 começou na 4.º categoria (22 de Dezembro), passou para a titularidade  na 3.ª categoria (29 de Dezembro), depois a 2.ª categoria (2 de Março de 1913, frente ao Sporting CP) estreando-se na 1.ª categoria (9 de Março, frente ao Internacional), como avançado (ponta-direita) na 4.ª jornada do campeonato regional, numa vitória por 2-0, no campo do adversário (Laranjeiras).



Futebolista do "Glorioso"
Épocas
Idade
4.ª cat.
3.ª cat.
2.ª cat.
1.ª cat.
1911/12
14
4.º
CR


1912/13
15
3.º
CR
CR
CR
1913/14
16



CR
1914/15
17



2.º
1915/16
18



CR
1616/17
19



CR
1917/18
20
Grande Guerra
1918/19
21



2.º
1919/20
22



CR
1920/21
23



4.º
1921/22
24



2.º
1922/23
25



3.º

Ficha de inscrição para a temporada de 1915/16. História do SL Benfica 1904 - 1954; Mário de Oliveira e Rebelo da Silva; I volume; página 316

Um dos pilares da linha de avançados
Fixou-se na 1.ª categoria para sempre. Como avançado, preferencialmente na ponta-direita, mas também a meia-ponta. E em caso de necessidade, por impedimentos físicos ou falta de "forma", podia jogar em qualquer uma das cinco posições da linha avançada. Foi assim entre 1912/13 e 1920/21, com o Clube a conquistar seis campeonatos regionais em nove temporadas, se bem que em 1917/18 não tenha jogado por ter sido mobilizado para a frente francesa na Primeira Guerra Mundial.

Aos 16 anos! Madrid, entre 15 e 18 de Maio de 1913. Da esquerda para a direita. De cima para baixo. Meia-defesa ou meio-campo: Carlos Homem de Figueiredo, Cosme Damião (capitão) e Artur José Pereira; Defesas e guarda-redes: Romualdo Bogalho, Augusto Paiva Simões e Henrique Costa; Avançados: Herculano Santos, Domingos Fernandes, Luís Vieira, Álvaro Gaspar e Alberto Rio. História do SL Benfica 1904 - 1954; Mário de Oliveira e Rebelo da Silva; I volume; página 239

1.ª categoria

JOGOS
Épocas
Tot
GR
DD
DE
MD
MC
ME
PD
AD
AC
AE
PE
Sup
1912/13
14
-
-
-
-
-
-
14
-
-
-
-
-
1913/14
19
-
-
-
-
-
-
11
7
-
1
-
-
1914/15
27
-
-
-
-
-
-
1
22
2
1
1
-
1915/16
22
-
-
-
-
-
-
11
11
-
-
-
-
1916/17
13*
-
-
-
-
-
-
6
6
-
-
1
-
1917/18
Grande Guerra
1918/19
7**
-
-
-
-
-
-
-
1
5
-
1
-
1919
/20
29
-
-
-
-
-
-
13
15
1
-
-
-
1920/21
9 (1)
-
-
-
-
-
-
4
2
-
-
3
-
1921/22
7***
-
4
3
-
-
-
-
-
-
-
-
-
1922/23
23
-
10
12
-
-
-
-
-
1
-
-
-
TOTAIS
170
-
14
15
-
-
-
60
64
9
2
6
-
NOTAS:
Nas posições - Exemplo: Titular nessa posição com 14 jogos 14
Nas épocas:  Campeão Regional; Vencedor da Taça de Honra
*          29 de Julho de 1917: Mobilizado para França, Cosme Damião fez com que capitaneasse a equipa no jogo de despedida;
**        6 de Abril de 1919: Regresso à equipa já no final da temporada
(1)       Capitão da equipa durante 1920/21
***      9 de Abril de 1922: Em 1921/22 fora de forma só no final da temporada estreou o "Manto Sagrado"

Golos
Épocas
Tot
GR
DD
DE
MD
MC
ME
PD
AD
AC
AE
PE
Sup
1912/13
9
-
-
-
-
-
-
9
-
-
-
-
-
1913/14
6
-
-
-
-
-
-
4
2
-
-
-
-
1914/15
21
-
-
-
-
-
-
-
19
2
-
-
-
1915/16
13
-
-
-
-
-
-
4
9
-
-
-
-
1916/17
8
-
-
-
-
-
-
4
4
-
-
-
-
1917/18
Grande Guerra
1918/19
2
-
-
-
-
-
-
-
-
2
-
-
-
 1919/
20
 17
-
-
-
-
-
-
6
11
-
-
-
-
1920/21
2
-
-
-
-
-
-
2
-
-
-
-
-
1921/22
0
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
1922/23
3
-
-
3
-
-
-
-
-
-
-
-
-
TOTAIS
81
-
-
3
-
-
-
29
45
4
-
-
-
NOTA: As posições referem-se ao início do jogo



A Grande Guerra interrompeu-lhe a carreira mas não acabou com ela!
Ausente em França, entre 1917 e 1919, perdeu época e meia. Mas nunca a vontade de voltar a jogar com o "Manto Sagrado". Organizou "encontros internacionais" entre portugueses (CEP's), franceses e ingleses (BEF's), de onde surgiu o popular "bifes" (Força Expedicionária Britânica). E chegou a escrever para Portugal dizendo que para o dia seguinte correr bem, o melhor era sonhar com o Benfica na noite anterior. Quando na frente de combate havia "noites de dormir"!


Passar a pilar da defesa
Com o avançar da idade e o envelhecimento acentuado, cada vez mais pesado, foi recuando no terreno. Mas era sempre um elemento de grande valia. Daqueles em que Cosme Damião confiava plenamente. Nem jogava por "amor à camisola". Jogava por amor ao Benfica! Dava tudo o que tinha. Se jogava mal era porque era um daqueles dias... Mas eram poucos. Por isso tinha uma valia extraordinária e era um exemplo para os mais novos. Mais do que teoria tinham em Herculano Santos a prática. Era olhar para ele e perceber porque era tão importante na equipa e durante a época!

Aos 26 anos! Faro, entre 25 e 26 de Junho de 1923. Da esquerda para a direita. De cima para baixo. Mário Montalvão, Eduardo Pombo, António Ribeiro dos Reis (capitão), Manuel Iglésias, José Simões, Vítor Hugo, Jesus Muñoz Crespo e Alberto Augusto; Defesas e guarda-redes: Luís Costa, Francisco Vieira "Chiquinho" e Herculano Santos. História do SL Benfica 1904 - 1954; Mário de Oliveira e Rebelo da Silva; I volume; página 468

Sempre pronto para o "Glorioso"
Nunca dizia que não ao Benfica e fazia sempre tudo para que pudesse dizer que sim. Na História do SL Benfica 1904 - 1954, no I volume, na página 453 Mário de Oliveira e Rebelo da Silva contam uma história curiosa, envolvendo Herculano João dos Santos, a propósito da primeira deslocação do "Glorioso" à Ilha da Madeira em 1922.



Um "fora-de-série" por ser um pouco de tudo sem ser o "melhor em nada"!
Conhecido entre os amigos por "Canana", Herculano João dos Santos, na imprensa referenciado apenas por Herculano ou Herculano Santos, como futebolista podia não ter "pontos destacadamente fortes", mas também não tinha "pontos francamente fracos". Em comparação com os jogadores do seu tempo, podia não ter um notável jogo de cabeça como Carlos Homem de Figueiredo, mas sabia cabecear a bola com mestria; podia não ser um driblador emérito como Álvaro Gaspar, mas sabia dominar a bola com perfeição; não tinha um remate fulminante como Artur José Pereira, mas rematava com facilidade com ambos os pés... Não tinha "um ponto forte", mas também não tinha "um ponto fraco"! Não era lembrado como um especialista, com determinado virtuosismo, nisto ou naquilo. Mas era recordado como um futebolista completo, equilibrado, fiável e, principalmente, À Benfica! Nunca se dava por vencido. E para não ser vencido começava logo a respeitar o "Manto Sagrado" desde o apito inicial. Por isso foi respeitado pelos Benfiquistas contemporâneos e recordado até muitos anos depois de ter deixado de jogar. Um dos nossos. Nesse tempo, agora e sempre...


No jogo de inauguração do campo do Benfica em Sete Rios frente ao Sporting CP para a 1.ª jornada do campeonato regional, na vitória por 4-0, em 12 de Outubro de 1913, no assédio à baliza do adversário, da esquerda para a direita: Herculano João dos Santos, Francisco José Pereira e José Domingos Fernandes. História do SL Benfica 1904 - 1954; Mário de Oliveira e Rebelo da Silva; I volume; página 255

Quando "arrumou" as chuteiras no final de 1922/23
Era o Glorioso Futebolista com mais tempo jogado (15 355 minutos em 170 jogos) com 13 a capitão e 81 golos marcados. Também o jogador com mais golos marcados! Ele nunca soube disso. Nem os seus contemporâneos, com destaque para os Benfiquistas que o viram jogar ou que ouviram falar dele até aos anos 50. Nem necessitavam de saber números. Bastou-lhes vê-lo jogar e marcar! Felizmente nós, os Benfiquistas de agora, sabemos da sua importância mais pelos números. A não ser aqueles que leram crónicas dos jogos do tempo em que estava activo. Por isso reconhecemos o seu valor. Nos anos 10 e início da década de 20. E em toda a Gloriosa História Centenária.

QUADRO COM OS DEZ MAIS EM MINUTOS JOGADOS
ENTRE 1904/05 e 1922/23 (19 temporadas)


E depois do adeus?
Sócio de Mérito do SLB n.º 6 em 8 de Agosto de 1926. Foi eleito como suplente da Direcção, nas gerências de 1928/29 e 1929/30. Em 1930/31 foi seccionista, no Futebol Benfiquista. Quando faleceu, 30 anos depois, em 21 de Maio de 1956, aos 59 anos, era o associado n.º 27.

Jornal "O Benfica"; 24 de Maio de 1956; Página 3

Um Clube que teve futebolistas como o Canana ainda durante a primeira década da sua existência só podia um dia, no futuro, Ser Glorioso!

Alberto Miguéns
7 comentários
comentários
  1. Mal comparado esta forma de ver as quatro categorias e em particular a visão de Cosme e Félix Bermudes quanto à competitividade na 4ª categoria faz-me lembrar um certo espírito que ainda experimentei no Liceu. Existia um campeonato interno mas no final da época fazia-se um jogo suplementar em que os melhores jogadores - independentemente das suas equipas de origem - dividiam-se em duas equipas de acordo com a sua preferência. Por um lado o “Benfica” e por outro lado o “Sporting”. Jogadores trajados a rigor. Era o jogo mais emotivo para jogadores e assistência. Cada golo um enorme festejo ou decepção. Bons tempos.

    Agora em relação a este magnífico artigo do Alberto, cheio de detalhes e de rigor que não se encontra em mais lado nenhum, há tantos ângulos por onde pegar. Vou estruturar algumas dessas questões em 7 pontos:

    1 - Herculano,
    Excelente resumo que deixa claro a sua importância e a raça Benfiquista de um homem que deve ter passado muito naquela Guerra. Parece ter sido também mais um dos que vieram do viveiro de Belém. Muito significativo essa ideia de “para o dia seguinte correr bem, o melhor era sonhar com o Benfica na noite anterior”. Isto é Benfica! Segundo livro Império Vermelho, a sua melhor época terá sido 14/15 com 15 golos em 8 jogos! É extraordinário que ainda tenha jogado tanto tempo depois de regressar da Guerra. Segundo o mesmo livro 19/20 terá sido a sua segunda melhor época com 6 golos em 9 jogos. E ainda com esse livro Herculano não aparece listado em 21/22 mas em 22/23 terá jogado por 6 vezes como defesa. Agora, o Alberto indica actividade nessa época o que mostra uma incorreção nesse livro. Nessa altura presume que a contribuição de Herculano fosse particularmente importante dado as nossas equipas estarem bastante desfalcadas depois das sangrias sucessivas para a formação do CFB e do CACP.
    Herculano morreu seis anos depois da Taça Latina e apenas cinco anos antes da primeira Taça dos Clubes Campeões Europeus. Que pena não ter tido essa alegria.

    2 - Cirile Miramon ou o "big foot" Benfiquista.
    Já tinha lido alguns rumores mas falava-se numa participação ocasional. Pelo que agora nos diz Cirile foi inscrito e jogou! E se de facto era de nacionalidade Francesa então terá sido mesmo o primeiro estrangeiro a jogar de águia ao peito. Mais de 60 anos antes do Brasileiro Jorge Gomes.

    3 - Pitoresco.
    Interessante o conjunto de pequenos clubes que (presumo) já não existem. Alguns nunca tinha ouvido falar.

    4 - Pelo texto parece que jogadores inscritos numa dada categoria não podiam caso necessário jogar caso fosse necessários noutra categoria. Presumo que planteis tão curtos seriam ainda assim suficientes pois o número de jogos era pequeno.

    5 – Persistência.
    Alguns desses nomes de jogadores de categorias inferiores são novidades absolutas para mim. Alguns nunca tinha ouvido falar. Era mesmo difícil chegar à primeira categoria. Seria preciso talento, ambição e persistência. E presumo, também que as circunstâncias da vida a isso permitissem. Alguns puderam ou quiseram de facto persistentes e ainda jogaram na primeira categoria. Estou a lembrar-me por exmplo Francisco Oliveira Nunes e Horácio Ferreira.

    6 – Notável Benfiquismo de Félix Bermudes.
    Pela diferença de idades e de estatuto. Imagine-se um dos Stromps ou até José de Alvalade a jogar nas 4ªs categorias do SCP… Não, não se imagina.

    7 - Timor.
    Falou em Timor. Sabe de algum jogador desse tempo que fosse natural de Timor?

    8 – Alcunhas
    Essas alcunhas são mais um detalhe delicioso desses tempos. O Alberto um dia destes podia fazer aí um pequeno artigo com esses “mimos” que os jogadores davam uns aos outros. Já tivemos o Chacha (A. Gaspar), o Chumbaca (C. Oliveira) e agora o Canana (Herculano). Encontrei uma referência a um “Coya” que penso ter sido a alcunha de Carlos Homem de Figueiredo.

    Muito obrigado por mais uma fantástica lição de história Benfiquista
    Saudações Benfiquistas
    VJC

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    Respostas
    1. Caro Victor João Carocha

      1. Vou acrescentar um quadro com a repartição dos 81 golos. Em 1921/22 fez sete jogos incluindo um na Taça de Honra de Lisboa (30 de Abril de 1922; Quartos-de-final; E 2-2; Casa Pia AC). Por isso tem a THL de 1921/22 no palmarés;

      2. Uma vez Cosme Damião foi questionado acerca desse "assunto". Respondeu que Miramon era tão português como alguém que nascesse na Mouraria (ou noutro bairro típico de Lisboa, cito de memória). Ao que consta Cirile nasceu em Portugal filho de pai francês (não sei se a mãe era portuguesa ou de outra nacionalidade);

      3. O SF Palmense ainda existe!;

      4. Inscritos numa determinada categoria, podiam jogar numa categoria acima. Até no mesmo dia! Maa era raro tal a escassez de jogos. Os futebolistas ansiavam por jogar pois as jornadas eram muito espaçados no tempo;

      5. Afunilava-se muito. Poucos chegavam à 1.ª categoria. Até à segunda! Quem jogava tinha "estatuto" que apenas perdia se não conseguisse manter "a forma";

      6. Cosme Damião tinha em alguns futebolistas veteranos como exemplo para os novos que se iniciavam. Em 1911/12 Herculano Santos tinha 15 anos. Félix Bermudes já andava pelos 37 anos! Mais 22 anos! Tinha idade para ser pai dele!;

      7. Foi no sentido de juntar o facto do Benfica ser o clube mais popular em Portugal e Portugal ir do Minho a Timor!;

      8. Mário de Carvalho era o Caixinha, Alberto Augusto penso que o Batatinha e João dóliveira e o irmão Manuel os "Bananeira".

      Gloriosas Saudações Benfiquistas

      Alberto Miguéns



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    2. Conheço um sobrinho dos Bananeira. A alcunha deve-se a um deles ter uma banca de venda de bananas na Praça da Figueira, salvo erro.

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  2. Caro Alberto

    Parabéns por mais um excelente trabalho. Nunca é demais publicar estes extractos da vida do Glorioso.
    Caros amigos benfiquistas se quiserem saber algo do glorioso é aqui e não nesses jornalecos diários que tanta asneira publicam.

    Um abraço
    Viva o Benfica

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    Respostas
    1. Caro Anónimo

      Obrigado.

      A Gloriosa História está repleta de Enormes Benfiquistas. Quando nós, todos nós, começámos a conhecer o Clube, ou seja, a ter consciência da sua grandeza, adquirimos que ele é muito grande e grandioso. Mas essa grandeza está alicerçada no passado. Por isso quando chegámos até ele, já ele era tão grande.

      No caso do Benfica num passado muito remoto. Este blogue também serve para fazer essa história e mais... Esperamos que além da história haja memória e que nós, os de agora, honremos os que nos fizeram tão grandes. E que nós ambicionamos ainda fazer maior.

      O Benfica é tão grande que quando fazemos ou seleccionamos futebolistas, atletas das modalidades ou dirigentes colocando um limite numérico (10, 100, 200), mais do que escolher estamos a excluir!

      Gloriosas Saudações Benfiquistas
      Viva o Benfica

      Alberto Miguéns

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  3. Muito obrigado Sr.Alberto Miguéns por partilhar a historia do nosso querido Clube.

    É impossível evitar a lagrima no canto do olho!

    VIVA O SPORT LISBOA E BENFICA!

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  4. Estes textos são uma delícia para humedecer os olhos.
    É um Glorioso prazer visitar este espaço recheado de Espírito Desportivo e a respectiva Cultura Desportiva que a Instituição exige.
    O muito Obrigado ao escriba, vai embrulhado numa referência brilhante extraída desta maravilhosa viagem pela história:
    "... era recordado como um futebolista completo, equilibrado, fiável e, principalmente, À Benfica! ".
    O meu sentimento de orgulho por fazer parte da família Benfiquista cresceu ao ler a qualidade de todos os intervenientes. Com a humildade destes Gloriosos registos era fácil criar a imprescindível União nos dias de hoje...
    Um grande bem-haja!

    E pluribus unum,

    Benfica Todos "os" Tempos

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